9.10.04




Foto pirateada do Hardblog


Alguma coisa não corre bem quando, sistematicamente, as pessoas tomam posições sobre intervenções urbanas quando já não há nada a fazer. Não percebo. A venda do Convento dos Inglesinhos a uma imobiliária para construir um condomínio de luxo já foi noticiada há uns dois anos. Foi preciso as máquinas entrarem em acção para, de repente, uma série de pessoas, desde o Fonseca e Costa ao mentor do Hardblog, se lembrarem de protestar.
Já há uns anos aconteceu o mesmo com o quarteirão entre a rua do Trombeta e a rua da Rosa. Conhecia muito bem o famoso "quarteirão antigo", demolido "para a construção de um Condomínio Privado", como diz o Hardblog, porque tenho uma velha amiga que mora mesmo em frente há muitos anos: era uma ruína, simplesmente, onde parecia ter funcionado em tempos uma instalação industrial. Estava tão degradado que nem o Hélder Carita, no 'Bairro Alto, Tipologias e Modos Arquitectónicos', conseguia identificar com segurança o que aquilo teria sido. Ora, o que a mim sempre me escandalizou foi aquele buraco no meio do bairro, e não o facto de terem construído lá um prédio novo (não percebo porque é que lhe chamam condomínio privado). Acho-o feio, mas é muito melhor aquilo que um buraco degradado. Como diz a minha vizinha Rosa Pomar, venham os tios e tias, casais novos e menos novos, e já agora solteir@s também. Não vejo qual é o problema de se fazerem prédios de luxo em zonas históricas. Pelo contrário, acho muito bem. Os ricos também têm direito, e de resto, historicamente, no Bairro Alto sempre coexistiram habitação popular e palácios. E é preciso contrariar a tendência para a cidade se dividir em zonas socialmente homogénas, como tem acontecido nas últimas décadas.



Com o convento dos Inglesinhos é um pouco a mesma coisa. Só uma vez tive oportunidade de lá entrar, há dez anos, quando aconteceram por lá umas coisas no âmbito da Capital da Cultura. Era um espaço magnífico, mas muito degradado. Entre a manutenção ad aeternum da ruína e o condomínio de luxo, venha o condomínio de luxo. Manter património fechado e a degradar-se para servir de pasto aos arqueólogos do século XXII, não obrigado. A única posição sensata, neste momento, é a de exigir que os jardins sejam abertos ao público e que seja restaurada a igreja de S. Pedro e São Paulo, que é, segundo percebi do site dos Monumentos Nacionais, o que justifica a classificação do edifício. A mim também me escandaliza que a Misericórdia de Lisboa possa vender um património destes nestas condições, mas agora paciência. Acordássemos antes.
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