31.1.04





A Graça foi o último bairro popular lisboeta a ser construído e é provavelmente o mais estável e tradicional, apesar das aparências.



Só um bairro com poucos turistas é que consegue manter um reduto de fado amador como este, na rua principal.







A expressão do rosto é um elemento muito importante na performance fadista.



Este senhor pediu desculpa por passar à frente dos colegas que estavam inscritos para cantar mas tinha de ir ver o Sporting.




Construído em 1749, este prédio de rendimento era propriedade de familiares do marquês de Pombal, resistiu ao terramoto e antecipa a arquitectura dos prédios pombalinos. Fica na esquina da rua da Madalena com a de Santo António da Sé.





Céu muito nublado ou encoberto. Vento fraco a moderado (10 a 30 km/h) sudoeste, soprando forte (35 a 50 km/h) e com rajadas até 70 km/h no litoral oeste até ao fim da manhã. Nas terras altas o vento será de sudoeste forte a muito forte (40 a 60 km/h) e com rajadas da ordem dos 90 km/h. Períodos de chuva, temporariamente forte durante a madrugada e manhã nas regiões do norte e do centro e durante a tarde nas regiões do sul. Subida da temperatura.

30.1.04





Nunca percebi por que é tão difícil encontrar atacadores à venda. Há um sapateiro na Bica que tem, mas estão todos desemparelhados dentro dum caixote e perde-se imenso tempo à procura dos pares. Aqui têm os atacadores todos arrumadinhos em montras. Fiquei cliente.



E é inacreditável como já passei aqui milhares de vezes, sem exagero, na rua Garrett, sem ter reparado neste engraxador que parece saído duma fotografia dos anos 50 do Gérard Castello-Lopes, só que a cores. As cidades são uma espécie de objectos fractais.



Um dos paradigmas do português suave. A única coisa de que gosto (bastante) é das letras.



E a obra-prima do Cassiano, suponho que mais ou menos contemporânea (corrijam-me). Já não olhava para o hotel Vitória há uns tempo. Tenho que cravar um camarada para me introduzir lá a qualquer pretexto, para ver o interior, que nunca vi. O confronto entre estes dois edifícios é impressionante.



Há muita coisa que me escapa. A própria Margarida não sabe bem mas acha que estas vestimentas expostas na montra duma drogaria (sic) ou são de trazer por casa ou então servem para espectáculos de strip.



Céu geralmente pouco nublado, aumentando gradualmente de nebulosidade. Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) de sul. Períodos de chuva fraca para o fim do dia.

29.1.04





O marketing e a publicidade da indústria farmacêutica, que é a mais lucrativa do mundo ("Fortune" dixit), são, surpreendentemente, um bocado toscos. O marketing é muito 'direito ao assunto', ou seja, traduz-se, além dos patrocínios mais ou menos interessados a actividades de investigação e congressos e das visitas dos delegados de informação médica, em viagens, almoços, jantares e toneladas de esferográficas, relógios e outras tralhas que os médicos têm de deitar fora depois de terem esgotado a quem oferecer, e a publicidade é quase sempre abaixo de cão. Qual não foi o meu espanto, por isso, quando deparei, nos bastidores dum congresso de psiquiatria, com estas embalagens de Socian, um antipsicótico, com pastilhas elásticas dentro. São boas.
Esta foto estava aqui à espera de sair. Lembrei-me dela porque li no Público que o fabricante do Socian, o laboratório francês Sanofi-Synthélabo, lançou uma OPA hostil a outro dos grandes, o suíço Aventis. Se a fusão se concretizar, a companhia daí resultante irá facturar qualquer coisa como 25 mil milhões de euros (5 mil milhões de contos), um valor igual ao das exportações portuguesas em 2001, ou a mais de metade das receitas do orçamento de estado. Vá lá que, ao contrário do que acontece noutros ramos, a indústria farmacêutica é muito concorrencial e, mesmo com todas as fusões que tem havido, nenhuma companhia está em posição dominante nem nada que se pareça - mesmo os grandes continuam a ter quotas de mercado relativamente pequenas. O que também dá para ter uma ideia da dimensão do negócio, e da nossa pequenez individual e colectiva face a isso. Mas há, mesmo assim, outras indústrias muito maiores em facturação - e concentração e poder -, como a dos automóveis.

Samuel Pepys foi mais uma vez ao teatro, fez ontem 343 anos:

I went to Mr. Crew’s and thence to the Theatre, where I saw again “The Lost Lady,” which do now please me better than before; and here I sitting behind in a dark place, a lady spit backward upon me by a mistake, not seeing me, but after seeing her to be a very pretty lady, I was not troubled at it at all.



A auto-intitulada catedral do pão. Não é muito exagerado.



O clube mais abrangente de Portugal (não sei se existe o das Marias).





Sinais exteriores de gentrificação num bairro histórico.

O Planeta Reboque, um dos melhores blogs portugueses que conheço, publicou uma série de textos muito boa sobre o problema da reabilitação dos bairros históricos em Lisboa: A reabilitação urbana e Lisboa I, A reabilitação urbana e Lisboa II, A reabilitação urbana e Lisboa III, A reabilitação urbana e Lisboa IV e a A reabilitação urbana e Lisboa V.






Céu pouco nublado, tornando-se gradualmente muito nublado do litoral para o interior a partir do inicio da manhã. Vento do quadrante sul em geral fraco (10 a 20 km/h) tornando-se moderado (20 a 30 km/h) no litoral oeste e forte (35 a 50 km/h) nas terras altas a partir da tarde.

28.1.04





Lisboa está cada vez mais interessante, mas podia estar mais ainda. As comunidades estrangeiras têm muito pouca visibilidade, mesmo quando têm uma qualquer competência cultural em que se distinguem, como a música para os caboverdianos (que têm conseguido difundir a música deles, mas via Paris, porque aqui o mercado é demasiado pequeno) e russos e outros povos do Leste europeu, que têm tido um papel muito positivo no ensino da música erudita. Fora deste círculo quase não se houve falar deles, e é por isso uma surpresa encontrar na rua Garrett este senhor de São Petersburgo a cantar com voz operática uma série de coisas que não identifiquei, a não ser 'La donna e mobile' (em russo) e um tango (idem).




No final de cada música, soltava umas gargalhadas pausadas e cavernosas, 'Ah ah ah ah'.




Ia eu neste pensamentos pelas Portas de Santo Antão quando reparei neste cartaz da cantora ucraniana Oksana Bilozir, que vai dar um concerto no Coliseu no dia 31 de Janeiro às 20h. Não conheço mas vou lá ver.



