27.2.04

Cada vez estou mais convencido de que vivemos um momento excepcional na música portuguesa, mas há uns tempos que não ficava tão surpreendido e entusiástico com uma banda de cá.
Já de si, o cruzamento entre um rockeiro tão empedernido como o Tó Trips e um expoente máximo na música de tradição nacional como o Paredes prometia ser estranho. Lembro-me de o Trips, há um ou dois anos, contar como andava entusiasmado a tocar Paredes "em câmara lenta", depois de se ter lembrado de passar um disco do mestre com o pitch reduzido, como um disco em rotação lenta. O resultado, vi-o passado uns tempos no Lux, depois na ZDB com o Edgar Pêra e o seu gang, e novamente no (excelente) filme do Pêra 'Guitarra Com Pessoas Lá Dentro', em que só se ouve o Paredes a afinar a guitarra, com as músicas tocadas pelo Trips. Lembrava inevitavelmente as músicas do Ennio Morricone para os westerns-spaguetti do Sergio Leone, como se fosse música composta pelo Paredes para um western-bacalhau-à-brás. Estranho, sim, mas não deslumbrante.

Não tinha ouvido a versão completa com o meu homónimo Pedro Gonçalves. É mais um daqueles encontros improváveis entre músicos de linguagens diferentes, e que geralmente correm mal. Aqui não. Pelo contrário, o encontro entre os dois é muito enriquecedor e leva a lugares inesperados e insuspeitos, suponho que para ambos os músicos, como ambientes pós-rock

e mesmo reminiscências de Durrutti Column (!!!) quando o Pedro Gonçalves pega na guitarra. (Isto faz-me lembrar que, quando ouvi pela primeira vez o Amigos em Portugal, pensei que o Vini Reilly era o Paredes da pop. O Paredes transporta a memória de séculos de música portuguesa que transparece na incrível capacidade de improvisação, e o mesmo acontece com o Vini e a pop.)

Com os convidados Zé Pedro (que quase não se ouviu) e Gui (uma agradável surpresa no sax barítono), mais um baterista de que não sei o nome, o resultado continua a ser surpreendente e ganha um tom jazzístico ainda mais inesperado.
Há muito tempo que não sentia tanta vontade de ouvir um disco português. Já foi gravado, neste Inverno, numa semana de sessões em som directo numa casa da Zambujeira, com estes músicos e ainda outros como o Nuno Rebelo. Estou mesmo banzado.
Tudo isto vem também confirmar uma teoria minha, a de que em Portugal uma maneira viável de se ser criativo nas artes é ter uma actividade, no mesmo ramo ou não, que garanta a independência económica.

Já agora, aqui vai outro cartaz do Tó Trips para mais uma festa da amável Associação Recreativa Bitoke, esta noite no Texas Bar.

Olhar a publicidade como uma arte visual torna-nos imunes e permite-nos usufruir o trabalho de algumas das pessoas mais criativas que existem hoje.
26.2.04
















Estive na terra das oliveiras, do trigo, dos laranjais, de deus escrito em vários alfabetos e não tenho tempo para escrever mais nada.
20.2.04

Os Loopless, ontem na Bicaense. Têm quase tudo o que é preciso mas falta-lhes o principal - melhores músicas.

Os músicos são todos bastante bons, à excepção do baterista que é extraordinário. Nunca tinha reparado nele nem sei o nome. Explora muito bem os timbres e tem um domínio excepcional dos ritmos jungle. Só que é tão bom que ofusca os outros.
19.2.04
18.2.04
17.2.04

A linguística é em Portugal uma ciência quase desconhecida, e poucas são as pessoas que têm sequer uma ideia do que se trata. Não é raro encontrar pessoas cultas a falar de "filologia", um termo oitocentista completamente obsoleto, como sinónimo de linguística, ou encontrar quem pense que o trabalho dos linguistas consiste em estabelecer regras sobre o que se deve ou não escrever ou dizer, ou em escrever dicionários. A linguística não é nada disso - é uma ciência que "simplesmente" procura descrever a linguagem humana tal como ela é, assim como a biologia procura descrever os seres vivos tal como eles são, e não dizer como é que eles deviam ser. Dentro desta área de conhecimento, a linguística histórica (herdeira da filologia) é uma das mais acessíveis aos leigos. A Aventura das Línguas do Ocidente é um belíssimo livro de divulgação científica que dá um panorama da evolução e características de algumas línguas europeias, desde o grego e o latim até ao português, o italiano, o alemão ou o dinamarquês. Lê-se duma penada, apesar de ser grande, e é muito bem escrito, divertido, acessível e rigoroso - tudo aquilo que faz a boa divulgação científica. Indispensável para todos os que sentem curiosidade pela língua e querem ir um pouco mais além do senso comum e de charlatães como a Edite Estrela.

Este é um livro um pouco diferente - mais pequeno e mais especializado. Aliás, não pretende exactamente ser um livro para o grande público, e, embora seja também bastante acessível, pressupõe do leitor alguns rudimentos de fonética - mas não é grave se não os tiver. Paul Teyssier escreveu-o originalmente para a colecção Que Sais-Je, das Presses Universitaires de France, e é, como os outros desta colecção, um livrinho, escrito por um especialista consagrado, que dá conta do estado da arte sobre uma área muito restrita do conhecimento duma forma clara e sucinta. Neste caso, é a única obra de síntese que está editada, pelo menos em Portugal. Para quem tiver curiosidade em saber, por exemplo, porque é que o Camões falava com um sotaque próximo do dos brasileiros de hoje, como é que o português de Lisboa se foi diferenciando do do resto do sul do país (há mais de um século que se os lisboetas se vêem ao "espâlho" enquanto os alentejanos caçam "coêlhos") à medida que se ia impondo como norma, porque é que por cá achamos que há quem vá a "Bijeu" beber um bom "binho" ou porque é que escrevemos "cozer o peixe" e "coser um botão". Lê-se numa tarde e ainda dá para rir um bocado - embora não tanto como com o de cima.
16.2.04
15.2.04

Mesmo a propósito, tinha resolvido tirar uma fotografia à casa onde passei a infância, perto de Sintra. É uma moradia geminada que faz parte duma urbanização de finais dos anos 50.

