31.5.04

Parece que as Manobras de Maio este ano foram fantasmáticas. Quem lá esteve não viu nada. Só depois reparei que a data no folheto não menciona o ano.

É uma pena. Poucas vezes me diverti tanto como nas Manobras, um acontecimento que vai muito além de um espectáculo de moda e de que recordo momentos extraordinários em várias edições, como o desfile de cães com pessoas pela trela (da Lúcia Sigalho), as meninas negras com vestidos brancos a flutuarem, quais nenúfares, no lago do Príncipe Real, ou o performer sado-maso americano Ron Athey a rasgar o fato de vinil preto duma modelo.

A edição do ano passado foi uma das piores no espectáculo propriamente dito, e uma das melhores como festa.

Durante um dia e uma noite, o Bairro Alto foi ocupado pelas Manobras, com os bastidores e as passereles instaladas na rua.




O desfile final foi delirante. Podia chamar-se qualque coisa como 'Os maiores cromos do Bairro encharcados em vodka' (este é o Ribas).

Por favor façam-nas de novo para o ano que vem.

Quem me dera saber alguma coisa de iconografia católica para perceber estes espantosos azulejos do século XVII que descobri há dias no santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Peniche. Já estamos tão habituados a estes anjinhos barrocos que nem achamos estranho,

mas que passaria pela cabeça da pessoa que os fez quando desenhou estas figuras?

Tenho a sensação de que este é um tema tabu - há muitas vezes como uma proliferação de símbolos à margem de uma iconografia mais facilmente interpretável. Que fazem eles lá? Teriam um significado reconhecível para toda a gente, ou só para alguns? Ou seriam uma brincadeira do artista, um delírio decorativo?

Um espectáculo de electrónica a solo é muito mais difícil. A AGF (Antye Greie-Fuchs, dos Laub, sexta, na ZDB) não me convenceu, ao contrário do que tinha acontecido com os Laub, o ano passado no Metropolis.
28.5.04

Os Dat Politics na ZDB, ontem. É estranho como eles conseguem comunicar tão bem e criar um ambiente festivo (mesmo com estas caras), usando apenas estes portáteis, e ao contrário do que acontece com outros grupos do género. Esta semana e na próxima há uma programação de electrónica bastante interessante na ZDB. O programa está aqui.
24.5.04

Os Alla Polaca na ZDB, no sábado. Gostei bastante, e achei-os muito mais convincentes que outra banda com que são conotados, os In Her Space, mais ambiciosos e também mais chatos.

Um dos poucos lugares em que a cultura popular tradicional está viva são as feiras de diversões.

Há pequenas maravilhas de neon como esta. Esta feira fez-me lembrar a espantosa igreja de Vila Franca do Campo, nos Açores, em dia de festa - uma mistura de Las Vegas com catolicismo rural, com o coração de Jesus a palpitar em neon.

Este carrocel infantil mistura figuras do Disney com alusões aos barcos de pesca artesanal portugueses.

Cada barco tem um nome tradicional com o nome de um porto de pesca por baixo.

Este carrocel é dos mais bonitos que já vi.

Estes artistas anónimos também fazem as suas subversõezitas

como se pode ver por aqui.
22.5.04

J.P. Simões com o Quinteto Tati, quinta-feira passada, na ZDB. Foi a primeira vez que o vi um concerto com ele tão calado (limitou-se a dizer 'isto é vodka', apontando para uma garrafinha de água de Luso de que bebia um golo de vez em quando). Agora as canções são em português, o que é muito melhor. Há muitos anos que não aparecia por cá um escritor de canções, e este é o primeiro trovador da boémia bairro-altina. Só por isso vale a pena, e ao vivo soa bastante melhor que em disco (não gosto da produção do CD).


Como parece que muita gente gostou dum mapa do Lindley Cintra que aqui puz há tempos, e como acabo de comprar finalmente o livrinho onde eles apareceram (Elementos de Dialectologia Portuguesa, Sá da Costa) aqui vão outros dois, desta vez sobre variantes lexicais. Sempre é um serviço público - aposto que estes mapas não estão online em lado nenhum. Talvez nalgum site brasileiro, quem sabe.

Este livro bate todos os recordes de boa relação qualidade-preço. É excelente, tem imensa informação, é muito bem escrito (como tudo o que o PVG escreve), lê-se num ápice e custa 50 cêntimos, o preço duma bica. Graças a ele conheci o belíssimo e muito pouco conhecido santuário de Nossa Senhora de Aires, em Viana do Alentejo, que tem, além do mais, uma extraordinária colecção de ex-votos.