A Helena Almeida, quanto a mim um dos artistas portugueses mais importantes dos últimos 100 anos, ou mais, vai expor mais uma vez em Nova Iorque. Para o Público é a primeira individual dela lá, mas há pelo menos uma galeria de NY, a Thomas Erben, que diz ter sido ela a fazê-lo, em 2001, e a Helga de Alvear, de Madrid, confirma. Alguém anda distraído.
É curioso como o trabalho dela, para além da enorme coerência e contemporaneidade, é absolutamente neutro em termos de nacionalidade (podia ser de uma artista de qualquer parte do mundo) quando ela sempre viveu e trabalhou em Lisboa, ao contrário da quase inglesa (ou quase portuguesa) Paula Rego, que manteve sempre uma forte ligação a Portugal nas suas pinturas.



Isso também fez com o que o reconhecimento internacional da Helena Almeida só começasse depois dos 60 anos. E talvez agora lhe passem a dar a devida importância por cá.



Céu geralmente pouco nublado, aumentando gradualmente de nebulosidade. Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) de sul. Períodos de chuva fraca para o fim do dia.


27.1.04





Gosto dos sinais do passado em Lisboa, como este São Vicente encarnado em corvo




ou esta placa, que dizem ser o mais antigo sinal de trânsito lisboeta (Sua magestade ordena que os coches e liteiras que vierem da portaria do Salvador recuem para a mesma parte)



simples iniciais como este S reptilíneo



ou esta discretíssima proibição de afixar anúncios.





Céu em geral muito nublado. Vento fraco a moderado (10 a 30 km/h) de oeste, soprando por vezes forte (35 a 50 km/h) nas terras altas, rodando para noroeste na região norte para o fim do dia. Períodos de chuva. Neblina ou nevoeiro em alguns locais.

26.1.04





É interessante como a saída do metro no Chiado se transformou num ponto de encontro simpático e muito concorrido.



Gostava de saber se o arquitecto pensou nisso. Lisboa tem muita falta de bancos públicos, e dá a impressão às vezes que é de propósito, como se parecesse mal estar sentado a conversar, a ler ou simplesmente sem fazer nada.





Céu muito nublado, com abertas até ao início da manhã nas regiões do sul. Vento moderado (20 a 30 km/h) de sudoeste, tornando-se moderado a forte (30 a 50 km/h) no litoral oeste a norte do cabo carvoeiro e nas terras altas a partir do fim da manhã. Períodos de chuva fraca, em especial nas regiões norte e centro, tornando-se moderada a partir da tarde nas regiões do norte. Neblina ou nevoeiro.

25.1.04





A Kevin Blechdom deu na ZDB um dos melhores concertos que vi ultimamente.



Não conhecia esta divertidíssima performer que grava para a Chicks on Speed Records e faz um one-woman show que faz lembrar os do fantástico



Felix Kubin (komm bald zurück, Felix, bitte) e tem afinidades com outras pessoas como a extraordinária



Vicki Bennett aka People Like Us. A mesma conjugação de cultura popular rétro, ironia, inteligência e electrónica.
(todos estes sites são óptimos, e no da Vicki Bennett pode-se descarregar dezenas de músicas e vídeos)



A retrospectiva do Gérard Castello-Lopes no CCB perde por ter demasiadas fotografias e foi das exposições dele que menos me emocionou. Os comentários do autor nas paredes são óptimos.



Lembro-me da última que tinha visto dele, o fantástico "David" no Arquivo Fotográfico.

24.1.04





A Ribadouro é uma das cervejarias mais bonitas de Lisboa, com a Solmar, a Trindade e a Portugália do rio, e é o único estabelecimento lisboeta que conheço que melhorou depois de ser remodelado.



E tem os azulejos recentes mais bonitos que conheço.



Uma vez estava ao balcão e vi através desta montra a Carla Bley e o Steve Swallow a olharem espantados para umas lagostas e santolas que lá estavam.

23.1.04





Em tempos, na parede exterior duma fábrica abandonada no centro do Funchal, havia um grafito que dizia em letras enormes: 'É favor não mijar aqui que dá chocos' - uma pérola de non-sense ilhéu para demover o esvaziamento de bexigas nocturnas contra a parede. Convém esclarecer que um dos erros de ortografia mais frequentes na Madeira é o de trocar os 'o' finais por 'e', de acordo com o sotaque da ilha, de modo que quem escreveu 'chocos' queria dizer 'choques', certamente.



Lembrei-me disto quando reparei nesta tampa numa rua do Bairro Alto - será que mijar aqui dá mesmo choques?

E ocorre-me outro erro ortográfico muito frequente na Madeira, que é o de trocar o 'l' por 'lh' - os madeirenses não conseguem dizer o 'l' se estiver a seguir a um 'i' - pronunciam sempre 'lh', o que faz com que confundam 'fila' com 'filha' e escrevam 'vilha' em vez de 'vila'. O corolário é que a palavra 'pila' é desconhecida, enquanto 'pilha' é mesmo que aqui. Descobri isto uma vez que vi na tabacaria do café que frequentava um letreiro que dizia 'Pilas/ Grandes - (tantos escudos)/ Médias (idem)/ Pequenas (idem)'.

22.1.04



Mais outro.

Um blog diferente.

A internet no Brasil, tal como muitas outras coisas, está muito mais desenvolvida que em Portugal. Neste site da Universidade de São Paulo pode-se descarregar dezenas de clássicos de escritores brasileiros e portugueses, como Machado de Assis, António Vieira, Eça, Herculano, Camilo, Cesário Verde, Eça, Gil Vicente e muitos outros, em formato Word ou Palm.



Segundo outro mito, não tão interessante, o elevador de Santa Justa seria um projecto do Gustave Eiffel. Suponho que foi inveja por o engenheiro francês ter feito a ponte D. Maria no Porto.



O elevador foi desenhado por um tal de Raoul Mesnier du Ponsard, que o França diz que era francês mas a Carris diz que era portuense, o que é uma ironia do destino.



Aqui está ele



a estender a Carta ao clube do Arco do Bandeira.



Hoje via-se muito melhor o D. Pedro.

21.1.04





Segundo um dos mais persistentes mitos urbanos lisboetas, esta estátua seria do Ferdinand Maximilian Joseph von Habsburg, príncipe da Hungria e da Boémia, e imperador do México durante três anos. Diz-se que iria a caminho do México e estaria a bordo dum navio a escalar Lisboa quando o imperador foi fuzilado em 1867, de modo que, como já não servia, teria sido aproveitada por assim sair mais barato.



