17.5.04





Depois de uma observação de uma leitora do Porto, dei-me conta de que há mesmo muitas casas amarelas em Lisboa, de vários tons e épocas, como estas em Campo de Ourique




e na zona das Amoreiras.




Esta é a ermida dos Fiéis de Deus, no Bairro Alto. As reuniões do condomínio do meu prédio são aqui, na sacristia.



E esta é a melhor mesa amarela que eu conheço, com estas insuperáveis cadeiras clássicas de esplanada. Fica no cais do Ginjal em Almada.

No século passado, o programa Sétima Colina financiou a pintura dos prédios do eixo Rato-Cais do Sodré de acordo com uma gama de cores que se pensava serem as originais. Creio que entretanto a CML também elaborou um estudo de cores para os bairros históricos. E assim se desfez o mito da cidade branca, que na verdade era a cidade parda - cinzento-fumo acumulado sobre cores claras. A princípio houve as reacções escandalizadas do costume, mas agora acho que já toda a gente se habituou, e até em Alvalade se vê os prédios regressados aos verdes, cor de rosa e amarelos tradicionais. Não conheço mais nenhuma cidade com estas cores.

14.5.04





Ando com a mania das papoilas. Podia dar-me para pior.



Isto aqui não parece mas é uma parte do Hospital Santa Maria, uma pequena cidade com milhares de habitantes e muitas coisas insólitas como uma criação de porcos para o treino dos cirurgiões. O Luís Osório escreveu sobre ele uma magnífica reportagem há uns anos no Expresso, e lembrei-me disto também porque ontem vi pela primeira vez o nome dele no cabeçalho d'A Capital. Não sei porque é que ele não continua a fazer televisão, mas espero que consiga fazer alguma coisa de interessante no jornal, o que hoje em dia não é nada fácil.



Em 2004, há seminários de mestrado que começam desta forma, com uma cerimónia em que cada orador gasta pelo menos cinco minutos a bajular os outros com expressões do tipo "muito me honra a sua presença". Parece que de repente estamos numa sessão da Assembleia Nacional há 50 anos. Aquele senhor ali de pé foi apresentado como "Sua Excelência, o Senhor Professor Doutor José Barata Moura, Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa" e estava a falar sobre o sexo dos anjos (sic, o mestrado é em sexologia).

13.5.04





Realmente, não se pode confiar em tudo o que se vê na net, mesmo estando num link da Time Out.

Acho que já tinha a mania dos guias nessa altura, mas quando fui a Londres gostei tanto do Time Out, a revista e o guia, que quando saiu o Time Out Lisbon fui logo comprá-lo. É excelente, tal como esperava - rigoroso, bem humorado e muito bem escrito. Há dias voltei a pegar nele, passado uns anos (parece que está para sair uma nova edição agora). Tem textos deliciosos, como este, chamado 'The past is not another country':

(...) Half a millennium after the discovery of the sea route to India, Lisbon has a Ponte Vasco da Gama next to a Torre Vasco da Gama on a Expo 98 site where all the street names are also related to the Discoveries. Everything in the new Colombo Shopping Centre - itself named after another explorer - also bears a Discovery-related nomenclature. There's also a Vasco da Gama aquarium at Algés.
And it's not just bits of infrastructure. Book a top-range ticket on the Portuguese national airline and you'll find yourself flying Navigator Class. Adverts from a supermarket chain feature the slogan 'Discovering low prices' and a fifteenth-century astrolabe - an oddly familiar item to the average twentieth-century Portuguese. The Discoveries pop up everywhere, in a desperate attempt at cultural self-validation.
Nor it is accidental. Governments here, as elsewhere, have long used history for their own ends. (...)
Portugal's obsession with past is clouding its present attitudes. Now, for the first time, its people can invent a future, argues [Eduardo] Lourenço, 'and they must do it here and now, not fancifully drifting over the Atlantic'.
In other words, Portugal: get over it.