Só agora encontrei esta foto com a melhor lápide de todas na estátua do Dr. Sousa Martins. Já se sabia que foi um excelente médico, mas continuar a ter um 'excelente zelo profissional' depois de morto há mais de 100 anos é mais ainda mais extraordinário que ser santo.

A nova estação fluvial do Cais do Sodré é mais um exemplo do desplaneamento em transportes (repare-se também em como se insiste em fazer espaços públicos sem um único banco que seja). Todos os barcos da margem sul passarão a atracar aqui (à excepção dos do Barreiro, ao que parece), e a estação do Terreiro do Paço, que já custou uma exorbitância, perde assim grande parte do interesse.
Quanto ao metro, a linha verde é já um absurdo: um passsageiro que more na linha de Cascais ou na Outra Banda e trabalhe nas Avenidas Novas (ao que parece é o caso de grande parte deles) tem de mudar três vezes de linha de metro até lá chegar. Em contrapartida, o tio da Av. de Roma que vá visitar a tia de Cascais não tem mudar nenhuma vez. Na linha azul, por seu lado, o operário reformado da Quimigal poderá assim mais facilmente visitar o seu camarada da antiga Sorefame. Deve ser essa a lógica.

Agora, a Amadora é que parece estar no centro das atenções, vá-se lá saber porquê - quem more para aqueles lados e trabalhe no centro de Lisboa passa a poder escolher entre o comboio para o Rossio, o comboio para Entrecampos e o metro para São Sebastião, Marquês e Baixa. E, neste caso, não se pode falar de falta de planeamento - esta linha é a única, desde o 25 de Abril, que tem o aval duma autoridade de planeamento, a CCRLVT, presidida pelo urbanista Fonseca Ferreira. Nunca percebi a lógica, mas está lá no plano estratégico.

Creio que a explicação está aqui nestes terrenos junto à nova estação da Amadora-Leste, na CMA e no grupo Mello.

Isto

e isto são atentados à dignidade dos viajantes, transformados contra sua vontade em mero recheio de um suporte publicitário, e nem podem ver a paisagem como deve ser - repare-se na insultuosa e minúscula abertura sobre a publicidade na parte de trás deste eléctrico.

Que moral têm depois para chamar a isto 'vandalismo'? A maior diferença é que isto não dá lucro a ninguém. E o vandalismo também é, ou é principalmente, um protesto contra o modo como as pessoas são tratadas.
19.5.04

Ainda na secção amarela, esta máquina dá direito a um cartão

com uma linda paisagem de um dos lados,

e no outro traz a sina e o peso: V. Exa. pesa tantos quilos. Todas as máquinas deviam tratar-nos por V. Exa. Esta escusava era de dizer o peso.
18.5.04

Uma das grandes vantagens de publicar na net é que podemos meter água à vontade que há sempre um visitante que nos corrige e nós podemos emendar. Ontem foi um desses casos - confundi a Expo 98 com a Lisboa 94 e a ermida da Mercês com a dos Fiéis de Deus, e durante umas horas houve uma inundação aqui no céu. Consultada a minha biblioteca, verifiquei que, facto, a ermida das Mercês já não existe. Era aqui, onde hoje é a esquadra da PSP do mesmo nome, e foi lá que o marquês de Pombal esteve sepultado durante perto de um século até os republicanos o mandarem para a igreja da Memória, durante o tempo que ela esteve profanada (ou profanizada? não sei o termo exacto). Temos portanto fantasma do Pombal por aqui a pairar.
17.5.04

Depois de uma observação de uma leitora do Porto, dei-me conta de que há mesmo muitas casas amarelas em Lisboa, de vários tons e épocas, como estas em Campo de Ourique


e na zona das Amoreiras.

Esta é a ermida dos Fiéis de Deus, no Bairro Alto. As reuniões do condomínio do meu prédio são aqui, na sacristia.