Mas não. A estátua em cima do monumento é mesmo do Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon, regente do Brasil quando o pai, D. João VI, regressou a Portugal em 1821. Declarou a independência e foi proclamado Dom Pedro I, imperador do Brasil, no ano seguinte. Em 1826 é proclamado Dom Pedro IV, rei de Portugal, título de que abdica logo a seguir a favor da sua filha Maria da Glória. Em 1831 abdica do trono do Brasil a favor do filho D. Pedro II, após o que vem para Portugal com a filha D. Maria II e assume a regência em 1832. Morreu em 1834, após 36 anos de uma vida atribuladíssima, como toda essa época da história de Portugal. Foi pai numerosas vezes - deixou 4 filhos do primeiro casamento, 1 do segundo, 5 da marquesa de Santos e mais 4 de outras tantas mulheres, uma das quais era irmã da marquesa e outra uma freira. Conseguiu pelo menos duas coisas notáveis - antecipar a independência do Brasil e precipitar a queda do Antigo Regime por cá. Portugal entrou na modernidade e a padralhada amochou.
A história da estátua é um pouco menos atribulada, mesmo assim. Segundo o José-Augusto França, a ideia terá surgido logo após a morte do duque de Bragança e ex-regente-ex-imperador-ex-rei-ex-regente, na Câmara dos Pares. Depois de várias propostas infrutíferas, em 1842 foi aberto um concurso, do qual terá resultado, em 1851, um pedestal, sem estátua, que rapidamente ficou conhecido como o "galheteiro". Em 1864 o galheteiro foi demolido e passado algum tempo foi aberto novo concurso, que foi ganho por Gabriel Davioud (arquitecto, colaborador de Haussman) e Elias Robert (escultor). Passados quase 40 anos da proposta inicial, em 1873, o monumento foi inaugurado.
O grande humorista português do século XIX, Eça de Queiroz, descreveu-o assim:

Vossa Majestade está no alto de uma coluna, esguia, polida e branca como uma vela de estearina, e mostra, equilibrando-se sobre uma bola de bronze, um papel, a Carta - ao clube do Arco do Bandeira. É a quem Vossa Majestade a mostra. O clube do Arco do Bandeira, pela sua atitude, modesta e digna, parece não dar por tal. Vossa Majestade está com a espada na bainha. Vossa Majestade passa à posteridade com um rolo de papel na mão - como um tabelião ou um vale. Nada que lembre o soldado. É uma estátua-doméstica.

Na praça estava-se assim, segundo o mesmo Eça:

No Rossio, sob as árvores, passeava-se; pelos bancos, gente imóvel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéu na mão, abanando-se o colete desabotoado; a cada canto se apregoava água fresca do Arsenal; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céu abafava - e na noite escura, a coluna da estátua de D. Pedro tinha o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada.

E pronto, acho que prestei um serviço público - não encontrei esta história na net. Agora tenho que descobrir o que era o clube do Arco do Bandeira (alguém sabe?).

20.1.04





Nunca pensei que, ao procurar imagens para um texto sobre o Wolfgang Sievers que resolvi colocar em linha (o linque está lá em baixo à esquerda), fosse encontrar isto: um catálogo de fotógrafos australianos. Só do Sievers são milhares de fotografias. Quem gosta de cenários industrais, como eu, vá lá ver o catálogo dele. Não tive tempo de espreitar o resto.



Gosto de lojas antigas como esta Tabacaria Mónaco, no Rossio,




com os seus azulejos do Rafael Bordalo Pinheiro na fachada.

Sobrevive milagrosamente há mais de 100 anos (é demasiado estreita para se transformar em banco ou outra coisa) e continua a ter uma boa selecção de revistas, jornais e tabacos nacionais e estrangeiros.



Não percebo porque é que, aparentemente pelo menos, imensa gente vai às exposições da World Press Photo, que me parecem cada vez mais dirigidas para a exploração gratuita da violência, enquanto a Lisboa Photo passou quase despercebida. Como conheço pouquíssima gente que tenha visto a exposição do CCB e as espantosas fotografias do Philip-Lorca di Corcia (da série Street Works), lembrei-me de por aqui estas duas que pirateei. Aqui só dá para fazer uma pálida ideia do que elas são. Nunca vi uma iluminação assim.




O centro da cidade serve como local de reunião para quem chegou e vai sendo abandonado pelos que já cá estavam.



A acção popular do José Sá Fernandes a pedir a suspensão das obras do túnel das Amoreiras e o que se soube subsequentemente provam várias coisas, nem todas más. 1.º: já se suspeitava que a CML não tinha projecto nenhum nem qualquer justificação para fazer a obra - diz o JSF que a CML "adjudicou a empreitada sem minimamente saber se a obra serve a cidade" (sobre isto já escrevi aqui); 2.º A CML, além de anárquica, sonega o acesso a documentos que é legalmente obrigada (o JMF só teve acesso aos documentos depois de a CML ser intimada pelo Tribunal Administrativo a facultá-los); 3.º Não há organizações que lutem pelos interesses de Lisboa, e se há são uma cambada de bananas, sem ofensa a estes simpáticos frutos; 4.º (a única coisa boa) Vale a pena lutar pelos nossos interesses e até há mecanismos legais para fazê-lo. Muito melhor que bradar contra a ausência de democracia é explorar todos os recursos que o regime nos permite - "o sistema é um problema", como canta o Manuel João Vieira, mas um problema pior é toda a gente usar isso como desculpa para não fazer nada.
Passo a citar o JSF, numa conversa que tivemos há uns tempos:

É claro que é desmoralizante lutar contra uma administração pública prepotente. “O cidadão que quer reivindicar uma coisa, por mais simples que seja, sente-se impotente, e começa a pensar que não vale a pena. E aí é que eu digo ‘Desculpe lá mas vale a pena, porque nós temos direitos, temos que fazer qualquer coisa’. O problema é que as pessoas desmoralizam.” É um erro: deve-se insistir sempre. “A maior parte das pessoas antes de desistir acaba por fazer uma carta. Tem que se insistir.” E não é preciso recorrer a um advogado: “O direito é uma coisa intrínseca, não é preciso conhecer a lei para protestar”". (Quem quiser pode ler o texto completo aqui.)

19.1.04





Se fosse um pombo desviava o olhar. Por enquanto ainda não há gaivotas em excesso na cidade, por isso achei que esta tinha escolhido um bom ponto de observação - se calhar um idiota dum pombo tinha vertigens ali, espero bem.



Vi a notícia no Público sobre a passagem do Queen Mary 2 pelo Funchal. Pelo que me disseram de lá, "parecia mesmo o fim do ano".

