15.12.03
Depois de ter visto a catedral de Santiago de Compostela cheia de anúncios de patrocinadores das obras, já nada me espanta. Mas de facto já não há respeito - o Casão Militar faz 100 anos como se fosse o Pingo Doce.
Tinha prometido a mim próprio que não entrava no jogo das citações entre blogs, mas quem escreveu o comentário sobre a minha posta das árvores das Amoreiras tem um óptimo sentido de humor e tirar-lhe-ia o chapéu, se o usasse. Além de que já levou mais uma pessoa a ver as ditas árvores, ao que parece.
Só não falo do Saddam por puro desgosto. Mas a cretinice dos opinadores públicos parece não ter limites, como muito bem dizem os meus colegas da colina em frente. Hitler=Saddam??? Bom, nem escrevo mais nada para não me irritar que pode-me dar um chilique, isto não anda fácil.
Só não falo do Saddam por puro desgosto. Mas a cretinice dos opinadores públicos parece não ter limites, como muito bem dizem os meus colegas da colina em frente. Hitler=Saddam??? Bom, nem escrevo mais nada para não me irritar que pode-me dar um chilique, isto não anda fácil.
14.12.03
Um encontro imediato, no Mundo Mix. Já foi uma figura famosa da noite lisboeta nos gloriosos inícios dos anos 80, tipo neo-romântico, e sabia tudo sobre filmes musicais de Hollywood, como de resto sabia imenso sobre imensa coisa. Depois tornou-se um respeitável professor numa cidade de província. Não estranhei a indumentária quando o encontrei - cabelo rapado, blusão e calças cor de laranja - porque ele sempre foi extravagante, pensei simplesmente que era um novo visual. De modo que foi ele, perante a minha ausência de estupefacção, a fazer notar: "Então não sabias que eu agora sou Hare Krishna?". "Não", disse eu. "E além disso o que é que estás a fazer agora?". "Nada, sou o presidente", respondeu ele com um grande sorriso.
Este casal tão cinematográfico estava, aparentemente, a olhar para este
que liam o Expresso à única hora em que sabe bem estar ali sentado.
Não consigo deixar de pensar que Portugal é um país lindo e Lisboa uma cidade fantástica. O pior é pouca gente reparar nisso, fora os estrangeiros.
De dia é o que é, e de noite temos as duas discotecas mais bonitas do mundo, com nevoeiro ou sem ele.
De dia é o que é, e de noite temos as duas discotecas mais bonitas do mundo, com nevoeiro ou sem ele.
13.12.03
A Mondo Bizarre comemorou quatro anos com uma noite de concertos no Santiago Alquimista. As bandas (Ex-Wife, More República Masónica e Old Jerusalem) não me convenceram, nem à minha assessora para as questões pop-roqueiras, que sabe muito mais disso que eu.
Agora, a Mondo Bizarre dá que pensar. Já há uns anos que reparei neste proto-fanzine. Está-se nas tintas para a moda - muito antes do rock estar de novo na moda, quando os críticos anunciavam pela 10.ª vez a morte do rock, eles dedicavam-se com entusiasmo a divulgar o que se ia fazendo. Fazia sentido porque falava de coisas que mais ninguém falava, e pelos vistos tinha público porque desaparecia rapidamente dos sítios onde era distribuída. E tinha publicidade. Depois, ao contrário de outros proto-fanzines, fanzines de luxo ou revistas alternativas, como lhe queiram chamar (como a Op, Umbigo, Número, Bíblia ou a Dif), tem montes de coisas para ler e grafismo reduzido ao mínimo. A qualidade da escrita é bastante razoável, acima da média mesmo, e até eu, que só reconheço 4 ou 5 nomes do que lá se fala, a consigo ler e com prazer. O último número confirma tudo isto - as entrevistas são bastante interessantes, as críticas dão vontade de comprar os discos - a da compilação da Stax, pelo menos, deixou-me de água na boca. A única falha que notei foi o artigo sobre a Crammed Discs, cheio de lacunas inaceitáveis (e acidentalmente cortado) e falta de contextualização - mas comprende-se, é uma história com 20 anos, não se pode conhecer o passado todo.
A Mondo Bizarre destoa do resto: é feita com entusiasmo e transmite-o aos leitores, e não anda armada ao pingarelho. Não faço a menor ideia de quem são as pessoas que a escrevem, mas têm uma coisa que, por incrível que pareça, faz muita falta na imprensa portuguesa, toda ela, desde o Público à Maria - quem lá escreve gosta de escrever, e gosta de ler, suponho, o que não admira: o jornalismo musical tem sido, desde há uns anos, o sítio por onde muito boa gente começou na imprensa. E não há cursos comunicação social e ambições de sucesso que substituam o gosto pela imprensa e pela escrita.
Este assunto dá muito mais pano para mangas. Não é decerto por acaso que é uma revista de música - é uma área que não intimida ninguém a escrever sobre. O que me leva a uma das minhas irritações de estimação: por que raio não se pode escrever assim sobre tudo - artes plásticas, cinema, arquitectura, jardinagem, política, economia? Se se pode falar com entusiasmo dos Strokes sem ter andado no conservatório, deve-se poder falar de arte contemporânea sem ter estudado filosofia ou pintura, de carros sem se ser engenheiro mecânico, e de economia sem se ser economista. O que é preciso é gostar do que se fala e não se deixar intimidar.
Bom, então parabéns e espero que não deixem de escrever quando deixarem de ter tempo para ouvir tantos discos - mais tarde ou mais cedo acontece a quase todos.
12.12.03
A circuito musical lisboeta está bastante interessante, como já não acontecia há uns anos. Às vezes não há nada como uma crisezita. Não há propriamente sítios onde se possa ouvir bandas com regularidade, fora a ZDB, mas há cada vez mais bares ou discotecas onde se vai ouvindo coisas novas, como o Frágil às quartas, o Santiago Alquimista, o Lounge às vezes, e mais alguns sítios. E há outra vez bandas bastante interessantes.
Os Loosers são talvez a mais badalada, e são certamente uma das bandas mais energéticas que alguma vez existiu em Portugal (o que não transparece nada nesta péssima foto, mea culpa). Quase todas as actuações que vi deles foram memoráveis e bastante trepidantes, incluindo uma que correu pessissamente, tão mal que acabou com o vocalista furioso a destruir a bateria, com os tambores a rolarem pela plateia e os pratos pelo palco. Lindo.
Os Tora Tora Big Band são completamente diferentes e igualmente muito bons. São uma big band formada por dois alemães, um austríaco, um dinamarquês, dois brasileiros, um americano, um caboverdiano, um italiano e três portugueses, todos excelentes músicos, profissionalíssimos. Uma das secções de metais mais bonitas que já ouvi, com quatro trombones e magníficos arranjos (do Johannes Krieger, creio) que me fazem lembrar o Sun Ra do princípio. Tocam regularmente na ZDB e os concertos são sempre uma festa.
Os Lolly and Brains juntam teclas e guitarras à electrónica, têm um som muito na moda e convenceram-me da única vez que os vi.
Não tenho nenhuma foto dos Refilon, que são mais refundidos e raramente tocam. Fiquei siderado quando os vi, e parece-me que destas novas bandas são a que tem potencialmente mais futuro, se quiserem e puderem. São originalíssimos - uma espécie de pop afro-lusitana muito cantarolante, com as vozes sempre em coro mais três guitarras acústicas, um baixo e uma bateria. Até que enfim, aparecem músicos da segunda geração da diáspora caboverdiana em Lisboa que fazem música que não é hip-hop nem se parece com o que os pais deles fazem. Muito emocionante.
Divertidíssimos são os Hysteria Iberica & The Bad Lovers, mais um grupo luso-estrangeiro (viva a imigração!). As más línguas dizem que é só Peaches+Pixies, mas que interessa isso - a Hysteria é das melhores performers roqueiras que tenho visto e, sim, bem podia chamar-se Melocotón só que é muito mais divertida e muito menos pretensiosa, o Gaby nota-se a olhos vistos que é apanhadinho pelos Clash mas não tenta disfarçar. Muito saltitante e hilariante. Tocam às vezes no Clube Naval, no Texas e na ZDB, e estou em pulgas para que gravem mais um cd.
Os Loosers são talvez a mais badalada, e são certamente uma das bandas mais energéticas que alguma vez existiu em Portugal (o que não transparece nada nesta péssima foto, mea culpa). Quase todas as actuações que vi deles foram memoráveis e bastante trepidantes, incluindo uma que correu pessissamente, tão mal que acabou com o vocalista furioso a destruir a bateria, com os tambores a rolarem pela plateia e os pratos pelo palco. Lindo.
Os Tora Tora Big Band são completamente diferentes e igualmente muito bons. São uma big band formada por dois alemães, um austríaco, um dinamarquês, dois brasileiros, um americano, um caboverdiano, um italiano e três portugueses, todos excelentes músicos, profissionalíssimos. Uma das secções de metais mais bonitas que já ouvi, com quatro trombones e magníficos arranjos (do Johannes Krieger, creio) que me fazem lembrar o Sun Ra do princípio. Tocam regularmente na ZDB e os concertos são sempre uma festa.
Os Lolly and Brains juntam teclas e guitarras à electrónica, têm um som muito na moda e convenceram-me da única vez que os vi.
Não tenho nenhuma foto dos Refilon, que são mais refundidos e raramente tocam. Fiquei siderado quando os vi, e parece-me que destas novas bandas são a que tem potencialmente mais futuro, se quiserem e puderem. São originalíssimos - uma espécie de pop afro-lusitana muito cantarolante, com as vozes sempre em coro mais três guitarras acústicas, um baixo e uma bateria. Até que enfim, aparecem músicos da segunda geração da diáspora caboverdiana em Lisboa que fazem música que não é hip-hop nem se parece com o que os pais deles fazem. Muito emocionante.
Divertidíssimos são os Hysteria Iberica & The Bad Lovers, mais um grupo luso-estrangeiro (viva a imigração!). As más línguas dizem que é só Peaches+Pixies, mas que interessa isso - a Hysteria é das melhores performers roqueiras que tenho visto e, sim, bem podia chamar-se Melocotón só que é muito mais divertida e muito menos pretensiosa, o Gaby nota-se a olhos vistos que é apanhadinho pelos Clash mas não tenta disfarçar. Muito saltitante e hilariante. Tocam às vezes no Clube Naval, no Texas e na ZDB, e estou em pulgas para que gravem mais um cd.
Estava uma tarde linda, e é altura de ir até ao jardim das Amoreiras. As gingko bilobas estão com as folhas desta cor, um espectáculo que dura mais ou menos uma semana.
Hoje de manhã ouvia-se um dos sons mais belos de Lisboa, o dos apitos dos navios por causa do nevoeiro.
11.12.03
Como foi possível acabarem com uma marca tão emblemática? E porque é que não põem avisos em tudo o que faz mal à saúde? Porque é que ninguém protesta?
10.12.03
Ainda a propósito do tio Handel, teria ele sido um antepassado dos Beatles ou do Bowie, nesta Londres já tão movimentada? Será que os londrinos andavam pelas ruas a assobiar as árias das óperas dele, o alemão naturalizado inglês que ia de propósito a Nápoles contratar os melhores castrati da época?
9.12.03
Outro espectáculo de fogo de artifício no mesmo ano em Whitehall, mas que correu bem segundo consta
E agora uma coisa totalmente diferente. Faz hoje 254 anos, 7 meses e 12 dias que, de acordo com a imprensa londrina da época, a circulação ficou interrompida durante três horas na London Bridge pela multidão que ia para os Vauxhall Gardens assistir ao ensaio geral da música encomendada pelo rei George II ao maestro, compositor e empresário George Handel para celebrar o tratado de Aix-la-Chapelle, que pôs fim à guerra da sucessão na Áustria. Estiveram lá cerca de 12 mil pessoas. Dias depois, a 27 de Abril de 1749, o grande espectáculo no Green Park foi um fiasco, não só causa da enorme chuvada que caiu, mas também porque o dispositivo de fogo de artifício, com 34 metros de altura e 123 de comprimento, acabou por explodir.
A propósito desta combinação de metal e nuvens, lembrei-me desta foto, tirada algures sobre o vale do Tejo há pouco mais de um ano. Lá em baixo são uns cúmulos de baixa altitude que se formam quando o sol bate no terreno húmido. Adoro andar de avião e vou sempre à janela.
Hoje cheguei ao local de trabalho tão atrasado que a foto é de lá, com guindaste e tudo (é um objecto mágico na sua simplicidade - como é que conseguem chegar àquela altura?). O céu continua lindo.
8.12.03

Diogo Inácio da Pina Manique (1833-1805), apesar de ter sido, de acordo com o site do SIS, homem de confiança do Marquês de Pombal, alcançou enorme poder e fortuna no reinado de D. Maria I, quando juntou o cargo de intendente geral da polícia do reino a todos os outros que já detinha (desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, contador da fazenda, superintendente geral dos contrabandos e descaminhos e fiscal da junta da administração da companhia de Paraíba e Pernambuco). Além de ter sido o fundador da Casa Pia, notabilizou-se pela ferocidade na repressão policial e na perseguição a todos os partidários das ideias liberais e iluministas (incluindo os partidários de Pombal).
Instituído como morgado do Alcoentrinho, perto de Alcoentre, no Ribatejo, em 1773, consegue, anos mais tarde, mudar o nome da aldeia para Manique do Intendente, e aí enceta, a partir de 1791, um projecto megalómano, que inclui a construção de uma Praça do Império, com edifícios para as futuras câmaras municipal e palácio da justiça,
além de um palácio para ele próprio.
O zelo com que perseguia todos os partidários do liberalismo, prendendo e deportando muitos deles, acabou por fazer com que, em 1801, caísse em desgraça e fosse demitido, por pressão da França revolucionária. Morreu dois anos depois. O palácio nunca foi concluído, e hoje Manique do Intendente é uma aldeia com uma praça enorme e um palácio inacabado em ruínas.