A casa teve sorte com os novos donos - é das pouquíssimas que se mantém fiel ao projecto inicial. Mantiveram o jardim plantado pelo meu pai, apesar de faltarem lá bastantes árvores. Gosto das cores originais dos edifícios desta urbanização - pelos vistos ainda não havia a paranóia do branco, e os meus pais, que eram pessoas educadas e cultas, gostavam.

A quase totalidade dos outros edifícios não tiveram a mesma sorte. As cores foram bastante modificadas e acrescentaram-lhes marquises.

Mesmo muito adulterados por intervenções posteriores, os edifícios mantêm alguma beleza e a urbanização continua agradável, com uma escala humana, sem atropelos. Nos finais dos anos 50, princípios de 60, ainda havia o tal "pronto a vestir" em quantidade de que fala o Silva Dias - não era nada de especial mas era razoável para quem não tinha dinheiro para mais. E a urbanização seguia as regras - tinha uma escola, um supermercado, uma farmácia, ruas bem proporcionadas em relação à altura dos edifícios, espaços verdes de lazer, e ninguém tinha de andar mais de 10 minutos a pé para coisa nenhuma, incluindo apanhar o comboio.

A partir de meados dos anos 60, foi sempre a piorar. Suponho que alguma coisa aconteceu nessa altura, não faço ideia o quê, que fez com que deixasse de haver qualquer controlo sobre a qualidade dos edifícios

e do urbanismo. Na realidade, não se pode falar aqui em arquitectura, e muito menos em urbanismo. Ao contrário do que acontecia nos anos 50, por exemplo em Lisboa, nem sequer foram respeitadas as construções pré-existentes, que acabaram esmagadas por todos os lados como esta antiga quintinha que resiste teimosamente. Para não falar do património natural, como a Tapada das Mercês, uma tradicional zona de lazer saloia onde havia uma famosa feira, ou a mata da Rinchoa, com os seus pinheiros mansos, onde eu me lembro de ir apanhar pinhões quando era pequeno, que desapareceram irremediavelmente.
A visibilidade mediática de alguns edifícios e arquitectos, a partir de meados dos anos 80, juntamente com o silêncio sobre o desastre em que se tornou a construção para habitação e as hesitações quanto à política urbana só vieram aumentar a confusão. Neste contexto de des-urbanização, ou de anti-urbanismo, não admira que, para para os jornalistas e para o cidadão comum, o termo pejorativo de "betonização" se tenha tornado sinónimo de construção. E o comentário de Santana Lopes a propósito da polémica em torno do projecto do Aterro da Boavista ("eu gosto é disto aqui (gesto largo a designar a envolvente de prédios antigos) mas que não podemos voltar a construir porque os técnicos dizem que é pastiche") pura e simplesmente traduz o senso comum actualmente dominante em relação às cidades. A culpa é do péssimo "pronto a vestir" e de se ter esquecido a importância fundamental do urbanismo.
Faz-me lembrar uma conversa com uma pessoa com responsabilidade na política urbana, que argumentava em relação a isto que "se as pessoas vão para lá viver é porque gostam, eu cá gosto mais de viver nos bairros históricos". Pois. É como a televisão portuguesa - é a bosta que é, e se as pessoas a vêem é porque gostam. E também talvez porque nunca conheceram coisas melhores, ou se tiveram oportunidade de conhecer não tinham o capital cultural (ou mesmo monetário, porque a cultura também custa dinheiro) para poder apreciá-lo.
Não nos serve de grande coisa termos meia dúzia de edifícios excepcionais se a maior parte das pessoas só tem dinheiro para comprar ou alugar um apartamento confortável num sítio que é um pesadelo. Com sorte, vão depois vai ao CCB ou às torres do Foster e fica a saber o que é arquitectura. Receio bem que os que defendem a arquitectura como "arte" estejam, sem querer, a contribuir para esta situação.

Lisboa não tem visto crescer a sua população, bem pelo contrário, e também não está numa fase radiante da sua economia. O único dado novo é a existência de áreas com alguma dimensão onde a degradação impôs que se lhes tentasse dar nova vida. Mas deve a cidade, casuisticamente, legitimar este ou aquele empreendimento, sem previamente ter decidido como actuar com todos os outros que venham a seguir?
"Temos muita alta-costura na arquitectura portuguesa e pouco pronto-a-vestir e é dele que precisamos mais", diz Silva Dias, para quem os nomes de grandes arquitectos estão a ser usados para promover empreendimentos que escapam às regras.
Este excerto de um destaque no Público sobre o caso Foster/Boavista resume muito bem o que eu penso sobre o assunto.
E quando o próprio Norman Foster diz isto, há qualquer coisa que não bate certo:
P - Tem algum edifício favorito em Portugal?
R - Não um edifício... Em Lisboa, o que eu gosto é da variedade dos bairros, a forma como as colinas desenham a topografia, como se anda sempre para cima e para baixo. A sua riqueza é a topografia. Estou ansioso para a conhecer melhor.
Afirmações contraditórias como esta são comuns, e fazem-me pensar: se o Foster, ou qualquer outro dos arquitectos que defendem este tipo de intervenções, tivessem de comprar uma casa em Lisboa e tivessem de optar entre a zona da praça das Flores, por exemplo, e aquela urbanização, o que escolheriam?

Os Ölga, ontem na ZDB. Na onda pós-rock, uma das novas bandas de que gostei mais de ver ultimamente.
14.2.04
13.2.04

Uma loja linda e novinha em folha, esta na rua do Telhal, com uma parede repleta de reluzentes Stratocasters e Telecasters. A partir de 100 contos, pode-se escolher uma Fender a condizer com os sofás, ou como a que que o Jimi Hendrix tocava, por exemplo, de acordo com a idade dos habitantes da sala. Muito mais barato e bonito que um quadro da Arte Periférica, e ainda por cima também faz som. Para os mais metálicos, também há Washburns pretas muito bonitas.

O hábito não faz o monge, e pelos vistos não se deve mesmo pregar em paróquia alheia. Há muito tempo que não via uma coisa destas - inesperadamente, o público do O'Gillins reagiu ao concerto da Histeryca Hyberica & Bad Lover, uma das bandas mais calorososas, irreverentes e divertidas do momento, como se estivesse a ouvir canto gregoriano ou outra música tão desadequada um bar.

