29.4.04





Parece que bastava haver mais uns 10 Josés Sás Fernandes para Portugal se transformar num país muito mais civilizado. Se me candidatasse à presidência da república, propunha a clonagem imediata do JSF em 1000 exemplares e distribuía-os pelas cidades portuguesas, proporcionalmente à respectiva população.
Agora a sério, fiquei muito contente pelo sucesso da acção do JSF no caso do túnel das Amoreiras, mas é lamentável que os juízes não tenham aceitado a razão de fundo do processo: não há justificação para aquela obra, ou seja, ela é, não só inútil, como prejudicial e implica, portanto, um desperdício do dinheiro dos nossos impostos (aqui está uma opinião minha mais desenvolvida sobre este assunto). Qualquer obra pública deve ter uma justificação, o que implica a existência de estudos prévios - neste caso, do que a cidade e os cidadãos iriam beneficiar com isso. O facto de os juízes terem apenas aceite, além do argumento da segurança, o da falta do estudo de impacto ambiental (que era pouco mais que um argumento legal para conseguir o embargo), e o modo como a comunicação social pegou no argumento, desprezando o problema de a obra se justificar ou não, mostra o peso desproporcional que o lobby ambientalista tem em relação ao lobby, digamos, humano - o da defesa da qualidade de vida de nós, humanos, a qual parece não merecer tanto respeito como a dos passarinhos.



A Barriga de um Arquitecto, sempre interessantíssima e sempre a descobrir links fantásticos, traz mais um: a exposição virtual 30 Anos de Caos Urbanístico. Uma interessante feira de horrores, embora as fotos pudessem um bocadinho melhores.

Há vários blogs que costumo frequentar e que não consigo agora ver - aparecem só caracteres incompreensíveis. Alguém sabe o que se passa?



Instalação de Vítor Pinhão (pormenor)

28.4.04





Um belo monumento, este em Campo de Ourique, a comemorar os 20 milhões de anos que passaram desde que havia ali perto uma praia (com palmeiras e tudo, ao que parece). Bons tempos.



Consegue ser bonito, didáctico e poético ao mesmo tempo. E vivam os briozoários, já que sem eles não haveria Campo de Ourique para ninguém.



A aparente banalidade das praias da linha de Cascais esconde algumas coisas estranhas



como este restaurante em plena praia de Carcavelos, impecavelmente vazio e inútil, a não ser pelas casas de banho.



Este farolim novinho em folha



por cima duma marisqueira abandonada à beira das rochas,



este cruzeiro onde há quem se sente a ler o jornal, a caminho da Parede,



onde clássico Sargo já conheceu piores dias



mas mantém o charme de sempre



e o lindíssimo mobiliário.


26.4.04







Uma das poucas coisas que não melhoraram desde o 25 de Abril de 1974 foi a sinalização. Mesmo assim, há quem vá fazendo um esforço (embora espero que o exemplo não pegue).







As empresas de transportes é que continuam a não perceber por que raio os passageiros têm de ser informados, mas lá se vão esforçando, embora por vezes com resultados bastante enigmáticos.

22.4.04





Algumas corporações medievais chegaram aos nossos dias como confrarias religiosas, como esta de São José, que representava os carpinteiros de Lisboa.

20.4.04





Chris Brokaw, ontem na ZDB, sozinho com uma guitarra e as suas canções, uma situação nada fácil da qual ele se saiu muito bem.

18.4.04





Já há uns tempos que não apanhava um cúmulo tão redondinho por cima do meu telhado.



Este mapa é um clássico, feito pelo Lindley Cintra já lá vão umas décadas, sobre distribuição da variedades dialectais do português europeu e as características que os diferenciam. Como se pode ver, o dialecto de Lisboa é uma pequena ilha no meio das outras variedades. Portugueses, os vossos dialectos fazem parte do património da humanidade! Pratiquem-nos e não cedam à uniformização linguística! Vivam todos os sotaques do português!

