31.12.03
Está-se sempre a aprender: desconhecia de todo esta tradição feminina de usar cuecas azuis na última noite do ano.
30.12.03
O espírito do tempo: assim que vi as novas embalagens de cigarros mutiladas com avisos violentíssimos sobre os malefícios do tabaco (e o meu Português Suave reduzido a um ridículo Português), pensei em fazer, em conjunto como um amigo, uma série de cartazes irónicos, utilizando o mesmo grafismo, e que culminavam com um que diria "Viver mata". Entre eles estaria outro que dizia "Comer mata". O motivo é que não consigo perceber toda a histeria em relação ao tabagismo. Por razões laborais, li nos últimos dois anos centenas de artigos e comunicados de imprensa sobre todas as espécies de doenças, e parece-me consensual que o tabaco é apenas um entre vários factores de risco, como se diz na gíria médica, que podem predispor ao aparecimento de uma série de doenças, nomeadamente cardiovasculares e cancros do pulmão. Há outros factores igualmente importantes, como o consumo excessivo de gorduras e açúcares e a inactividade física. Ou seja, se uma pessoa passar o dia sentada a uma secretária, fumar quatro maços de tabaco por dia, comer hambúrgeres e batatas fritas ao almoço e ao jantar, e depois rebater com dois pastéis de nata e quatro cubas livres, tem fortes hipóteses de desenvolver uma doença cardiovascular. Mas se apenas fizer uma destas coisas quotidianamente, as probabilidades são muito mais reduzidas.
Não me despachei a desenvolver a história dos cartazes, que serviriam para advertir os meus concidadãos dos múltiplos perigos que diariamente põem a risco as suas vidas (como andar de carro e comer rissóis), de modo que quando dei por isso já havia alguém que numa revista (a Dif) estava a publicar uma coisa com uma ideia semelhante para cobrir os avisos dos maços de tabaco. Depois foi o PCP a pegar na mesma ideia.
E ontem deparo com a manchete da capa duma (excelente) revista que costumo comprar, o Courier International: "Comer mata". O dossier, que pode ser lido aqui, consiste em vários artigos da New Scientist (por falar nisso, tenho que ir a correr aos Restauradores comprar o número especial de Ano Novo, costuma ser fantástico) e outras publicações. Basicamente, é isto que se passa: na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos as autoridades começam a pensar em pôr avisos nos alimentos mais responsáveis pela epidemia de obesidade (e também por doenças cardiovasculares e cancros vários). Nos EUA, as grandes cadeias de restauração começam a ficar inquietas com a possibilidade de serem processadas pelos danos causados à saúde dos clientes. É um panorama que ainda há pouco tempo muita gente considerava absurdo. Com o desenrolar da coisa, pode ser que se ganhe algum bom senso.
Não me despachei a desenvolver a história dos cartazes, que serviriam para advertir os meus concidadãos dos múltiplos perigos que diariamente põem a risco as suas vidas (como andar de carro e comer rissóis), de modo que quando dei por isso já havia alguém que numa revista (a Dif) estava a publicar uma coisa com uma ideia semelhante para cobrir os avisos dos maços de tabaco. Depois foi o PCP a pegar na mesma ideia.
E ontem deparo com a manchete da capa duma (excelente) revista que costumo comprar, o Courier International: "Comer mata". O dossier, que pode ser lido aqui, consiste em vários artigos da New Scientist (por falar nisso, tenho que ir a correr aos Restauradores comprar o número especial de Ano Novo, costuma ser fantástico) e outras publicações. Basicamente, é isto que se passa: na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos as autoridades começam a pensar em pôr avisos nos alimentos mais responsáveis pela epidemia de obesidade (e também por doenças cardiovasculares e cancros vários). Nos EUA, as grandes cadeias de restauração começam a ficar inquietas com a possibilidade de serem processadas pelos danos causados à saúde dos clientes. É um panorama que ainda há pouco tempo muita gente considerava absurdo. Com o desenrolar da coisa, pode ser que se ganhe algum bom senso.
29.12.03
Hoje descobri, por razões laborais, que o edifício da tecnociência tem uma falha grave: não existe uma definição aceitável para a unidade de massa, o famoso quilograma. Enquanto todas as outras unidades básicas - comprimento, tempo, corrente eléctrica, temperatura termodinâmica, quantidade de uma substância e intensidade - são definidas em termos de fenómenos naturais, a definição de massa continua a ser tautológica: um quilograma é igual à massa de um protótipo guardado num cofre em Paris, que ainda por cima se descobriu que está a ficar cada vez mais leve. Há mais de 20 anos que se procura uma definição alternativa, e a esperança de encontrá-la parece ainda longínqua. Quem quiser saber mais sobre este árido mas interessantíssimo assunto pode consultar estas excelentes páginas das autoridades metrológicas do Reino Unido e dos Estados Unidos.
Uma curiosidade que descobri, daquelas que nos fazem lembrar que vivemos num dos países mais pobres da Europa: enquanto noutros países as cópias originais do metro padrão são religiosamente conservadas pelas instituições depositárias como as que referi, manipuladas o menos possível para não perderem a acuidade, e regularmente enviadas a Paris para calibragem, a cópia portuguesa (a nº 10) está, não no Instituto Português de Qualidade, que é a autoridade metrológica portuguesa, mas no Departamento de Geodesia do Instituto Geográfico Português, onde continua a ser, como desde que Portugal a recebeu em 1889, unicamente utilizada para a calibragem de instrumentos topográficos.
Uma curiosidade que descobri, daquelas que nos fazem lembrar que vivemos num dos países mais pobres da Europa: enquanto noutros países as cópias originais do metro padrão são religiosamente conservadas pelas instituições depositárias como as que referi, manipuladas o menos possível para não perderem a acuidade, e regularmente enviadas a Paris para calibragem, a cópia portuguesa (a nº 10) está, não no Instituto Português de Qualidade, que é a autoridade metrológica portuguesa, mas no Departamento de Geodesia do Instituto Geográfico Português, onde continua a ser, como desde que Portugal a recebeu em 1889, unicamente utilizada para a calibragem de instrumentos topográficos.
O céu de Lisboa, ao fundo, visto do meu café favorito. Tem tudo o que eu gosto num café: janelas enormes para a rua, serviço supersónico, comida a horas improváveis, clientela heterogénea - trabalhadores vários da zona, turistas, junkies, putas, freaks e outros cromos.
28.12.03
Uma destas noites aconteceu-me, às tantas, estar num grupo de pessoas em que uma jovem de 19 anos ouvia música num discman. Peguntei-lhe o que era e pedi-lhe para me deixar ouvir um bocadinho, e ela passou-me os fones enquanto dizia "Não deves conhecer, não é da tua geração". De facto não conhecia, só por acaso, pensei. Na verdade, ocorreu-me depois, não conheço tanto da música popular actual como gostava, talvez porque, à medida que os anos foram passando, fui-me interessando por cada vez mais músicas diferentes, e às tantas percebi que é fisicamente impossível ouvir tudo o que se gostava - todo o jazz que há para ouvir, toda a pop, toda a tradição erudita, mais as outras músicas do resto do mundo.
Cada vez conheço mais melómanos eclécticos como eu, é um sinal dos tempos, creio. Mas a observação da miúda faz todo o sentido: por alguma razão ainda inexplicada - um fenómeno que vi referido uma única vez num livro do Simon Frith, o sociológo do pop/rock mais conhecido - a grande maioria das pessoas nas sociedades ocidentais passam por uma fase melómana, por volta dos 16-22 anos ou isso, e ficam fixados para o resto da vida na música que ouviram nessa altura.
Cada vez conheço mais melómanos eclécticos como eu, é um sinal dos tempos, creio. Mas a observação da miúda faz todo o sentido: por alguma razão ainda inexplicada - um fenómeno que vi referido uma única vez num livro do Simon Frith, o sociológo do pop/rock mais conhecido - a grande maioria das pessoas nas sociedades ocidentais passam por uma fase melómana, por volta dos 16-22 anos ou isso, e ficam fixados para o resto da vida na música que ouviram nessa altura.