Houve quem abandonasse o bar, e quem resistisse imperturbável a beber o seu chàzinho e a escrever poemas a meias num caderninho mesmo depois de a Histeryca ter mostrado o rabo ornamentando com a frase "Esto es lo que hay" e, em desepero de causa, ter saído do palco aos pulos com o Gaby. Salvou-se a empregada e mais um punhado de fãs saltitantes ao fundo da sala.

Stratus


Céu pouco nublado tornando-se gradualmente muito nublado. Vento fraco. Condições favoráveis a ocorrência de aguaceiros e trovoadas no
litoral para o final do dia. Neblina ou nevoeiro durante a madrugada e manhã. Temperatura máxima prevista: 18º C

Temperatura mínima registada hoje: 10º C
12.2.04

Hoje fui rever o espectáculo que está há mais tempo em cena em Portugal. Continua impertubável, sempre com a mesma fascinante coreografia. As únicas coisas que mudaram desde há 20 anos é que passou a haver actrizes e há um painel electrónico à frente do palco que é um bocado feio. De resto, o texto continua na mesma - varia ligeiramente, de modo aleatório mas dentro de limites pré-estabelecidos, o que permite ao espectador concentrar-se apenas no timbre e na entoação dos actores. Absolutamente imperdível. Todas as terças e quintas-feiras, às 12.30, no Largo da Misericórdia.

Fazem sempre um ar de quem está prestes a rebentar às gargalhadas. Gostava de saber se alguma vez aconteceu.

Céu pouco nublado ou limpo. Vento em geral fraco do quadrante norte. Neblina ou nevoeiro ainda durante a manhã. Temperatura máxima prevista: 18º C.

Temperatura mínima registada hoje no Bairro Alto: 10º C.

11.2.04


Céu pouco nublado ou limpo, apresentando-se muito nublado na região sul durante a manhã. Vento em geral fraco de leste. Temperatura máxima prevista: 16º C.

Há tempos que não via uma joaninha, e muito menos a atravessar a rua. Que trabalheira com estes desfiladeiros todos.
É um homem? É um pássaro? É um avião? Não, é a Aranha Tecelã que veio resolver todos os nossos problemas!!! (todos não, mas poupar-nos o nosso precioso tempo)

O Diário de Samuel Pepys continua a revelar-se um manancial fascinante, com informação que vai desde a vida quotidiana, incluindo o teatro, a gastronomia, o álcool e o sexo, até à política e à economia. Eis entrada de 8 de Fevereiro de 1661:
At the office all the morning. At noon to the Exchange to meet Mr. Warren the timber merchant, but could not meet with him. Here I met with many sea commanders, and among others Captain Cuttle, and Curtis, and Mootham, and I, went to the Fleece Tavern to drink; and there we spent till four o’clock, telling stories of Algiers, and the manner of the life of slaves there! And truly Captn. Mootham and Mr. Dawes (who have been both slaves there) did make me fully acquainted with their condition there: as, how they eat nothing but bread and water. At their redemption they pay so much for the water they drink at the public fountaynes, during their being slaves. How they are beat upon the soles of their feet and bellies at the liberty of their padron. How they are all, at night, called into their master’s Bagnard; and there they lie. How the poorest men do use their slaves best. How some rogues do live well, if they do invent to bring their masters in so much a week by their industry or theft; and then they are put to no other work at all. And theft there is counted no great crime at all. Thence to Mr. Rawlinson’s, having met my old friend Dick Scobell, and there I drank a great deal with him, and so home and to bed betimes, my head aching.

Pepys refere-se a uma história pouco conhecida por cá, que as anotações dos leitores do blog esclarecem - os ataques de corsários argelinos às populações europeias durante os séculos XVI-XVIII com a finalidade de arranjar escravos para diversas finalidades. As maiores vítimas eram camponeses pobres da Espanha e de Itália. Calcula-se que, no total, tenham sido raptados mais de um milhão de pessoas em dois séculos.

Já conhecia a história através dum trabalho do meu amigo Jorge Valdemar Guerra sobre um destes ataques, à ilha do Porto Santo, em 1617. Foi o maior de todos os ataques de corsários a esta ilha desafortunada - segundo as crónicas, o Porto Santo ficou quase sem homens.

Esta prática tornou-se tão comum que foram criados em Portugal, tal como em Espanha e em Itália, instituições da coroa cuja única função era negociar os resgates, através de padres especializados que para isso se deslocavam ao Magrebe.