.

Uma das coisas adoráveis nos madeirenses é o modo como aproveitam os pretextos mais inesperados para fazer a festa - um entusiasmo inocente e descomplexado que muitas vezes faz falta por cá. Aqui está a versão do Diário de Notícias da Madeira, um clássico da imprensa regional, indispensável para quem quer perceber alguma coisa do que lá se passa para além do lamentável folclore do AJJ com que os media de Lisboa se entretêm.

Uma página muito bem feita, interessante e divertida, do Pedro Cardoso Soares, aluno de Engenharia Informática e de Computadores do IST. Introduz-se o nome e data de nascimento e sai uma página do Jornal do Aniversário com a notícia do nosso nascimento em manchete, além de outros acontecimentos muito menos importantes do mesmo dia.

Todos sabemos que as sondagens eleitorais têm que ser publicadas com uma ficha técnica. Dos «media» consultados, nenhum considerou dever informar-nos sobre as respectivas fichas técnicas.

A citação é do sociólogo Luís Salgado de Matos, no Público de hoje, a propósito da notícia bombástica que saiu nos diversos media sobre as agressões sexuais a estudantes universitárias. Fico mais descansado por saber que não sou só eu a preocupar-me com a credibilidade dos inquéritos sociológicos, como já disse aqui.

18.1.04





Depois dos To Rococo Rot, era um choque cultural assistir a um concerto dos Irmãos Catita, agora sem Jimba,



pelo que foram necessárias alguma descompressão e ambientação prévias.

Foi um dos melhores concertos deles que assisti ultimamente,



com o Manuel João Vieira não excessivamente bem disposto



e o Phil Mendrix em grande forma.
É estranho como nestes anos todos (o MJV deve ser o músico pop em actividade ininterrupta há mais tempo em Portugal - os Ena Pá 2000 conseguem ser mais antigos que os Xutos) ainda não apareceu nada de jeito escrito sobre ele - também não é fácil, reconheço. Quanto a mim é um dos três melhores humoristas portugueses das últimas décadas (os outros são o MEC e o Vilhena) e, além de excelente músico, tem feito um excelente trabalho arqueológico e de divulgação da música pop portuguesa pré-1974. Estou ansioso por ouvir a nova banda dele, os Corações de Atum. Ele diz que é uma banda de jazz. No site dos Catita diz que vão tocar no Hot Club a 15 e 16 de Abril, mas não percebi de que ano.

17.1.04





Lisboa, de vez em quando, parece uma cidade civilizada.



Ontem, as escadas do Metro da estação Baixa-Chiado encheram-se para ouvir





os To Rococo Rot, um óptimo grupo de música electrónica alemão.




Havia também esta instalação vídeo high-tech da Vera Doerk.

A culpa foi do Goethe Institute Lissabon e da Galeria Monumental, que estão a organizar, até 14 de Fevereiro, o Em trânsito, um evento sobre a mobilidade e a vida urbana, com conferências, vídeos e concertos em torno destes assuntos tão importantes para as nossas vidas e com os quais quase ninguém se preocupa por cá. Deixemos de bater com a cabeça na parede e vamos pensar e agir.

16.1.04





Tenho estado a ouvir o Aceno, último disco do José Peixoto. Magnífico, como sempre, é uma espécie de síntese do que o mais injustamente ignorado músico português contemporâneo fez até agora, com a participação da Manuela Azevedo, dos Clã (uma delícia), da Filipa Pais, do genial José Salgueiro nas percussões, do Mário Delgado e do Ralph Towner (esse mesmo) nas guitarras, e do Mário Franco no contrabaixo. Quem não conhece (quase toda a gente) vá ao link acima e descarregue as amostras das músicas que lá estão em MP3. Podem começar aqui mesmo pelo lindíssimo Caixinha de Pandora com a líndissima Manuela do Porto.

O livro de João Pedro Costa Bairro de Alvalade - Um paradigma no urbanismo português (Livros Horizonte) vem preencher mais uma importante lacuna na história urbana de Lisboa. É um livro interessantíssimo, de leitura algo incómoda mas cheio de informação. Recomenda-se vivamente a todos os que se interessam por estas coisas. Uma das poucas sínteses que existem, o Lisboa - Urbanismo e Arquitectura, do José-Augusto França, praticamente ignora a mais bem sucedida urbanização de sempre em Portugal (com o Bairro Alto, muito bem documentado no Bairro Alto - Tipologias e modos arquitectónicos, do Hélder Carita), suponho que por não ter tido, na altura, nenhum estudo em que se basear. Se se editar a (também interessantíssima) tese de mestrado da Raquel Henriques da Silva (não percebo por que não está, e é também ignorada pelo França no dito livro), teremos, com o livro do França sobre Lisboa pombalina, mais o catálogo da exposição "Lisboa de Frederico Ressano Garcia", organizado pela mesma Raquel, teremos perto de 200 anos da história da cidade razoavelmente cobertos, e agora só falta o resto.

Uma boa notícia: a minha querida amiga João e o seu Miguel começaram um blog que, como não podia deixar de ser, promete imenso.



Acordei a pensar num dos meus livros favoritos, talvez aquele que me acompanha há mais anos - já sobreviveu a umas 10 mudanças de casa. O Guia do Marinheiro Amador, de Domingos Heitor Gomes (Clássica Editora, 2ª edição revista e aumentada, 1960), é um dos livros mais bem escritos que conheço e tem a particularidade, fascinante para mim, de não perceber a maior parte do que lá está escrito, apesar de o tema ser a vela - uma velha paixão minha, na qual alcancei sublimes estados de consciência. Eis uma passagem de um dos glossários:

Boças dos rizes - Servem para levantar o garruncho da forra à altura do gorne correspondente da tamanca da retranca. É um cabo que tem num dos chicotes uma pinha de boça. Enfia pelo outro de baixo para cima, num furo da tamanca, passa pelo garruncho da forra para o outro bordo, gurne no gorne correspondente ao furo, nesse bordo, prolonga por baixo da retranca e tesa por meio de teque para o respectivo cunho.

Há um paralelo na poesia, que são alguns sonetos do Jorge de Sena, como este:

Que marinais sob tão pora luva
De esbranforida pela retinada?
Não dão volpúcia de imajar anteada
a que moltínea se adamenta ocuva?

Bocam dedetos calcurando a fuva
que arfala e dúpia de antegor tutada,
e que tessalta de nigrores nevada.
Vitrai! Vitrai! Que estamineta cuva!