Os Loosers fizeram ontem uma experiência interessante: deixaram o palco para o público e tocaram a meio das pessoas, numa obscuridade quase total. O curioso é que, ao estar ao mesmo nível dos músicos, o público fica intimidado, e os músicos também. Todo o ritual da interacção músicos-público, que é fundamental no rock, desaparece, e fica apenas o som.
A passar no Chiado, parei por uns momentos a ouvir este quarteto. Estavam a tocar o Tonight, do Leonard Bernstein (do West Side Story).

Que música extraordinária. Ao ponto de não ser ofuscada pela música seguinte, a famosíssima ária da 3ª suite para orquestra do tio Bach. O reportório ecléctico-populista destes agrupamentos tem uma vantagem: despidas dos seus contextos originais, as composições valem o que valem, apenas.
Ontem encontrei na rua um ex-colega de trabalho que já não via há uns anos. Numa rotineira conversa habitual nestes casos, tipo "o que tens feito?", com as inevitáveis lamentações sobre a crise e os desinteressantíssimos trabalhos com que nos vamos desenrascando, insisti: "Então e novidades?" "Olha, deixei de fumar". "Mas sabes, há uma coisa óptima: uma pessoa pode estar toda a noite a beber, e no dia seguinte ressaca zero".
Não foi a primeira vez que me disseram isto. De facto, desconhecemos muito a nossa fisiologia.
27.12.03
Acordei um bocado cinzento, a pensar, entre outras coisas, numa observação do júri do Guardian sobre o blog da Belle de Jour: "alguns membros do júri puseram a questão de se se trataria de uma obra de ficção, mas, mesmo que assim seja, não deixa de ser uma obra literária impressionante".
Pode alguém escrever sobre aquilo que não conhece? Suponho que a questão se levantou aqui, entre outras coisas, pela dúvida de haver uma puta de luxo tão culta e a escrever tão bem. Mas, por outro lado, haverá alguém capaz de se meter na pele duma puta de luxo e ser verosímil? Duvido.
Isto é certamente uma injustiça para com os milhões de pessoas que escrevem nas centenas de línguas que desconheço, mas há duas coisas em que os ingleses são os melhores do mundo: a escrita e o sentido de humor. E à Belle de Jour não falha à regra. Eis um exemplo duma entrada do diário dela:
dimanche, novembre 30
He: "So why do you do this?"
Me: "I'm not sure I have an answer to that."
"There must be something that you at least tell yourself."
"Well, perhaps I'm the sort of person apt to do something for no good reason other than I can't think of a reason not to."
"So if someone told you to jump off a bridge..."
"Depends on the bridge. Depends if they were paying. Why?"
"Oh, no reason. Will you suck me now?"
// posted by belle @ 1:08 PM
Outro:
samedi, novembre 22
Special Film Edition! As I've been staying in with drinks and videos all week, we've been having a little North London Prostitution Film Festival. Sorry darlings, but the event is muy exclusive - guest list runs to two. And the paparazzi have been, frankly, disappointing.
Women who are not working girls but should be:
Elizabeth Hurley (as discussed earlier)
Gillian Taylforth (ditto)
Laura Dern
Sue Barker
Women who have played WGs, but shouldn't have:
Julia 'Sexless' Roberts
Jodie Foster (no one must defile the goddess)
Jane Fonda
Elisabeth Shue
Perfect casting:
Laura San Giacomo. The Boy says: "Rowr!"
Patricia Arquette
Louise Brooks
Mira Sorvino
Special Award for Services to Tongue-Manipulation Ability During a Scene in Twin Peaks in Which She is Interviewing to Become a Prostitute:
Sherilyn Fenn
The Is She or Isn't She? Obfuscation Award:
Audrey Hepburn
Acceptable as a robot whore, but only just:
Daryl Hannah
My favourite movies about prostitutes:
Le Notti di Cabiria
Belle de Jour (obviously)
Frankenhooker
// posted by belle @ 11:20 AM
26.12.03
Acabo de reparar que foi há dias a segunda edição dos prémios do Guardian para os melhores blogs britânicos em 2003. Já dei uma olhada em dois e ambos me pareceram bastante bem: o prémio para o blog mais bem escrito e o prémio para a melhor utilização da fotografia. Não vale comparações idiotas entre os blogueiros da ex-sede do império britânico e os aqui deste cantinho.
Uma das minhas pequenas/grandes irritações, por razões laborais e não só, tem a ver com a questão do que é 'escrever bem', 'escrever correctamente' e 'falar correctamente'. Em tudo o que tem a ver com as ciências sociais é fácil uma pessoa irritar-se com as sociologias espontâneas e outras. Por contraste, nas ciências 'duras', é rara essa espontaneidade - quase ninguém se atreve a falar de física ou biologia sem ter formação na área. Mas a linguística é, provavelmente, a mais ignorada das ciências sociais em Portugal - só é ensinada nos cursos de Literatura (fora a excepção dum curso na Faculdade de Letras de Lisboa, pouco frequentado), onde é encarada um pouco como a geometria descritiva nos cursos de belas artes ou os métodos quantitativos nas ciências humanas: um pincel para 99% dos alunos, que acabam os respectivos cursos quase tão ignorantes nessa área como entraram. O resultado desta falta de cultura linguística é que entes como a Edite Estrela (que é tão nula em linguística como em gestão autárquica) ou os do Ciberdúvidas (que não passam de um punhado de curiosos bem intencionados mas ignorantes) gozam de alguma autoridade, enquanto uma obra tão séria (e fácil de consultar) como a Gramática da Língua Portuguesa do Celso Cunha e do Lindley Cintra é quase ignorada. E depois do falecimento do professor de Coimbra Álvaro Carmo Vaz, que tinha uma deliciosa coluna no Tal & Qual, nunca mais apareceu nada de jeito na imprensa.
Neste panorama, não é de admirar que a melhor página na web portuguesa sobre ortografia tenha sido feita, já há uns anos, pelo sr. Manuel Mendes de Carvalho, ex-oficial da Marinha Mercante, licenciado em Matemática e investigador-coordenador no LNEC, com principal área de interesse na Modelação Estocástica da Agitação Marítima.
Neste panorama, não é de admirar que a melhor página na web portuguesa sobre ortografia tenha sido feita, já há uns anos, pelo sr. Manuel Mendes de Carvalho, ex-oficial da Marinha Mercante, licenciado em Matemática e investigador-coordenador no LNEC, com principal área de interesse na Modelação Estocástica da Agitação Marítima.
O Legendary Tiger Man criou a sua tradição 'fuck Christmas' e todos os anos na noite de dia 25 toca na ZDB, desta vez com o convidado especial Zé Pedro (esse mesmo).
A noite de Natal foi tão animada que não consegui ir ao almoço familiar do dia seguinte.
Ao princípio da noite, vi esta família no Chiado: a mãe com duas filhas pequenas, cada uma delas com um carrinho de bebé e lá dentro um bebé-boneco em tamanho natural.
No Rossio, junto à estátua, um grupo de eslavos cantava uma canção em coro.
E nas Portas de Santo Antão, onde estava um grupo de ciganos romenos, já aceleradíssimos, com um gravador a passar música romena e a pedir dinheiro às pessoas. Depois lá pegaram nos acordeões e começaram a tocar a habitual mistura de hits internacionais de todos os tempo, tipo 'Besame mucho' e outras assim. Eu e o meu amigo aproveitámos o espírito natalício, demos-lhes uns euros e umas cervejas e pedimos-lhes para tocarem música romena. Eles tocaram, todos contentes.
25.12.03
Consegui passar uma noite quase anti-Natal, não fosse o poder esmagador, algo totalitário até, desta data. Num passeio pela Baixa, ao princípio da Noite, vi famílias inteiras de chineses a encherem a pastelaria Suíça e a comerem bifes nas cervejarias. Depois fui jantar a um restaurante indiano onde uns 80% dos clientes eram indianos, e acabei no Bairro Alto a percorrer as poucas capelinhas abertas.
Na verdade, as tradições desta noite estão longe de ser tão homogéneas como os nos fazem crer. Na ilha dos meus antepassados, por exemplo, a noite de Natal é uma festa pública nos meios rurais, e bebe-se nas tascas até altas horas, a seguir à missa do galo. O almoço do dia de Natal é que é absolutamente sagrado, e a ilha pára nesse dia - nem transportes públicos há. Em várias regiões do continente há a tradição da fogueira de Natal, que arde durante toda a noite nas imediações da igreja e onde os jovens da aldeia se juntam.