E esta é a melhor mesa amarela que eu conheço, com estas insuperáveis cadeiras clássicas de esplanada. Fica no cais do Ginjal em Almada.
No século passado, o programa Sétima Colina financiou a pintura dos prédios do eixo Rato-Cais do Sodré de acordo com uma gama de cores que se pensava serem as originais. Creio que entretanto a CML também elaborou um estudo de cores para os bairros históricos. E assim se desfez o mito da cidade branca, que na verdade era a cidade parda - cinzento-fumo acumulado sobre cores claras. A princípio houve as reacções escandalizadas do costume, mas agora acho que já toda a gente se habituou, e até em Alvalade se vê os prédios regressados aos verdes, cor de rosa e amarelos tradicionais. Não conheço mais nenhuma cidade com estas cores.
14.5.04

Isto aqui não parece mas é uma parte do Hospital Santa Maria, uma pequena cidade com milhares de habitantes e muitas coisas insólitas como uma criação de porcos para o treino dos cirurgiões. O Luís Osório escreveu sobre ele uma magnífica reportagem há uns anos no Expresso, e lembrei-me disto também porque ontem vi pela primeira vez o nome dele no cabeçalho d'A Capital. Não sei porque é que ele não continua a fazer televisão, mas espero que consiga fazer alguma coisa de interessante no jornal, o que hoje em dia não é nada fácil.

Em 2004, há seminários de mestrado que começam desta forma, com uma cerimónia em que cada orador gasta pelo menos cinco minutos a bajular os outros com expressões do tipo "muito me honra a sua presença". Parece que de repente estamos numa sessão da Assembleia Nacional há 50 anos. Aquele senhor ali de pé foi apresentado como "Sua Excelência, o Senhor Professor Doutor José Barata Moura, Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa" e estava a falar sobre o sexo dos anjos (sic, o mestrado é em sexologia).
13.5.04
Acho que já tinha a mania dos guias nessa altura, mas quando fui a Londres gostei tanto do Time Out, a revista e o guia, que quando saiu o Time Out Lisbon fui logo comprá-lo. É excelente, tal como esperava - rigoroso, bem humorado e muito bem escrito. Há dias voltei a pegar nele, passado uns anos (parece que está para sair uma nova edição agora). Tem textos deliciosos, como este, chamado 'The past is not another country':
(...) Half a millennium after the discovery of the sea route to India, Lisbon has a Ponte Vasco da Gama next to a Torre Vasco da Gama on a Expo 98 site where all the street names are also related to the Discoveries. Everything in the new Colombo Shopping Centre - itself named after another explorer - also bears a Discovery-related nomenclature. There's also a Vasco da Gama aquarium at Algés.
And it's not just bits of infrastructure. Book a top-range ticket on the Portuguese national airline and you'll find yourself flying Navigator Class. Adverts from a supermarket chain feature the slogan 'Discovering low prices' and a fifteenth-century astrolabe - an oddly familiar item to the average twentieth-century Portuguese. The Discoveries pop up everywhere, in a desperate attempt at cultural self-validation.
Nor it is accidental. Governments here, as elsewhere, have long used history for their own ends. (...)
Portugal's obsession with past is clouding its present attitudes. Now, for the first time, its people can invent a future, argues [Eduardo] Lourenço, 'and they must do it here and now, not fancifully drifting over the Atlantic'.
In other words, Portugal: get over it.
À distanciação do olhar estrangeiro juntou-se a do tempo. Nunca pensei que apenas meia dúzia de anos fossem suficientes para aquilo que eram apenas excelentes descrições de Lisboa se transformassem por vezes em relatos históricos, como este texto sobre um desaparecido monumento nacional, o Harry's Bar:
Essentially a gay fado bar, Harry's is quiet early but wacky later when it fills up with drag queens, prostitutes and middle-aged men who look like they never see daylight. The walls are adorned with portraits of fado grands, and traditional Spanish and Portuguese songs are given a camp twist in these surroundings. Also serves Sopa das Putas - 'prostitute's soup'- a revivifying broth of beans and cabbage. It's not really worth coming here before 3am, but it stays open until dawn in busier nights and the combination of late-late drinking and stirring music can make for emotional scenes.
(...) Half a millennium after the discovery of the sea route to India, Lisbon has a Ponte Vasco da Gama next to a Torre Vasco da Gama on a Expo 98 site where all the street names are also related to the Discoveries. Everything in the new Colombo Shopping Centre - itself named after another explorer - also bears a Discovery-related nomenclature. There's also a Vasco da Gama aquarium at Algés.
And it's not just bits of infrastructure. Book a top-range ticket on the Portuguese national airline and you'll find yourself flying Navigator Class. Adverts from a supermarket chain feature the slogan 'Discovering low prices' and a fifteenth-century astrolabe - an oddly familiar item to the average twentieth-century Portuguese. The Discoveries pop up everywhere, in a desperate attempt at cultural self-validation.
Nor it is accidental. Governments here, as elsewhere, have long used history for their own ends. (...)
Portugal's obsession with past is clouding its present attitudes. Now, for the first time, its people can invent a future, argues [Eduardo] Lourenço, 'and they must do it here and now, not fancifully drifting over the Atlantic'.
In other words, Portugal: get over it.
À distanciação do olhar estrangeiro juntou-se a do tempo. Nunca pensei que apenas meia dúzia de anos fossem suficientes para aquilo que eram apenas excelentes descrições de Lisboa se transformassem por vezes em relatos históricos, como este texto sobre um desaparecido monumento nacional, o Harry's Bar:
Essentially a gay fado bar, Harry's is quiet early but wacky later when it fills up with drag queens, prostitutes and middle-aged men who look like they never see daylight. The walls are adorned with portraits of fado grands, and traditional Spanish and Portuguese songs are given a camp twist in these surroundings. Also serves Sopa das Putas - 'prostitute's soup'- a revivifying broth of beans and cabbage. It's not really worth coming here before 3am, but it stays open until dawn in busier nights and the combination of late-late drinking and stirring music can make for emotional scenes.