No palácio que foi a residência de Pina Manique em Lisboa, no Largo do Intendente, funciona hoje um bar de alterne. O presidente da câmara mandou cortar o trânsito no largo, ao que parece para que os toxicodependentes, putas e chulos que por lá páram estejam mais à vontade, e para que quem se desloca de carro não assista àquele triste espectáculo.
7.12.03
No Arquivo Fotográfico Municipal está uma exposição de fotografias do Paulo Catrica sobre a Madeira, que partiu dum convite da Casa da Cultura da Calheta - a instituição cultural madeirense mais dinâmica, parece-me. Não são fáceis de ver, e suponho que suscitam no público as mais variadas reacções - o que talvez seja uma virtude. É pena a montagem não estar tão boa como a original, na Calheta, mas mesmo assim vão ver. Eu gosto muito. Aqui vão dois exemplos.
No andar de cima está uma belíssima exposição do Emanuel Brás, feita com fotografias do espólio do arquivo, sobre os serões lisboetas antes de haver televisão.
No andar de cima está uma belíssima exposição do Emanuel Brás, feita com fotografias do espólio do arquivo, sobre os serões lisboetas antes de haver televisão.
6.12.03
5.12.03
Uma das recordações de infância mais persistentes que tenho é a da visita a uma aldeia no Alto Minho, com os meus pais e uma família amiga deles. Deve ter sido por volta de 1970, e a intenção era visitar a aldeia de Vilarinho da Furna antes que fosse submersa pela barragem (o meu pai trabalhava na companhia que nesse tempo explorava as barragens da bacia do Cávado). À última hora, já com o jipe que nos ia levar lá a postos, disseram-nos que não era aconselhável ir, porque a população estava demasiado revoltada com o que se passava. Ao contrário do que aconteceu agora com a Luz, Vilarinho desapareceu não só fisicamente - os seus habitantes dispersaram-se e só uns poucos, julgo, aceitaram as casas que foram construídas para eles nas imediações da barragem.
Suponho que por indicação de alguém que lá trabalhava, ou talvez fosse por acaso, acabámos por ir visitar outra aldeia ali perto. Ficava à beira da estrada e estendia-se por uma encosta abaixo. As casas eram de pedra, sem reboco, e não tinham chaminés. As ruas não eram pavimentadas e estavam cheias de lama - creio que era aquela mistura de lama e bosta de animais de pasto que ainda se pode ver, por exemplo, em Pitões das Júnias. Não havia uma única loja - o mais próximo disso, onde me parece que comprámos uns rebuçados ou uns refrigerantes, era uma casa duma mulher, a única onde havia alguma coisa para vender. Entrámos lá, mas não se via nada, porque, além de não ter luz, a lareira estava acesa e enchia a casa de fumo. Na cama estava um homem, o marido, tuberculoso segundo nos disse a mulher.
Outra parte de que me lembro foi de uns miúdos de lá nos terem mostrado o pequeno cemitério da aldeia, a mim e aos outros dois miúdos que estavam comigo. "Este aqui é o meu irmão", "o meu primo", "a minha irmã", iam-nos explicando os miúdos com um ar divertido enquanto apontavam para as cruzes por cima das campas de outras crianças como eles. Não pareciam nada incomodados com a presença dos pequenos mortos, num lugar onde certamente era normalíssimo ir-se assistindo, durante a infância, à morte de outras crianças, e onde sobravam de certeza muito mais crianças do que aquelas que tinham morrido.
Também me lembro de uma mulher nos ter ido mostrar a capela, onde havia uma imagem do padroeiro da aldeia. "Este é o São Jorge", disse a mulher, e acrescentou "e este é o... ihihihih" ao apontar o dragão, para ela o Diabo, supus eu, cujo nome não podia ser pronunciado. Era um riso matreiro, como se aquele ser subjugado pelo santo fosse, não uma encarnação do Mal absoluto, mas um bicharoco matreiro, de que não se fala mas está sempre presente. Deve ser isto o sexo, pensei eu.
Estávamos todos em 1970, eu, os meus pais, os meus amiguinhos, os pais deles, os miúdos e os adultos da aldeia, mas o nosso 1970 tinha carros, giradiscos, Beatles na rádio, pegadas na Lua, fascistas no poder e engenheiros e advogados na oposição, franceses, ingleses e suecos que viviam muito melhor e que nós e podiam ler os livros e ver os filmes e dizer o que lhes apetecesse. O 1970 da aldeia era também 1970 mas podia ser 1870 ou 1770 ou 1570 - com a diferença de que em 1970 eles, os da aldeia, sabiam que havia outros 1970, não o nosso de Lisboa, mas outro em França. Pertencia a outro tempo, em que a morte era uma coisa banal, o diabo não era o Mal - que vi pela primeira vez muitos anos mais tarde na imagem do Hitler no Triunfo da Vontade - mas uma força da natureza, quem sabe. As casas confundiam-se com a paisagem, certamente - e quase de certeza que toda a gente fugia para França. E hoje a aldeia deve ter ruas alcatroadas, carros estacionados, as casas devem ser daquelas que horrorizam os opinadores de jornal, toda a gente deve ter televisão, e até mesmo TV cabo.
Ocorreu-me esta história porque me apetecia falar duma coisa: o mundo estará cada vez pior? A maior parte das pessoas parece achar que sim. Eu, se pensar no meu 1970, acho sem dúvida que não. E quando penso naquela aldeia, sinto que vi, no passado, uma janela sobre um passado muito mais distante, quase tão distante e estranho como uma aldeia qualquer no Iémen ou na China, onde eu não gostava de viver, e onde não faço ideia se as pessoas gostam, ou gostavam, de viver, mas que alimenta os sonhos de outras pessoas, como eu, estendidas em sofás azuis à beira do aquecedor, a ler à luz eléctrica enquanto ouvem um CD de música indiana. Sonham com idades médias situadas no futuro, como escreveu o Veloso, como dois mil anos antes deles os romanos de Roma sonhavam com bucólicos campos e dóceis bovinos, só porque a idade média ainda não tinha acontecido.
Suponho que por indicação de alguém que lá trabalhava, ou talvez fosse por acaso, acabámos por ir visitar outra aldeia ali perto. Ficava à beira da estrada e estendia-se por uma encosta abaixo. As casas eram de pedra, sem reboco, e não tinham chaminés. As ruas não eram pavimentadas e estavam cheias de lama - creio que era aquela mistura de lama e bosta de animais de pasto que ainda se pode ver, por exemplo, em Pitões das Júnias. Não havia uma única loja - o mais próximo disso, onde me parece que comprámos uns rebuçados ou uns refrigerantes, era uma casa duma mulher, a única onde havia alguma coisa para vender. Entrámos lá, mas não se via nada, porque, além de não ter luz, a lareira estava acesa e enchia a casa de fumo. Na cama estava um homem, o marido, tuberculoso segundo nos disse a mulher.
Outra parte de que me lembro foi de uns miúdos de lá nos terem mostrado o pequeno cemitério da aldeia, a mim e aos outros dois miúdos que estavam comigo. "Este aqui é o meu irmão", "o meu primo", "a minha irmã", iam-nos explicando os miúdos com um ar divertido enquanto apontavam para as cruzes por cima das campas de outras crianças como eles. Não pareciam nada incomodados com a presença dos pequenos mortos, num lugar onde certamente era normalíssimo ir-se assistindo, durante a infância, à morte de outras crianças, e onde sobravam de certeza muito mais crianças do que aquelas que tinham morrido.
Também me lembro de uma mulher nos ter ido mostrar a capela, onde havia uma imagem do padroeiro da aldeia. "Este é o São Jorge", disse a mulher, e acrescentou "e este é o... ihihihih" ao apontar o dragão, para ela o Diabo, supus eu, cujo nome não podia ser pronunciado. Era um riso matreiro, como se aquele ser subjugado pelo santo fosse, não uma encarnação do Mal absoluto, mas um bicharoco matreiro, de que não se fala mas está sempre presente. Deve ser isto o sexo, pensei eu.
Estávamos todos em 1970, eu, os meus pais, os meus amiguinhos, os pais deles, os miúdos e os adultos da aldeia, mas o nosso 1970 tinha carros, giradiscos, Beatles na rádio, pegadas na Lua, fascistas no poder e engenheiros e advogados na oposição, franceses, ingleses e suecos que viviam muito melhor e que nós e podiam ler os livros e ver os filmes e dizer o que lhes apetecesse. O 1970 da aldeia era também 1970 mas podia ser 1870 ou 1770 ou 1570 - com a diferença de que em 1970 eles, os da aldeia, sabiam que havia outros 1970, não o nosso de Lisboa, mas outro em França. Pertencia a outro tempo, em que a morte era uma coisa banal, o diabo não era o Mal - que vi pela primeira vez muitos anos mais tarde na imagem do Hitler no Triunfo da Vontade - mas uma força da natureza, quem sabe. As casas confundiam-se com a paisagem, certamente - e quase de certeza que toda a gente fugia para França. E hoje a aldeia deve ter ruas alcatroadas, carros estacionados, as casas devem ser daquelas que horrorizam os opinadores de jornal, toda a gente deve ter televisão, e até mesmo TV cabo.
Ocorreu-me esta história porque me apetecia falar duma coisa: o mundo estará cada vez pior? A maior parte das pessoas parece achar que sim. Eu, se pensar no meu 1970, acho sem dúvida que não. E quando penso naquela aldeia, sinto que vi, no passado, uma janela sobre um passado muito mais distante, quase tão distante e estranho como uma aldeia qualquer no Iémen ou na China, onde eu não gostava de viver, e onde não faço ideia se as pessoas gostam, ou gostavam, de viver, mas que alimenta os sonhos de outras pessoas, como eu, estendidas em sofás azuis à beira do aquecedor, a ler à luz eléctrica enquanto ouvem um CD de música indiana. Sonham com idades médias situadas no futuro, como escreveu o Veloso, como dois mil anos antes deles os romanos de Roma sonhavam com bucólicos campos e dóceis bovinos, só porque a idade média ainda não tinha acontecido.
Gostei muito desta série de pinturas com ursinhos de peluche, duma jovem artista de quem não sei o nome nem quase mais nada. A fotografia é péssima, dá para ter só uma ideia. O ursinho à esquerda, em cima, tem umas jardineiras azuis que dizem "love me", e o de baixo uma t-shirt roxa com um daqueles corações tipo sagrado coração de Jesus; o da t-shirt amarela do do meio, em cima, diz "fuck me", e o colega de baixo veste uma t-shirt azul com um caralhinho; o da direita, em cima, diz "kill me", e o de baixo tem uma caveira numa t-shirt azul-clara. Bastante potente.
Isto estava numa espécie de feira de natal alternativa ou coisa do género, que houve na Casa Conveniente este fim de semana.
4.12.03
3.12.03
O governo português continua em força na vanguarda da subserviência aos valores propagados pelo Partido Republicano dos EUA (aliás, e já é mais que tempo de o partido no poder deixar de usar abusivamente o epíteto de social-democrata, porque não passam a usar o mesmo nome do partido do Bush?).
Agora lembraram-se de mais uma necessidade imperiosa dos portugueses, que é a dificuldade no acesso legal às armas de defesa (certamente para que os cidadãos se possam proteger neste país onde a violência é, segundo as sondagens, o principal problema a seguir às drogas ilegais). Assim sendo, em breve qualquer pessoa poderá adquirir uma pistola, desde que, como diz o Público algo enigmaticamente, a justifique com "motivos relacionados com a profissão ou a defesa pessoal e da propriedade". Segundo a lei em vigor, o porte de arma só é conferido a quem provar que transporta ou guarda "valores importantes" ou vive num local isolado. O anteprojecto de lei onde consta tudo isto prevê ainda a frequência obrigatória de cursos de 25 a 35 horas para quem tiver porte de arma, ministrados pela PSP "ou outras entidades licenciadas por lei", com reciclagens também obrigatórias de 5 em 5 anos, e a prática obrigatória de 100 disparos anuais (a venda de munições passa a ser livre, enquanto até agora estava limitada a 100 balas por ano). Além disso, as pistolas de 9 mm, até agora reservadas às forças armadas e policiais, passam a poder ser adquiridas por qualquer pessoa. Diz o presidente da comissão que elaborou o anteprojecto, Raul Esteves (dão-se alvíssaras a quem explicar quem é ele e qual o seu o interesse nisto tudo), que "um revólver de apenas 6,35 mm [o máximo permitido agora a civis] pode ser muito perigoso na mão (grande) de um homem, mas indicado para uma mulher". Enfim, sempre segundo o Público, a nova lei "integra artigos inovadores dentro da União Europeia". Pudera.
Aceitam-se teorias da conspiração.
Agora lembraram-se de mais uma necessidade imperiosa dos portugueses, que é a dificuldade no acesso legal às armas de defesa (certamente para que os cidadãos se possam proteger neste país onde a violência é, segundo as sondagens, o principal problema a seguir às drogas ilegais). Assim sendo, em breve qualquer pessoa poderá adquirir uma pistola, desde que, como diz o Público algo enigmaticamente, a justifique com "motivos relacionados com a profissão ou a defesa pessoal e da propriedade". Segundo a lei em vigor, o porte de arma só é conferido a quem provar que transporta ou guarda "valores importantes" ou vive num local isolado. O anteprojecto de lei onde consta tudo isto prevê ainda a frequência obrigatória de cursos de 25 a 35 horas para quem tiver porte de arma, ministrados pela PSP "ou outras entidades licenciadas por lei", com reciclagens também obrigatórias de 5 em 5 anos, e a prática obrigatória de 100 disparos anuais (a venda de munições passa a ser livre, enquanto até agora estava limitada a 100 balas por ano). Além disso, as pistolas de 9 mm, até agora reservadas às forças armadas e policiais, passam a poder ser adquiridas por qualquer pessoa. Diz o presidente da comissão que elaborou o anteprojecto, Raul Esteves (dão-se alvíssaras a quem explicar quem é ele e qual o seu o interesse nisto tudo), que "um revólver de apenas 6,35 mm [o máximo permitido agora a civis] pode ser muito perigoso na mão (grande) de um homem, mas indicado para uma mulher". Enfim, sempre segundo o Público, a nova lei "integra artigos inovadores dentro da União Europeia". Pudera.
Aceitam-se teorias da conspiração.
Ainda há dias dizia a um amigo que não se deve perder tempo a dizer mal daquilo que não gostamos, em vez de usá-lo para transmitir aquilo que amamos. Mas às vezes há decepções inesperadas, ou simplesmente não se resiste à tentação.
Por razões laborais tive de arranjar uma tradução dos sonetos de Shakespeare. Entrei na primeira livraria que me apareceu e disseram-me que só tinham a do Vasco Graça Moura. Apesar de não me ser nada simpática a personagem do antigo caucionador intelectual do PSD - no que foi substituído, com vantagem para todos, pelo Pacheco Pereira - acreditei no prestígio dele como tradutor e poeta (apesar de nunca ter lido a dita poesia) e não hesitei. Não li tudo, mas há coisas que me deixam estupefacto. Por exemplo:
Where art thou, Muse, that thou forget'st so long
To speak of that which gives thee all might?
Spend'st thou thy fury on some worthless song,
Dark'ning thy power to lend base subject's light?
A versão do VGM:
Onde páras ó Musa, há tanto esqueces
falar do que te dá poder? Te pões
a dar luz a vis temas e escureces?
Gastas fúria a cantar fúteis canções?
Que não é grande cronista já eu sabia. Mas isto é que é o grande tradutor, poeta e blabá? Vale tudo só para manter a rima e a métrica? E a poesia é o quê? Bom, não perco mais tempo com isto.
Por razões laborais tive de arranjar uma tradução dos sonetos de Shakespeare. Entrei na primeira livraria que me apareceu e disseram-me que só tinham a do Vasco Graça Moura. Apesar de não me ser nada simpática a personagem do antigo caucionador intelectual do PSD - no que foi substituído, com vantagem para todos, pelo Pacheco Pereira - acreditei no prestígio dele como tradutor e poeta (apesar de nunca ter lido a dita poesia) e não hesitei. Não li tudo, mas há coisas que me deixam estupefacto. Por exemplo:
Where art thou, Muse, that thou forget'st so long
To speak of that which gives thee all might?
Spend'st thou thy fury on some worthless song,
Dark'ning thy power to lend base subject's light?
A versão do VGM:
Onde páras ó Musa, há tanto esqueces
falar do que te dá poder? Te pões
a dar luz a vis temas e escureces?
Gastas fúria a cantar fúteis canções?
Que não é grande cronista já eu sabia. Mas isto é que é o grande tradutor, poeta e blabá? Vale tudo só para manter a rima e a métrica? E a poesia é o quê? Bom, não perco mais tempo com isto.
2.12.03
1.12.03
Ao que parece, sou dos pouquíssimos portugueses a acharem que o 1.º de Dezembro não devia ser assinalado, quanto mais feriado nacional. O Paulo Varela Gomes diz que "1640 foi o ano mais desgraçado da história de Portugal ao assinalar a subida ao trono de uns camponeses incultos residentes na altura em Vila Viçosa" e que "após Alcácer Kibir e, sobretudo, perante a ameaça das nações marítimas do norte da Europa, a nação portuguesa só tinha destino possível no quadro da União Ibérica e da igualdade entre estados consagrada pelo estatuto de Tomar", e eu concordo.
Fazendo um exercício de futorologia ante-pós-retrospectiva (será assim que se diz? Aceitam-se sugestões), como seria Portugal hoje? O português que falaríamos seria decerto um pouco diferente, seríamos todos bilingues e não teríamos todos a mania que falamos bem inglês (nem sequer o falaríamos nem sentiríamos necessidade disso).
Teríamos adoptado o hábito das tapas, ao mesmo tempo que, ciosos das nossas tradições culinárias, faríamos tudo para preservá-las. Ah, e haveria polvo à Feira e lacón com grelos em todos os restaurantes portugueses, uma vez que a Galiza faria parte da Região Autónoma de Portugal.
Não teríamos (eu pelo menos) de aturar todos os dias observações imbecis sobre "este país", "a falta de civismo dos portugueses", etc., que me levam a crer que cada um dos portugueses se acha um modelo de virtudes cívicas e laborais e que a culpa de tudo o que corre mal é dos outros 9999999 portugueses (fora a mãe dele, claro).
Pelo contrário, teríamos orgulho em pertencer à pátria de Cervantes, Velásquez, Manuel de Falla e de tantos outros artistas portugueses que decerto teriam despontado se não tivessem tido, como dizia o António Nobre, a desgraça de terem nascido em Portugal.
Quanto aos inconvenientes: o Pessoa não teria decerto existido, nem talvez o Herberto Hélder. Haveria um bando terrorista, conhecido talvez por Os Bragantinos, que lutaria pela independência, e teríamos de aturar conversas idiotas de jovens convencidos de que Portugal estaria muito melhor se fosse independente, como acontece um pouco por toda a Espanha, mesmo nas regiões mais pobres como a Andaluzia.
A única coisa que me angustia nesta ideia é a possiblidade de no Brasil não se falar português, e de não haver samba nem bossa nova.
Bom, agora não há nada a fazer nem vale a pena chorar sobre leite derramado, a ainda por cima estamos na UE, pelo que estas coisas já não fazem sentido. Mas pergunto a mim próprio quantos anos demorará até que a generalidade dos portugueses se convença de que Filipe II era o legítimo herdeiro do trono português, e que isso não aconteceu por acaso mas foi, sim, o fruto de uma série de alianças matrimoniais que, mais geração menos geração, inevitavelmente conduziriam à união ibérica - o que demonstra que a realeza portuguesa sabia que Portugal só era viável nesse quadro; que os espanhóis olham para Portugal com simpatia e curiosidade, mas sem apetite nenhum de nos invadir - nem que seja porque não somos uma presa apetecível; e que a Espanha é um dos países mais belos da Europa e está aqui ao lado, pelo que devíamos ir lá pelo menos tanto como os espanhóis vêm cá. Bem sei que foram quase 100 anos de lavagem ao cérebro na escola primária, mas que raio, já passaram quase 30 anos do 25 de Abril.
Fazendo um exercício de futorologia ante-pós-retrospectiva (será assim que se diz? Aceitam-se sugestões), como seria Portugal hoje? O português que falaríamos seria decerto um pouco diferente, seríamos todos bilingues e não teríamos todos a mania que falamos bem inglês (nem sequer o falaríamos nem sentiríamos necessidade disso).
Teríamos adoptado o hábito das tapas, ao mesmo tempo que, ciosos das nossas tradições culinárias, faríamos tudo para preservá-las. Ah, e haveria polvo à Feira e lacón com grelos em todos os restaurantes portugueses, uma vez que a Galiza faria parte da Região Autónoma de Portugal.
Não teríamos (eu pelo menos) de aturar todos os dias observações imbecis sobre "este país", "a falta de civismo dos portugueses", etc., que me levam a crer que cada um dos portugueses se acha um modelo de virtudes cívicas e laborais e que a culpa de tudo o que corre mal é dos outros 9999999 portugueses (fora a mãe dele, claro).
Pelo contrário, teríamos orgulho em pertencer à pátria de Cervantes, Velásquez, Manuel de Falla e de tantos outros artistas portugueses que decerto teriam despontado se não tivessem tido, como dizia o António Nobre, a desgraça de terem nascido em Portugal.
Quanto aos inconvenientes: o Pessoa não teria decerto existido, nem talvez o Herberto Hélder. Haveria um bando terrorista, conhecido talvez por Os Bragantinos, que lutaria pela independência, e teríamos de aturar conversas idiotas de jovens convencidos de que Portugal estaria muito melhor se fosse independente, como acontece um pouco por toda a Espanha, mesmo nas regiões mais pobres como a Andaluzia.
A única coisa que me angustia nesta ideia é a possiblidade de no Brasil não se falar português, e de não haver samba nem bossa nova.
Bom, agora não há nada a fazer nem vale a pena chorar sobre leite derramado, a ainda por cima estamos na UE, pelo que estas coisas já não fazem sentido. Mas pergunto a mim próprio quantos anos demorará até que a generalidade dos portugueses se convença de que Filipe II era o legítimo herdeiro do trono português, e que isso não aconteceu por acaso mas foi, sim, o fruto de uma série de alianças matrimoniais que, mais geração menos geração, inevitavelmente conduziriam à união ibérica - o que demonstra que a realeza portuguesa sabia que Portugal só era viável nesse quadro; que os espanhóis olham para Portugal com simpatia e curiosidade, mas sem apetite nenhum de nos invadir - nem que seja porque não somos uma presa apetecível; e que a Espanha é um dos países mais belos da Europa e está aqui ao lado, pelo que devíamos ir lá pelo menos tanto como os espanhóis vêm cá. Bem sei que foram quase 100 anos de lavagem ao cérebro na escola primária, mas que raio, já passaram quase 30 anos do 25 de Abril.
Entalados entre duas frentes frias, como se pode ver abaixo (e se sente na pele). Bom tempo para passeios de guarda-chuva.