Como os raptados do Porto Santo eram muitos e eram apenas miseráveis camponeses duma ilha miserável perdida a meio do mar, não houve dinheiro para os resgates. Ficaram para lá quase todos.
O caso do Aterro da Boavista é paradigmático e vem nos manuais de urbanismo: uma zona periférica, afecta a um uso industrial, que se torna obsoleta e que com o crescimento da cidade acaba por ficar entalada entre zonas residenciais e/ou de serviços. Segundo a lógica do mercado, estes terrenos, à medida que o tempo passa, vão-se valorizando cada vez mais, sendo essa valorização dependente da dos terrenos que lhe são próximos - conforme, por exemplo, são contíguos ao centro da cidade, ou a uma zona central de serviços, ou a zonas residenciais mais ou menos ricas. Se se deixar o mercado funcionar sem entraves, como acontece de um modo geral nas cidades americanas, o resultado é simples: os promotores imobiliários apoderam-se dos terrenos e, mais tarde ou mais cedo, urbanizam-no da maneira mais lucrativa e, conforme as circunstâncias, a antiga zona industrial dá lugar a zonas de serviços ou de habiação de luxo. Este processo pode levar muitos anos, dado que os terrenos dentro da cidade vão, com tempo, tornando-se um bem cada vez mais escasso e valorizando-se aceleradamente por si próprios. Ou seja, ter uma fábrica abandonada na Boavista, ali quietinha, a cair aos bocados, é um "negócio" muito lucrativo e muito mais cómodo que investir em acções ou qualquer outro negócio. Se isso é mau para cidade e os seus habitantes, que remédio - há que deixar agir o mercado e salvaguardar os sagrados direitos dos proprietários.
Se este modelo já é de si contestável, na Europa, por razões históricas, culturais, de disponiblidade de espaço, é indefensável. Não se pode, ao mesmo tempo, salvaguardar a cidade histórica, como é tradição deste lado do Atlântico, e deixar agir livremente o mercado imobiliário. Se os deixassem, os promotores imobiliários ergueriam no Aterro uma barreira de arranha-céus, desfigurando a paisagem urbana.
O direito à posse da terra sempre foi fortemente condicionado na Europa quando colide com o interesse público. No caso dos terrenos urbanos, ao interesse público acresce outra justificação: a valorização desses terrenos pode considerar-se como um enriquecimento sem justa causa, como dizem os juristas. Que legitimidade tenho eu, que herdei do meu bisavô uma fábrica no Aterro, para usufruir das mais-valias provocadas por uma situação para a qual não contribuí (a expansão da cidade), prejudicando ao mesmo tempo os meus concidadãos?
A única solução é as autoridades locais expropriarem esses terrenos, elaborarem planos e urbanizarem-nos ou entregarem-nos a promotores privados para que os construam de acordo com as regras estabelecidas. Foi assim que Lisboa foi crescendo, embora na maior parte os terrenos expropriados fossem rurais, como é natural, uma vez que nunca houve por cá grande actividade industrial. Foi assim com o Bairro Alto, urbanizado a partir duma propriedade rural expropriada pelo rei D. Manuel I, com os terrenos adjacentes à Avenida da Liberdade e com as Avenidas Novas nos finais do século XIX, com Alvalade em meados do séculos XX, só para citar os exemplo mais felizes. A seguir ao terramoto de 1755, a questão de expropriar ou não os terrenos da Baixa também se pôs, naturalmente, e optou-se pela expropriação, basicamente porque pareceu ser a única solução viável - caso contrário ainda estaríamos à espera.
No Aterro da Boavista, só há uma solução: expropriar toda a zona, elaborar um plano de urbanização e entregar os terrenos a privados para que cumpram o plano - e isso não implica que seja a CML a fazer toda a planificação. Em Alvalade, a partir de certa altura, foram sendo aceites diferentes soluções urbanísticas, promovidas por privados, que se foram encaixando no plano, com bons resultados. Já que isto parece um pouco utópico no actual contexto político, então que se chegue a acordo com os actuais proprietários e se autorize uma urbanização que cumpra as quotas mínimas para habitação previstas no PDM. O que não faz sentido é deixar os promotores do Foster fazerem uma praça e deixar o resto - que é uma área enorme de armazéns e fábricas abandonadas, para quem não conhece - como está, à espera que aos proprietários lhes dê na real gana fazerem mais qualquer coisa.
Não há PDM que valha a casos destes - as autoridades têm de ter uma cenoura ou um chicote, ou ambas as coisas, para forçarem os privados a fazerem o que é do interesse público. Pensando melhor, sem cenouras e chicotes não há planeamento urbano. E é por isso que os PDMs são uma farsa. Alvalade levou cerca de duas décadas a completar, desde a feitura do plano geral à construção, passando pelas expropriações e pelos planos de pormenor. Nas Avenidas Novas foi mais ou menos o mesmo. Já passou uma década desde a publicação do PDM de Lisboa, que prevê a reconversão urbanística do Aterro, e nem sequer há um plano. Nem para o Aterro nem para muitas outras zonas.
Se este modelo já é de si contestável, na Europa, por razões históricas, culturais, de disponiblidade de espaço, é indefensável. Não se pode, ao mesmo tempo, salvaguardar a cidade histórica, como é tradição deste lado do Atlântico, e deixar agir livremente o mercado imobiliário. Se os deixassem, os promotores imobiliários ergueriam no Aterro uma barreira de arranha-céus, desfigurando a paisagem urbana.
O direito à posse da terra sempre foi fortemente condicionado na Europa quando colide com o interesse público. No caso dos terrenos urbanos, ao interesse público acresce outra justificação: a valorização desses terrenos pode considerar-se como um enriquecimento sem justa causa, como dizem os juristas. Que legitimidade tenho eu, que herdei do meu bisavô uma fábrica no Aterro, para usufruir das mais-valias provocadas por uma situação para a qual não contribuí (a expansão da cidade), prejudicando ao mesmo tempo os meus concidadãos?
A única solução é as autoridades locais expropriarem esses terrenos, elaborarem planos e urbanizarem-nos ou entregarem-nos a promotores privados para que os construam de acordo com as regras estabelecidas. Foi assim que Lisboa foi crescendo, embora na maior parte os terrenos expropriados fossem rurais, como é natural, uma vez que nunca houve por cá grande actividade industrial. Foi assim com o Bairro Alto, urbanizado a partir duma propriedade rural expropriada pelo rei D. Manuel I, com os terrenos adjacentes à Avenida da Liberdade e com as Avenidas Novas nos finais do século XIX, com Alvalade em meados do séculos XX, só para citar os exemplo mais felizes. A seguir ao terramoto de 1755, a questão de expropriar ou não os terrenos da Baixa também se pôs, naturalmente, e optou-se pela expropriação, basicamente porque pareceu ser a única solução viável - caso contrário ainda estaríamos à espera.
No Aterro da Boavista, só há uma solução: expropriar toda a zona, elaborar um plano de urbanização e entregar os terrenos a privados para que cumpram o plano - e isso não implica que seja a CML a fazer toda a planificação. Em Alvalade, a partir de certa altura, foram sendo aceites diferentes soluções urbanísticas, promovidas por privados, que se foram encaixando no plano, com bons resultados. Já que isto parece um pouco utópico no actual contexto político, então que se chegue a acordo com os actuais proprietários e se autorize uma urbanização que cumpra as quotas mínimas para habitação previstas no PDM. O que não faz sentido é deixar os promotores do Foster fazerem uma praça e deixar o resto - que é uma área enorme de armazéns e fábricas abandonadas, para quem não conhece - como está, à espera que aos proprietários lhes dê na real gana fazerem mais qualquer coisa.
Não há PDM que valha a casos destes - as autoridades têm de ter uma cenoura ou um chicote, ou ambas as coisas, para forçarem os privados a fazerem o que é do interesse público. Pensando melhor, sem cenouras e chicotes não há planeamento urbano. E é por isso que os PDMs são uma farsa. Alvalade levou cerca de duas décadas a completar, desde a feitura do plano geral à construção, passando pelas expropriações e pelos planos de pormenor. Nas Avenidas Novas foi mais ou menos o mesmo. Já passou uma década desde a publicação do PDM de Lisboa, que prevê a reconversão urbanística do Aterro, e nem sequer há um plano. Nem para o Aterro nem para muitas outras zonas.
10.2.04

A CML e os promotores imobiliários, ou vice-versa, estão a recorrer em ritmo acelerado à estratégia de apresentar um projecto duma estrela do firmamento arquitectónico internacional como forma de ultrapassar a sua própria inércia no cumprimento do PDM.

