30.6.04





Tenho pena que as pessoas sejam tão emocionais na política. Estava eu no Algarve quando recebi a primeira de várias SMS a apelar a manifestações anti-Santana primeiro ministro. Irrita-me um pouco o alarmismo, injustificado acho eu, com a possível nomeação. Em todo o caso, nem o Portas nem o Santana serão Berlusconis, e para mais o Santana tem-se mostrado incapaz como presidente da CML - não no sentido de fazer coisas, mas no sentido de não ter conseguido fazer nada do que propôs até agora. Quanto mais no governo. Até agora, tudo o que ele se vangloria não é mais do que a conclusão de iniciativas da anterior câmara. Neste momento, não me parece que haja uma diferença visível entre a CML do João Soares dos últimos tempos e a do Santana, fora a autopromoção. Mesmo na política cultural, toda a gente parece ter esquecido que o Soares pôs o Nicolar Breyner no São Luiz, e o Santana pôs lá o Salavisa, o que é indiscutivelmente mais apropriado, e se no resto há indefinição, isso também é a continuação do que acontecia com o Soares.



Também me irrita o que me parece ser uma atitude do mal o menos, quando este governo está a fazer uma coisa tão grave como é a destruição do Serviço Nacional de Saúde, perante a apatia generalizada. Se isso acontecer, o que duvido, há-se ser o fim dele e do Portas, comidos pela máquina de pressão mediática da facção cavaquista do PSD, o que muito me alegrava. E antes o Santana do que o Dias Loureiro, esse sim um verdadeiro fascistóide. Se é para lutar por eleições antecipadas, então que o digam claramente, e não agitem o papão do fascismo que isso foi chão que já deu uvas.




O novo comboio para o Algarve é decididamente uma grande invenção. No sábado passado já só pensava no ar condicionado do pendular e lá fui



para Olhão, a única povoação ribeirinha do Algarve onde os turistas são aves raras.



Há coisas que fazem lembrar Veneza



Tem a melhor praia vazia num domingo encalorado de Junho.



O efeito corrosivo do mar é incrível - há uns seis anos, isto era um navio encalhado.



Um dia destes hei-de jantar no Farol e depois chamar um táxi



que me vai deixar aqui.

25.6.04





Até agora só conheci dois estádios, o dos Barreiros, que tem uma excelente vista sobre a baía do Funchal, e o Estádio do Bairro Alto, que tem um excelente público.



Nunca esmoreceu, mesmo quando Portugal estava a perder.



Foi uma pena os ingleses terem sido eliminados. Estávamos a começar a jantar no Bairro Alto, alguns de nós fanáticos recém-convertidos, quando um par de ingleses nos fizeram váris vénias antes de se sentarem também. Depois, eram imensos os que tinham camisolas da selecção portuguesa. Desde o memorável Irlanda-Portugal, em que fomos invadidos pelas pessoas mais simpáticas do mundo, que não via uma festa assim.

24.6.04













O solstício de Verão comemora-se por todo o lado, em Portugal sob a forma de S. João. Há anos descobri-o por acaso em São Teotónio, Odemira, onde as festas duram uma semana ou mais e se dança à volta destes mastros, um por cada noite em vários sítios da aldeia, as casas são enfeitadas com quadras e corações e as ruas cobertas de flores de papel. Não sei se há esta maravilha noutras aldeias alentejanas, é de não perder.

21.6.04





Estou a gostar do Euro muito mais do que pensava. Acho que faz falta por cá este sentido de festa, de excesso, mesmo se há sempre meia dúzia de idiotas que estragam tudo. Também, isso é inevitável em qualquer festa a sério.



Mas ri-me mesmo foi quando vi um adepto inglês com uma camisola da selecção que dizia 'Angleterre', ou este, pelos vistos já preparado para enfrentar Portugal.





Muito agradável também foi ler uma crónica da Maria Filomena Mónica sobre pernas de jogadores, no Público de sábado passado. Há anos que não lia uma crónica do meu ódio de estimação sem me irritar - decididamente, ela é engraçada a escrever sobre banalidades e detestável quando se convence de que é investigadora.



Barco do Barreiro, 21-6-04.















Setúbal, 20-6-04.



Largo de São Carlos.



Gerhard Richter, Estudo para a capa de Daydream Nation, dos Sonic Youth (1988).