Talvez tenha qualquer coisa a ver com a celebração do solstício, do renascimento do Sol, que está na origem do Natal, como a própria igreja católica parece agora reconhecer.
No inquérito que veio no Público sobre o natal nas comunidades estrangeiras, achei uma delícia a forma como uma mulher caboverdiana descreve "a melhor maneira de passar a tarde" do dia 25: "pegar num homem gostoso e encostar, encostar bem e dançar umas coladeras". E acrescenta para a jornalista: "Já experimentou? Experimente, isso sim é que é Natal, é festa, é bom". África é mesmo outra coisa.
24.12.03

Por exemplo, conheci o Rothko pela primeira vez através dum postal que uma amiga enviou de Londres. Era o Two Openings in Black Over Wine, nunca me esqueci. Acho que nunca vi nenhum quadro ele ao vivo, mas adoro as repduções. Não faço a mínima ideia porquê.
E isto é o quê? Arte pop portuguesa? Arte popular portuguesa? Um elemento decorativo duma obra de arquitectura portuguesa? Foi feita quase na mesma altura (uns anos antes) das pinturas 'clássicas' do Lichtenstein.

Não há muita gente, que eu conheça pelo menos, que admita gostar da pintura do Roy Lichtenstein. Para mim é tão irrestível como, sei lá, um hit dos Human League como o Don't you want me ("You were working as a waitress in a cocktail bar", tralala), com a diferença que o Lichtenstein tem mais hits.
Comprei há dias um livrinho da Taschen sobre ele e é uma delícia (fora a tradução portuguesa que é má). O texto menciona, às tantas, o facto de ele, como quase toda a gente, conhecer a história de arte apenas através de reproduções. É uma questão que me sempre me interessou: se só conhecemos as pinturas através de reproduções, e o destino delas é cada vez mais serem vistas em livros, revistas ou na net, porque é que as ilustrações, ou a concepção gráfica das próprias páginas, não têm o mesmo estatuto de obra de arte? Este é, de resto, um paradoxo com que o Lichtenstein brincava. BD melhorada e/ou ampliada, mas que interessa isso.
23.12.03
22.12.03
Adoro arte pública desprenciosa, anónima e bem disposta.
Uma pequena brincadeira com o antropomorfismo dos objectos que fabricamos.
Como este marco de correio mal disposto (ainda por cima já lhe arrancaram um olho, coitado).
21.12.03
Uns comentários simpáticos que o autor deixou aqui no meu blog fizeram-me descobrir o blog dele, que é aquele de que gosto mais dos que até agora conheço, e esse por sua vez levou a este este, que dentro do género intimista é também o melhor que já vi. Forçosamente anónimo, talvez - é um diário duma personagem tão verosímil, até na sua fragilidade, que me interrogo se poderia ser de outra maneira.
Uma coincidência - ou talvez nem tanto, dada alguma identificação que sinto com a Ana dos matraquilhos - é que ela escreveu uma coisa sobre um sítio do qual tinha aqui umas fotos para postar eventualmente um dia. E então não resisto a pôr uma dessa fotos com o texto dela. Aqui vai.
Gosto da Rua de São José, apesar de ser uma rua estreita, suja e escura. Uma rua onde os antiquários vazios e tristes rivalizam com os restaurantes ruidosos, apinhados de empregados de escritório mal vestidos e mulheres feias. Onde as mercearias têm à porta caixas de fruta muito madura que ninguém compra. Onde há prédios abandonados, cobertos de musgo e verdete. Onde há grupos de homens à conversa sem nada para fazer a não ser olhar lascivamente as raparigas que passam. Onde os passeios, por serem tão estreitos, nos obrigam a tocar nas pessoas que passam por nós. Onde as portas abertas mostram escadas muito íngremes, em madeira bichosa. Onde há sempre um cheiro enjoativo a comida gordurosa. Onde, numa esquina, no número 138, há uma leitaria muito velha e suja, com um balcão alto. Uma leitaria onde quis deixar-me ficar durante a tarde, a beber cafés amargos e queimados e a fumar cigarros.
(Esta parte não foi escrita por mim)
Uma coincidência - ou talvez nem tanto, dada alguma identificação que sinto com a Ana dos matraquilhos - é que ela escreveu uma coisa sobre um sítio do qual tinha aqui umas fotos para postar eventualmente um dia. E então não resisto a pôr uma dessa fotos com o texto dela. Aqui vai.
Gosto da Rua de São José, apesar de ser uma rua estreita, suja e escura. Uma rua onde os antiquários vazios e tristes rivalizam com os restaurantes ruidosos, apinhados de empregados de escritório mal vestidos e mulheres feias. Onde as mercearias têm à porta caixas de fruta muito madura que ninguém compra. Onde há prédios abandonados, cobertos de musgo e verdete. Onde há grupos de homens à conversa sem nada para fazer a não ser olhar lascivamente as raparigas que passam. Onde os passeios, por serem tão estreitos, nos obrigam a tocar nas pessoas que passam por nós. Onde as portas abertas mostram escadas muito íngremes, em madeira bichosa. Onde há sempre um cheiro enjoativo a comida gordurosa. Onde, numa esquina, no número 138, há uma leitaria muito velha e suja, com um balcão alto. Uma leitaria onde quis deixar-me ficar durante a tarde, a beber cafés amargos e queimados e a fumar cigarros.
(Esta parte não foi escrita por mim)
Por falar em música ao vivo, isto às vezes parece um blog sobre isso. São fases, e até pode ser que não haja mais blogs sobre e isso e até seja útil. Como eu ia dizendo, há dias quase me iam batendo por estar a olhar para este cartaz - completamente distraído, não reparei que à frente do dito cartaz estava um jovem casal em animada discussão conjugal. Quando o rapaz mandou a primeira boca, pensei que estivesse a dizer qualquer coisa sobre o concerto e aproximei-me ainda mais. Vá lá que de repente percebi o que estava em vias de acontecer. Ainda por cima, na noite anterior um músico de uma das bandas disse-me que tinha ouvido protestos de um dono de um bar na mesma rua, por causa do suposto incitamento à violência do cartaz - dias antes tinha havido uma pancadaria enorme nessa rua.
Como de costume, acabei por ir à ZDB - não é só falta de imaginação, nem trabalho lá, embora às vezes pareça. Mas é um bar simpático, nem que seja por isso. Não ia lá muito motivado para o concerto. O rock'n'roll está decididamente na moda, mas as bandas portuguesas roqueiras que tenho visto têm mais energia que imaginação (fora dois ou três casos). Era o caso destes Act Ups, mesmo assim melhores nos momentos mais pop do que nos roquenróis propriamente ditos.
Gostei mais destes Vicious 5. Também não são nada originais, mas têm um bom som e são a banda mais coreográfica que tenho visto. Um fenómeno de energia. Têm é que cuidar da forma física, porque ao que parece não conseguem tocar mais de meia hora por noite - quando me lembro do tio Iggy, que ao fim de três horas continuava aos pulos perante uma audiência exausta com uma média de idades aí de uns 30 anos a menos que ele. Mas pronto, esse é um fenómeno da natureza.
E a aproximação do Natal deprime-me. Pela primeira vez comprei um disco por causa do nome: 'Fuck Christmas, I Got The Blues', do Legendary Tiger Man. Como já esperava, ao vivo é muito melhor, mas pronto, o título é genial e é como eu me sinto.
Decidamente odeio estes dias sempre a decrescerem. O que vale é que amanhã (às 6.51h) é o solstício de Inverno e as coisas vão começar a melhorar.
20.12.03
Os Tocàrufar são uns duns projectos mais interessantes que apareceu em Portugal. Só da quantidade nascerá a qualidade.