Dez anos após a aprovação do PDM, aqui está o mapa com os planos já aprovados, a vermelho.

Agora foi a vez do projecto do Norman Foster para a zona do Aterro da Boavista, visível aqui nesta maquete.
O PDM é um documento confuso e de difícil interpretação, como convém. Esta zona parece estar abrangida pelos seguintes artigos:
SECÇÃO IV
Das áreas de reconversão urbanística
Artigo 71.°
Âmbito e objectivo
As áreas de reconversão urbanística são espaços urbanos cuja ocupação e usos actuais, industriais e habitacionais, e espaços livres intersticiais, pela sua degradação e desadequação às áreas urbanas envolventes, devem ser sujeitos a reconversão de usos e das características morfológicas e das edificações.
Artigo 72.°
Categorias
As áreas de reconversão urbanística são constituídas, em função do respectivo uso predominante futuro, pelas seguintes categorias, conforme delimitação na planta de classificação do espaço urbano:
a) Áreas de reconversão urbanística habitacional, destinadas predominantemente ao uso habitacional e aos equipamentos e serviços complementares; b) Áreas de reconversão urbanística mista, destinadas predominantemente a usos habitacionais e terciários.
Artigo 73.°
Planos
Nas áreas de reconversão urbanística o licenciamento de loteamentos deve ser precedido de plano de urbanização ou de pormenor com a área mínima de intervenção de 1 ha.
SUBSECÇÃO I
Das áreas de reconversão urbanística habitacional
Artigo 74.°
Planos
1 - Nas áreas de reconversão urbanística habitacional, delimitadas na planta de classificação do espaço urbano, os planos de urbanização e de pormenor, a que se refere o artigo 73.°, têm de se conformar com as seguintes condições:
a) Os usos ficam sujeitos aos seguintes valores de superfície de pavimento mínimo e máximo, não podendo a superfície comercial de pavimento ser inferior a 10 % da superfície total de pavimento:
Uso habitacional - mínimo 70 %; Uso terciário e indústria compatível - máximo 30 %;
b) Os índices máximos são os seguintes: IUB - 1,8; c) A cércea de referência é de 25 m, devendo as propostas de soluções arquitectónicas que ultrapassem esta cércea ser devidamente justificadas no âmbito do plano; d) O disposto no capítulo III do presente título referente a rede viária, estacionamento e garagens.
(artigo 125.°)
UOP10 - Boavista
Os planos municipais de ordenamento do território (PMOT) da área da Boavista, a elaborar em rticulação com a Administração do Porto de Lisboa no que respeita à frente ribeirinha, devem ter os seguintes objectivos: Propor uma nova malha urbana para a área; Garantir as relações da cidade com a zona ribeirinha; Definir o programa funcional de acordo com a categoria de espaço em que se integra;
Articular a malha urbana com a Avenida de 24 de Julho e Rua da Boavista.
Não sei como obrigar a CML a respeitar os regulamentos que ela própria elaborou. Mas deve haver uma maneira.

Cirrocumulus stratiformis lacunosus.


Céu pouco nublado ou limpo, apresentando-se muito nublado por nuvens altas na região sul. Vento fraco a moderado (10 a 25 km/h) de sueste. Temperatura máxima prevista:16º C
9.2.04

O presidente da República desceu na minha consideração. Durante a visita oficial à Noruega, Sampaio (na foto com alguém que suponho ser Haakon, o príncipe regente, visto que o meu norueguês não é grande coisa) não foi assistir à conferência proferida pelo seu ex-rival nas presidenciais de 2001, Manuel João Vieira, no âmbito da exposição "Portugal - 30 artistas abaixo dos 40", no Stenersenmuseet de Oslo.

É verdade que o MJV falsificou a data de nascimento nos dados biográficos para poder ir passear à Noruega, de resto como mais uns quantos outros artistas portugueses que lá foram, e isso não é lá muito honesto, mas também não é desculpa para o Jorge Sampaio esquecer o fair-play.

Carlos Barretto, José Salgueiro e Mário Delgado, ontem na Fnac do Chiado na apresentação do Lokomotiv, o último CD do Carlos Barretto. O jazz (ou a música instrumental acústica urbana, ou que lhe queiram chamar) é uma das áreas mais sólidas da música portuguesa, com excelentes músicos como estes, o Carlos Bica, o Mário Laginha, a Maria João, o José Peixoto e vários outros. Não sei se é música portuguesa - europeia parece-me que sim, sem dúvida. Mais um argumento, talvez fraco, não sei, para quem duvida ou tem problemas com a identidade europeia de Portugal.
Talvez o Carlos Barretto, que há uns anos deixou um lugar confortável na orquestra do São Carlos para ir à aventura para Paris para tocar o que lhe apetecia tocar e aprender com os outros, diga alguma coisa sobre isso logo à noite na 2, na entrevista com a Ana Sousa Dias.

Cirrostratus nebulosus.


Céu em geral muito nublado por núvens altas, tornando-se gradualmente pouco nublado ou limpo nas regiões do norte. Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) de leste, neblina ou nevoeiro que em alguns locais podera persistir ao longo do dia. Temperatura máxima prevista: 17º C.
8.2.04

Segundo outra opinião quase consensual, os jovens portugueses são uma cambada de fúteis, ignorantes e outras coisas piores. Quanto a este tópico, a única coisa comprovável empiricamente é que, para além de os jovens portugueses terem genericamente um nível de escolaridade superior à dos pais deles, parece haver uma tendência para as jovens serem mais intelectuais que eles - a continuar assim, as mulheres vão rapidamente conquistar a esmagadora maioria dos trabalhos intelectuais.

Nas comemorações do quarto de século do meu ex-cunhado, havia quem jogasse ping-pong

e quem tocasse música

com a descontracção suficiente para atender o telemóvel sentado à bateria

enquanto na sala ao lado os mais velhos estavam entregues à interessantíssima actividade de ver futebol na TV.