Este post da barriga de um arquitecto deu-me que pensar. Tal como ele, não me sinto da terra da minha infância. É-me quase indiferente, não fosse o desgosto. E no entanto sinto que uma parte de mim ficou noutros sítios onde passei férias em pequeno, como Setúbal ou Lagos, ou onde só estive de passagem, como Madrid ou Braga, ou mesmo outros subúrbios onde vivi, como a Parede. Para além de coisas que talvez um senhor austríaco explicasse, pergunto-me se os subúrbios de Sintra não terão atingido uma espécie de estado de não-lugar, onde a única coisa que conta para as pessoas é o interior das suas casas. O resto nem paisagem é - apenas o percurso para se chegar lá.
12.5.04
O Blogger resolveu oferecer um sistema de comentários com email para o blogueiro, de modo que, pelo menos temporariamente, vou manter os comments e os comentários a ver no que dá.
11.5.04
10.5.04

Na manhã de hoje, 10 de Maio de 2004, os partir de agora antigos barcos do Barreiro, como este, atravessaram o Tejo pela última vez.

Eram desconfortáveis, lentos e barulhentos. Suponho que deve ser preciso gostar muito de barcos para gostar deles.

Os marinheiros com quem falei estavam tristes. Um deles perguntou-me se não queria fazer sociedade com ele para comprar um.
O outro era mais intelectual. Achava, como eu, os novos catamamarãs "assépticos", e que nestes tinha-se mais a "sensação de navegar".

Além de lamentar, tal como eu, que os novos barcos sejam totalmente fechados.

Podia-se ir à varanda, na popa,

ou aqui ao balcão do antigo bar da 1ª classe,

que ainda mantinha vestígios desses tempos, como o revestimento a madeira, as cortininhas e estas mesinhas para pousar bebidas enquanto se olhava pela janela.

Tudo cheirava a era industrial - alavancas com ar obscuro,

tubagens com camadas de tinta espessa,

e até nas casas de banho se via e sentia o rio.

Esta foi a minha última viagem, no dia anterior.

Tirei a última foto a Lisboa vista daqui a esta hora.

Segui pela beira-rio e encontrei este barco semi-afundado.

Pelo que me disseram, os barcos vão ficar uns tempos aqui no Barreiro, antes de, provavelmente, serem desmantelados em Alhos Vedros. Tudo tem o seu tempo, mas não percebo porque é nos barcos novos não se pode ir ao ar livre.
5.5.04

Parece-me que há um fio condutor nas políticas seguidas pelos governos desde 1974: a demissão do papel do estado, a que o triunfo das ideias neoliberais veio trazer um confortável casaco ideológico. O João Salgueiro, que deve ser uma das pessoas mais bem informadas em Portugal (anda pelo poder político e económico há 40 anos), é da mesma opinião, como se pode ler nesta entrevista ao Público:
JS - Paradoxalmente, em termos económicos o antigo regime era mais eficaz, pois tinha toda uma disciplina de reflectir sobre o futuro, com os planos de fomento, embora fosse incapaz de pensar no futuro político. Fez-se uma rápida evolução económica e nenhuma evolução política. Hoje, temos na Constituição uma obrigação de planeamento, mas essa lógica desapareceu.
P - Porquê?
R - Por uma razão evidente. Como na altura se criou uma polémica entre os dois modelos, um de caminhar para uma economia socialista, entenda-se uma economia planificada, à soviética, e uma economia liberal, e foi o modelo liberal que prevaleceu. Tudo o que cheirasse a plano era uma caminhada para o socialismo. Tornou-se politicamente incorrecto pensar no futuro porque se pensava que o mercado ia resolver tudo.
P - O mercado gere bem o curto prazo e muito mal o longo prazo?
R - Isso, mas não só. Porque há muita coisa no curto prazo que não pode ser resolvida pelo mercado. Tudo o que não tem que ver com os bens de mercado, os bens públicos, a redistribuição, a implantação regional, o planeamento urbano, o mercado não pode resolver. Nós hipertrofiámos a função de mercado, o que tem lógica porque o mercado estava muito recalcado pelo condicionamento industrial e pelo proteccionismo, mas não se pode dispensar uma estratégia de médio e longo prazo, e que as empresas têm, mas o país não.
Nem tenho coragem para fazer mais comentários.