30.11.03
29.11.03
28.11.03
27.11.03

Céu como eu gosto, com nuvens a várias altitudes em partes diferentes do céu.

Influências várias daquele anticiclone a sudoeste e das baixas pressões a noroeste.

Como por exemplo estes cirros que vi sobre o Chiado.
26.11.03
Só depois de começar a blogar me apercebi de duas características desta coisa. Primeiro, é uma escrita que teoricamente tende à perfeição possível, se aceitarmos o princípio de que escrever bem dá muito trabalho, e de que um bom texto deve ser refeito as vezes necessárias até o escrevedor estar satisfeito com o resultado. Ao contrário dum texto impresso, que é definitivo e sobre o qual só poderemos verter lágrimas anos mais tarde se nos arrependermos, ou mesmo ir à Hemeroteca e rasgar subrepticiamente a página em que ele aparece, ou inutilizar o livro, se for o caso, na Biblioteca Nacional, aqui pode-se sempre emendar, aldrabar a data de publicação, e até enviar comentários elogiosos a nós próprios, até à versão final. Apenas resta esperar que a máquina onde algures o texto está armazenado não sofra demasiado com uma tempestade solar, um terramoto ou uma inundação, e vá tudo para o galheiro.
Agora, uma desvantagem em relação à coisas impressas é que os textos aparecem pela ordem inversa na qual foram publicados. Se postarmos várias coisas em sequência o leitor verá sempre a última e se gostar tem de fazer um esforço, ir mais abaixo e reconstituir a sequência. Mas também não vejo alternativa - se as coisas aparecessem na ordem normal o leitor veria sempre o mesmo texto inicial, o que seria uma chatice mesmo que eventualmente ele fosse sendo aperfeiçoado todos os dias. E não estranhará a quem, como eu, tenha por hábito abrir os livros ao calhas, ler uns bocados, voltar a fechá-los e passar a outro.
Agora, uma desvantagem em relação à coisas impressas é que os textos aparecem pela ordem inversa na qual foram publicados. Se postarmos várias coisas em sequência o leitor verá sempre a última e se gostar tem de fazer um esforço, ir mais abaixo e reconstituir a sequência. Mas também não vejo alternativa - se as coisas aparecessem na ordem normal o leitor veria sempre o mesmo texto inicial, o que seria uma chatice mesmo que eventualmente ele fosse sendo aperfeiçoado todos os dias. E não estranhará a quem, como eu, tenha por hábito abrir os livros ao calhas, ler uns bocados, voltar a fechá-los e passar a outro.