À distanciação do olhar estrangeiro juntou-se a do tempo. Nunca pensei que apenas meia dúzia de anos fossem suficientes para aquilo que eram apenas excelentes descrições de Lisboa se transformassem por vezes em relatos históricos, como este texto sobre um desaparecido monumento nacional, o Harry's Bar:

Essentially a gay fado bar, Harry's is quiet early but wacky later when it fills up with drag queens, prostitutes and middle-aged men who look like they never see daylight. The walls are adorned with portraits of fado grands, and traditional Spanish and Portuguese songs are given a camp twist in these surroundings. Also serves Sopa das Putas - 'prostitute's soup'- a revivifying broth of beans and cabbage. It's not really worth coming here before 3am, but it stays open until dawn in busier nights and the combination of late-late drinking and stirring music can make for emotional scenes.



Este post da barriga de um arquitecto deu-me que pensar. Tal como ele, não me sinto da terra da minha infância. É-me quase indiferente, não fosse o desgosto. E no entanto sinto que uma parte de mim ficou noutros sítios onde passei férias em pequeno, como Setúbal ou Lagos, ou onde só estive de passagem, como Madrid ou Braga, ou mesmo outros subúrbios onde vivi, como a Parede. Para além de coisas que talvez um senhor austríaco explicasse, pergunto-me se os subúrbios de Sintra não terão atingido uma espécie de estado de não-lugar, onde a única coisa que conta para as pessoas é o interior das suas casas. O resto nem paisagem é - apenas o percurso para se chegar lá.

12.5.04





Adoro esta cor



e os panfletários obscuros.

O Blogger resolveu oferecer um sistema de comentários com email para o blogueiro, de modo que, pelo menos temporariamente, vou manter os comments e os comentários a ver no que dá.

11.5.04





Serra de S. Luís, Palmela, 9-04-04

10.5.04





Na manhã de hoje, 10 de Maio de 2004, os partir de agora antigos barcos do Barreiro, como este, atravessaram o Tejo pela última vez.



Eram desconfortáveis, lentos e barulhentos. Suponho que deve ser preciso gostar muito de barcos para gostar deles.



Os marinheiros com quem falei estavam tristes. Um deles perguntou-me se não queria fazer sociedade com ele para comprar um.




O outro era mais intelectual. Achava, como eu, os novos catamamarãs "assépticos", e que nestes tinha-se mais a "sensação de navegar".



Além de lamentar, tal como eu, que os novos barcos sejam totalmente fechados.



Podia-se ir à varanda, na popa,



ou aqui ao balcão do antigo bar da 1ª classe,



que ainda mantinha vestígios desses tempos, como o revestimento a madeira, as cortininhas e estas mesinhas para pousar bebidas enquanto se olhava pela janela.



Tudo cheirava a era industrial - alavancas com ar obscuro,



tubagens com camadas de tinta espessa,



e até nas casas de banho se via e sentia o rio.



Esta foi a minha última viagem, no dia anterior.



Tirei a última foto a Lisboa vista daqui a esta hora.



Segui pela beira-rio e encontrei este barco semi-afundado.



Pelo que me disseram, os barcos vão ficar uns tempos aqui no Barreiro, antes de, provavelmente, serem desmantelados em Alhos Vedros. Tudo tem o seu tempo, mas não percebo porque é nos barcos novos não se pode ir ao ar livre.

5.5.04





Um cúmulo analógico-digital já com uns dias.



Parece-me que há um fio condutor nas políticas seguidas pelos governos desde 1974: a demissão do papel do estado, a que o triunfo das ideias neoliberais veio trazer um confortável casaco ideológico. O João Salgueiro, que deve ser uma das pessoas mais bem informadas em Portugal (anda pelo poder político e económico há 40 anos), é da mesma opinião, como se pode ler nesta entrevista ao Público:

JS - Paradoxalmente, em termos económicos o antigo regime era mais eficaz, pois tinha toda uma disciplina de reflectir sobre o futuro, com os planos de fomento, embora fosse incapaz de pensar no futuro político. Fez-se uma rápida evolução económica e nenhuma evolução política. Hoje, temos na Constituição uma obrigação de planeamento, mas essa lógica desapareceu.
P - Porquê?
R - Por uma razão evidente. Como na altura se criou uma polémica entre os dois modelos, um de caminhar para uma economia socialista, entenda-se uma economia planificada, à soviética, e uma economia liberal, e foi o modelo liberal que prevaleceu. Tudo o que cheirasse a plano era uma caminhada para o socialismo. Tornou-se politicamente incorrecto pensar no futuro porque se pensava que o mercado ia resolver tudo.
P - O mercado gere bem o curto prazo e muito mal o longo prazo?
R - Isso, mas não só. Porque há muita coisa no curto prazo que não pode ser resolvida pelo mercado. Tudo o que não tem que ver com os bens de mercado, os bens públicos, a redistribuição, a implantação regional, o planeamento urbano, o mercado não pode resolver. Nós hipertrofiámos a função de mercado, o que tem lógica porque o mercado estava muito recalcado pelo condicionamento industrial e pelo proteccionismo, mas não se pode dispensar uma estratégia de médio e longo prazo, e que as empresas têm, mas o país não.