Um dos fenómenos musicais mais interessantes das últimas décadas, juntamente com o boom da chamada música de dança, foi o boom da chamada nova música antiga - que, curiosamente, começou a ser divulgada em Portugal por um programa que dantes era pop (o Em Órbita). A coisa tem muito que se lhe diga. É um regresso às origens, um esforço para recolocar a música do passado no contexto original - na interpretação, na escolha dos instrumentos e até no próprio local dos espectáculos - mas também uma des-sacralização, um reposicionamento, que atraiu camadas de públido a quem repugnava o clássico espectáculo burguês de música "clássica" (de que os paradigmas aqui em Lisboa são a Gulbenkian e o São Carlos). É também uma atitude pop, por vezes quase punk (na atitude provocatória, não no extremo profissionalismo e num certo culto do vistuosismo) e que criou um novo star-system. Claro que isto se traduz também no grafismo.

Este é um exemplo do princípio do anos 80 - o jovem virtuoso, de fraque, debruçado sobre o piano de cauda.

Vinte anos depois, a edição da ECM.

Estes são das grandes estrelas actuais do movimento. Descontando a indumentária e o local, a foto podia ser da capa de uma banda pop.

Outra estratégia gráfica é a das capas cartonadas com reproduções de pinturas. As da Alpha devem ser as mais bonitas.
Este é um exemplo do princípio do anos 80 - o jovem virtuoso, de fraque, debruçado sobre o piano de cauda.

Vinte anos depois, a edição da ECM.

Estes são das grandes estrelas actuais do movimento. Descontando a indumentária e o local, a foto podia ser da capa de uma banda pop.

Outra estratégia gráfica é a das capas cartonadas com reproduções de pinturas. As da Alpha devem ser as mais bonitas.
O underground alguma vez existiu? É possível que sim. Se existe, este cartaz com esta sobreposição de elementos pop à mistura com reminiscências de tourada faz parte da coisa, assim como o espectáculo que anuncia. O que me dá que pensar é que quem faz isto, tanto o autor do cartaz como os músicos, são amadores nisto e profissionais noutras áreas.
Também gosto muito deste, feito pela mesma pessoa há um ano e tal.
O céu quase uniforme, com estas abertas ao fim da tarde. A melhor parte do Natal é ver as ruas da Baixa e do Chiado cheias de gente. Devia ser sempre assim - não percebo muito bem esta febre consumista, eu que sou um consumista a tempo inteiro.
19.12.03
Depois descobri que lá também se vai à praia. A diferença é que, tal como o Nestor diz, a relva vai quase até à água.
Do lado de lá da ponte é muito diferente. Bebe-se copos e há publicidade nas ruas. Mas também não andam quase de carro, é mais de comboio e bicicleta. E interessam-se por politiken.
Isto faz-me lembrar que faz agora um ano que tal fui à terra do Nestor, que estava ali mas não quis ficar online. Aqui ia eu a passar por cima das Astúrias.
18.12.03
17.12.03
Esta é a Casa dos Espremidinhos. O avô Espremidinho queria à força um chalet na Outra Banda e já tinha o projecto e tudo, mas com as partilhas só lhe coube um terreno um bocado estreito. Como era um homem desenrascado e resoluto, adaptou o projecto, mesmo sem autocad, que não havia naquele tempo. O que vale é que na família eram todos magrinhos.
16.12.03
Levei tanto tempo a remodelar esta coisa que não me apetece mais estar aqui.
Ainda por cima cima estou irritado por ver o Saddam ao lado do Hitler e do Estaline no jornal que compro desde o primeiro número. Tenho que espairecer.
Ainda por cima cima estou irritado por ver o Saddam ao lado do Hitler e do Estaline no jornal que compro desde o primeiro número. Tenho que espairecer.
15.12.03
Depois de ter visto a catedral de Santiago de Compostela cheia de anúncios de patrocinadores das obras, já nada me espanta. Mas de facto já não há respeito - o Casão Militar faz 100 anos como se fosse o Pingo Doce.
Tinha prometido a mim próprio que não entrava no jogo das citações entre blogs, mas quem escreveu o comentário sobre a minha posta das árvores das Amoreiras tem um óptimo sentido de humor e tirar-lhe-ia o chapéu, se o usasse. Além de que já levou mais uma pessoa a ver as ditas árvores, ao que parece.
Só não falo do Saddam por puro desgosto. Mas a cretinice dos opinadores públicos parece não ter limites, como muito bem dizem os meus colegas da colina em frente. Hitler=Saddam??? Bom, nem escrevo mais nada para não me irritar que pode-me dar um chilique, isto não anda fácil.
Só não falo do Saddam por puro desgosto. Mas a cretinice dos opinadores públicos parece não ter limites, como muito bem dizem os meus colegas da colina em frente. Hitler=Saddam??? Bom, nem escrevo mais nada para não me irritar que pode-me dar um chilique, isto não anda fácil.
14.12.03
Um encontro imediato, no Mundo Mix. Já foi uma figura famosa da noite lisboeta nos gloriosos inícios dos anos 80, tipo neo-romântico, e sabia tudo sobre filmes musicais de Hollywood, como de resto sabia imenso sobre imensa coisa. Depois tornou-se um respeitável professor numa cidade de província. Não estranhei a indumentária quando o encontrei - cabelo rapado, blusão e calças cor de laranja - porque ele sempre foi extravagante, pensei simplesmente que era um novo visual. De modo que foi ele, perante a minha ausência de estupefacção, a fazer notar: "Então não sabias que eu agora sou Hare Krishna?". "Não", disse eu. "E além disso o que é que estás a fazer agora?". "Nada, sou o presidente", respondeu ele com um grande sorriso.
Este casal tão cinematográfico estava, aparentemente, a olhar para este
que liam o Expresso à única hora em que sabe bem estar ali sentado.
Não consigo deixar de pensar que Portugal é um país lindo e Lisboa uma cidade fantástica. O pior é pouca gente reparar nisso, fora os estrangeiros.
De dia é o que é, e de noite temos as duas discotecas mais bonitas do mundo, com nevoeiro ou sem ele.
De dia é o que é, e de noite temos as duas discotecas mais bonitas do mundo, com nevoeiro ou sem ele.
13.12.03
A Mondo Bizarre comemorou quatro anos com uma noite de concertos no Santiago Alquimista. As bandas (Ex-Wife, More República Masónica e Old Jerusalem) não me convenceram, nem à minha assessora para as questões pop-roqueiras, que sabe muito mais disso que eu.
Agora, a Mondo Bizarre dá que pensar. Já há uns anos que reparei neste proto-fanzine. Está-se nas tintas para a moda - muito antes do rock estar de novo na moda, quando os críticos anunciavam pela 10.ª vez a morte do rock, eles dedicavam-se com entusiasmo a divulgar o que se ia fazendo. Fazia sentido porque falava de coisas que mais ninguém falava, e pelos vistos tinha público porque desaparecia rapidamente dos sítios onde era distribuída. E tinha publicidade. Depois, ao contrário de outros proto-fanzines, fanzines de luxo ou revistas alternativas, como lhe queiram chamar (como a Op, Umbigo, Número, Bíblia ou a Dif), tem montes de coisas para ler e grafismo reduzido ao mínimo. A qualidade da escrita é bastante razoável, acima da média mesmo, e até eu, que só reconheço 4 ou 5 nomes do que lá se fala, a consigo ler e com prazer. O último número confirma tudo isto - as entrevistas são bastante interessantes, as críticas dão vontade de comprar os discos - a da compilação da Stax, pelo menos, deixou-me de água na boca. A única falha que notei foi o artigo sobre a Crammed Discs, cheio de lacunas inaceitáveis (e acidentalmente cortado) e falta de contextualização - mas comprende-se, é uma história com 20 anos, não se pode conhecer o passado todo.
A Mondo Bizarre destoa do resto: é feita com entusiasmo e transmite-o aos leitores, e não anda armada ao pingarelho. Não faço a menor ideia de quem são as pessoas que a escrevem, mas têm uma coisa que, por incrível que pareça, faz muita falta na imprensa portuguesa, toda ela, desde o Público à Maria - quem lá escreve gosta de escrever, e gosta de ler, suponho, o que não admira: o jornalismo musical tem sido, desde há uns anos, o sítio por onde muito boa gente começou na imprensa. E não há cursos comunicação social e ambições de sucesso que substituam o gosto pela imprensa e pela escrita.
