31.8.04
Creio ser quase consensual que há domínios em que o mercado não funciona lá muito bem. A saúde é um exemplo flagrante - basta ver o caso dos EUA, que são o país em que menos regulação há neste campo, e que conseguem a façanha de ter o sistema de saúde, simultaneamente, mais caro e mais ineficiente do mundo (quem duvidar, basta consultar as estatísticas da insuspeitíssima OCDE, disponíveis em www.ocde.org). Outro campo em que isso é evidente é o do planeamento urbano e regional. Justificar a necessidade de regulação nesta área é simplesmente patético, para mais num país como o nosso em que os efeitos maléficos da desregulação só não são evidentes para os agentes imobliários e construtores civis.
Outra perplexidade: nos últimos anos, o planeamento aparece cada vez mais associado à engenharia civil, à arquitectura paisagista e, em menor grau, à geografia. E a arquitectura? Urbanismo e arquitectura são coisas muito diferentes, é verdade, mas até há uma tradição importante de planeamento feito por arquitectos (nem sempre com bons resultados, também é verdade). Há um 'silêncio dos arquitectos' neste campo, ou é impressão minha? (mas ocorre-me agora que a Helena Roseta pensa o mesmo) E porquê?
No relatório ["Desertificação em Portugal - incidência no ordenamento do território e no desenvolvimento urbano", feito por uma equipa do IST para a Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano] dizemos que a desertificação é uma falha de mercado. De acordo com a teoria Keynesiana, as falhas de mercado não podem deixar de ser contrariadas pelo investimento público, portanto, em nome da coesão, os portugueses têm de aceitar que nessas regiões o investimento per capita seja maior.
Francisco Nunes Correia, no Público de hoje.
Mais um sinal dos tempos - o domínio da ortodoxia neoliberal é tão grande que até no âmbito do planeamento as pessoas se vêem obrigadas a pedir desculpa por recomendarem a intevenção do Estado, e a invocarem a autoridade do Keynes. De resto, a entrevista, não sendo fantástica, é boa. Espero que o relatório esteja à venda ao público. Mas onde?
Francisco Nunes Correia, no Público de hoje.
Mais um sinal dos tempos - o domínio da ortodoxia neoliberal é tão grande que até no âmbito do planeamento as pessoas se vêem obrigadas a pedir desculpa por recomendarem a intevenção do Estado, e a invocarem a autoridade do Keynes. De resto, a entrevista, não sendo fantástica, é boa. Espero que o relatório esteja à venda ao público. Mas onde?
27.8.04

Os professores que tive [no ensino secundário] nada disso era aliciante. Eram sem dúvida de baixo nível. Com dificuldade posso recordar o nome de um professor a quem eu dissesse que fiquei devendo uma orientação qualquer para entrar na Faculdade. Tudo de baixo nível. Havia, como hoje há, muitos professores sem preparação. Hoje há mais, é claro, que está tudo multiplicado por factores elevados, hoje há mais, mas naquele tempo também já havia bastantes: uma vez fiquei muito chocado quando vi na rua - eu ia a passar no Rossio (era rapaz de liceu) -, quando vi um dos meus professores - um dos que me davam aulas - de capa e batina. Mas como é que isto pode ser, era tão parecido: Será o mesmo? Depois então é que eu soube que ele era realmente estudante como hoje acontece. Muitos estudantes são professores de liceu. É claro, a maioria não tinha preparação nenhuma. [...] Na Faculdade, tive aqueles generais que eram, no tempo, os catedráticos da Física e da Química. Eram tudo generais. São nomes que hoje já não dizem nada a ninguém, não é verdade?, como Aquiles Machado, Borges Sequeira, D. António Pereira Forjaz (esse não era general, era sobrinho dum general. Já é um posto.) [Risos] Também, é claro, havia gente muito soturna, sorna, muito grave. Não, não tenho nenhuma ideia agradável de toda a minha vida escolar. Tudo quanto eu fiz fi-lo por mim. Todo o prazer que eu encontrei… na observação científica, na parte experimental, na literatura, tudo isso foi feito por mim. Tudo isso foi trabalho pessoal.
Rómulo de Carvalho, nascido em 1906, licenciado em Físico-Químicas pela Universidade do Porto. Entrevista de 1991 (o resto está aqui).