O pior tempo que pode haver. O guarda-chuva parece inútil, o céu uniforme, não há direito a inundações nem a uma molha decente sequer.

Uma frente fria indigna do seu nome.
25.11.03
Uma história com tiros
Aquilo não era nada como nos mapas, pensava enquanto descia a rua que ondulava por entre as casas que tinham brotado caóticas por todo o lado, telhados tocando-se por vezes. Não que nunca estivesse estado ali; já, muitas vezes até. Mas nunca é a mesma coisa quando vamos sozinhos e a pé e decididos a tentar perceber alguma coisa dum sítio. Os mapas, mesmo quando estão muito desactualizados como é quase sempre o caso, ou sobretudo quando isso acontece, são como uma visão de raio x; quando estamos depois no sítio, a memória do mapa sobrepõe-se ao que vemos e adivinhamos por baixo da camada de cimento, alcatrão vidro mesas de fórmica televisões loiças de casa de banho -- e letreiros, muitos letreiros de cafés sempre vazios, demasiados cafés para uma povoação tão pequena, onde os donos ou os filhos dos donos ou algum sobrinho ou namorado da filha dormitava atrás do balcão -- como tudo aquilo começou, foi crescendo para todos os lados. Olhando com atenção conseguia ver-se de vez em quando um terreno cultivado com uma cabana em ruínas que por alguma disputa entre herdeiros tinha ficado por construir.
Uma vez o Alfredo tinha-lhe explicado com tinha crescido numa dessas cabanas, seis ou sete pessoas numa única divisão, a cozinha do lado de fora da casa para não pegar lume à casa; foi quando ele lhe tinha mostrado uma fotografia que parecia tirada há 100 anos. Era uma fotografia a preto e branco onde estavam umas pessoas, umas mais velhas outras mais novas, crianças, adolescentes, adultos e velhos, todos descalços e com um ar sujo e esfarrapado. Ficou espantado quando Alfredo se reconheceu em criança, e o tio Tem-te Não Caias, a prima Meia Leca, a avó Bernarda e mais não sei quem.
Era como se fosse uma fotografia de outra dimensão, aquela que aparece nos mapas, um pouco como se conseguíssemos visualizar a Lisboa romana por baixo da rua do Aljube, por baixo da cadeia que agora é um serviço público qualquer mas antes era uma cadeia para presos políticos e antes deve ter estado abandonado, ocupado por uns miseráveis que foram para lá viver depois de ter sido um palácio de algum nobre que o fizera em cima duma casa qualquer que ali estava e que se calhar era a casa do bispo moçárabe de Lisboa que por sua vez tinha aproveitado o que restava dum edifício onde tinham trabalhado uns burocratas que falavam uma espécie de latim. Só que aqui eram duas camadas apenas.
Entrou no café onde costuma dantes encontrar o Alfredo, e perguntou por ele ao homem do café. Devia estar no café em cima, mais para cima do mesmo lado da rua. Nunca lá tinha ido. Quando entrou estava ainda mais escuro do que costumava estar dentro dos cafés, e demorou um minuto ou isso até os olhos se habituarem. No canto havia um ecrã, como uma TV gigante que passava videoclips de há 10 anos atrás, os Duran Duran talvez, e mandava relâmpagos de luz às riscas para cima duma mesa de fórmica onde o Alfredo e um rapaz louro estavam entretidos a snifar linhas de coca e falavam muito depressa sempre que não tinham o tubo no nariz.
A coca já não era daquela que tinha acelerado o Alfredo durante dois anos, aquela que estava nuns sacos que deram à costa não se sabe como e que tinham posto muita gente a pairar durante mais de um ano, muita gente dali e outras pessoas vindas da cidade e outras não se sabe de onde. Quando a coca acabou ficou como uma nuvem de silêncio por cima da povoação, que entretanto tinha ficado com mais umas casas, todas encavalitadas e algumas mesmo em cima de outras que já existiam. E mais duas ou três discotecas, algumas quase sempre vazias e que ninguém sabia o que estavam ali a fazer. Ou melhor, ninguém queria falar disso.
Foi depois daquela noite, começou ele a pensar depois de ter pedido uma cerveja à empregada que veio à mesa depois de o Alfredo com aquele sorriso magnífico de sempre o convidou a sentar e a cheirar uma linha. O Alfredo falava falava mas estava muito ocupado, tapou com uma revista o material quando a empregada trouxe a cerveja e depois deu-lhe uma palhinha.

Agora era a Blondie que cantava num cenário às riscas pretas e brancas, e ele lembrou-se daquela noite em que tinha ido numa canoa à pesca da lula. Estava no cais, era a hora do pôr do sol e lá em baixo em cima da água estava um homem numa canoa. Pode passar-me esse motor, disse ele. Nunca tinha pegado num motor fora de borda e não sabia se conseguia; afinal era mais leve do que parecia, e passou-lho. E já agora essa grade de cerveja também, disse o homem. Vai à pesca, disse, já sabia que ele ia, quase de certeza era isso, mas o homem disse sim, pesca da lula, quer vir mais eu?
Não fazia a mínima ideia como se pescava uma lula, de modo que foi, e andaram até depois da meia noite para cá e para lá ao longo da costa. Num sítio onde já não havia luzes e só se adivinhava a falésia ali uns metros ao lado, tinha aparecido uma canoa silenciosa. Estava tão ocupado a tentar pescar uma lula -- que, tinha ficado a saber, são tão estúpidas que mordem os anzóis só porque brilham do reflexo do candeeiro em cima da canoa -- que só reparou no outro barco quando já estava para aí a um metro de distância. Que fazes aqui José?, quem é esse?, não sabias telefonar?, e eu lá em casa sem saber de ti. Era a mulher do José pelos vistos, numa canoa com os dois filhos mais velhos a remarem, e voz dela voava por cima das ondas muito pequenas que chapinhavam no casco dos dois barcos, e depois a canoa fez meia volta e desapareceu no escuro.
Vamos ter de ir embora, ela está furiosa e também é tarde, disse o pescador, e ligou o motor fora de borda. Quando íamos a passar em frente à praia ouviu-se uma explosão, e depois outra, seriam tiros talvez mas não sabia porque só conhecia o barulho dos filmes. O que foi isto?, perguntou, mas o pescador não respondeu.
Chegaram a terra e foram para o bar do Élvio, que estava cá fora sozinho na esplanada como sempre. Também conheces ele?, disse para o José quando os viu aparecer. Estive a ensiná-lo a pescar lulas, disse ao José. Ele tinha pescado três lulas e o José três quilos, mas não estava mal para quem nuca tinha pensado pescar uma lula. Não queres comê-las?, disse o Élvio, e ele disse que era óptimo, era uma da manhã e ainda não tinha jantado, e foi com o Élvio para a cozinha grelhar as lulas.
Quando acordou na manhã seguinte olhou pela janela como sempre, via-se a praia com o amontoado de barcos varados, a lota com o movimento do costume. E um grupo de pessoas em círculo na praia, a olharem para qualquer coisa na praia. E na marginal estava um carro da polícia e uma ambulância.
Quando chegou lá estavam a levar o cadáver do rapaz louro, de t-shirt vermelha. Que tinha levado dois tiros, diziam, e era o filho mais novo do Joaquim da Maria Francisca. Mas ninguém nunca mais falou sobre isso, nem nessa tarde nem no dia seguinte nem nunca mais.
Vamos acabar com isto?, disse o rapaz louro. Os relâmpagos às riscas continuavam, agora era o Together in Electric Dreams. Está aqui para isso, disse o Alfredo. Bute, disse ele, mas deixa-me pedir antes mais uma cerveja para ela não ver. Pois, é melhor, disse o Alfredo, ela sabe e é minha prima mas isto é sempre como quem não quer a coisa.
Aquilo não era nada como nos mapas, pensava enquanto descia a rua que ondulava por entre as casas que tinham brotado caóticas por todo o lado, telhados tocando-se por vezes. Não que nunca estivesse estado ali; já, muitas vezes até. Mas nunca é a mesma coisa quando vamos sozinhos e a pé e decididos a tentar perceber alguma coisa dum sítio. Os mapas, mesmo quando estão muito desactualizados como é quase sempre o caso, ou sobretudo quando isso acontece, são como uma visão de raio x; quando estamos depois no sítio, a memória do mapa sobrepõe-se ao que vemos e adivinhamos por baixo da camada de cimento, alcatrão vidro mesas de fórmica televisões loiças de casa de banho -- e letreiros, muitos letreiros de cafés sempre vazios, demasiados cafés para uma povoação tão pequena, onde os donos ou os filhos dos donos ou algum sobrinho ou namorado da filha dormitava atrás do balcão -- como tudo aquilo começou, foi crescendo para todos os lados. Olhando com atenção conseguia ver-se de vez em quando um terreno cultivado com uma cabana em ruínas que por alguma disputa entre herdeiros tinha ficado por construir.
Uma vez o Alfredo tinha-lhe explicado com tinha crescido numa dessas cabanas, seis ou sete pessoas numa única divisão, a cozinha do lado de fora da casa para não pegar lume à casa; foi quando ele lhe tinha mostrado uma fotografia que parecia tirada há 100 anos. Era uma fotografia a preto e branco onde estavam umas pessoas, umas mais velhas outras mais novas, crianças, adolescentes, adultos e velhos, todos descalços e com um ar sujo e esfarrapado. Ficou espantado quando Alfredo se reconheceu em criança, e o tio Tem-te Não Caias, a prima Meia Leca, a avó Bernarda e mais não sei quem.
Era como se fosse uma fotografia de outra dimensão, aquela que aparece nos mapas, um pouco como se conseguíssemos visualizar a Lisboa romana por baixo da rua do Aljube, por baixo da cadeia que agora é um serviço público qualquer mas antes era uma cadeia para presos políticos e antes deve ter estado abandonado, ocupado por uns miseráveis que foram para lá viver depois de ter sido um palácio de algum nobre que o fizera em cima duma casa qualquer que ali estava e que se calhar era a casa do bispo moçárabe de Lisboa que por sua vez tinha aproveitado o que restava dum edifício onde tinham trabalhado uns burocratas que falavam uma espécie de latim. Só que aqui eram duas camadas apenas.
Entrou no café onde costuma dantes encontrar o Alfredo, e perguntou por ele ao homem do café. Devia estar no café em cima, mais para cima do mesmo lado da rua. Nunca lá tinha ido. Quando entrou estava ainda mais escuro do que costumava estar dentro dos cafés, e demorou um minuto ou isso até os olhos se habituarem. No canto havia um ecrã, como uma TV gigante que passava videoclips de há 10 anos atrás, os Duran Duran talvez, e mandava relâmpagos de luz às riscas para cima duma mesa de fórmica onde o Alfredo e um rapaz louro estavam entretidos a snifar linhas de coca e falavam muito depressa sempre que não tinham o tubo no nariz.
A coca já não era daquela que tinha acelerado o Alfredo durante dois anos, aquela que estava nuns sacos que deram à costa não se sabe como e que tinham posto muita gente a pairar durante mais de um ano, muita gente dali e outras pessoas vindas da cidade e outras não se sabe de onde. Quando a coca acabou ficou como uma nuvem de silêncio por cima da povoação, que entretanto tinha ficado com mais umas casas, todas encavalitadas e algumas mesmo em cima de outras que já existiam. E mais duas ou três discotecas, algumas quase sempre vazias e que ninguém sabia o que estavam ali a fazer. Ou melhor, ninguém queria falar disso.
Foi depois daquela noite, começou ele a pensar depois de ter pedido uma cerveja à empregada que veio à mesa depois de o Alfredo com aquele sorriso magnífico de sempre o convidou a sentar e a cheirar uma linha. O Alfredo falava falava mas estava muito ocupado, tapou com uma revista o material quando a empregada trouxe a cerveja e depois deu-lhe uma palhinha.