Juro que, no fim da festa, este carrossel estava cheio de miúdas a cantarem o California Dreamin'. Eu é que estava ao telemóvel e só tenho duas mãos.

Há muito tempo que não ia a Cascais de carro, pela Marginal. Serviu para, mais uma vez, confirmar que a maior parte dos opinadores, jornalistas e intelectuais portugueses vivem numa dimensão diferente da minha: num dia cinzento de Fevereiro, os relvados de Belém estavam cheios, a praia de Carcavelos cheia estava, o Bar do Guincho idem. Ao que dizem, os portugueses detestam estar ao livre e odeiam espaços verdes e esplanadas. Na tal dimensão, em que devem ficar invisíveis. Mais verosimilmente, quem diz essas coisas é que não sai de casa.

Os Vizinhos, dos quais faço parte, acabaram por, silenciosamente, ganhar a batalha que os levou a aparecerem - a música ambiente na Baixa acabou de repente, sem aviso prévio. Isto prova algumas coisas. Primeiro, as más: os movimentos de cidadãos em Portugal são tão incipientes que um simples blog lançado por pouco mais de meia dúzia de pessoas, mais algumas, poucas, acções de rua, um abaixo-assinado e umas cartas à CML, consegue ser notícia, aparecer nos jornais, irritar a CML ao ponto de pôr o respectivo porta-voz a dizer disparates de que depois se arrepende. Tudo isto condiz com as experiências, que acompanhei ou em que participei, em graus variáveis, do Lisboa Abandonada, da Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados, ou até, num âmbito diferente, da ZDB. Estes pequenos movimentos (para não falar do "movimento" individual do José Sá Fernandes) conseguem ser muito mais eficientes (até em termos mediáticos) que os grandes, como a Quercus, que tem uma estrutura e meios materiais incomparavelmente maiores (na verdade, nem a Lisboa Abandonada nem os Vizinhos têm quaisquer meios ou apoios, e a ACA-M e a ZDB começaram da mesma maneira). As boas notícias são exactamente as mesmas: vale a pena lutar. Abaixo o niilismo e os sentimentos apocalípticos que servem de alibi para a inacção.

A ver se agora conseguimos fazer alguma coisa pelo 28.
Acho lamentável, esta campanha do PS. O combate político assim não faz sentido - se fosse a coligação PS/PCP que estivesse na CML, a oposição PSD poderia fazer uma campanha exactamente igual. Representa também um atestado de menoridade intelectual ao eleitorado - alguém acredita que o trânsito e a insegurança nas ruas tenham piorado desde que o PSD ganhou? E o que propõem? Mais polícia, pelos vistos, tal como reclama o PP. Não sei o que é mais triste - ver a direita no poder ou ver a esquerda sem alternativas.

Cirrostratus nebulosus.


Céu geralmente muito nublado, em especial por nuvens altas. Vento fraco, inferior a 15 km/h. Neblina ou nevoeiro. Temperatura máxima prevista: 17º C
7.2.04






Adoro bisbilhotar nas bibliotecas e discotecas dos outros, e hoje deu-me um ataque de exibicionismo. Gosto do caos relativo da arrumação e das cores diferentes.

Cirrostratus nebulosus.

Céu muito nublado, em especial por nuvens altas. Vento fraco (inferior a 15 km/h), predominando de nordeste. Neblina ou nevoeiro. Temperaturas máxima prevista: 17º C.
6.2.04

Cirrostratus cum filamentus aeroplani.


Céu pouco nublado ou limpo, tornando-se muito nublado nas regiões do norte e do centro durante a manhã. Vento fraco. Temperatura máxima prevista: 20º C.
5.2.04
Estou desejoso de ver o livro do Luís Fernandes e da Maria do Carmo Carvalho sobre "Consumos problemáticos de drogas em populações ocultas". Para já, a entrevista do Luís Fernandes ao Público é uma pedrada no charco, ao quebrar o tabu, já implícito no título, de que não há "a droga", mas "drogas", das quais há consumos problemáticos e outros que não o são. E quebra também outro tabu ainda maior, como diz a entrevistadora, Ana Cristina Pereira (excelente jornalista), ao "trazer os primeiros dados sobre os modos de consumo de profissionais integrados e até valorizados, o oposto dos 'agarrados' marginalizados - tão sujeitos à 'pornografização mediática'". Diz o Luís Fernandes, e muito bem: "A cannabis é como a infidelidade: está generalizada. O número de consumidores de cannabis é imensurável. Há um grande paralelismo entre a droga e o sexo (risos): são governados por paradigmas morais. Numa lógica muito: olha para o que eu digo, não para o que eu faço".
Toda a gente sabe disto mas finge que não, a começar pela generalidade dos jornalistas - uma hipocrisia lamentável. E já agora aproveito para tirar o chapéu, que não uso, a duas das primeiras figuras públicas portuguesas, ambos jornalistas, profissionais competentíssimos e muito bem sucedidos, a assumirem-se publicamente como consumidores de cannabis: Vicente Jorge Silva e António Mega Ferreira.
Toda a gente sabe disto mas finge que não, a começar pela generalidade dos jornalistas - uma hipocrisia lamentável. E já agora aproveito para tirar o chapéu, que não uso, a duas das primeiras figuras públicas portuguesas, ambos jornalistas, profissionais competentíssimos e muito bem sucedidos, a assumirem-se publicamente como consumidores de cannabis: Vicente Jorge Silva e António Mega Ferreira.

Se calhar estou a abusar do direito à imagem, mas quando vi o José-Augusto França na esplanada da Brasileira a ler o Le Monde não resisti. Sem ele saberíamos muito menos sobre Lisboa e a culltura portuguesa.

Graças a este blog, fiquei a conhecer o café Vitória, um dos mais bonitos de Lisboa, com uma decoração anos 30 e uma pintura do Lenine na parede. Fazem mojitos, só que não havia hortelã porque as pessoas pedem-nos mais no Verão, informou-me a camarada atrás do balcão.

Nos dias de sol, o Vitória faz lembrar um Chevrolet dos anos 30.

O antigo bairro burguês de Barata Salgueiro, a oeste do topo da avenida da Liberdade, está quase completamente preenchido por prédios de escritórios, e os poucos prédios de habitação que restam estão quase todos em ruínas, salvo alguns dos mais bonitos,

como este do Ventura Terra, onde ele próprio viveu,

ou este.