Este assunto dá muito mais pano para mangas. Não é decerto por acaso que é uma revista de música - é uma área que não intimida ninguém a escrever sobre. O que me leva a uma das minhas irritações de estimação: por que raio não se pode escrever assim sobre tudo - artes plásticas, cinema, arquitectura, jardinagem, política, economia? Se se pode falar com entusiasmo dos Strokes sem ter andado no conservatório, deve-se poder falar de arte contemporânea sem ter estudado filosofia ou pintura, de carros sem se ser engenheiro mecânico, e de economia sem se ser economista. O que é preciso é gostar do que se fala e não se deixar intimidar.
Bom, então parabéns e espero que não deixem de escrever quando deixarem de ter tempo para ouvir tantos discos - mais tarde ou mais cedo acontece a quase todos.
12.12.03
A circuito musical lisboeta está bastante interessante, como já não acontecia há uns anos. Às vezes não há nada como uma crisezita. Não há propriamente sítios onde se possa ouvir bandas com regularidade, fora a ZDB, mas há cada vez mais bares ou discotecas onde se vai ouvindo coisas novas, como o Frágil às quartas, o Santiago Alquimista, o Lounge às vezes, e mais alguns sítios. E há outra vez bandas bastante interessantes.
Os Loosers são talvez a mais badalada, e são certamente uma das bandas mais energéticas que alguma vez existiu em Portugal (o que não transparece nada nesta péssima foto, mea culpa). Quase todas as actuações que vi deles foram memoráveis e bastante trepidantes, incluindo uma que correu pessissamente, tão mal que acabou com o vocalista furioso a destruir a bateria, com os tambores a rolarem pela plateia e os pratos pelo palco. Lindo.
Os Tora Tora Big Band são completamente diferentes e igualmente muito bons. São uma big band formada por dois alemães, um austríaco, um dinamarquês, dois brasileiros, um americano, um caboverdiano, um italiano e três portugueses, todos excelentes músicos, profissionalíssimos. Uma das secções de metais mais bonitas que já ouvi, com quatro trombones e magníficos arranjos (do Johannes Krieger, creio) que me fazem lembrar o Sun Ra do princípio. Tocam regularmente na ZDB e os concertos são sempre uma festa.
Os Lolly and Brains juntam teclas e guitarras à electrónica, têm um som muito na moda e convenceram-me da única vez que os vi.
Não tenho nenhuma foto dos Refilon, que são mais refundidos e raramente tocam. Fiquei siderado quando os vi, e parece-me que destas novas bandas são a que tem potencialmente mais futuro, se quiserem e puderem. São originalíssimos - uma espécie de pop afro-lusitana muito cantarolante, com as vozes sempre em coro mais três guitarras acústicas, um baixo e uma bateria. Até que enfim, aparecem músicos da segunda geração da diáspora caboverdiana em Lisboa que fazem música que não é hip-hop nem se parece com o que os pais deles fazem. Muito emocionante.
Divertidíssimos são os Hysteria Iberica & The Bad Lovers, mais um grupo luso-estrangeiro (viva a imigração!). As más línguas dizem que é só Peaches+Pixies, mas que interessa isso - a Hysteria é das melhores performers roqueiras que tenho visto e, sim, bem podia chamar-se Melocotón só que é muito mais divertida e muito menos pretensiosa, o Gaby nota-se a olhos vistos que é apanhadinho pelos Clash mas não tenta disfarçar. Muito saltitante e hilariante. Tocam às vezes no Clube Naval, no Texas e na ZDB, e estou em pulgas para que gravem mais um cd.
Os Loosers são talvez a mais badalada, e são certamente uma das bandas mais energéticas que alguma vez existiu em Portugal (o que não transparece nada nesta péssima foto, mea culpa). Quase todas as actuações que vi deles foram memoráveis e bastante trepidantes, incluindo uma que correu pessissamente, tão mal que acabou com o vocalista furioso a destruir a bateria, com os tambores a rolarem pela plateia e os pratos pelo palco. Lindo.
Os Tora Tora Big Band são completamente diferentes e igualmente muito bons. São uma big band formada por dois alemães, um austríaco, um dinamarquês, dois brasileiros, um americano, um caboverdiano, um italiano e três portugueses, todos excelentes músicos, profissionalíssimos. Uma das secções de metais mais bonitas que já ouvi, com quatro trombones e magníficos arranjos (do Johannes Krieger, creio) que me fazem lembrar o Sun Ra do princípio. Tocam regularmente na ZDB e os concertos são sempre uma festa.
Os Lolly and Brains juntam teclas e guitarras à electrónica, têm um som muito na moda e convenceram-me da única vez que os vi.
Não tenho nenhuma foto dos Refilon, que são mais refundidos e raramente tocam. Fiquei siderado quando os vi, e parece-me que destas novas bandas são a que tem potencialmente mais futuro, se quiserem e puderem. São originalíssimos - uma espécie de pop afro-lusitana muito cantarolante, com as vozes sempre em coro mais três guitarras acústicas, um baixo e uma bateria. Até que enfim, aparecem músicos da segunda geração da diáspora caboverdiana em Lisboa que fazem música que não é hip-hop nem se parece com o que os pais deles fazem. Muito emocionante.
Divertidíssimos são os Hysteria Iberica & The Bad Lovers, mais um grupo luso-estrangeiro (viva a imigração!). As más línguas dizem que é só Peaches+Pixies, mas que interessa isso - a Hysteria é das melhores performers roqueiras que tenho visto e, sim, bem podia chamar-se Melocotón só que é muito mais divertida e muito menos pretensiosa, o Gaby nota-se a olhos vistos que é apanhadinho pelos Clash mas não tenta disfarçar. Muito saltitante e hilariante. Tocam às vezes no Clube Naval, no Texas e na ZDB, e estou em pulgas para que gravem mais um cd.
Estava uma tarde linda, e é altura de ir até ao jardim das Amoreiras. As gingko bilobas estão com as folhas desta cor, um espectáculo que dura mais ou menos uma semana.
Hoje de manhã ouvia-se um dos sons mais belos de Lisboa, o dos apitos dos navios por causa do nevoeiro.
11.12.03
Como foi possível acabarem com uma marca tão emblemática? E porque é que não põem avisos em tudo o que faz mal à saúde? Porque é que ninguém protesta?
10.12.03
Ainda a propósito do tio Handel, teria ele sido um antepassado dos Beatles ou do Bowie, nesta Londres já tão movimentada? Será que os londrinos andavam pelas ruas a assobiar as árias das óperas dele, o alemão naturalizado inglês que ia de propósito a Nápoles contratar os melhores castrati da época?
9.12.03
Outro espectáculo de fogo de artifício no mesmo ano em Whitehall, mas que correu bem segundo consta
E agora uma coisa totalmente diferente. Faz hoje 254 anos, 7 meses e 12 dias que, de acordo com a imprensa londrina da época, a circulação ficou interrompida durante três horas na London Bridge pela multidão que ia para os Vauxhall Gardens assistir ao ensaio geral da música encomendada pelo rei George II ao maestro, compositor e empresário George Handel para celebrar o tratado de Aix-la-Chapelle, que pôs fim à guerra da sucessão na Áustria. Estiveram lá cerca de 12 mil pessoas. Dias depois, a 27 de Abril de 1749, o grande espectáculo no Green Park foi um fiasco, não só causa da enorme chuvada que caiu, mas também porque o dispositivo de fogo de artifício, com 34 metros de altura e 123 de comprimento, acabou por explodir.
A propósito desta combinação de metal e nuvens, lembrei-me desta foto, tirada algures sobre o vale do Tejo há pouco mais de um ano. Lá em baixo são uns cúmulos de baixa altitude que se formam quando o sol bate no terreno húmido. Adoro andar de avião e vou sempre à janela.
Hoje cheguei ao local de trabalho tão atrasado que a foto é de lá, com guindaste e tudo (é um objecto mágico na sua simplicidade - como é que conseguem chegar àquela altura?). O céu continua lindo.