Labiliperta-se infanal a esvebe,
agluta, acedirasma, sucamina,
e maniter suavira o termidodo...

Que marinais, dulcífima contebe,
ejacicasto, ejacifasto, arina...
Que marinais tão pora luva, todo!




Parece que passaram as insónias.

15.1.04



Na sequência do post em baixo: há quem pense, e parece-me bastante verosímil, que foram os intelectuais portugueses a dar origem ao complexo de inferioridade e à mania da autoflagelação que parece cada vez generalizada de cada vez que se fala de Portugal por cá. Se continuam a deitar achas para a fogueira, estamos feitos. Já é altura de pensarem um bocadinho mais no assunto.

"O QUE SERÁ? É uma ideia, a do Bisturi; o que leva os portugueses a «não gostarem de flores, plantarem eucaliptos, consentirem tijolos e couves defronte das casas, não lerem, falarem alto, não terem cortesia no trato social»?"
Fiquei boquiaberto com este post do Aviz. «Os portugueses não gostam de flores»???? Como é que vocês descobriram isso? E quais portugueses? Todos menos o Francisco José Viegas e o Rui do Bisturi (e eu, já agora)? Quanto aos eucaliptos, sempre pensei que fosse a Portucel e outras empresas do ramo a plantá-los, e não «os portugueses». Eu cá nunca plantei nenhum. «Os portugueses» não lêem???? Mas quais portugueses? Todos, menos aqueles que lêem, presumo. Quanto à cortesia no trato social, é o mesmo.
Ora, presumindo que cada um dos portugueses que diz que «os portugueses» não gostam de ler, por exemplo, gosta, ele próprio, de ler, nem que seja o "Record", "A Bola" ou a "Maria" (se não, não diria isso); admitindo que essa pessoa certamente terá outros 4 portugueses, amigos ou não, pelo menos, com quem falar das suas leituras; considerando a hipótese de se que está a excluir os menores de 14 anos e os maiores de 65, sobram, de acordo com os Censos 2001, um pouco mais de 7 milhões de portugueses; assim, temos que bastará haver 1,2 milhões de portugueses a afirmarem que «os portugueses» não gostam de ler para que essa afirmação seja imediatamente autonegada.
Como não tenho a certeza se há 1,2 milhões de portugueses a afirmarem que «os portugueses não gostam de ler» (mas estou optimista), proponho que se faça uma sondagem nesse sentido. Se houver, podemos ficar mais aliviados: afinal, os portugueses gostam de ler, mas cada um deles adora pensar que é o único a gostar.




Uma achega ao meu texto que apareceu aqui: uma das coisas interessantes da "Arquitectura Popular em Portugal" (o facto de ser "em Portugal" e não "portuguesa" não é coincidência) é que foi, em parte (inseria-se também numa corrente internacional da época), um recurso à arquitectura tradicional para justificar a arquitectura moderna perante o regime, e contra o modelo oficioso da "arquitectura portuguesa" de que Cristino da Silva foi o expoente. Já não me lembrava que tinha lá em casa o livro do João Leal ("Etnografias Portuguesas", Dom Quixote), em grande parte dedicado a esta questão. Vem lá uma história deliciosa, relatada pelo Fernando Távora:

"O Salazar, através do Ministério das Obras Públicas, estava muito interessado no Inquérito, e o Arantes e Oliveira [ministro das Obras Públicas] também... Embora ambos tivessem uma visão diferente daquela que nós tínhamos. E eu lembro-me que na véspera da visita do Salazar à SNBA [à apresentação da maquete do livro] fez-se uma projecção de slides para o Arantes e Oliveira e passou em determinada altura um conjunto de casas - no Sul - todas iguais, com aquelas chaminés alentejanas fortes, uma solução bastante fechada. E o ministro disse «que bonito, isto parece arquitectura moderna». E eu que estava atrás - lembro-me perfeitamente disto - disse-lhe «mas, ó sr. ministro, o Inquérito vem exactamente confirmar a existência de grandes similitudes entre a arquitectura popular e a arquitectura moderna». E ele disse-me assim: «o sr. arquitecto pense isso, mas não diga isso amanhã ao sr. presidente do Conselho». Bom, no dia seguinte, chega o Salazar. E realmente foi um êxito a visita do Salazar, aquilo para todos nós foi um espectáculo: os pides, o carro do Salazar a chegar, as botas do Salazar. Bom, o Salazar sentou-se, o ministro apresentou-me dizendo que eu era o chefe da equipa tal [do Inquérito] e o Salazar olhou para mim e disse: «Chefe? Tão novo...» E eu disse-lhe: «Ó sr. presidente do Conselho, eu já tenho 31 anos». E ele: «É muito novo...» Depois, quando chegou a uma página que nós tínhamos na nossa maquete - e que aliás foi publicada - com os espigueiros do Lindoso, perguntou: «Onde é?». «É no Lindoso». «E qual é a pedra?». «É granito». «Isto é bonito, mais bonito que esse cimento armado que agora fazem para aí». Isto é textual. E eu disse: «Ó sr. presidente do Conselho, o cimento armado pode ser usado, não há inconveniente nenhum, o que é conveniente é que seja bem usado. É um material como a pedra é». E o tipo olhou para mim, olhou para a assistência e diz: «Tão novo... e já tão subvertido».

14.1.04



Excelente, este blog. Muita informação e meditação sobre Lisboa e outras cidades, e mais.

Nunca na vida suspeitaria que me viria a envolver em polémicas arquitectónicas, muito menos na web. É um debate para mim (e para quem me conhece bem) bastante déjà-vu. Começou aqui, continua aqui, aqui, e aqui. Entretanto, este blog já foi promovido a blog de arquitectura. Sinto-me uma espécie de Zelig, com muita honra.

Por falar em contextos, parece que a Radio3 da BBC vai emitir, pela primeira vez na história, a peça "4' 33'', de John Cage, na próxima sexta. Um paradoxo ainda maior que o criado pela peça, que, entre outras coisas, pretende deslocar a atenção do ouvinte para o contexto em que a música é tocada - durante 4 minutos e 33 segundos nada acontece a não ser os ruídos que os músicos e o público eventualmente emitam.