Agora era a Blondie que cantava num cenário às riscas pretas e brancas, e ele lembrou-se daquela noite em que tinha ido numa canoa à pesca da lula. Estava no cais, era a hora do pôr do sol e lá em baixo em cima da água estava um homem numa canoa. Pode passar-me esse motor, disse ele. Nunca tinha pegado num motor fora de borda e não sabia se conseguia; afinal era mais leve do que parecia, e passou-lho. E já agora essa grade de cerveja também, disse o homem. Vai à pesca, disse, já sabia que ele ia, quase de certeza era isso, mas o homem disse sim, pesca da lula, quer vir mais eu?
Não fazia a mínima ideia como se pescava uma lula, de modo que foi, e andaram até depois da meia noite para cá e para lá ao longo da costa. Num sítio onde já não havia luzes e só se adivinhava a falésia ali uns metros ao lado, tinha aparecido uma canoa silenciosa. Estava tão ocupado a tentar pescar uma lula -- que, tinha ficado a saber, são tão estúpidas que mordem os anzóis só porque brilham do reflexo do candeeiro em cima da canoa -- que só reparou no outro barco quando já estava para aí a um metro de distância. Que fazes aqui José?, quem é esse?, não sabias telefonar?, e eu lá em casa sem saber de ti. Era a mulher do José pelos vistos, numa canoa com os dois filhos mais velhos a remarem, e voz dela voava por cima das ondas muito pequenas que chapinhavam no casco dos dois barcos, e depois a canoa fez meia volta e desapareceu no escuro.
Vamos ter de ir embora, ela está furiosa e também é tarde, disse o pescador, e ligou o motor fora de borda. Quando íamos a passar em frente à praia ouviu-se uma explosão, e depois outra, seriam tiros talvez mas não sabia porque só conhecia o barulho dos filmes. O que foi isto?, perguntou, mas o pescador não respondeu.
Chegaram a terra e foram para o bar do Élvio, que estava cá fora sozinho na esplanada como sempre. Também conheces ele?, disse para o José quando os viu aparecer. Estive a ensiná-lo a pescar lulas, disse ao José. Ele tinha pescado três lulas e o José três quilos, mas não estava mal para quem nuca tinha pensado pescar uma lula. Não queres comê-las?, disse o Élvio, e ele disse que era óptimo, era uma da manhã e ainda não tinha jantado, e foi com o Élvio para a cozinha grelhar as lulas.
Quando acordou na manhã seguinte olhou pela janela como sempre, via-se a praia com o amontoado de barcos varados, a lota com o movimento do costume. E um grupo de pessoas em círculo na praia, a olharem para qualquer coisa na praia. E na marginal estava um carro da polícia e uma ambulância.
Quando chegou lá estavam a levar o cadáver do rapaz louro, de t-shirt vermelha. Que tinha levado dois tiros, diziam, e era o filho mais novo do Joaquim da Maria Francisca. Mas ninguém nunca mais falou sobre isso, nem nessa tarde nem no dia seguinte nem nunca mais.
Vamos acabar com isto?, disse o rapaz louro. Os relâmpagos às riscas continuavam, agora era o Together in Electric Dreams. Está aqui para isso, disse o Alfredo. Bute, disse ele, mas deixa-me pedir antes mais uma cerveja para ela não ver. Pois, é melhor, disse o Alfredo, ela sabe e é minha prima mas isto é sempre como quem não quer a coisa.

Nestes últimos dois anos o tempo tem seguido o padrão normal, e agora o céu está limpo outra vez.

Influência dum anticlone a sudoeste da Península.
24.11.03
Por falar nisso, o jazz seguiu um percurso análogo ao da guitarra portuguesa - a parte instrumental tornou-se autónoma da canção popular que suportava. Por volta de 1940-50, muitos músicos de jazz começaram a declarar independência e a quererem ser algo mais que músicos de baile, para o que contribuiu bastante o ritual do jamming, em que os músicos improvisavam sobre o reportório habitual mas livres da pressão de público e empresários.

O Howard Becker, de que já falei, viveu tudo isto quando tocava à noite em bares ao mesmo tempo que fazia o mestrado em Sociologia na University of Chicago.
Eis um relato na primeira pessoa, datado de cerca de 1950 e retirado da tese que resultou daí:
A friend of mine asked me if I was working that night. When I told him no, he led me over to another guy who, in turn, led to an old fellow with a strong Italian accent. This man said, 'You play piano, huh?'. I said, 'yes'. He said, 'You play good? Read pretty good?' I said, 'Not bad. What kind of deal is this?' He said, 'It's a club here in the Loop. It's nine to four-thirty, pays two-fifty an hour. You're sure you can handle it?' I said, 'Sure'. He said, 'You know, I have to make sure, it's a spot downtown. Well, here. You can call this number and tell them Mantuno told you to call - Mantuno. See, I have to make sure you're gonna do good or else I'm gonna catch hell. Go on, call 'em now. Remember, Mantuno told you to call.'
He gave me the number. I called and got the job. When I came out of the booth, my friend who originated the deal came up and said, 'Everything all right? Did you get the job, huh?' I said, 'Yeah, thanks an awful lot.' He said, 'That's all right. Listen, do a good job. I mean, if it's commercial, play commercial. What the hell! I mean, if you don't then it's my ass, you know. It isn't even only my ass, it's Tony's and that other guy's, it's about four different asses, you know.'
A realidade é quase sempre mais interessante que a ficção.
Por volta de 1964 as coisas tinham mudado bastante - cada vez mais músicos tinham virado as costas à música de dança e o jazz evoluía a uma velocidade incrível a cada ano que passava. Para mim, 1964 marca o apogeu do jazz americano. Aqui está uma das lendas desta época, John Coltrane, a passar o testemunho na capa do primeiro disco do jovem Archie Shepp.

Mas a nova geração não conseguiu manter o brilho dos dez anos anteriores.

O Howard Becker, de que já falei, viveu tudo isto quando tocava à noite em bares ao mesmo tempo que fazia o mestrado em Sociologia na University of Chicago.
Eis um relato na primeira pessoa, datado de cerca de 1950 e retirado da tese que resultou daí:
A friend of mine asked me if I was working that night. When I told him no, he led me over to another guy who, in turn, led to an old fellow with a strong Italian accent. This man said, 'You play piano, huh?'. I said, 'yes'. He said, 'You play good? Read pretty good?' I said, 'Not bad. What kind of deal is this?' He said, 'It's a club here in the Loop. It's nine to four-thirty, pays two-fifty an hour. You're sure you can handle it?' I said, 'Sure'. He said, 'You know, I have to make sure, it's a spot downtown. Well, here. You can call this number and tell them Mantuno told you to call - Mantuno. See, I have to make sure you're gonna do good or else I'm gonna catch hell. Go on, call 'em now. Remember, Mantuno told you to call.'
He gave me the number. I called and got the job. When I came out of the booth, my friend who originated the deal came up and said, 'Everything all right? Did you get the job, huh?' I said, 'Yeah, thanks an awful lot.' He said, 'That's all right. Listen, do a good job. I mean, if it's commercial, play commercial. What the hell! I mean, if you don't then it's my ass, you know. It isn't even only my ass, it's Tony's and that other guy's, it's about four different asses, you know.'
A realidade é quase sempre mais interessante que a ficção.
Por volta de 1964 as coisas tinham mudado bastante - cada vez mais músicos tinham virado as costas à música de dança e o jazz evoluía a uma velocidade incrível a cada ano que passava. Para mim, 1964 marca o apogeu do jazz americano. Aqui está uma das lendas desta época, John Coltrane, a passar o testemunho na capa do primeiro disco do jovem Archie Shepp.

Mas a nova geração não conseguiu manter o brilho dos dez anos anteriores.
A competição nacional do VideoLisboa foi ganha pelo Edgar Pêra - a primeira vez que ele ganha um prémio, por incrível que pareça. Guitarra Com Pessoas Lá Dentro é um filme à volta de Carlos Paredes, com a voz-off duma entrevista que ele deu há anos.

A narrativa do Paredes ao longo do filme é um achado que dá coerência ao caos habitual dos vídeos do Pêra. Da guitarra do mestre só se ouve ele a afiná-la, depois há fragmentos vários, do Tó Trips a tocar Paredes em versão Morricone, dos bastidores dum espectáculo do Paredes no Coliseu, dum western marado filmado no cabo Espichel e na Bica (com um assalto à diligência-elevador e tudo). E acaba com único acorde do Paredes. É muito bom e ainda pode ser visto na ZDB esta semana.
A tradição da guitarra portuguesa é um caso singular de música popular urbana instrumental, na verdade mais culta que popular e com uma forte componente de transmissão "oral" (por oposição às difusões erudita/escolar e discográfica/radiofónica) que a aproxima do jazz.
Voltando à minha jukebox, hoje acordou caótica, a saltar dos Beach Boys para o Telemann até aterrar no José Peixoto, o mais injustamente ignorado dos músicos portugueses.

Entre 1987 e 1993 publicou quatro excelentes CDs de "música instrumental urbana", como ele lhe chama, na fronteira do jazz, todos quase ignorados. Gostava de tê-los a todos (só tinha em cassete), mas estão esgotadíssimos (mas há dois anos saiu uma antologia dessa época chamada A Tempo). Procurei-os por todo o lado, na net e tudo, e nada, até que encontrei o site dele. Enchi-me de lata e mandei um mail para lá a perguntar como podia arranjar os CDs, até que recebi um mail a dizer que era impossível. Com lata redobrada, perguntei-lhe se não me podia gravá-los e a história acabou com um telefonema: "Se puder vir ao aeroporto agora, tenho os CDs para si." E é assim que tenho uma raridade - uma colecção de CDs pirateados e com as capas escritas à mão pelo próprio autor.

A narrativa do Paredes ao longo do filme é um achado que dá coerência ao caos habitual dos vídeos do Pêra. Da guitarra do mestre só se ouve ele a afiná-la, depois há fragmentos vários, do Tó Trips a tocar Paredes em versão Morricone, dos bastidores dum espectáculo do Paredes no Coliseu, dum western marado filmado no cabo Espichel e na Bica (com um assalto à diligência-elevador e tudo). E acaba com único acorde do Paredes. É muito bom e ainda pode ser visto na ZDB esta semana.
A tradição da guitarra portuguesa é um caso singular de música popular urbana instrumental, na verdade mais culta que popular e com uma forte componente de transmissão "oral" (por oposição às difusões erudita/escolar e discográfica/radiofónica) que a aproxima do jazz.
Voltando à minha jukebox, hoje acordou caótica, a saltar dos Beach Boys para o Telemann até aterrar no José Peixoto, o mais injustamente ignorado dos músicos portugueses.

Entre 1987 e 1993 publicou quatro excelentes CDs de "música instrumental urbana", como ele lhe chama, na fronteira do jazz, todos quase ignorados. Gostava de tê-los a todos (só tinha em cassete), mas estão esgotadíssimos (mas há dois anos saiu uma antologia dessa época chamada A Tempo). Procurei-os por todo o lado, na net e tudo, e nada, até que encontrei o site dele. Enchi-me de lata e mandei um mail para lá a perguntar como podia arranjar os CDs, até que recebi um mail a dizer que era impossível. Com lata redobrada, perguntei-lhe se não me podia gravá-los e a história acabou com um telefonema: "Se puder vir ao aeroporto agora, tenho os CDs para si." E é assim que tenho uma raridade - uma colecção de CDs pirateados e com as capas escritas à mão pelo próprio autor.

Continuação de tempo instável, com uma depressão quase no mesmo sítio onde estava outra há dias.

Bom para observar nuvens.
23.11.03
Ao lado do vídeo da Rachel há um outro, cujo som invade o dela. Fora esse percalço, de que nenhuma delas tem culpa, o vídeo da Breda Beban, uma jugoslava residente no Reino Unido, é também muito interessante. A imagem dum giradiscos a tocar o Let's Call it Love, cantado pelo Chet Baker

alterna em loop com imagens de aviões de guerra em acção.



O texto do programa diz que o vídeo é sobre "a solidão, a sedução e o desejo" e sobre "um sentimento de impotência face ao contexto da coreografia da política mundial".
O terrível é que os aviões de guerra são aqui belas máquinas que materializam o desejo expresso na voz do Chet Baker. A boa arte é sempre perturbante.

alterna em loop com imagens de aviões de guerra em acção.



O texto do programa diz que o vídeo é sobre "a solidão, a sedução e o desejo" e sobre "um sentimento de impotência face ao contexto da coreografia da política mundial".
O terrível é que os aviões de guerra são aqui belas máquinas que materializam o desejo expresso na voz do Chet Baker. A boa arte é sempre perturbante.
É um pouco perverso meter esta imagem aqui, mas não resisto porque parece mesmo uma das imagens do site da Rachel. É uma imagem virtual do que será a estação de radar do pico do Areeiro, na Madeira, a ser construída feita no local onde hoje está uma estalagem, que será demolida. Estou dividido - não sei se gosto mais da estalagem ou do radar.