18.6.04



A questão dos leitores escolhida para o último número da Science et Vie é 'Como é possível um calhau fazer ricochete na água'? A resposta é muito complexa, e ficamos a saber que há dois físicos franceses que têm vindo a investigar o problema, com a ajuda de um tanque de 40 metros, uma máquina lançadora de calhaus e uma câmara fotográfica de alta velocidade que permite analisar os vários parâmetros em causa: peso e tamanho do calhau, ângulo de incidência em relação à superfície da água e ângulo de ataque da trajectória no lançamento. Até agora, além de confirmar a sabedoria empírica (quanto mais plano e leve o calhau, melhor), descobriram também a velocidade (60 km/h), ângulo de ataque (20º) e velocidade de rotação (60 rotações/segundo) ideais.
Para além da evidente utilidade destas descobertas para todos os praticantes do amável desporto praístico, é mais um exemplo de que os fenómenos quotidianos à escala humana se revelam muito mais complicados do que poderíamos supor, como se a complexidade aumentasse à medida que temos mais informação sobre os fenómenos - às vezes parece que os físicos têm mais certezas sobre fenómenos muito díficeis de observar, à escala atómica ou a distâncias enormes, do que ao tentarem explicar como se comportar uma onda a rebentar na praia. E depois (alguns) ainda acusam de falta de rigor quem procura perceber o comportamento das pessoas e confessa a desmesurada complexidade da tarefa.



Marco Franco, ontem no Catacumbas



com Damien Cabout no contrabaixo e André Matos na guitarra. Um excelente concerto, num registo jazz que não conhecia no Marco Franco, que mais uma vez mostrou ser um dos melhores bateristas portugueses.



Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa.

17.6.04





Com o novo comboio Lisboa-Faro pode-se sair de Lisboa às 13.30 e chegar à Meia-Praia, em Lagos, bastante a tempo de dar um mergulho, por volta das 18.30.



A esta hora a viagem é no antigo Intercidades, que mantém este magnífico bar panorâmico.



A minha estreia foi algo atribulada - um descarrilamento na linha do Algarve obrigou-nos a usar uma locomotiva diesel e a passar por Beja.



Aqui está a nova linha electrificada.



O Algarve é como um Portugalzinho perpendicular ao outro.



À chegada a Lagos, outro imprevisto - a estação tinha desaparecido.



Na verdade, continua lá, mas sem carris. A funcionária nas bilheteiras disse-me que "eles" tinham arrancado a linha de um momento para o outro, sem dar explicações a ninguém.




Lagos é uma cidade com sorte. Tenho pena de não ter uma fotografia de há 50 anos que vi lá. Tinha um ar miserável e arruinado, sem este canal, sem avenida marginal nem porto de pesca. Ao contrário de Portimão, belíssima cidade desbaratada, Lagos melhorou.



Às vezes apetece ficar por lá, a pastar na marginal



e depois apanhar o Vai Vem para a Meia-Praia,



voltar para cá e pastar mais um bocado,



cheirar o mar.



As gaivotas mandam em Lagos. À noite, no terraço da casa onde estava, no centro da cidade, só se ouvia os gritos delas sobre o mar a bater. São de uma espécie de corpo muito branco e quando sobrevoam a cidade no escuro transformam-se em pontos luminosos.



A bela estátua de D. Sebastião, sem pedestal, fez tanto escândalo em 1973 como o incomprendido monumento ao 25 de Abril vinte e tal anos depois.



Uma das pérolas do barroco português é o interior da igreja de Santo António.



Só por si vale a viagem.



Para norte de autocarro, por Aljezur



São Teotónio.



Sempre que vou ao Almograve está neblina.



Pela primeira vez, vi e cima ninhos de cegonhas, no cabo Sardão.



O litoral entre Odeceixe e Sines é uma pequena província à parte



onde mora um senhor sozinho num monte que tem esta barbearia.



Um dia tenho que vir aqui cortar o cabelo.




São Torpes tem a fábrica mais bonita que conheço.



Apetece-me voltar para o sul.






Uff, o tempo anda tão rápido que só agora chegaram estas fotos do Santo António versão tecno caseira.

15.6.04



Houve uma avaria no servidor do Photobucket, como muita gente também já terá reparado, de modo que nem postas novas nem fotos por agora.

8.6.04





Um dia as praias da margem sul hão-de ser mais aprazíveis, quando despoluírem o Tejo. Mas se pudessem manter as fábricas era melhor, como na praia de S. Torpes, em Sines.



Só hoje me lembrei que tinha sonhado com um comboio destes. Gosto imenso das mesinhas.



Talvez pelo calor, a porta da cabine do maquinista estava aberta e via-se os carris a desfilarem para o infinito.



Também gosto destes hieróglifos.



Quando saí em Setúbal, tive uma sensação de déjà-vu ao deparar com estes azulejos.



Pois, são do Luís Ferreira, aka Ferreira das Tabuletas, que também fez os azulejos da cervejaria Trindade e da fachada daquele palacete no largo da Trindade em Lisboa. Deve ser o único artista popular mencionado nas histórias de arte portuguesas.



Desde pequeno vejo Setúbal como a irmã mais pequena de Lisboa, com um rio azul onde se podia tomar banho e tudo, e ruas pedonais que naquele tempo eram uma grande novidade.



Até tinha, e tem, estes barcos iguais aos cacilheiros antigos.



Não me lembro deste homem dos gelados, mas era bem capaz de já lá estar também.