8.12.03

Diogo Inácio da Pina Manique (1833-1805), apesar de ter sido, de acordo com o site do SIS, homem de confiança do Marquês de Pombal, alcançou enorme poder e fortuna no reinado de D. Maria I, quando juntou o cargo de intendente geral da polícia do reino a todos os outros que já detinha (desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, contador da fazenda, superintendente geral dos contrabandos e descaminhos e fiscal da junta da administração da companhia de Paraíba e Pernambuco). Além de ter sido o fundador da Casa Pia, notabilizou-se pela ferocidade na repressão policial e na perseguição a todos os partidários das ideias liberais e iluministas (incluindo os partidários de Pombal).
Instituído como morgado do Alcoentrinho, perto de Alcoentre, no Ribatejo, em 1773, consegue, anos mais tarde, mudar o nome da aldeia para Manique do Intendente, e aí enceta, a partir de 1791, um projecto megalómano, que inclui a construção de uma Praça do Império, com edifícios para as futuras câmaras municipal e palácio da justiça,
além de um palácio para ele próprio.
O zelo com que perseguia todos os partidários do liberalismo, prendendo e deportando muitos deles, acabou por fazer com que, em 1801, caísse em desgraça e fosse demitido, por pressão da França revolucionária. Morreu dois anos depois. O palácio nunca foi concluído, e hoje Manique do Intendente é uma aldeia com uma praça enorme e um palácio inacabado em ruínas.

No palácio que foi a residência de Pina Manique em Lisboa, no Largo do Intendente, funciona hoje um bar de alterne. O presidente da câmara mandou cortar o trânsito no largo, ao que parece para que os toxicodependentes, putas e chulos que por lá páram estejam mais à vontade, e para que quem se desloca de carro não assista àquele triste espectáculo.
7.12.03
No Arquivo Fotográfico Municipal está uma exposição de fotografias do Paulo Catrica sobre a Madeira, que partiu dum convite da Casa da Cultura da Calheta - a instituição cultural madeirense mais dinâmica, parece-me. Não são fáceis de ver, e suponho que suscitam no público as mais variadas reacções - o que talvez seja uma virtude. É pena a montagem não estar tão boa como a original, na Calheta, mas mesmo assim vão ver. Eu gosto muito. Aqui vão dois exemplos.
No andar de cima está uma belíssima exposição do Emanuel Brás, feita com fotografias do espólio do arquivo, sobre os serões lisboetas antes de haver televisão.
No andar de cima está uma belíssima exposição do Emanuel Brás, feita com fotografias do espólio do arquivo, sobre os serões lisboetas antes de haver televisão.
6.12.03
5.12.03
Uma das recordações de infância mais persistentes que tenho é a da visita a uma aldeia no Alto Minho, com os meus pais e uma família amiga deles. Deve ter sido por volta de 1970, e a intenção era visitar a aldeia de Vilarinho da Furna antes que fosse submersa pela barragem (o meu pai trabalhava na companhia que nesse tempo explorava as barragens da bacia do Cávado). À última hora, já com o jipe que nos ia levar lá a postos, disseram-nos que não era aconselhável ir, porque a população estava demasiado revoltada com o que se passava. Ao contrário do que aconteceu agora com a Luz, Vilarinho desapareceu não só fisicamente - os seus habitantes dispersaram-se e só uns poucos, julgo, aceitaram as casas que foram construídas para eles nas imediações da barragem.
Suponho que por indicação de alguém que lá trabalhava, ou talvez fosse por acaso, acabámos por ir visitar outra aldeia ali perto. Ficava à beira da estrada e estendia-se por uma encosta abaixo. As casas eram de pedra, sem reboco, e não tinham chaminés. As ruas não eram pavimentadas e estavam cheias de lama - creio que era aquela mistura de lama e bosta de animais de pasto que ainda se pode ver, por exemplo, em Pitões das Júnias. Não havia uma única loja - o mais próximo disso, onde me parece que comprámos uns rebuçados ou uns refrigerantes, era uma casa duma mulher, a única onde havia alguma coisa para vender. Entrámos lá, mas não se via nada, porque, além de não ter luz, a lareira estava acesa e enchia a casa de fumo. Na cama estava um homem, o marido, tuberculoso segundo nos disse a mulher.
Outra parte de que me lembro foi de uns miúdos de lá nos terem mostrado o pequeno cemitério da aldeia, a mim e aos outros dois miúdos que estavam comigo. "Este aqui é o meu irmão", "o meu primo", "a minha irmã", iam-nos explicando os miúdos com um ar divertido enquanto apontavam para as cruzes por cima das campas de outras crianças como eles. Não pareciam nada incomodados com a presença dos pequenos mortos, num lugar onde certamente era normalíssimo ir-se assistindo, durante a infância, à morte de outras crianças, e onde sobravam de certeza muito mais crianças do que aquelas que tinham morrido.
Também me lembro de uma mulher nos ter ido mostrar a capela, onde havia uma imagem do padroeiro da aldeia. "Este é o São Jorge", disse a mulher, e acrescentou "e este é o... ihihihih" ao apontar o dragão, para ela o Diabo, supus eu, cujo nome não podia ser pronunciado. Era um riso matreiro, como se aquele ser subjugado pelo santo fosse, não uma encarnação do Mal absoluto, mas um bicharoco matreiro, de que não se fala mas está sempre presente. Deve ser isto o sexo, pensei eu.
Estávamos todos em 1970, eu, os meus pais, os meus amiguinhos, os pais deles, os miúdos e os adultos da aldeia, mas o nosso 1970 tinha carros, giradiscos, Beatles na rádio, pegadas na Lua, fascistas no poder e engenheiros e advogados na oposição, franceses, ingleses e suecos que viviam muito melhor e que nós e podiam ler os livros e ver os filmes e dizer o que lhes apetecesse. O 1970 da aldeia era também 1970 mas podia ser 1870 ou 1770 ou 1570 - com a diferença de que em 1970 eles, os da aldeia, sabiam que havia outros 1970, não o nosso de Lisboa, mas outro em França. Pertencia a outro tempo, em que a morte era uma coisa banal, o diabo não era o Mal - que vi pela primeira vez muitos anos mais tarde na imagem do Hitler no Triunfo da Vontade - mas uma força da natureza, quem sabe. As casas confundiam-se com a paisagem, certamente - e quase de certeza que toda a gente fugia para França. E hoje a aldeia deve ter ruas alcatroadas, carros estacionados, as casas devem ser daquelas que horrorizam os opinadores de jornal, toda a gente deve ter televisão, e até mesmo TV cabo.
Ocorreu-me esta história porque me apetecia falar duma coisa: o mundo estará cada vez pior? A maior parte das pessoas parece achar que sim. Eu, se pensar no meu 1970, acho sem dúvida que não. E quando penso naquela aldeia, sinto que vi, no passado, uma janela sobre um passado muito mais distante, quase tão distante e estranho como uma aldeia qualquer no Iémen ou na China, onde eu não gostava de viver, e onde não faço ideia se as pessoas gostam, ou gostavam, de viver, mas que alimenta os sonhos de outras pessoas, como eu, estendidas em sofás azuis à beira do aquecedor, a ler à luz eléctrica enquanto ouvem um CD de música indiana. Sonham com idades médias situadas no futuro, como escreveu o Veloso, como dois mil anos antes deles os romanos de Roma sonhavam com bucólicos campos e dóceis bovinos, só porque a idade média ainda não tinha acontecido.
Suponho que por indicação de alguém que lá trabalhava, ou talvez fosse por acaso, acabámos por ir visitar outra aldeia ali perto. Ficava à beira da estrada e estendia-se por uma encosta abaixo. As casas eram de pedra, sem reboco, e não tinham chaminés. As ruas não eram pavimentadas e estavam cheias de lama - creio que era aquela mistura de lama e bosta de animais de pasto que ainda se pode ver, por exemplo, em Pitões das Júnias. Não havia uma única loja - o mais próximo disso, onde me parece que comprámos uns rebuçados ou uns refrigerantes, era uma casa duma mulher, a única onde havia alguma coisa para vender. Entrámos lá, mas não se via nada, porque, além de não ter luz, a lareira estava acesa e enchia a casa de fumo. Na cama estava um homem, o marido, tuberculoso segundo nos disse a mulher.