O vídeo da Rachel Reupke (Infrastructure) é uma montagem de paisagens montanhosas dos Alpes austríacos onde se sobrepõem imagens de infraestruturas de transportes tiradas em Inglaterra - uma autoestrada, um porto, um aeroporto e uma linha ferroviária. A única presença humana são umas figuras vestidas de branco que aparecem de vez em quando a correr pela paisagem. Está em sintonia com uma das ideias deste blog - o contraste brutal entre a presença humana e a natureza, com um amor idêntico por ambas. É uma situação que se aproxima de situações talvez mais fáceis de ver por aqui, em Portugal, do que na Inglaterra de onde a Rachel vem. Ocorre-me, por exemplo, o troço da A1 entre Braga e Valença, que sobrevoa a paisagem rural minhota, ou, mais ainda, as delirantes autoestradas que têm vindo a ser feitas na Madeira. Aqui vão as outras imagens do vídeo.






O céu não está nada interessante, como convém a um domingo.

Mas esta perturbaçãozita que aí vem promete.
22.11.03
A Solmar é uma obra-prima menosprezada da arquitectura portuguesa.

A comida é péssima mas as imperiais são óptimas, e também tem este café.

Pode-se passar lá horas só a admirar todos os pormenores arquitectónicos. Bute lá todos antes que acabe.

Este sítio é exemplar da história do bairro mais dinâmico de Portugal, o Bairro Alto, que é também a primeira urbanização portuguesa, mandada fazer pelo rei D. Manuel I no início do século XVI. Construído na segunda metade do século XVIII, o edifício foi no século XIX o palácio da baronesa de Almeida, onde residiu durante dois anos o escritor Almeida Garret e era conhecido como salon literário-artístico. Depois lá funcionou o Correio da Manhã, a seguir foi a fábrica dos Móveis Olaio e agora é a ZDB.
Nestes dias é lá que fica secção de instalações vídeo do VideoLisboa, onde está um magnífico vídeo da Rachel Reupke. Aqui vai uma imagem.

A Rachel também tem este fantástico site.
21.11.03
O bom sentido de humor aparece nos sítios mais inesperados, como nesta casa de banho do São Jorge, em que alguém deixou um recado por cima deste aviso: "Por favor alarguem estas casas de banho, são pequenas".


Estava mesmo a ver-se que o tempo ia mudar quando chegassem estas nuvens associadas a uma frente quente.

O site do Instituto de Meteorologia não tem mapas sinópticos como este do canal de meteorologia da CNN online, em que se percebem muito melhor as coisas.

Os boletins meteorológicos da televisão portuguesa continuam a ser mal feitos. Antigamente eram chatos, mas eram a única presença quotidiana da ciência em acção na TV, apesar de serem um pouco esotéricos para quem não soubesse alguns rudimentos de meteorologia. Um bom boletim meteorológico na TV seria um serviço público em prol da educação científica dos portugueses.
20.11.03
Uma vez, a passear por Santa Catarina, entrei numa tasca, pedi uma cerveja e fui à casa de banho.

Por cima da retrete estava uma fotografia a preto e branco que destoava completamente do colorido popular da leitaria/tasca de bairro. Parece tirada algures na zona portuária da cidade, num dia de chuva.

O homem por detrás do balcão disse-me que quem tinha tirado a fotografia era uma rapariga que morava por ali. Uma vez tinha pedido para expor as fotografias dela ali, depois tinha desaparecido e mais tarde suicidara-se. E alguém resolvera pôr aquela fotografia por cima da retrete.

Por cima da retrete estava uma fotografia a preto e branco que destoava completamente do colorido popular da leitaria/tasca de bairro. Parece tirada algures na zona portuária da cidade, num dia de chuva.

O homem por detrás do balcão disse-me que quem tinha tirado a fotografia era uma rapariga que morava por ali. Uma vez tinha pedido para expor as fotografias dela ali, depois tinha desaparecido e mais tarde suicidara-se. E alguém resolvera pôr aquela fotografia por cima da retrete.
Uma das melhores ruas para se ver montras é a da Boavista, uma vez que não se pode comprar quase nada por puro instinto consumista. Os objectos estão nas montras por puro deleite estético dos proprietários, só pode, dado que não se imagina, por exemplo, um canalizador a escolher um deste objectos na montra.

O mesmo acontece, estou certo, com os compradores destas molas.

O interessante destes objectos, para além da sua beleza rude, é o facto de só poderem ser contemplados aqui. Uma vez comprados, seguem o seu destino - acabarem por fazer parte dum corpo mecânico, envolto por uma pele opaca. E aí perdem todo o seu brilho e passam a ser invisíveis e funcionais.
A rua é, de facto, feia, e só sobrevive pela presença anacrónica destas lojas, que imagino estarem aqui pela proximidade da antiga zona industrial do aterro da Boavista, hoje completamente desactivado.

Esta loja deve ser contemporânea dos tempos aúreos em que as chaminés fumegavam aqui.

O mesmo acontece, estou certo, com os compradores destas molas.

O interessante destes objectos, para além da sua beleza rude, é o facto de só poderem ser contemplados aqui. Uma vez comprados, seguem o seu destino - acabarem por fazer parte dum corpo mecânico, envolto por uma pele opaca. E aí perdem todo o seu brilho e passam a ser invisíveis e funcionais.
A rua é, de facto, feia, e só sobrevive pela presença anacrónica destas lojas, que imagino estarem aqui pela proximidade da antiga zona industrial do aterro da Boavista, hoje completamente desactivado.

Esta loja deve ser contemporânea dos tempos aúreos em que as chaminés fumegavam aqui.

Tal como previsto há dois dias, o céu começou a cobrir-se por nuvens altas, aqui ainda não visíveis.

Mas aqui estão elas, vistas de cima.
19.11.03
No Público de hoje saiu uma carta dum leitor que pensa o mesmo que eu sobre a Maria Filomena Mónica, o maior impostor da intelectualidade portuguesa. Há uns anos achava-lhe imensa piada pela candura com que confessava o modo como tinha conseguido acabar a licenciatura em Filosofia e depois obter uma bolsa da Gulbenkian para o doutoramento em Oxford, depois passou a ódio de estimação quando começou, como diz o tal leitor, a confundir "as suas opiniões pessoais com importantes verdades científicas de grande rigor e universalidade" - foi a altura de algumas pérolas inesquecíveis, como aquela em que ela discorria, solene, sobre a evolução do norte de Portugal nos últimos 20 anos, tendo como única fonte uma observação (atenta, suponho) dos carros na auto-estrada, da pousada de Santa Maria do Bouro e das pessoas nas ruas do centro de Braga, tudo isto num fim de semana de dois dias (e depois dos tais 20 anos sem lá ir). Agora deixou simplesmente de ter piada, e também me interrogo como é possível não haver gente com coisas mais interessantes para dizer - sempre poupavam uns bons euros por mês e davam oportunidade a outra.
O artigo de opinião sobre a estratégia americana no Iraque do general Loureiro dos Santos é bastante pragmático, como convém a um militar. Diz ele que a retirada dos EUA, por razões eleitorais, fará com que o imbróglio criado degenere para uma situação de caos generalizado no Médio Oriente. Confesso que o que se está a passar no Iraque, e as reacções pró e anti-EUA, não me emocionam grande coisa, antes me provocam uma espécie de desgosto entediado. Como diz o general, "o presidente americano, de certo modo, é também presidente de todos nós (...) embora não tenhamos qualquer capacidade para participar na sua eleição". Nesse caso, se não queremos viver num mundo transformado em império americano é preciso propor um contrapoder qualquer, uma neo-ONU ou coisa do género. Os argumentos da ilegitimidade da intervenção num país soberano e não-beligerante, e contra a guerra "tout court", que parecem ser o núcleo da argumentação dos que protestam contra o intervencionismo americano, são pouco consistentes. Em 1978, quando o Vietname invadiu o Cambodja para derrubar o regime de Pol Pot, a Newsweek fez uma capa com o título "Blitzkrieg" sobre um tanque vietnamita, uma disparatada e sinistra alusão à invasão da Polónia pelo exército nazi. Na altura pouco ou nada se falava do que estava a acontecer no Cambodja, mas outra revista, a Science et Vie, falava do assunto. O artigo que começava com uma nota da redacção a dizer que, excepcionalmente, publicavam um artigo em que eram abordadas questões políticas, dado o seu interesse científico, o qual consistia no seguinte: o autor, um médico que tinha estado recentemente no Cambodja, alertava contra o perigo iminente de extinção do povo cambodjano, caso Pol Pot se mantivesse mais algum tempo no poder. Depois da invasão, durante alguns anos continuou a não se falar grande coisa do regime de Pol Pot (era a lógica da Guerra Fria) e muita gente só se deve ter apercebido do que se passou depois do sucesso do lacrimejante The Killing Fields, e o mesmo vale para a tragédia do golpe de Pinochet e o Missing, com o Jack Lemmon a fazer de pai desesperado em busca do filho esquerdista desaparecido durante o golpe. O regime de Saddam não era comparável, claro, e acho até que devia ser o país da região onde eu gostaria mais de viver, pelo menos antes da guerra com o Irão. Agora, se um país qualquer invadisse a Arábia Saudita e derrubasse a monarquia, eu ficava contente. E se a Coreia do Sul invadisse o país irmão do Norte, para derrubar a infame dinastia dos Kim, melhor ainda, mesmo se apoiados pelos EUA. Alguém se manifestava contra?
O artigo de opinião sobre a estratégia americana no Iraque do general Loureiro dos Santos é bastante pragmático, como convém a um militar. Diz ele que a retirada dos EUA, por razões eleitorais, fará com que o imbróglio criado degenere para uma situação de caos generalizado no Médio Oriente. Confesso que o que se está a passar no Iraque, e as reacções pró e anti-EUA, não me emocionam grande coisa, antes me provocam uma espécie de desgosto entediado. Como diz o general, "o presidente americano, de certo modo, é também presidente de todos nós (...) embora não tenhamos qualquer capacidade para participar na sua eleição". Nesse caso, se não queremos viver num mundo transformado em império americano é preciso propor um contrapoder qualquer, uma neo-ONU ou coisa do género. Os argumentos da ilegitimidade da intervenção num país soberano e não-beligerante, e contra a guerra "tout court", que parecem ser o núcleo da argumentação dos que protestam contra o intervencionismo americano, são pouco consistentes. Em 1978, quando o Vietname invadiu o Cambodja para derrubar o regime de Pol Pot, a Newsweek fez uma capa com o título "Blitzkrieg" sobre um tanque vietnamita, uma disparatada e sinistra alusão à invasão da Polónia pelo exército nazi. Na altura pouco ou nada se falava do que estava a acontecer no Cambodja, mas outra revista, a Science et Vie, falava do assunto. O artigo que começava com uma nota da redacção a dizer que, excepcionalmente, publicavam um artigo em que eram abordadas questões políticas, dado o seu interesse científico, o qual consistia no seguinte: o autor, um médico que tinha estado recentemente no Cambodja, alertava contra o perigo iminente de extinção do povo cambodjano, caso Pol Pot se mantivesse mais algum tempo no poder. Depois da invasão, durante alguns anos continuou a não se falar grande coisa do regime de Pol Pot (era a lógica da Guerra Fria) e muita gente só se deve ter apercebido do que se passou depois do sucesso do lacrimejante The Killing Fields, e o mesmo vale para a tragédia do golpe de Pinochet e o Missing, com o Jack Lemmon a fazer de pai desesperado em busca do filho esquerdista desaparecido durante o golpe. O regime de Saddam não era comparável, claro, e acho até que devia ser o país da região onde eu gostaria mais de viver, pelo menos antes da guerra com o Irão. Agora, se um país qualquer invadisse a Arábia Saudita e derrubasse a monarquia, eu ficava contente. E se a Coreia do Sul invadisse o país irmão do Norte, para derrubar a infame dinastia dos Kim, melhor ainda, mesmo se apoiados pelos EUA. Alguém se manifestava contra?
A manhã começou com os Kings of Convenience. A primeira vez que os vi e ouvi, no festival do Meco do ano passado, fiquei siderado. O que fazia um duo acústico a cantar em uníssono canções pop perfeitamente tradicionais num festival de música de dança electrónica? Ainda por cima agarravam completamente o público, que cantava partes da canções em coro, apesar da intromissão de vários bum-tchi-buns desencontrados que chegavam das outras tendas e abafavam a música. Surreal.