Há prédios de escritórios bonitos, como este

este

ou este.

No projecto inicial o hotel Vitória era simétrico como este primo direito na rua Nova de S. Mamede,

mesmo ao pé deste, que talvez seja do mesmo Cassiano.

Cirrus fibratus vertebratus.

Céu pouco nublado ou limpo. Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) predominando de sueste. Neblina ou nevoeiro matinal. Temperatura máxima prevista: 21º C.
4.2.04
Estamos sempre a aprender. Há dias estive eu a meditar sobre o contraste entre a elegância modernista do hotel Vitória, do Cassiano Branco, e o kitsch nacionalista do edifício do Instituto da Vinha e do Vinho, do qual ignorava quem fosse o arquitecto. Hoje perdi o amor a cinco contos, comprei o Guia Urbanístico e Arquitectónico da AAP e descobri quem é o autor do IVV. Nada mais nada menos do que... Cassiano Branco, ele próprio. Apenas cinco anos separam os dois edifícios. Fiquei a saber que ele também colaborou em alguns outros projectos tipicamente estado-novistas, como os conjuntos da Sidónio Pais (onde eu nasci) e da praça de Londres. Que remédio, se calhar. Agora percebo melhoro esforço que alguns arquitectos, anos mais tarde, fizeram para mudar as coisas. Estavam tramados.
Um despique de urrgh-banismo seria também muito fácil. Para não ir mais longe

(perdão pelo pirateanço descarado), isto bate todos os recordes de urrgh-banismo: um centro comercial com estas duas torres por cima, devidamente isolado por uma via rápida de dois bairros densamente povoados e uma estação de metro privativa por baixo. Os moradores dos ditos bairros não têm uma hipótese decente de ir a pé para o único supermercado que existe num raio de quilómetros. Nem de transportes públicos.

Já conhecia Chelas relativamente bem, mas o ano passado aconteceu-me trabalhar, durante três meses, na chamada zona J. É, de longe, o melhor bairro de Chelas. Tem pessoas nas ruas, cafés, lojas, autocarros, e os prédios não são todos cinzentos - por enquanto, se o plano do PSL para pintá-los de branco for para a frente.

Na encosta do outro lado do vale, depois da via rápida, há isto. Muito mais que arrgh-tectura ou urrgh-banismo, é pura e simplesmente um crime - contra a cidade e contra as pessoas. Este é o bairro do Armador, que tem uma estação de metro mesmo ao pé (por baixo daquelas torres em cima e do centro comercial) e para onde não se dignaram fazer uma saída. Aquelas pessoas não contam - desde que não chateiem muito, claro, os desagraçados dos mal-agradecidos que até viviam antes em bairros de lata. Qualquer discussão sobre o Parque Mayer ou as torres do Siza parece-me fútil enquanto não se falar disto (e demoli-lo quanto antes).

(perdão pelo pirateanço descarado), isto bate todos os recordes de urrgh-banismo: um centro comercial com estas duas torres por cima, devidamente isolado por uma via rápida de dois bairros densamente povoados e uma estação de metro privativa por baixo. Os moradores dos ditos bairros não têm uma hipótese decente de ir a pé para o único supermercado que existe num raio de quilómetros. Nem de transportes públicos.

Já conhecia Chelas relativamente bem, mas o ano passado aconteceu-me trabalhar, durante três meses, na chamada zona J. É, de longe, o melhor bairro de Chelas. Tem pessoas nas ruas, cafés, lojas, autocarros, e os prédios não são todos cinzentos - por enquanto, se o plano do PSL para pintá-los de branco for para a frente.

Na encosta do outro lado do vale, depois da via rápida, há isto. Muito mais que arrgh-tectura ou urrgh-banismo, é pura e simplesmente um crime - contra a cidade e contra as pessoas. Este é o bairro do Armador, que tem uma estação de metro mesmo ao pé (por baixo daquelas torres em cima e do centro comercial) e para onde não se dignaram fazer uma saída. Aquelas pessoas não contam - desde que não chateiem muito, claro, os desagraçados dos mal-agradecidos que até viviam antes em bairros de lata. Qualquer discussão sobre o Parque Mayer ou as torres do Siza parece-me fútil enquanto não se falar disto (e demoli-lo quanto antes).

Ao passar aqui hoje lembrei-me deste post do Planeta Reboque. Podíamos fazer um despique de arrgh-tectura. Infelizmente, seria muito fácil. Repare-se no pobre palacete em baixo, esmagado por esta coisa.

Para aqui estão a preparar certamente uma coisa semelhante. A péssima arquitectura ainda resulta pior com esta mania de preservar as fachadas pré-existentes. Resta saber o que farão com aquele prediozito no meio.
O Instituto de Meteorologia tem uma nova página, sobre o arrefecimento por efeito do vento - um dos factores importantes para as sensações de frio ou calor que sentimos, juntamente com a humidade relativa.

Cirrocumulus stratiformis lacunosus.

Céu pouco nublado ou limpo, temporariamente muito nublado por nuvens altas. Vento sueste em geral fraco, 10 a 20 km/h, sendo moderado (20 a 35 km/h) nas terras altas e soprando de leste com (20 a 30 km/h) no litoral algarvio. Neblina ou nevoeiro matinal. Temperatura máxima prevista: 22º C
3.2.04

Sabe-se tão pouco da Etiópia por cá - provavelmente eles sabem mais de nós que nós deles. Alguém me relembrou a Etiópia, e isso lembrou-me o Manuel João Ramos, que tem estudado e divulgado a cultura deste país cristão da África Oriental com o qual Portugal manteve relações estreitas no século XVI, de modo que aqui vai um pirateanço selvagem do MJR. Nunca é demais divulgar.