Isto faz-me lembrar que já assisti a algumas performances involuntárias do público em concertos de música contemporânea. Uma vez, num teatro duma cidade de província, estava o público já sentado, à espera do início do concerto, quando começa o ritual do costume dos músicos a afinarem os instrumentos, a que se segue o silêncio que antecede a chegada do maestro, que é suposta ser saudada com aplausos pelo público. Só que o público, pouco habituado a ir a concertos, estava à espera de ouvir música atonal e não sabia como era, de modo que assim que os músicos fizeram o tal silêncio as pessoas desataram a aplaudir, pensando que tinham acabado de ouvir a primeira peça. Depois entrou o maestro, lá perceberam o que tinha acontecido e aplaudiram outra vez.
Outra vez, no mesmo teatro, num recital de piano, alguém adormeceu e começou a ressonar. De cada vez que havia um breve silêncio (eram peças com muitos silêncios) ouvia-se a pessoa a ressonar. Às tantas alguém não resistiu e começou a rir baixinho, contagiou outros e em pouco tempo estava toda a gente a rir às gargalhadas. O pianista resistiu até ao fim da primeira parte, foi-se embora sem agradecer os aplausos e já não voltou.
O terceiro episódio de género de que me lembro foi no grande auditório da Gulbenkian, durante um magnífico concerto das Percussions de Strasbourg. Era de tarde, e a cortina que tapa o grande janelão que dá para o jardim estava aberta, o que dá um belíssimo efeito. Só que os vidros são fumados e não deixam ver bem do exterior, de modo que estava um casalinho no relvado muito entretido sem se aperceberem de que estavam a ser vistos por centenas de pessoas. A coisa ficou ainda mais interessante quando apareceu um polícia ao fundo e se aproximou do casal com ar dissuasor sem que este desse por nada, pondo o público do auditório em grande suspense, até que chegou ao pé deles, disse qualquer coisa e foram os três embora. Os músicos acabaram de tocar a peça perante um público às gargalhadas, sem perceberem o que tinha acontecido, uma vez que estavam de costas.



Reparei ontem que estava na última noite do ano chinês quando ia a passar no Coliseu. Nunca tinha visto tantos chineses juntos e de todas as idades, de criancinhas a velhos. Por uns minutos, no átrio do Coliseu, tive uma amostra do que será estar num sítio onde se é irrediavelmente diferente de toda a gente. O som deles todos a falarem ao mesmo tempo é muito diferente.



Lá dentro havia um espectáculo que começava à meia-noite, mas não havia qualquer cartaz. Os bilhetes vendiam-se numa mesa do átrio, onde estavam uns prospectos - suponho que deve ser o programa do espectáculo porque na capa tem estas fotos e lá dentro tem uns números com uns textos pequenos por baixo, com ar de serem as diferentes partes. Esses números e uma morada, algures na margem sul, são os únicos caracteres latinos.



Felizmente, não remodelaram o edifício exterior desta estação de metro, mesmo ao lado, quando fizeram obras lá por baixo há uns anos. É uns 20 anos posterior ao meu prédio natal e muito mais bonito - e continua a ser o mais bonito de todas as estações de metro de Lisboa.



O céu sobre o prédio onde nasci. Tem um chapelinho que supostamente o faria mais português que os outros.

13.1.04





A consciência cívica vai-se difundindo, aos poucos,



e a chegar aos lugares mais inesperados, como este café do Campo de Sant'Ana com provedor do cliente.



O melhor bairro de Lisboa, a seguir a Alvalade, vai resistindo muito mal à pressão especulativa. Não lhe serviu de nada ter sucedido à Baixa como centro e vai-se enchendo de buracos



que serão preenchidos por prédios de escritórios como este



ou este,



apesar de tudo não tão desastrosos como este conjunto mais antigo (espero que seja um bom sinal e não apenas coincidência).
Só que qualquer dia não resta nada da cidade do princípio do século XX e a Lisboa de Frederico Ressano Garcia merecia mais consideração.
Ocorre-me que, se não fossem as rendas antigas, talvez hoje nada restasse e não morasse lá mesmo ninguém. Valha-nos isso nessa perversão.





O céu sobre as Avenidas Novas, de novo.

12.1.04



Enviaram-me um link para este fantástico e obscuro site do Instituto de Meteorologia. Obrigado G.



Extraordinária, a entrevista ao Público/RR de Amílcar Theias, o ministro das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente. Uma só resposta chega para entender quais são as intenções do governo nesta área:

P - Foi um bom acordo transferir os direitos de construção do Meco para a Mata de Sesimbra?
Amílcar Theias - No momento oportuno, se os promotores levarem a cabo as ideias que tinham, se verá se se trata de um projecto meritório ou não. O acordo permitiu sanar um contencioso que havia.


A falta de tacto político, o modo como foge às perguntas e até a ingenuidade com que deixa perceber que é uma mera figura decorativa dizem o resto.
E esta faz-nos mesmo desconfiar que o apelido é mais que uma coincidência:

P. - Faz reciclagem dos seus próprios materiais em sua casa?
Amílcar Theias - Sempre fui uma pessoa com gosto por manter os meus bens. Tive um automóvel durante onze anos. Quando o vendi, ele estava quase como novo. Muitas vezes, em Portugal há falta dessa mentalidade. Achamos que as coisas são todas precárias.


"Achamos" que são todas mesmo, incluindo a mata de Sesimbra, pelos vistos, e o país todo, provavelmente. Tirem-me daqui.



Continuo com insónias.

11.1.04





Ontem à noite, ao jantar, falaram-me duma sondagem que tinha sido notícia na SIC com resultados espantosos, que confirmei hoje no Expresso: 76,6% das portuguesas casaram-se com o primeiro homem com quem tiveram relações sexuais, 59,5% dos portugueses acham que a SIDA se contrai nos centros de saúde, 8% acham que a SIDA se contrai através de relações sexuais, 40% dos homens recorrem ao sexo pago. Os investigadores "manifestam-se preocupados", diz a notícia, porque um estudo feito no início dos anos 1990 em Lisboa indicava que apenas 7,6% dos inquiridos assumiam o recurso ao sexo pago. A sondagem, fiquei também a saber, foi a feita a uma amostra de 1000 pessoas de todo o país, "representativa do que são os portugueses".
É incrível como se como se aceitam resultados destes e se faz notícia deles sem dar aos leitores quaisquer pormenores sobre a metodologia do inquérito. Isso é obrigatório para as sondagens. Pelos vistos, se o autor principal for doutorado em Sociologia já não é preciso, por mais inverosímeis que os resultados sejam.
Nada se diz sobre o principal foco de sida em Portugal, que são os consumidores de drogas injectadas - uma situação vergonhosa e muito bem conhecida de todos quantos se interessam pelo assunto, mas escamoteada por igualmente vergonhosas razões, apesar de sucessivos relatórios internacionais que alertam para o facto.
Estava também curiosíssimo por saber quem eram os autores do inquérito, e qual não é o meu espanto quando vejo que é uma equipa da Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso (e não Fundação do Bom Sucesso, como dizem no Expresso) e que um deles é a presidente da fundação, Louise da Cunha Teles - uma pessoa que admiro e estimo profundamente, que tem uma obra de décadas tão notável como discreta no campo da saúde pública. Sei que a fundação tem trabalhos interessantíssimos feitos a partir de da base de dados e de inquéritos aos utentes e que é uma instituição séria. Só que, não sendo propriamente sociólogo, me parece que resultados destes deviam ser apresentados, pelo menos, como alguma cautela, para mais quando provêm duma amostra tão pequena. E que os jornalistas deviam ter mais cuidado com estas coisas, mas isso já se sabe.