Nem tenho coragem para fazer mais comentários.



Pouca gente, felizmente, saberá para que serve o produto aqui anunciado. É um medicamento contra a sida, e o anúncio chamou-me a atenção porque é a primeira vez que vejo um medicamento destes anunciado num jornal médico, e pelo estilo, que é o habitualmente usado para os grandes "blockbusters" (é assim mesmo que são conhecidos na gíria da indústria farmacêutica) que enchem as páginas deste tipo de publicações - essencialmente medicamentos para o sistema cardiovascular e antidepressivos, os grandes êxitos de vendas do momento. É um sinal evidente daquilo de que fala cada vez mais - a doença está a consolidar o novo estatuto de doença crónica. Mas isso é só nos países desenvolvidos, porque no resto do mundo não há dinheiro. Em Portugal, o tratamento custa, em média, 800 euros por mês, um valor exorbitante para os países pobres. Um sucesso para a indústria farmacêutica - em 20 anos, conseguiu-se descobrir um tratamento quase a partir do zero, contra um tipo agente que até aí não sabia como combater. O reverso da medalha é que a indústria mais lucrativa do mundo alcançou um tal poder que impõe as suas leis empresariais sem quaiquer escrúpulos - embora, no caso da sida, países como o Brasil, a África do Sul ou a Índia estejam a conseguir impor algum bom senso.
Outra história, menos conhecida que esta, consegue ser ainda mais eloquente sobre a necessidade de refrear o poder das grandes multinacionais e impor outra lógica que não seja a do lucro pura e simples. Há um produto que é o medicamento mais eficaz contra a terrível doença do sono, mas que é apenas fabricado como ingrediente de um creme de beleza, simplesmente porque os países africanos não têm dinheiro para pagá-lo. Os Médicos Sem Fronteiras lutam há anos para resolver o problema, até agora sem grande sucesso. A arrepiante história pode ser lida aqui.



Em Setembro de 1758, ia por aqui a passar o rei D. José, ao que dizem vindo de um encontro com a amável marquesa de Távora, quando levou um tiro.



Umas centenas de metros mais abaixo, mesmo ao pé dos Pastéis de Belém, no beco do Chão Salgado, há este marco, onde se pode ler o seguinte:



AQUI FORAM AS CASAS ARRASADAS E SALGADAS DE JOSÉ DE MASCARENHAS EXAUTORADO DAS HONRAS DE DUQUE D' AVEIRO E OUTRAS CONDENADO POR SENTENÇA PROFERIDA NA SUPREMA JUNTA DA INCONFIDÊNCIA EM 12 DE JANEIRO DE 1759 JUSTIÇADO COMO UM DOS CHEFES DO BARBARO E EXECRANDO DESACATO QUE NA NOITE DE 3 DE SETEMBRO DE 1758 SE HAVIA CUMMULLADO CONTRA A REAL E SAGRADA PESSOA DE EL'REI NOSSO SENHOR D. JOSÉ NESTE TERRENO INFAME SE PODERÁ JAMAIS EDIFICAR EM TEMPO ALGUM


Não só edificaram como quase não deixaram espaço para o marco.



A igreja da Memória, mandada construir por D. José, agradecido a Nossa Senhora do Livramento por lhe ter salvo a vida, foi des-sacralizada durante a I República.



Umas décadas mais tarde, a igreja foi re-sacralizada (por um grupo de bravos soldados, segundo diz um papel lá afixado) e é hoje a sede da Diocese das Forças Armadas e de Segurança.



Entretanto, nos anos 1920, por iniciativa dos republicanos, os restos mortais do marquês de Pombal tinham vindo aqui parar, depois de terem passado pelo Bairro Alto e outros sítios, e por lá permanecem, numa sala desprovida de quaisquer símbolos religiosos e evitada pelas beatas que por lá andam.