Uns meses mais tarde, no festival Número, percebi que o Erland Oye (o rapaz da direita) é um caso absolutamente invulgar de carisma. A música é boa e a comparação com os Simon & Garfunkel é injusta para os Kings. Mas extraordinário - acho que nunca tinha visto nada assim - é o poder de comunicação daquele rapaz muito alto e desengonçado com uns óculos de massa enormes, capaz de hipnotizar um público tão electrónico (e fazer suspirar várias raparigas) durante horas apenas com a voz e uma guitarra acústica.
Não faço ideia por que raio os Kings of Convenience foram parar ao circuito da música de dança, mas ainda bem. Entretanto, o Erland gravou um CD muito anos 80 electropop saltitante, mas isso não explica nada. Contactos, coincidências, provavelmente. Mas nada de propriamente inédito.
Fiquei a pensar em que estante da Fnac estariam eles. Dança/Novas tendências? Rock anternativo/Independente? Pop rock? Passei por lá, não encontrei nada, mas podem estar em qualquer delas. Um problema que irrita algumas pessoas, este das estantes da Fnac, e que dá que pensar. Grupos assumidamente pop, que gostavam de ser ricos e famosos e não o são por acaso ou ingratidão do público, como os Saint Etienne ou os Go-Betweens, são alternativos e independentes, mas o Tom Waits está ao lado do Tom Petty no pop-rock - "mainstream", deve ser, por exclusão de partes. Absurdo. E então na chamada música de dança a confusão ainda é maior mas a culpa aqui não é da Fnac - agora que penso nisso, suponho que o principal critério para um artista ser mais da dança ou mais alternativo é a importância que a voz assume na música. Mas a Ursula Rucker está na dança, pois, são ligações.
Ocorre-me o caso da Karen Mantler, que foi concebida pela Carla Bley e pelo Michel Mantler, segundo ela própria conta, durante o festival de jazz de Newport em 1965.

Uma variedade especial do fenómeno filha-da-outra, começou a carreira aos 4 anos a cantar numa das obras-primas da Carla, Escalator Over The Hill, e acabou por ser despedida da Carla Bley Band pela mãe, aos 21 anos ("Get your own band!"). Depois disso, a partir dos finais dos anos 80, gravou quatro discos, três deles inteiramente dedicados (letras, tudo) ao gato dela - My Cat Arnold, Karen Mantler and Her Cat Arnold Get The Flu, e Farewell. A capa deste último é uma foto dela no funeral do gato. Todos eles contêm excelente música pop mas, como a rapariga grava para a editora da família, a Watt, que por sua vez é distribuída na Europa pela ECM, suponho que vão parar às estantes dos críticos de jazz, os quais não podem escrever sobre ela porque é uma cantora pop. Pelos vistos é destino familiar, já que a mãe Carla confessou algures numa entrevista que gostava era de ter sido uma estrela pop, se o acaso do destino não a tivesse levado a uma carreira como compositora e chefe de banda jazz - o primeiro marido, o pianista Paul Bley, encomendou-lhe uma música por brincadeira, no princípio dos anos 60, com tanto sucesso que a partir daí ela nunca mais parou.

No princípio dos anos 80, quando a Carla (aqui na foto ao lado do actual namorado, Steve Swallow) já era consensualmente considerada uma das grandes compositoras da história do jazz (os discos são algo polémicos, na maioria), ainda gravou um disco pop sob o pseudónimo do baterista dos Pink Floyd (Nick Mason's Fictitious Sports), com o Robert Wyatt como vocalista e o próprio Mason na bateria, mas o truque não deu resultado e o álbum foi um flop.
Por falar em ECM, reparei que o András Schiff, que já as tinha gravado antes para a classicíssima Decca, acaba de editar uma nova versão das Variações Goldberg para a ECM New Series, o que fará talvez com que alguns fãs do Bill Evans ou do Keith Jarrett oiçam Bach pela primeira vez. Foi assim, por exemplo, que eu comecei a ouvir jazz: com uma banda pop, os Soft Machine, que mudou de ideias e publicou um disco de jazz na mesma editora dos Santana e dos Chicago - e do Miles Davis também, mas essa é outra história.

Uns meses mais tarde, no festival Número, percebi que o Erland Oye (o rapaz da direita) é um caso absolutamente invulgar de carisma. A música é boa e a comparação com os Simon & Garfunkel é injusta para os Kings. Mas extraordinário - acho que nunca tinha visto nada assim - é o poder de comunicação daquele rapaz muito alto e desengonçado com uns óculos de massa enormes, capaz de hipnotizar um público tão electrónico (e fazer suspirar várias raparigas) durante horas apenas com a voz e uma guitarra acústica.
Não faço ideia por que raio os Kings of Convenience foram parar ao circuito da música de dança, mas ainda bem. Entretanto, o Erland gravou um CD muito anos 80 electropop saltitante, mas isso não explica nada. Contactos, coincidências, provavelmente. Mas nada de propriamente inédito.
Fiquei a pensar em que estante da Fnac estariam eles. Dança/Novas tendências? Rock anternativo/Independente? Pop rock? Passei por lá, não encontrei nada, mas podem estar em qualquer delas. Um problema que irrita algumas pessoas, este das estantes da Fnac, e que dá que pensar. Grupos assumidamente pop, que gostavam de ser ricos e famosos e não o são por acaso ou ingratidão do público, como os Saint Etienne ou os Go-Betweens, são alternativos e independentes, mas o Tom Waits está ao lado do Tom Petty no pop-rock - "mainstream", deve ser, por exclusão de partes. Absurdo. E então na chamada música de dança a confusão ainda é maior mas a culpa aqui não é da Fnac - agora que penso nisso, suponho que o principal critério para um artista ser mais da dança ou mais alternativo é a importância que a voz assume na música. Mas a Ursula Rucker está na dança, pois, são ligações.
Ocorre-me o caso da Karen Mantler, que foi concebida pela Carla Bley e pelo Michel Mantler, segundo ela própria conta, durante o festival de jazz de Newport em 1965.

Uma variedade especial do fenómeno filha-da-outra, começou a carreira aos 4 anos a cantar numa das obras-primas da Carla, Escalator Over The Hill, e acabou por ser despedida da Carla Bley Band pela mãe, aos 21 anos ("Get your own band!"). Depois disso, a partir dos finais dos anos 80, gravou quatro discos, três deles inteiramente dedicados (letras, tudo) ao gato dela - My Cat Arnold, Karen Mantler and Her Cat Arnold Get The Flu, e Farewell. A capa deste último é uma foto dela no funeral do gato. Todos eles contêm excelente música pop mas, como a rapariga grava para a editora da família, a Watt, que por sua vez é distribuída na Europa pela ECM, suponho que vão parar às estantes dos críticos de jazz, os quais não podem escrever sobre ela porque é uma cantora pop. Pelos vistos é destino familiar, já que a mãe Carla confessou algures numa entrevista que gostava era de ter sido uma estrela pop, se o acaso do destino não a tivesse levado a uma carreira como compositora e chefe de banda jazz - o primeiro marido, o pianista Paul Bley, encomendou-lhe uma música por brincadeira, no princípio dos anos 60, com tanto sucesso que a partir daí ela nunca mais parou.

No princípio dos anos 80, quando a Carla (aqui na foto ao lado do actual namorado, Steve Swallow) já era consensualmente considerada uma das grandes compositoras da história do jazz (os discos são algo polémicos, na maioria), ainda gravou um disco pop sob o pseudónimo do baterista dos Pink Floyd (Nick Mason's Fictitious Sports), com o Robert Wyatt como vocalista e o próprio Mason na bateria, mas o truque não deu resultado e o álbum foi um flop.
Por falar em ECM, reparei que o András Schiff, que já as tinha gravado antes para a classicíssima Decca, acaba de editar uma nova versão das Variações Goldberg para a ECM New Series, o que fará talvez com que alguns fãs do Bill Evans ou do Keith Jarrett oiçam Bach pela primeira vez. Foi assim, por exemplo, que eu comecei a ouvir jazz: com uma banda pop, os Soft Machine, que mudou de ideias e publicou um disco de jazz na mesma editora dos Santana e dos Chicago - e do Miles Davis também, mas essa é outra história.

O céu continua limpo, o que é óptimo para ir esvaziando o cesto da roupa suja. E promete ficar assim até sexta, quando aquelas nuvens cá chegarem.

18.11.03
Hoje aplaquei a minha fúria consumista com um guarda-chuva, um objecto mais apropriado à penúria dos tempos que correm do que os meus habituais fetiches, como máquinas fotográficas digitais, telemóveis, livros de fotografia e CDs. Tive foi azar com o tempo, pois as hipóteses de chover eram mínimas, como se pode verificar nesta foto tirada lá de cima do céu sobre Lisboa àquela hora.

Sempre gostei de usar guarda-chuva, um objecto que quase toda a gente perde com a maior facilidade. Creio que bati o recorde de rapidez de não-uso de um objecto numa tarde de chuva em que entrei no átrio da estação de comboio dos Restauradores para comprar um. Quando saí de lá dois minutos depois – já não chovia – atravessei a praça, entrei no Condes para ver o Pulp Fiction e saí tão extasiado que só me lembrei do guarda-chuva duas horas depois. Mas também continuava a não chover.
Quando apareceram as chinesas no metro a venderem aqueles guarda-chuvas pequeninos descartáveis passei a usar desses, que têm a vantagem de caberem no bolso do casaco. Dão muito jeito, especialmente em dias de instabilidade atmosférica como aquele em que fui passear para o Ginjal com a água do rio a transbordar para o cais. A Sara, sempre bem disposta apesar dos ténis encharcados, achou muita piada quando começou a chover e eu tirei um desses guarda-chuvas chineses do bolso de modo a poder tirar esta foto sem molhar a máquina digital.

“Tens um guarda-chuva de gaja”, disse ela.
Uns dias depois e com umas condições atmosféricas semelhantes, foi a vez da Margarida sacar de um guarda-chuva a meio de um passeio pela Arrábida, onde ela ponderava comprar esta casa de campo.

Só que este guarda-chuva era preto com o cabo naquela coisa a imitar alumínio que há agora, mais pequenino que os tais chineses e parecia uma imitação dum Samsonite Ultra-Light Mini Flat (para homens de negócios em viagem, dizem eles) como este que eu tinha visto uma vez numa colecção de design, além de que resistia razoavelmente ao vento.

De modo que logo que pude fui à H&M, como ela me tinha dito, e subi à secção de “acessórios”, palavra que fiquei a saber que ali quer dizer “lingerie”. Depois informaram-me que era na secção Mulher, aí disseram-me que estavam junto à caixa, e lá estava ele (as bolas não fazem parte, colhi-as do chão da Gare Marítima de Alcântara numa manhã de Verão, mas essa é outra história).

Descobri que os atributos que fazem um guarda-chuva masculino ou feminino não são assim tão simples de enumerar. Se forem dos grandes, é pelo padrão, pela cor e pela forma mais esguia do cabo. Os pequenos, se forem de homem, tem um cabo normal como este que pelos vistos não fica bem a uma senhora segurar. Vi-o na rua do Loreto, como se pode ver, devidamente acompanhado por sapatos masculinos, e a foto valeu pela cara do senhor da sapataria quando me viu a fotografá-lo.


Sempre gostei de usar guarda-chuva, um objecto que quase toda a gente perde com a maior facilidade. Creio que bati o recorde de rapidez de não-uso de um objecto numa tarde de chuva em que entrei no átrio da estação de comboio dos Restauradores para comprar um. Quando saí de lá dois minutos depois – já não chovia – atravessei a praça, entrei no Condes para ver o Pulp Fiction e saí tão extasiado que só me lembrei do guarda-chuva duas horas depois. Mas também continuava a não chover.
Quando apareceram as chinesas no metro a venderem aqueles guarda-chuvas pequeninos descartáveis passei a usar desses, que têm a vantagem de caberem no bolso do casaco. Dão muito jeito, especialmente em dias de instabilidade atmosférica como aquele em que fui passear para o Ginjal com a água do rio a transbordar para o cais. A Sara, sempre bem disposta apesar dos ténis encharcados, achou muita piada quando começou a chover e eu tirei um desses guarda-chuvas chineses do bolso de modo a poder tirar esta foto sem molhar a máquina digital.

“Tens um guarda-chuva de gaja”, disse ela.
Uns dias depois e com umas condições atmosféricas semelhantes, foi a vez da Margarida sacar de um guarda-chuva a meio de um passeio pela Arrábida, onde ela ponderava comprar esta casa de campo.

Só que este guarda-chuva era preto com o cabo naquela coisa a imitar alumínio que há agora, mais pequenino que os tais chineses e parecia uma imitação dum Samsonite Ultra-Light Mini Flat (para homens de negócios em viagem, dizem eles) como este que eu tinha visto uma vez numa colecção de design, além de que resistia razoavelmente ao vento.