10.1.04





O céu sobre o Sado.



Na Carrasqueira, o cais periclitante parece uma daquelas conversas que se vão saboreando à medida que se vai mudando imprevisivelmente de assunto.



Mais um sinal optimista dos novos tempos portugueses: num restaurante na marginal de Alcácer, propriedade de um casal de alemães, uma empregada brasileira serve comida tradicional alentejana e pratos de cozinha internacional. Já há uns tempos que não comia um cozido de grão. Estava ortodoxo qb e bem feito, fora o tempo de cozedura insuficiente, mas como dissemos isso no fim tivemos direito a sobremesa oferecida. Os donos do restaurante organizam passeios Sado acima e Sado abaixo - "é aquele ali, não o jacuzzi flutuante", disse-nos o dono, apontando para um barquinho verde ao lado duma daquelas lanchas tipo Vilamoura. Lá dentro, a música era do Jorge Lima Barreto e do Carlos Zíngaro.
Quero muito mais estrangeiros em Portugal.



Já há dois ou três anos que não ia a Alcácer do Sal, e há muito tempo que não via uma ideia tão interessante como esta: uma ponte pedonal que faz com que seja possível substituir a velha rotina de andar para cá e para lá



ao longo da marginal por outra, muito mais interessante: um passeio num quadrado, passando por esta ponte para a margem esquerda do Sado



e depois por esta, de volta ao ponto de partida. É o renovar de uma velha e saudável tradição das cidades ribeirinhas.

Na realidade, parece que a justificação da ponte é servir a expansão da cidade para a margem esquerda, o que não invalida nada disto e também me parece muito bem.

9.1.04





Há tempos, numa dessas conversas que se vão ramificando ao sabor do que vem à mente, falávamos, suponho, da importância da consciência da inevitabilidade da própria morte na definição do que é um ser humano, e a minha amiga disse-me 'é como dizia o Pessoa, "o cadáver adiado que procria"'.
Fiquei siderado com o verso, uma definição genial que sintetiza milhares de páginas que se escreveram sobre o assunto.
Dias depois, descobri que tinha a Mensagem lá em casa - um livro que se deve ler sem pensar no que foi - e encontrei o tal poema, que é dedicado a D. Sebastião.

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?



8.1.04



Já tinha falado aqui dos blogs premiados pelo Guardian, e ontem vi no Abrupto a referência ao que ganhou na categoria "melhor blog especializado". É fascinante: trata-se do Diário de Samuel Pepys (1633-1703), um negociante e político londrino que, entre 1660 e 1669, escreveu um diário em que anotou toda a sua vida quotidiana, desde o acordar ao deitar - com muitas idas aos pubs e ao teatro. Todos os dias, o autor do blog põe em linha a respectiva entrada do diário, 343 anos depois - o blog começou a 1 de Janeiro de 2003 com a entrada correspondente a 1 de Janeiro de 1660. Eis um exemplo:

Thursday 3 January 1660/61

Early in the morning to the Exchequer, where I told over what money I had of my Lord’s and my own there, which I found to be 970l.. Thence to Will’s, where Spicer and I eat our dinner of a roasted leg of pork which Will did give us, and after that to the Theatre, where was acted “Beggars’ Bush,” it being very well done; and here the first time that ever I saw women come upon the stage. From thence to my father’s, where I found my mother gone by Bird, the carrier, to Brampton, upon my uncle’s great desire, my aunt being now in despair of life. So home.


As entradas contêm linques que podem ser (e são) comentadas pelos leitores. Nunca tinha visto as possibilidades do hipertexto tão bem exploradas. Mas o melhor é ir ver. O diário completo pode ser consultado aqui.



Esta tasca tem que se lhe diga. É como, quase todas em Lisboa, feia, com azulejos, os donos são do Norte,



e tem uma televisão (como um molho de alhos ao lado) que passa intermináveis jogos de futebol, esteja ou não alguém a ver. Muitas vezes não está mesmo ninguém a ver, porque a grande maioria da clientela são franceses que vêm (bem) aconselhados pelo Guide du Routard. Os donos lá vão servindo a mesma comida de sempre como se nada tivesse mudado, continuam a só ter lista em português e a não tentar falar outra língua que não a deles, têm sempre a casa cheia e fecham aos sábados. Uma lição.



Continua este céu irritante.

7.1.04





Voltou o mau tempo.



A sinalética e a informação ao público de um modo geral é uma das coisas que não funcionam em Portugal e não se percebe porquê - não custa quase dinheiro nenhum. Esta senhora acha que não tem nada que ser ela a prestar um serviço público e pôs este aviso no quiosque: "Neste estabelecimento não se dão informações".

6.1.04





Grande animação no local onde estava a trabalhar hoje: alguém deixou aquele saco de plástico junto à nossa vizinha Embaixada de Israel. Vieram os especialistas em bombas da PSP com equipamento sofisticadíssimo e, umas duas horas depois, concluíram que era um saco de lixo. Toda a gente ficou excitadíssima com o acontecimento, nostálgicos dos tempos em que eram jornalistas a sério. Mas foi o porteiro do prédio que teve os seus 15 segundos de fama: apareceu em dois telejornais a garantir, ao que dizem (não vejo TV), que eram um saco de plástico do Corte Inglés com latas de comida para gato vazias lá dentro (ninguém sabe como é que ele sabia). Houve um morador que se mostrava indignado ("Eu sabia que esta embaixada do Chile aqui ainda nos ia trazer problemas, porque é que não vão para outro lado"), e a dona da pastelaria da esquina, assediada pelos jornalistas da televisão, não prestava declarações aos jornalistas porque tinha os pastéis a queimar.



Alvalade é um dos meus bairros favoritos de Lisboa e não me importava nada de lá viver. Faz-me pensar, que raio, será que o bom urbanismo é incompatível com a democracia? Como é que um regime que era mau em quase tudo o resto conseguiu fazer esta obra exemplar e a democracia entregou todo o poder aos especuladores e empreiteiros? Não pode continuar a ser possível.