Outra parte de que me lembro foi de uns miúdos de lá nos terem mostrado o pequeno cemitério da aldeia, a mim e aos outros dois miúdos que estavam comigo. "Este aqui é o meu irmão", "o meu primo", "a minha irmã", iam-nos explicando os miúdos com um ar divertido enquanto apontavam para as cruzes por cima das campas de outras crianças como eles. Não pareciam nada incomodados com a presença dos pequenos mortos, num lugar onde certamente era normalíssimo ir-se assistindo, durante a infância, à morte de outras crianças, e onde sobravam de certeza muito mais crianças do que aquelas que tinham morrido.
Também me lembro de uma mulher nos ter ido mostrar a capela, onde havia uma imagem do padroeiro da aldeia. "Este é o São Jorge", disse a mulher, e acrescentou "e este é o... ihihihih" ao apontar o dragão, para ela o Diabo, supus eu, cujo nome não podia ser pronunciado. Era um riso matreiro, como se aquele ser subjugado pelo santo fosse, não uma encarnação do Mal absoluto, mas um bicharoco matreiro, de que não se fala mas está sempre presente. Deve ser isto o sexo, pensei eu.
Estávamos todos em 1970, eu, os meus pais, os meus amiguinhos, os pais deles, os miúdos e os adultos da aldeia, mas o nosso 1970 tinha carros, giradiscos, Beatles na rádio, pegadas na Lua, fascistas no poder e engenheiros e advogados na oposição, franceses, ingleses e suecos que viviam muito melhor e que nós e podiam ler os livros e ver os filmes e dizer o que lhes apetecesse. O 1970 da aldeia era também 1970 mas podia ser 1870 ou 1770 ou 1570 - com a diferença de que em 1970 eles, os da aldeia, sabiam que havia outros 1970, não o nosso de Lisboa, mas outro em França. Pertencia a outro tempo, em que a morte era uma coisa banal, o diabo não era o Mal - que vi pela primeira vez muitos anos mais tarde na imagem do Hitler no Triunfo da Vontade - mas uma força da natureza, quem sabe. As casas confundiam-se com a paisagem, certamente - e quase de certeza que toda a gente fugia para França. E hoje a aldeia deve ter ruas alcatroadas, carros estacionados, as casas devem ser daquelas que horrorizam os opinadores de jornal, toda a gente deve ter televisão, e até mesmo TV cabo.
Ocorreu-me esta história porque me apetecia falar duma coisa: o mundo estará cada vez pior? A maior parte das pessoas parece achar que sim. Eu, se pensar no meu 1970, acho sem dúvida que não. E quando penso naquela aldeia, sinto que vi, no passado, uma janela sobre um passado muito mais distante, quase tão distante e estranho como uma aldeia qualquer no Iémen ou na China, onde eu não gostava de viver, e onde não faço ideia se as pessoas gostam, ou gostavam, de viver, mas que alimenta os sonhos de outras pessoas, como eu, estendidas em sofás azuis à beira do aquecedor, a ler à luz eléctrica enquanto ouvem um CD de música indiana. Sonham com idades médias situadas no futuro, como escreveu o Veloso, como dois mil anos antes deles os romanos de Roma sonhavam com bucólicos campos e dóceis bovinos, só porque a idade média ainda não tinha acontecido.
Gostei muito desta série de pinturas com ursinhos de peluche, duma jovem artista de quem não sei o nome nem quase mais nada. A fotografia é péssima, dá para ter só uma ideia. O ursinho à esquerda, em cima, tem umas jardineiras azuis que dizem "love me", e o de baixo uma t-shirt roxa com um daqueles corações tipo sagrado coração de Jesus; o da t-shirt amarela do do meio, em cima, diz "fuck me", e o colega de baixo veste uma t-shirt azul com um caralhinho; o da direita, em cima, diz "kill me", e o de baixo tem uma caveira numa t-shirt azul-clara. Bastante potente.
Isto estava numa espécie de feira de natal alternativa ou coisa do género, que houve na Casa Conveniente este fim de semana.
4.12.03
3.12.03
O governo português continua em força na vanguarda da subserviência aos valores propagados pelo Partido Republicano dos EUA (aliás, e já é mais que tempo de o partido no poder deixar de usar abusivamente o epíteto de social-democrata, porque não passam a usar o mesmo nome do partido do Bush?).
Agora lembraram-se de mais uma necessidade imperiosa dos portugueses, que é a dificuldade no acesso legal às armas de defesa (certamente para que os cidadãos se possam proteger neste país onde a violência é, segundo as sondagens, o principal problema a seguir às drogas ilegais). Assim sendo, em breve qualquer pessoa poderá adquirir uma pistola, desde que, como diz o Público algo enigmaticamente, a justifique com "motivos relacionados com a profissão ou a defesa pessoal e da propriedade". Segundo a lei em vigor, o porte de arma só é conferido a quem provar que transporta ou guarda "valores importantes" ou vive num local isolado. O anteprojecto de lei onde consta tudo isto prevê ainda a frequência obrigatória de cursos de 25 a 35 horas para quem tiver porte de arma, ministrados pela PSP "ou outras entidades licenciadas por lei", com reciclagens também obrigatórias de 5 em 5 anos, e a prática obrigatória de 100 disparos anuais (a venda de munições passa a ser livre, enquanto até agora estava limitada a 100 balas por ano). Além disso, as pistolas de 9 mm, até agora reservadas às forças armadas e policiais, passam a poder ser adquiridas por qualquer pessoa. Diz o presidente da comissão que elaborou o anteprojecto, Raul Esteves (dão-se alvíssaras a quem explicar quem é ele e qual o seu o interesse nisto tudo), que "um revólver de apenas 6,35 mm [o máximo permitido agora a civis] pode ser muito perigoso na mão (grande) de um homem, mas indicado para uma mulher". Enfim, sempre segundo o Público, a nova lei "integra artigos inovadores dentro da União Europeia". Pudera.
Aceitam-se teorias da conspiração.
Agora lembraram-se de mais uma necessidade imperiosa dos portugueses, que é a dificuldade no acesso legal às armas de defesa (certamente para que os cidadãos se possam proteger neste país onde a violência é, segundo as sondagens, o principal problema a seguir às drogas ilegais). Assim sendo, em breve qualquer pessoa poderá adquirir uma pistola, desde que, como diz o Público algo enigmaticamente, a justifique com "motivos relacionados com a profissão ou a defesa pessoal e da propriedade". Segundo a lei em vigor, o porte de arma só é conferido a quem provar que transporta ou guarda "valores importantes" ou vive num local isolado. O anteprojecto de lei onde consta tudo isto prevê ainda a frequência obrigatória de cursos de 25 a 35 horas para quem tiver porte de arma, ministrados pela PSP "ou outras entidades licenciadas por lei", com reciclagens também obrigatórias de 5 em 5 anos, e a prática obrigatória de 100 disparos anuais (a venda de munições passa a ser livre, enquanto até agora estava limitada a 100 balas por ano). Além disso, as pistolas de 9 mm, até agora reservadas às forças armadas e policiais, passam a poder ser adquiridas por qualquer pessoa. Diz o presidente da comissão que elaborou o anteprojecto, Raul Esteves (dão-se alvíssaras a quem explicar quem é ele e qual o seu o interesse nisto tudo), que "um revólver de apenas 6,35 mm [o máximo permitido agora a civis] pode ser muito perigoso na mão (grande) de um homem, mas indicado para uma mulher". Enfim, sempre segundo o Público, a nova lei "integra artigos inovadores dentro da União Europeia". Pudera.
Aceitam-se teorias da conspiração.
Ainda há dias dizia a um amigo que não se deve perder tempo a dizer mal daquilo que não gostamos, em vez de usá-lo para transmitir aquilo que amamos. Mas às vezes há decepções inesperadas, ou simplesmente não se resiste à tentação.
Por razões laborais tive de arranjar uma tradução dos sonetos de Shakespeare. Entrei na primeira livraria que me apareceu e disseram-me que só tinham a do Vasco Graça Moura. Apesar de não me ser nada simpática a personagem do antigo caucionador intelectual do PSD - no que foi substituído, com vantagem para todos, pelo Pacheco Pereira - acreditei no prestígio dele como tradutor e poeta (apesar de nunca ter lido a dita poesia) e não hesitei. Não li tudo, mas há coisas que me deixam estupefacto. Por exemplo:
Where art thou, Muse, that thou forget'st so long
To speak of that which gives thee all might?