Quando nos aproximamos do lago Tana, a sul de Gondar, encontramos, espalhados na paisagem montanhosa, enigmáticos conjuntos monumentais, hoje arruinados. Em Enfraze, em Danq'aze, em Debra Mai ou em Gorgora, trata-se sempre de um mesmo modelo construtivo: no centro de uma grande cerca de pedra amuralhada, um castelo de planta quadrada ergue-se no cimo de uma colina. A alguma distância daquelas estruturas defensivas, encontramos também ruínas de igrejas de traça católica europeia. Uma missão jesuíta entrou no território etíope em 1557 e ali permaneceu até 1634. Os textos destes padres relatam que existiu no Norte do país uma comunidade católica de portugueses e indianos, e seus descendentes. Também de acordo com estes textos, foram eles que transmitiram aos etíopes o conhecimento da tecnologia da construção em pedra e argamassa, usada nos castelos e igrejas católicas.

A tela descreve a guerra que os cristãos etíopes travaram, apoiados pelas tropas portuguesas e sob o comando do imperador Cláudio, contra os muçulmanos comandados por Mohamed Granhe, o "canhoto". No lado esquerdo da banda superior, vê-se uma igreja incendiada pelos guerreiros de Granhe e os padres a tentarem apagar o fogo, ao mesmo tempo que se tentam defender; do lado direito está Granhe que, a cavalo, tortura Cristóvão da Gama, comandante dos portugueses. À esquerda de Granhe e à direita de Gama, usando turbante, encontram-se os guerreiros islâmicos armados. Na banda inferior: comandados por Cláudio, os cristãos conseguem vencer os muçulmanos (em 1543) com o apoio dos mosqueteiros portugueses. Do lado esquerdo, estão os dignatários religiosos com vestes litúrgicas cerimoniais, a carregar a "Arca da Aliança" até ao campo de batalha, para proteger o exército cristão. Ao centro vê-se Granhe, que seria tão alto e forte, que conseguia cortar uma árvore e partir uma pedra, enquanto caía do cavalo ("pedras de Granhe" é a designação que se dá na Etiópia às pedras de grandes dimensões).

Uma das muitas versões pictóricas da lenda de Makeba, a rainha do Sabá. O povo etíope oferece o trono a quem conseguir matar a Serpente. Agabos (pai de Makeda) torna-se rei, oferecendo ao monstro uma cabra envenenada, e Makeda, a sua única filha, sobe ao trono depois da morte do pai. De Jerusalém chega um mercador que traz notícias do rei Salomão e Makeda envia-lhe presentes, partindo depois para a cidade, através do Mar Vermelho. Makeda chega ao palácio de Salomão e este ensina-lhe os hábitos dos reis judeus, mas engana-a, ao dizer-lhe que ela não deve retirar nada do palácio, sob pena de ter que dormir com ele. O rei dorme com a escrava de Makeda e acaba por dormir também com ela, por ter bebido água do palácio. Na despedida de Makeda, que regressa à Etiópia, o rei Salomão oferece-lhe um presente. Makeda e a sua escrava acabam ambas por dar à luz um filho de Salomão. Menelik (filho de Makeda) e o seu meio-irmão fazem uma visita a Jerusalém, onde Menelik é reconhecido por Salomão, graças ao presente que traz consigo (que tinha sido oferecido à sua mãe). Os dois filhos de Salomão regressam à Etiópia com a Arca da Aliança, e Makeda acaba por morrer, sendo enterrada em Axum. Sucede-lhe o seu filho Menelik, proclamado rei da Etiópia.

Em Lisboa é raro ter-se a sorte de ouvir bons músicos na rua, mas de vez em quando acontece, como ontem, em que vi o Johannes Krieger (um excelente músico, trompetista, compositor e arranjador dos Tora Tora) a tocar numa rua do Bairro Alto.

Altocumulus stratiformis perlucidus undulatus.

Períodos de céu muito nublado. Vento sul moderado, 20 a 30 km/h, soprando moderado a forte (30 a 45 km/h) nas zonas montanhosas.
Parece que a previsão para hoje não correu lá muito bem.
2.2.04


Céu muito nublado, diminuindo gradualmente de nebulosidade, tornando-se pouco nublado ou limpo nas regiões a sul do sistema montanhoso Montejunto-Estrela.

Nos primeiros anos do século XIX, o Tejo chegava aqui aos cais dos armazéns e tercenas de José António Pereira, grande armador e proprietário de roças em S. Tomé,

importador de café e quem sabe outros géneros.

Morava num palacete lá em cima, na rua das Janelas Verdes,

que comunicava com os armazéns, e estes entre si, por passagens aéreas.

Em 1817, José António Pereira morre e o palacete passa às mãos, anos mais tarde, dos marqueses de Pombal. Os armazéns continuaram a sê-lo mas os que estavam recuados acabaram emparedados por estes prédios da 24 de Julho.

Da vida deste burguês plebeu, que parece ter enriquecido tão subitamente como empobreceu e que parece ter sido um verdadeiro empresário colonial numa época em que o colonialismo português estava ainda longe de arrancar em força, ficou impresso muito pouco, para além do nome da travessa. Ficou este conjunto urbano como o melhor vestígio, tanto quanto conheço, duma época em que a ribeira lisboeta era uma sucessão caótica de cais, estaleiros e armazéns - a razão de ser de Lisboa durante muitos séculos.
A loja do prédio que dá para a avenida foi comprado há pouco tempo por uma família de Câmara de Lobos que fazem a mesma poncha à mão, igualzinho a lá só que sem madeirenses ou quase, fora eles e mais uns que de certeza devem aparecer.
1.2.04

Não me ocorre outro caso como este, em que a intervenção dum arquitecto usando materiais pobres manteve o ambiente tascoso renovando-o, e com duas soluções de design brilhantes: aquele buraco para despejar os cinzeiros

e o milagre da transformação duma das casas de banho mais pequenas do país em duas.

Uma das esplanadas mais belas de Lisboa é esta. Não deve faltar muito para desaparecer e só espero que façam outra, ou melhor, outras. Pode-se ficar horas aqui a ver como cada cacilheiro atraca de uma maneira ligeiramente diferente e a imaginar as competições entre os mestres a ver quem consegue fazê-lo com menos manobras, com correntes mais ou menos tramadas, com ondas, sem ondas, marés a encher e esvaziar,

os milhares de pessoas que por aqui passam anónimas, tão diferentes umas das outras,

os pardais que andam a meio das mesas da esplanada com o maior desplante

e que às vezes até entram lá para dentro e põem-se à porta a espreitar.


Céu em geral muito nublado. Vento em geral fraco (inferior a 20 km/h) do quadrante sul. Períodos de chuva fraca até ao fim da manhã.






