5.1.04



Gosto mais da outra, mas a Ginjinha do Largo de São Domingos (a Espinheira) vale por este delicioso cartaz carregado de mensagens do passado.



A legenda diz, do lado esquerdo:

Dona Fedúncia da Costa,
Delambida e magrizela,
Fez de ser tola uma aposta
Diz que ginjinha nem vê-la,
Porque, coitada, não gosta.


E à direita:

Já a ama de um reverendo,
Lá para as bandas da Barquinha,
Tem um aspecto tremendo.
Bebe aos litros de ginjinha
E é isto que se está vendo.


Para além das considerações sobre o ideal feminino de beleza, de ser uma marca da presença católica, rural e nortenha em Lisboa (aliás, o estabelecimento é e foi desde sempre de proprietários galegos, como muitas outras tascas e restaurantes da Baixa), é também um manifesto do sentimento anti-urbano que continua a ser uma das características de Portugal: a mulher roliça e rosadinha (e com uma ligação algo malandra ao reverendo, presume-se), sorridente com o seu xaile e lenço na cabeça, versus a mulher urbana, com um ar melancólico e sonhador, sozinha no café, muito elegante no seu vestido preto e chapéu branco.



A outra é esta, a Sem Rival. Sou cliente não pela bebida, que é apenas um pouco melhor que a outra. Primeiro, fiquei fascinado com o balcão de madeira, que ao longo do tempo vai criando uma mossa no lugar onde os empregados poisam os copos para enchê-los, até ficar totalmente deformado e ser substituído por outro igual. Já conheci três balcões - devo ter bebido uns litros de ginjinha nestes anos todos. Mas o que me fez ficar totalmente rendido foi ter reparado que o rótulo das garrafas da Sem Rival diz "Esta casa nunca concorreu a nenhuma exposição nacional ou estrangeira" - é que o rótulo da Espinheira está cheio daquelas medalhinhas a dizer "Exposição Internacional" de mil novecentos e troca o passo. A Sem Rival ganha-lhe sem apelo.



Um dia lindo e nós a vivermos um acontecimento trágico.

4.1.04



Há coincidências (ou então é o tal do zeitgeist, mais provavelmente). Acabo de encontrar um artigo do Público que não tinha lido e que fala de algumas coisas musicais de que também falei exactamente no mesmo dia em que o artigo saiu. Ainda por cima conheço quem escreveu e nunca tínhamos falado disso, acho eu, nem falámos. Juro.


Que bom sair no centro da cidade, olhar as ruas cheias de gente que sai com o sol,



que se deixa ficar num banco de pedra na praça principal a conversar e a beber um café e de repente já é de noite.



A lua ameaça encher-se em pleno dia - não me lembro de ter assistido a isto antes.

3.1.04



Encontrei um blog de que gosto muito.

Leio no Courier International sobre os jovens dos Estados Unidos que estudam medicina em Cuba. O número é insignificante (cerca de 50 estudantes), mas o que é dito sobre a qualidade do ensino e a diferença de perpectiva em relação ao EUA faz-me lembrar que este país, que aparentemente está a dar lições sobre a matéria a Portugal, tem um dos sistemas de saúde mais ineficientes e caros do mundo, de acordo com os dados da OMS: 13% do PIB vai para a saúde, contra, por exemplo, 9,5% da França (que, ao que parece, tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo) e 8,2% de Portugal. A esperança de vida nestes três países é de, respectivamente, para homens e mulheres, de 66,4/68,8 anos, 69,0/73,5 anos e 64,3/69,4 anos. Já é difícil engolir os argumentos da racionalidade económica quando falamos de um bem inestimável como a saúde - o pior é verificar que nem esse argumento funciona e nos querem impingir um modelo que, comprovadamente, não serve o bem comum. É benéfico para as seguradoras e para os médicos, apenas.





Desde que comecei a blogar que me interroguei até que ponto se pode escrever publicamente sobre aquilo que de facto interessa na vida - os afectos, o amor, a morte.

2.1.04





A Carris tem agora esta campanha em que reivindica o mérito de promover a leitura. De facto, já há uns anos que me interrogo se o facto de haver cada vez menos gente ler jornais em Portugal não estará relacionado com a utilização cada vez menor dos transportes públicos. Talvez as pessoas que lêem mais sejam precisamente as que deixaram de andar de autocarro, metro e comboio. A verdade é que me sinto uma ave rara com o jornal debaixo do braço, uma coisa que aqui há uns anos era perfeitamente banal. E quando ando de metro no estrangeiro, fico sempre espantado com a quantidade de pessoas que vão a ler.



A Lua tem destas extravagâncias de vez em quando e resolve mostrar-se em pleno dia.

1.1.04





Acho que só há uma tradição da qual sou seguidor, absolutamente fanático e até supersticioso: a da noite de passagem de ano.
É verdade que a obrigação de uma pessoa se divertir numa determinada ocasião tem bastante de utópico, e por isso há quem se recuse a participar na festa, fazendo deste dois dias um fim de semana como outro qualquer, e há mesmo quem ignore militantemente a ocasião, indo dormir mais cedo ou esforçando-se por seguir a rotina diária o mais estritamente possível.
Quanto a mim, divirto-me sempre mas no balanço final falha sempre qualquer coisa - a minha militância de estar em todos os sítios onde gostaria de estar e de encontrar o máximo de amigos e conhecidos possível faz, inevitavelmente, com que não consiga fazer uma (normalmente uma das principais) das 10 ou 20 coisas que tinha planeado com uma semana de antecedência.
Além disso, ou é impressão minha ou há cada vez mais gente a sair nesta noite, o que faz com que a logística falhe. Jantar fora, ir a um bar ou a uma discoteca, apanhar um táxi tornam-se tarefas dificílimas. Desta vez perdi-me na 24 de Julho à espera de um táxi e os planos de encontrar as cerca de 37 pessoas que ainda me faltava encontrar foram por água abaixo.



Dizia-me uma colega caçadora de imagens que lhe desagrada no fogo de artifício o desperdício de dinheiro que representa. Nunca tinha pensado nisso, mas concluí que é precisamente esse lado de absoluta inutilidade, de ver estourar milhares de contos num ápice por puro divertimento, um dos maiores actractivos da coisa.



O primeiro céu sobre Lisboa de 2004.

Weblog Commenting by HaloScan.com eXTReMe Tracker

Google PageRank Checker Tool

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Get Firefox!

Who Links Here