16.4.04





Estava curioso por ver a nova linha de metro para Odivelas, depois das absurdidades que são as linhas da Pontinha e do Oriente, que serviram principalmente para gastar o dinheiro dos nossos impostos e dá-lo a ganhar sabe-se lá a quem. Desta vez parece que foi dinheiro bem gasto - não há estações em descampados.



Gostei muito da estação do Senhor Roubado.



Muito bonita e aprazível, com grandes janelas sobre o vale do Odivelas.



Tão bonita que apetece ficar lá como numa esplanada a ver os comboios passarem.



E a ver a paisagem.



O Senhor Roubado propriamente dito é que está uma lástima.



Devo ter sonhado que o Metro tinha pago a recuperação deste monumento, que tem um dos painéis de azulejos mais bonitos que existem.



É uma espécie de banda desenhada sobre um acontecimento do século XVII, um roubo sacrílego. A história está aqui.






Era assim o Portugal antigo: uma religiosidade fanática e uma violência inconcebíveis para nós.




A estação da Ameixoeira é monumental, cumprindo a tradição recente do metro de Lisboa.



Nunca tinha ido aqui, uma das antigas aldeias que foram engolidas pela cidade.



É um lugar fascinante,



cheio de anacronismos,



um belo jardim,



belos solares, prédios horríveis,





E este belo conjunto, suponho que do final dos anos 1950, quando ainda havia bom senso.



Aqui no Lumiar já não houve bom senso. Mais uma vez, interrogo-me o que terá acontecido nos anos 1960 que produziu esta catástrofe



que persiste até hoje, como nesta urbanização ao pé da estação da Quinta das Conchas



mesmo ao pé da Tóbis.



Quando vi esta placa ocorreu-me se a reivindicação de ser obrigatória a assinatura dum arquitecto será mais que uma pretensão corporativa e uma medida de combate ao desemprego na classe.



Desta vez só a Joana Rosa é que teve direito a uns azulejos, na estação da Quinta das Conchas.









Os Refilon deram mais um belo concerto, desta vez no B. Leza.

15.4.04





Não vale a pena ter convicções se isso não corresponder a uma ética. Não sei se foi a CML que teve a brilhante ideia de pôr este outdoor, impedindo as pessoas de se sentarem e poluindo visualmente este lugar público tão importante para Lisboa, mas em todo o caso o Bloco nunca devia tê-lo usado. Assim quem perde são vocês. Vão mas é bugiar.

14.4.04





É incrível como ainda há partes de Portugal tão pré-modernas. A uns 20 quilómetros de Coimbra ainda se pode fazer viagens no tempo sem ser em parques temáticos. Este moinho já não funciona, é verdade, mas é um testemunho espantoso do design pré-moderno.



A serra de Sicó está cheia destes muros absurdos,



de pedras soltas que parecem sempre em equilíbrio instável.



a dividir propriedades minúsculas onde não há praticamente nada.



Paradoxalmente, é a modernidade (neste caso, o consumo de queijo de Rabaçal, distribuído pelas cadeias de hpermercados para ser consumido pelos citadinos mais requintados) que mantém vivas estas comunidades, cheias de personagens saídas duma máquina do tempo.




Esta imagem deixou-me desconcertado, tão parecida com as imagens da Rosa Ramalho. Está numa casa impecavelmente restaurada, quase de certeza de algum forasteiro, ou um filho da terra que estudou. É verdade que há imagens "autênticas" parecidas, mas esta parece demasiado perfeita. Quando se "repõe" as características o resultado é sempre outra coisa.



Sempre que vou a Coimbra a cidade está vazia (parece que fecha para descanso metade dos dias do ano), o que até nem é mau para quem está de férias. Muito agradável mesmo.



Fiquei contentíssimo por ver o Café Santa Cruz com a dignidade que merece, finalmente. Deviam reciclar mais igrejas para fins diferentes. Ganhavam outras características e deixavam de ser anacrónicas.



Também não sabia que tinham feito este simpatiquíssimo elevador.



Dá imenso jeito, e mesmo com a cidade quase deserta estava cheio de pessoas com passe social e tudo.