Ma não me lembro de ter visto antes o jardim.



Nem a estação fluvial.



E a guarda fiscal.



Tróia era a Cacilhas de Setúbal, mas eu pensava que era uma ilha.



Continua na mesma. Agora faz-me lembrar uma espécie de Olivais na praia.



Fiquei a pensar que era uma utopia 60tista pensar que alguém gostaria de passar férias num prédio à beira mar, mas depois lembrei-me que eu próprio gosto de passar férias em Lagos num apartamento e ir à Meia-Praia ali mesmo.



De modo que aluguei uma bicicleta.



Não sei bem qual a maldição que aqui paira.



Lembro-me de ter tido vertigens ao contrário quando aqui entrei, devia ter uns 11 anos.



Que experiência estranha.



Estes ferries são como uma estrada que se desloca no rio.



Évora tem a rua do Imaginário, e Setúbal tem a travessa da Fantazia.



E umas portas do Sol.



Montes de igrejas bonitas.



E um centro histórico lindo, caótico e degradado, atrás dos restaurantes cheios de pessoas a comerem choco frito.




4.6.04



Acabei por encontrar aqui os dados que procurava.



Em 2000, as mulheres eram já maioritárias em quase todos os cursos, excepto engenharias, arquitectura e informática.



Em relação aos licenciados empregados, acontece o mesmo.

3.6.04



Os médicos nunca deixam de surpreender-me, para o melhor e para o pior, e fiquei verdadeiramente siderado com a notícia que vinha ontem no Público: 'Defendidas quotas para travar entrada de mulheres nos cursos de medicina'. O dr. Pereira do IBCAS (parece impossível como é colega do Alexandre Quintanilha) e o bastonário esquecem-se de duas coisas.
Primeiro, se as médias de entrada em medicina são tão altas, favorecendo as 'mais ajuízadas' meninas, na opinião do bastonário, isso é o resultado das pressões da Ordem há 20 anos para reduzir o numerus clausus. Por causa disso, muitos especialistas vêem-se agora forçados a cobrar 100 e mais euros por consulta, só para os doentes não terem de esperar mais de um mês ou dois. A classe ficou tão envelhecida que daqui a uns tempos passaremos, se tudo correr bem, a pagar 50 míseros euros aos especialistas espanhóis que entretanto se forem formando por cá. E os poucos médicos portugueses que restarem serão, que horror, mulheres, quem sabe até urologistas, como se escandaliza o dr. Pereira.
Segundo, na verdade não é por as médias serem tão altas em medicina que cada vez há mais médicas. Parece que estudar está mesmo na moda entre as raparigas, e os receios do director do IBCAS podiam ser partilhados por praticamente todos os directores de escolas superiores deste país. Como gosto de brincar ao excel, entretive-me hoje a compilar estes dados, que mostram que elas não só estudam como são persistentes e até conseguem doutorar-se (não encontrei dados sobre os estudantes de licenciatura). Na verdade, há que reconhecer que os rapazes de agora também gostam cada vez mais de estudar, e até mais tarde.



Segundo o Observatório da Ciência e do Ensino Superior, onde fui buscar os dados, em 1970 doutoraram-se 61 portugueses, dos quais quatro eram mulheres (poucos mais bons, diria o José António Saraiva, estou certo). Em 1980, formaram-se 117 doutores, com 39 meninas a contribuírem. Dez anos depois, elas continuavam a representar um pouco mais de um terço dos doutoramentos, com 127 em 337. Em 2002, houve 952 doutoramentos, dos quais metade (438, ou 49%) foram de mulheres.



Aqui vê-se melhor como a percentagem de doutoras é cada vez maior.



A distribuição das doutoradas em 2002 por áreas científicas dá que pensar - poucas nas engenharias electrotécnica e informática, mecânica e civil, mas também na comunicação e na história, e muitas nas engenharias química e bioquímica, na química, na biologia, além da linguística e da psicologia. Visto que em Portugal se costuma fazer o doutoramento bastante tarde, estes dados não devem reflectir a realidade actual. Os dados sobre os cursos de medicina que vêm no Público mostram uma súbida rápida da proporção de mulheres. Neste momento, são à volta de 70% no primeiro ano.
Não sei se alguém já se dedicou a estudar o problema, mas lembro-me que há uns 10 anos, quando já era evidente que os cursos de ciências sociais estavam a tornar-se predominantemente femininos, alguém me ter sugerido, meio a brincar, que isso correspondia a uma quebra de estatuto social, de acordo com o que dizia o Bourdieu. Mas o que se viu depois foi acontecer o mesmo nos cursos que conduzem a quase todas as profissões de maior prestígio, como jurista, médico, jornalista, arquitecto, o que infirma essa hipótese. Só me ocorre que tudo isto não nos diz que os homens não estudem mais, pelo contrário, mas sim que o número de mulheres a estudarem sobe proporcionalmente mais depressa.

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