Pouca gente, felizmente, saberá para que serve o produto aqui anunciado. É um medicamento contra a sida, e o anúncio chamou-me a atenção porque é a primeira vez que vejo um medicamento destes anunciado num jornal médico, e pelo estilo, que é o habitualmente usado para os grandes "blockbusters" (é assim mesmo que são conhecidos na gíria da indústria farmacêutica) que enchem as páginas deste tipo de publicações - essencialmente medicamentos para o sistema cardiovascular e antidepressivos, os grandes êxitos de vendas do momento. É um sinal evidente daquilo de que fala cada vez mais - a doença está a consolidar o novo estatuto de doença crónica. Mas isso é só nos países desenvolvidos, porque no resto do mundo não há dinheiro. Em Portugal, o tratamento custa, em média, 800 euros por mês, um valor exorbitante para os países pobres. Um sucesso para a indústria farmacêutica - em 20 anos, conseguiu-se descobrir um tratamento quase a partir do zero, contra um tipo agente que até aí não sabia como combater. O reverso da medalha é que a indústria mais lucrativa do mundo alcançou um tal poder que impõe as suas leis empresariais sem quaiquer escrúpulos - embora, no caso da sida, países como o Brasil, a África do Sul ou a Índia estejam a conseguir impor algum bom senso.
Outra história, menos conhecida que esta, consegue ser ainda mais eloquente sobre a necessidade de refrear o poder das grandes multinacionais e impor outra lógica que não seja a do lucro pura e simples. Há um produto que é o medicamento mais eficaz contra a terrível doença do sono, mas que é apenas fabricado como ingrediente de um creme de beleza, simplesmente porque os países africanos não têm dinheiro para pagá-lo. Os Médicos Sem Fronteiras lutam há anos para resolver o problema, até agora sem grande sucesso. A arrepiante história pode ser lida aqui.

Em Setembro de 1758, ia por aqui a passar o rei D. José, ao que dizem vindo de um encontro com a amável marquesa de Távora, quando levou um tiro.

Umas centenas de metros mais abaixo, mesmo ao pé dos Pastéis de Belém, no beco do Chão Salgado, há este marco, onde se pode ler o seguinte:

AQUI FORAM AS CASAS ARRASADAS E SALGADAS DE JOSÉ DE MASCARENHAS EXAUTORADO DAS HONRAS DE DUQUE D' AVEIRO E OUTRAS CONDENADO POR SENTENÇA PROFERIDA NA SUPREMA JUNTA DA INCONFIDÊNCIA EM 12 DE JANEIRO DE 1759 JUSTIÇADO COMO UM DOS CHEFES DO BARBARO E EXECRANDO DESACATO QUE NA NOITE DE 3 DE SETEMBRO DE 1758 SE HAVIA CUMMULLADO CONTRA A REAL E SAGRADA PESSOA DE EL'REI NOSSO SENHOR D. JOSÉ NESTE TERRENO INFAME SE PODERÁ JAMAIS EDIFICAR EM TEMPO ALGUM
Não só edificaram como quase não deixaram espaço para o marco.

A igreja da Memória, mandada construir por D. José, agradecido a Nossa Senhora do Livramento por lhe ter salvo a vida, foi des-sacralizada durante a I República.

Umas décadas mais tarde, a igreja foi re-sacralizada (por um grupo de bravos soldados, segundo diz um papel lá afixado) e é hoje a sede da Diocese das Forças Armadas e de Segurança.

Entretanto, nos anos 1920, por iniciativa dos republicanos, os restos mortais do marquês de Pombal tinham vindo aqui parar, depois de terem passado pelo Bairro Alto e outros sítios, e por lá permanecem, numa sala desprovida de quaisquer símbolos religiosos e evitada pelas beatas que por lá andam.

Um pouco mais acima, o marquês de Pombal mandou fazer o que é hoje o Jardim Botânico da Ajuda

que tem esta fonte.
