Um pouco mais acima, o marquês de Pombal mandou fazer o que é hoje o Jardim Botânico da Ajuda



que tem esta fonte.








29.4.04





Parece que bastava haver mais uns 10 Josés Sás Fernandes para Portugal se transformar num país muito mais civilizado. Se me candidatasse à presidência da república, propunha a clonagem imediata do JSF em 1000 exemplares e distribuía-os pelas cidades portuguesas, proporcionalmente à respectiva população.
Agora a sério, fiquei muito contente pelo sucesso da acção do JSF no caso do túnel das Amoreiras, mas é lamentável que os juízes não tenham aceitado a razão de fundo do processo: não há justificação para aquela obra, ou seja, ela é, não só inútil, como prejudicial e implica, portanto, um desperdício do dinheiro dos nossos impostos (aqui está uma opinião minha mais desenvolvida sobre este assunto). Qualquer obra pública deve ter uma justificação, o que implica a existência de estudos prévios - neste caso, do que a cidade e os cidadãos iriam beneficiar com isso. O facto de os juízes terem apenas aceite, além do argumento da segurança, o da falta do estudo de impacto ambiental (que era pouco mais que um argumento legal para conseguir o embargo), e o modo como a comunicação social pegou no argumento, desprezando o problema de a obra se justificar ou não, mostra o peso desproporcional que o lobby ambientalista tem em relação ao lobby, digamos, humano - o da defesa da qualidade de vida de nós, humanos, a qual parece não merecer tanto respeito como a dos passarinhos.



A Barriga de um Arquitecto, sempre interessantíssima e sempre a descobrir links fantásticos, traz mais um: a exposição virtual 30 Anos de Caos Urbanístico. Uma interessante feira de horrores, embora as fotos pudessem um bocadinho melhores.

Há vários blogs que costumo frequentar e que não consigo agora ver - aparecem só caracteres incompreensíveis. Alguém sabe o que se passa?



Instalação de Vítor Pinhão (pormenor)

28.4.04





Um belo monumento, este em Campo de Ourique, a comemorar os 20 milhões de anos que passaram desde que havia ali perto uma praia (com palmeiras e tudo, ao que parece). Bons tempos.



Consegue ser bonito, didáctico e poético ao mesmo tempo. E vivam os briozoários, já que sem eles não haveria Campo de Ourique para ninguém.



A aparente banalidade das praias da linha de Cascais esconde algumas coisas estranhas



como este restaurante em plena praia de Carcavelos, impecavelmente vazio e inútil, a não ser pelas casas de banho.



Este farolim novinho em folha



por cima duma marisqueira abandonada à beira das rochas,



este cruzeiro onde há quem se sente a ler o jornal, a caminho da Parede,



onde clássico Sargo já conheceu piores dias



mas mantém o charme de sempre



e o lindíssimo mobiliário.


26.4.04







Uma das poucas coisas que não melhoraram desde o 25 de Abril de 1974 foi a sinalização. Mesmo assim, há quem vá fazendo um esforço (embora espero que o exemplo não pegue).







As empresas de transportes é que continuam a não perceber por que raio os passageiros têm de ser informados, mas lá se vão esforçando, embora por vezes com resultados bastante enigmáticos.

22.4.04





Algumas corporações medievais chegaram aos nossos dias como confrarias religiosas, como esta de São José, que representava os carpinteiros de Lisboa.

20.4.04





Chris Brokaw, ontem na ZDB, sozinho com uma guitarra e as suas canções, uma situação nada fácil da qual ele se saiu muito bem.

18.4.04





Já há uns tempos que não apanhava um cúmulo tão redondinho por cima do meu telhado.



Este mapa é um clássico, feito pelo Lindley Cintra já lá vão umas décadas, sobre distribuição da variedades dialectais do português europeu e as características que os diferenciam. Como se pode ver, o dialecto de Lisboa é uma pequena ilha no meio das outras variedades. Portugueses, os vossos dialectos fazem parte do património da humanidade! Pratiquem-nos e não cedam à uniformização linguística! Vivam todos os sotaques do português!

Weblog Commenting by HaloScan.com eXTReMe Tracker

Google PageRank Checker Tool

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Get Firefox!

Who Links Here