De modo que logo que pude fui à H&M, como ela me tinha dito, e subi à secção de “acessórios”, palavra que fiquei a saber que ali quer dizer “lingerie”. Depois informaram-me que era na secção Mulher, aí disseram-me que estavam junto à caixa, e lá estava ele (as bolas não fazem parte, colhi-as do chão da Gare Marítima de Alcântara numa manhã de Verão, mas essa é outra história).

Descobri que os atributos que fazem um guarda-chuva masculino ou feminino não são assim tão simples de enumerar. Se forem dos grandes, é pelo padrão, pela cor e pela forma mais esguia do cabo. Os pequenos, se forem de homem, tem um cabo normal como este que pelos vistos não fica bem a uma senhora segurar. Vi-o na rua do Loreto, como se pode ver, devidamente acompanhado por sapatos masculinos, e a foto valeu pela cara do senhor da sapataria quando me viu a fotografá-lo.


Não, leitora, não estou armado no personagem do Harvey Keitel no Smoke, de que aliás nunca ouvi falar. Além disso a fotografia foi tirada no dia seguinte à outra mas não à mesma hora.
17.11.03
Não sei se isto acontece com mais gente, mas comigo acontece um fenómeno a que chamo "CD interno" (é CD como podia ser outro suporte qualquer como vinil ou cassete, só que o CD foi uma invenção maravilhosa porque me livrou dos discos riscados). Consiste no seguinte: uma música, ou melhor sequências de músicas, da quais me vou lembrando ao longo do dia. Um aspecto particular desta coisa é que acordo sempre com uma música que, geralmente, existe num CD da minha discoteca. Hoje foi o Moreno Veloso, aquele disco que se chama Máquina de Escrever Música e que cá está à venda como Music Typewriter (acho vergonhoso só termos acesso às edições internacionais dos CDs de músicos brasileiros, com letras em inglês e tudo, mas adiante). O problema com o Moreno é, suponho, ser filho do outro: este CD é magnífico, um dos melhores que ouvi do Brasil nos últimos anos, e só consigo compreender que não tenha tido recensões entusiáticas por causa do efeito filho-do-outro. E ainda por cima tem muito pouco do pai. Parece que não está a acontecer o mesmo com a filha da Elis, de que não me lembro o nome porque a mãe nunca me entusiasmou lá muito e, segundo dizem, a voz dela, a cara, etc, são muito parecidas à da mãe. Mas hei-de ouvir mesmo assim.
A seguir foi um dos Yo La Tengo que me emprestaram (Little Honda). Ainda não tenho opinião sobre estes rapazes que nunca ouvi devidamente. Nunca me esqueci do nome deles - na minha memória estão associados a um dos meus filmes favoritos, onde têm uma música linda, dois acordes de guitarra acústica que aparecem recorrentemente. Há no Simple Men um diálogo do qual sempre achei que o que um dos personagens diz podia ter sido perfeitamente dito por mim, se eu fosse nova-iorquino. Aqui vai:
Dennis: I've never been to Long Island.
Bill: Yes you have.
Dennis: I have?
Bill: Yeah, you've been to Queens. Queens is Long Island.
Dennis: Queens is part of New York City. I don't think it's really considered Long Island.
Bill: It's part of New York City, but it's on Long Island.
Dennis: Queens is a borough.
Bill: A Borough on Long Island.
Dennis: A borough of New York City.
Bill: Right.
Dennis: Long Island's a terminal moraine.
Bill: What?
Dennis: Terminal moraine. It's the earth deposited by a receding glacier.
Bill: Well shit! What the hell are we waiting for? Come on!
Eu seria o Dennis, claro.
A seguir foi um dos Yo La Tengo que me emprestaram (Little Honda). Ainda não tenho opinião sobre estes rapazes que nunca ouvi devidamente. Nunca me esqueci do nome deles - na minha memória estão associados a um dos meus filmes favoritos, onde têm uma música linda, dois acordes de guitarra acústica que aparecem recorrentemente. Há no Simple Men um diálogo do qual sempre achei que o que um dos personagens diz podia ter sido perfeitamente dito por mim, se eu fosse nova-iorquino. Aqui vai:
Dennis: I've never been to Long Island.
Bill: Yes you have.
Dennis: I have?
Bill: Yeah, you've been to Queens. Queens is Long Island.
Dennis: Queens is part of New York City. I don't think it's really considered Long Island.
Bill: It's part of New York City, but it's on Long Island.
Dennis: Queens is a borough.
Bill: A Borough on Long Island.
Dennis: A borough of New York City.
Bill: Right.
Dennis: Long Island's a terminal moraine.
Bill: What?
Dennis: Terminal moraine. It's the earth deposited by a receding glacier.
Bill: Well shit! What the hell are we waiting for? Come on!
Eu seria o Dennis, claro.
A descer a Avenida ao fim da tarde, um tipo vem ter comigo de repente: "Não te lembras de mim? Em que faculdade andaste? Essa mesmo. Eu tinha um rabo-de-cavalo e uma Honda vermelha". Continuei a não me lembrar, como de costume - esqueço-me das pessoas passado um dia, quanto mais passados 15 anos. É estranho quando estamos tanto tempo sem ver alguém. Envelhecemos todos, mas os outros parecem-nos sempre mais velhos do que nós próprios, como se a nossa auto-imagem permanecesse sempre num tempo qualquer anterior. Mais estranho ainda é quando a pessoa em causa está numa situação radical. Este estava a acabar de chegar da África do Sul. "Ah sim, então foste viver para lá", disse eu, e preparava-me para o habitual inquérito de quando se encontra alguém que conhece bem um sítio exótico. Mas não deu tempo. "Mataram-me a mulher e a filha". Um daqueles assaltos violentíssimos que pelos vistos costumam acontecer por lá aos comerciantes, e aos portugueses, visto que muitos são comerciantes. Fica-se sem saber o que dizer.
Há poucos dias tinha tido outro encontro em que fiquei sem saber o que dizer. Estava num bar a que agora só vou ocasionalmente ver uns concertos, mas onde há uns 10-15 anos fazia parte da mobília. De repente aparece-me um tipo com quem eu me dava bastante nesse tempo, e que não via há uns 8 anos. Há uns tempos tinha perguntado por ele, e disseram-me que estava preso, por assalto à mão armada, na sequência de uma série de desvarios ligados à heroína que grande parte das pessoas com quem me dava nos finais dos anos 80 consumiam. Mas ali, agora, passados 15 anos, lá estava ele, exactamente no mesmo sítio à mesma hora. O que é que se diz nestas situações? "Então estás em Custóias, não? Que tal é aquilo?", como se estivesse a falar de hotel onde se trabalha. Claro que disse apenas "Ao tempo que não te via, que é feito?", e ele, ao mesmo tempo: "Lisboa é fantástica, entra-se aqui está uma banda a tocar." "Pois", disse eu, "Lisboa continua fantástica". "Sabes que lá em Paços de Ferreira as opções nocturnas não são muitas", disse ele, e que estava numa saída precária de 5 dias, depois de 3 anos cumpridos duma pena de 7. "Por roubar 15 contos, mas não maltratei ninguém, não insultei ninguém. Sei que é difícil de engolir, mas foi assim". Nem todas as pessoas envelhecem da mesma maneira, e há quem pareça não envelhecer, como era o caso dele, que agora parecia-me mais novo que eu, felicíssimo e angustiado ao mesmo tempo, quase nas lágrimas e aos pulos a dançar.

Além deste, o encontro de ontem fez-me lembrar outro, já há uns anos. Também foi na Avenida, à tarde, e era um tipo que me fez uma grande festa, que me tinha conhecido há imenso tempo, devia ter ele uns 20 e poucos e eu uns 16 ou isso. Fazia uma vaga ideia quem era, mas tinha passado tanto tempo. Estava envelhecidíssimo e com mau aspecto, e lá me contou a história. Grande parte daqueles anos todos tinha trabalhado em jornais, já não me lembro a fazer o quê, até que com a crise da imprensa quando fecharam os vespertinos todos tinha ficado sem emprego. E agora era um sem-abrigo. Durante um ano ou dois continuei a encontrá-lo na Avenida, e de cada vez dava-lhe 500 ou mil paus, até que ele lá recuperou, conseguiu uma pensão de reforma, acho, e uma casa, e agora continuo a encontrá-lo de vez em quando a vaguear solitário como sempre, e sempre com a mesma dignidade. O confronto com estas vidas deixa-me esmagado.
Há poucos dias tinha tido outro encontro em que fiquei sem saber o que dizer. Estava num bar a que agora só vou ocasionalmente ver uns concertos, mas onde há uns 10-15 anos fazia parte da mobília. De repente aparece-me um tipo com quem eu me dava bastante nesse tempo, e que não via há uns 8 anos. Há uns tempos tinha perguntado por ele, e disseram-me que estava preso, por assalto à mão armada, na sequência de uma série de desvarios ligados à heroína que grande parte das pessoas com quem me dava nos finais dos anos 80 consumiam. Mas ali, agora, passados 15 anos, lá estava ele, exactamente no mesmo sítio à mesma hora. O que é que se diz nestas situações? "Então estás em Custóias, não? Que tal é aquilo?", como se estivesse a falar de hotel onde se trabalha. Claro que disse apenas "Ao tempo que não te via, que é feito?", e ele, ao mesmo tempo: "Lisboa é fantástica, entra-se aqui está uma banda a tocar." "Pois", disse eu, "Lisboa continua fantástica". "Sabes que lá em Paços de Ferreira as opções nocturnas não são muitas", disse ele, e que estava numa saída precária de 5 dias, depois de 3 anos cumpridos duma pena de 7. "Por roubar 15 contos, mas não maltratei ninguém, não insultei ninguém. Sei que é difícil de engolir, mas foi assim". Nem todas as pessoas envelhecem da mesma maneira, e há quem pareça não envelhecer, como era o caso dele, que agora parecia-me mais novo que eu, felicíssimo e angustiado ao mesmo tempo, quase nas lágrimas e aos pulos a dançar.

Além deste, o encontro de ontem fez-me lembrar outro, já há uns anos. Também foi na Avenida, à tarde, e era um tipo que me fez uma grande festa, que me tinha conhecido há imenso tempo, devia ter ele uns 20 e poucos e eu uns 16 ou isso. Fazia uma vaga ideia quem era, mas tinha passado tanto tempo. Estava envelhecidíssimo e com mau aspecto, e lá me contou a história. Grande parte daqueles anos todos tinha trabalhado em jornais, já não me lembro a fazer o quê, até que com a crise da imprensa quando fecharam os vespertinos todos tinha ficado sem emprego. E agora era um sem-abrigo. Durante um ano ou dois continuei a encontrá-lo na Avenida, e de cada vez dava-lhe 500 ou mil paus, até que ele lá recuperou, conseguiu uma pensão de reforma, acho, e uma casa, e agora continuo a encontrá-lo de vez em quando a vaguear solitário como sempre, e sempre com a mesma dignidade. O confronto com estas vidas deixa-me esmagado.
A primeira pessoa a quem falei do nome deste blog objectou logo "mas isso é um plágio!". Pois é, só que não o escolhi por causa do desastrado do Wenders nem a pensar em anjos. São outras associações de ideias: o céu, numa cidade a sério como Lisboa, é a única presença da natureza, e ainda bem. O céu é também, ou sobretudo, a imagem que temos da atmosfera, uma entidade fascinante, para além do aspecto estético, pela sua complexidade - a teoria do caos provém da meteorologia. Já há uns tempos que me interrogo sobre porque é que a ciência parece tanto mais periclitante quanto mais os fenómenos estudados se aproximam da escala humana - uma impressão mais tarde reforçada pela leitura do H2O - A History of Water, de Philip Ball, um dos melhores livros que li ultimamente (saiu há tempos uma tradução portuguesa).
Depois, tenho um devaneio, que é a meteorologia como metáfora das ciências sociais - se compreender o comportamento desta simples mistura de azoto, oxigénio e água que nos rodeia já é o que é, imagine-se o que é perceber um pouco que seja do que move estes 6 mil e tal milhões de cadáveres adiados que procriam (esta é do Pessoa). Passamos portanto à cidade, e já que falei do tal Ball aqui vai uma foto do meu sociólogo favorito, o Howard Becker, aqui por volta de 1950, no 504 Club (504 W. 63rd St., Chicago) com o Bobby Laine Trio. O Howie é o rapaz do piano.

Depois, tenho um devaneio, que é a meteorologia como metáfora das ciências sociais - se compreender o comportamento desta simples mistura de azoto, oxigénio e água que nos rodeia já é o que é, imagine-se o que é perceber um pouco que seja do que move estes 6 mil e tal milhões de cadáveres adiados que procriam (esta é do Pessoa). Passamos portanto à cidade, e já que falei do tal Ball aqui vai uma foto do meu sociólogo favorito, o Howard Becker, aqui por volta de 1950, no 504 Club (504 W. 63rd St., Chicago) com o Bobby Laine Trio. O Howie é o rapaz do piano.



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