Spend'st thou thy fury on some worthless song,
Dark'ning thy power to lend base subject's light?
A versão do VGM:
Onde páras ó Musa, há tanto esqueces
falar do que te dá poder? Te pões
a dar luz a vis temas e escureces?
Gastas fúria a cantar fúteis canções?
Que não é grande cronista já eu sabia. Mas isto é que é o grande tradutor, poeta e blabá? Vale tudo só para manter a rima e a métrica? E a poesia é o quê? Bom, não perco mais tempo com isto.
Por razões laborais tive de arranjar uma tradução dos sonetos de Shakespeare. Entrei na primeira livraria que me apareceu e disseram-me que só tinham a do Vasco Graça Moura. Apesar de não me ser nada simpática a personagem do antigo caucionador intelectual do PSD - no que foi substituído, com vantagem para todos, pelo Pacheco Pereira - acreditei no prestígio dele como tradutor e poeta (apesar de nunca ter lido a dita poesia) e não hesitei. Não li tudo, mas há coisas que me deixam estupefacto. Por exemplo:
Where art thou, Muse, that thou forget'st so long
To speak of that which gives thee all might?
Spend'st thou thy fury on some worthless song,
Dark'ning thy power to lend base subject's light?
A versão do VGM:
Onde páras ó Musa, há tanto esqueces
falar do que te dá poder? Te pões
a dar luz a vis temas e escureces?
Gastas fúria a cantar fúteis canções?
Que não é grande cronista já eu sabia. Mas isto é que é o grande tradutor, poeta e blabá? Vale tudo só para manter a rima e a métrica? E a poesia é o quê? Bom, não perco mais tempo com isto.
2.12.03
1.12.03
Ao que parece, sou dos pouquíssimos portugueses a acharem que o 1.º de Dezembro não devia ser assinalado, quanto mais feriado nacional. O Paulo Varela Gomes diz que "1640 foi o ano mais desgraçado da história de Portugal ao assinalar a subida ao trono de uns camponeses incultos residentes na altura em Vila Viçosa" e que "após Alcácer Kibir e, sobretudo, perante a ameaça das nações marítimas do norte da Europa, a nação portuguesa só tinha destino possível no quadro da União Ibérica e da igualdade entre estados consagrada pelo estatuto de Tomar", e eu concordo.
Fazendo um exercício de futorologia ante-pós-retrospectiva (será assim que se diz? Aceitam-se sugestões), como seria Portugal hoje? O português que falaríamos seria decerto um pouco diferente, seríamos todos bilingues e não teríamos todos a mania que falamos bem inglês (nem sequer o falaríamos nem sentiríamos necessidade disso).
Teríamos adoptado o hábito das tapas, ao mesmo tempo que, ciosos das nossas tradições culinárias, faríamos tudo para preservá-las. Ah, e haveria polvo à Feira e lacón com grelos em todos os restaurantes portugueses, uma vez que a Galiza faria parte da Região Autónoma de Portugal.
Não teríamos (eu pelo menos) de aturar todos os dias observações imbecis sobre "este país", "a falta de civismo dos portugueses", etc., que me levam a crer que cada um dos portugueses se acha um modelo de virtudes cívicas e laborais e que a culpa de tudo o que corre mal é dos outros 9999999 portugueses (fora a mãe dele, claro).
Pelo contrário, teríamos orgulho em pertencer à pátria de Cervantes, Velásquez, Manuel de Falla e de tantos outros artistas portugueses que decerto teriam despontado se não tivessem tido, como dizia o António Nobre, a desgraça de terem nascido em Portugal.
Quanto aos inconvenientes: o Pessoa não teria decerto existido, nem talvez o Herberto Hélder. Haveria um bando terrorista, conhecido talvez por Os Bragantinos, que lutaria pela independência, e teríamos de aturar conversas idiotas de jovens convencidos de que Portugal estaria muito melhor se fosse independente, como acontece um pouco por toda a Espanha, mesmo nas regiões mais pobres como a Andaluzia.
A única coisa que me angustia nesta ideia é a possiblidade de no Brasil não se falar português, e de não haver samba nem bossa nova.
Bom, agora não há nada a fazer nem vale a pena chorar sobre leite derramado, a ainda por cima estamos na UE, pelo que estas coisas já não fazem sentido. Mas pergunto a mim próprio quantos anos demorará até que a generalidade dos portugueses se convença de que Filipe II era o legítimo herdeiro do trono português, e que isso não aconteceu por acaso mas foi, sim, o fruto de uma série de alianças matrimoniais que, mais geração menos geração, inevitavelmente conduziriam à união ibérica - o que demonstra que a realeza portuguesa sabia que Portugal só era viável nesse quadro; que os espanhóis olham para Portugal com simpatia e curiosidade, mas sem apetite nenhum de nos invadir - nem que seja porque não somos uma presa apetecível; e que a Espanha é um dos países mais belos da Europa e está aqui ao lado, pelo que devíamos ir lá pelo menos tanto como os espanhóis vêm cá. Bem sei que foram quase 100 anos de lavagem ao cérebro na escola primária, mas que raio, já passaram quase 30 anos do 25 de Abril.
Fazendo um exercício de futorologia ante-pós-retrospectiva (será assim que se diz? Aceitam-se sugestões), como seria Portugal hoje? O português que falaríamos seria decerto um pouco diferente, seríamos todos bilingues e não teríamos todos a mania que falamos bem inglês (nem sequer o falaríamos nem sentiríamos necessidade disso).
Teríamos adoptado o hábito das tapas, ao mesmo tempo que, ciosos das nossas tradições culinárias, faríamos tudo para preservá-las. Ah, e haveria polvo à Feira e lacón com grelos em todos os restaurantes portugueses, uma vez que a Galiza faria parte da Região Autónoma de Portugal.
Não teríamos (eu pelo menos) de aturar todos os dias observações imbecis sobre "este país", "a falta de civismo dos portugueses", etc., que me levam a crer que cada um dos portugueses se acha um modelo de virtudes cívicas e laborais e que a culpa de tudo o que corre mal é dos outros 9999999 portugueses (fora a mãe dele, claro).
Pelo contrário, teríamos orgulho em pertencer à pátria de Cervantes, Velásquez, Manuel de Falla e de tantos outros artistas portugueses que decerto teriam despontado se não tivessem tido, como dizia o António Nobre, a desgraça de terem nascido em Portugal.
Quanto aos inconvenientes: o Pessoa não teria decerto existido, nem talvez o Herberto Hélder. Haveria um bando terrorista, conhecido talvez por Os Bragantinos, que lutaria pela independência, e teríamos de aturar conversas idiotas de jovens convencidos de que Portugal estaria muito melhor se fosse independente, como acontece um pouco por toda a Espanha, mesmo nas regiões mais pobres como a Andaluzia.
A única coisa que me angustia nesta ideia é a possiblidade de no Brasil não se falar português, e de não haver samba nem bossa nova.
Bom, agora não há nada a fazer nem vale a pena chorar sobre leite derramado, a ainda por cima estamos na UE, pelo que estas coisas já não fazem sentido. Mas pergunto a mim próprio quantos anos demorará até que a generalidade dos portugueses se convença de que Filipe II era o legítimo herdeiro do trono português, e que isso não aconteceu por acaso mas foi, sim, o fruto de uma série de alianças matrimoniais que, mais geração menos geração, inevitavelmente conduziriam à união ibérica - o que demonstra que a realeza portuguesa sabia que Portugal só era viável nesse quadro; que os espanhóis olham para Portugal com simpatia e curiosidade, mas sem apetite nenhum de nos invadir - nem que seja porque não somos uma presa apetecível; e que a Espanha é um dos países mais belos da Europa e está aqui ao lado, pelo que devíamos ir lá pelo menos tanto como os espanhóis vêm cá. Bem sei que foram quase 100 anos de lavagem ao cérebro na escola primária, mas que raio, já passaram quase 30 anos do 25 de Abril.
Entalados entre duas frentes frias, como se pode ver abaixo (e se sente na pele). Bom tempo para passeios de guarda-chuva.