A segunda parte do trajecto é feita através duma plantação das omnipresentes couves galegas.



Dei comigo a pensar, durante a meditação matinal no duche, que o meu blog estava a ficar descaracterizado (já não tem nuvens nem mapas sinópticos). "Descaracterizado" é uma palavra que se ouve inevitavelmente sempre que se sai de Lisboa, uma espécie de medo da uniformização, ou, para os mais intelectuais, da não-lugarização. Só que as coisas, na realidade, raramente perdem características, antes ganham outras. Em todo o caso, descobri uma possível característica da Beira Alta em que nunca tinha reparado, que é de pôr a roupa a estender nos sítios com melhor vista.



Assim sempre se pode ver a paisagem enquanto se pendura a roupa. Um costume muito bem visto.



As características mudam e é impossível repô-las, dado que o tempo não volta para trás. Da última vez que tinha estado em Linhares tinha ficado impressionado com todas aquelas casas nobres em ruínas.



Por alguma razão que desconheço, a aldeia está cheia destes sinais de arquitectura erudita do século XVI, como vestígios duma opulência algo absurda para aquele sítio.



Uma espécie de Monsaraz ainda mais rico.



O restauro da aldeia foi impecável e por enquanto o parque temático ainda não tem as multidões que enchem Monsaraz.



Tem esta casa que parece o que as casas populares deviam ser, e uma tasca com uma imagem da Virgem que diz por baixo "Nossa Senhora me dê paciência para aturar os parepentistas".

5.4.04





Há uma coisa com que simpatizo no Jorge Sampaio, que é a preocupação dele em tentar contrariar o pessimismo (talvez fosse mais apropriado chamar-lhe niilismo) reinante em Portugal. Há uns anos, umas pessoas do ISPA fizeram um inquérito sobre a percepção que os portugueses tinham da maneira como conduziam. Anos mais tarde, um outro inquérito, feito por pessoas da FCSH da Nova, procurava saber a imagem que os portugueses têm de si próprios e dos outros europeus em relação a uma série de qualidades e defeitos estereotipados, tais como a preguiça, a eficiência, a disciplina, a boa educação, a desorganização, o civismo, etc.



Em ambos os casos, a conclusão foi semelhante (de resto, ao que parece, manifesta uma tendência recorrente neste tipo de inquéritos): uma percentagem esmagadora dos inquiridos atribuíam-se a si próprios as qualidades que achava faltarem aos outros, como conduzirem bem, serem bem-educados, trabalhadores; no caso do segundo inquérito, essas mesmas qualidades eram atribuídas aos cidadãos do norte da Europa, sendo os correspondentes defeitos atribuídos aos seus compatriotas.



Uma das hipóteses, que me parece bastante plausível, para a formação destes estereótipos, é que eles têm origem nas elites. Há, de facto, uma longa tradição de os intelectuais portugueses se queixarem amargamente do seu país, o que é perfeitamente natural - num país ultraperiférico como Portugal, é muito difícil ser bem sucedido como artista ou escritor. É uma questão de massa crítica e de posição geográfica.



O que é muito irritante é, em pleno século XXI, continuarmos a ser massacrados, ou a automassacrar-nos, com as mesmas eternas queixas, a mesma retórica oitocentista de um passado glorioso que nunca existiu, a mesma falta de consciência histórica e geográfica. Aparentemente, toda a reflexão que tem sido feita na sociologia, na história, na geografia, pelo menos desde há uns 30 anos para cá, não tem servido de grande coisa.



Este niilismo conduz à confusão total e ao desespero - em vez de se pensar que país e que cidades se gostava de ter e de se fazer alguma coisa por isso, atribui-se tudo à inactividade do poder e ao 'carácter nacional'.



E acaba-se por não usufuir dos encantos de viver num país subdesenvolvido



nem de alguma modernidade e cosmopolistismo que vai havendo,



e dos paradoxos que fazem deste um país divertido,



deixam-se acabar algumas coisas que valem a pena,



e ignoram-se outras.



O que vale é que vem aí o Verão.

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