Ao longo dos meus oito anos de liceu (o que então se chamava ensino secundário), não contei mais do que seis professores a cuja memória me abrigue. [...]. Na universidade, estive três meses em Direito. Confirmo a merecida reputação de Marcello Caetano, mas dos outros nada recordo. Arrepiei caminho e passei para Letras (Ciências Histórico-Filosóficas, assim se chamavam então). Delfim Santos, Vieira de Almeida, Mário Chicó, Virgínia Rau, são nomes a escrever com letra grande e "happy few" devem imenso a Ribeiro Soares, quando ele e esses "few" partilhavam gostos singulares. Mas dos outros (estava-me a esquecer e não devia de Ferreira de Almeida), sobretudo no que tocava à Filosofia, quem não saiba é melhor nunca ter experimentado. Era nossa convicção (nossa, dos alunos) que deviam a cátedra ao estado disto, pois que a qualquer sabedoria ou inteligência não a deviam certamente. O saudosismo actual é muita bondade nossa, ou muito má memória. Embora seja verdade que, na mesma Faculdade e nos mesmos anos, coexistiram com Nemésio e Lindley Cintra, com Orlando Ribeiro e com o Padre Manuel Antunes, que, infelizmente, não foram meus professores. [...] Da minha experiência como professor, que durou cinco anos, entre 1959 e 1964 [...] não me ficou ideia muito diferente sobre o nível geral dos então meus colegas. É certo que os havia excepcionais (do Camões, recordo eu Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Marina Pestana), mas os alciões não fazem verões, nem primaveras. Frio, frio, era o que havia à minha volta.
João Bénard Costa, nascido em 1935, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa, no Público de hoje.
[Os alunos] chegam à Universidade quase analfabetos e saem de lá pouco melhor do que entraram. Há 25 anos que sou professora de História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Há 25 anos que observo, de ano para ano, a degradação da qualidade dos estudantes, e há 25 anos que vão sendo piores as notas que me vejo obrigada a dar, apesar de a minha complacência e tolerância terem aumentado com a idade e a sensata tendência para a acomodação que ela gera. [...] A grande maioria dos alunos limita-se a tirar apontamentos nas aulas de forma totalmente acéfala, e os disparates que escrevem nos testes revelam uma total incompreensão das matérias mais simples e uma total incapacidade de exporem com sequência e clareza as ideias mais elementares ou de narrarem com nexo os factos mais básicos. Não percebem o que ouvem e menos ainda o que lêem. De resto, salvo uma ou outra excepção honrosa, lêem pouco ou mesmo nada. Como suponho que fazem também os meus colegas, trato de me ajustar à circunstância. Isto significa baixar o nível das aulas até ao ponto em que poderíamos estar numa qualquer turma do secundário.
Maria de Fátima Bonfácio, nascida por volta de 1955 (suponho), licenciada em História pela Universidade de Lisboa em 1977, in Público.
Número de doutoramentos em Portugal, 1970: 61. Número de doutoramentos em Portugal, 2002: 952.
In Observatório da Ciência e do Ensino Superior.
Há qualquer coisa que não bate certo quanto ao que diz a Maria de Fátima Bonifácio. Será que o ensino secundário em Portugal foi fantástico durante os anos 60-70, em que ela o frequentou (e em que os professores eram da geração do Rómulo de Carvalho e do Bénard)? A recordação que tenho diz-me que era tão mau como o descrevem estes últimos. Quanto à FCSH, onde cheguei mais ou menos na altura em que a MFB começou a dar lá aulas, posso testemunhar que, no meu curso (Antropologia), o nível geral dos professores era abaixo de cão. Admito que no departamento de História, disciplina que apesar de tudo estava mais desenvolvida em Portugal que as restantes CS, as coisas fossem diferentes, e parece-me que em Sociologia era melhor, por alguns professores que tive. Mas se o nível dos alunos está constantemente a baixar nos últimos 25 anos, como explicar que o número de doutoramentos aumente constantemente? Como explicar que o número de revistas científicas tenha crescido exponencialmente? Como explicar que na área das CS a produção científica seja hoje incomparavelmente melhor que há 25 anos? Como explicar que haja, pelo menos nas ciências 'duras', vários institutos de investigação que atraem tantos estudantes estrangeiros de doutoramento e pós-doc que o português é quase uma língua minoritária? E como explicar que professores e investigadores do ICS, como a MFB ou a Maria Filomena Mónica, façam afirmações tão peremptórias sem se preocuparem em justificarem-nas minimamente? Se está tudo tão precupado com a suposta decadência do ensino, então promovam um estudo no ICS sobre o assunto. Não posso emitir opiniões sobre a evolução da qualidade do ensino, mas parece-me que a qualidade do que vai publicando hoje é muito superior ao que era na geração delas - em especial na minha área, e apesar da formação medíocre que eu e os meus colegas iniciais tivemos. Não faço ideia qual é a relação entre isto e o sistema de ensino, mas conheço várias pessoas na casa dos 20 e tal-30 anos que são uns geniozinhos comparados com a maior parte dos professores que tive. Se calhar tive azar com os professores e sorte com as pessoas que fui conhecendo. Mas enquanto os arautos da desgraça não apresentarem argumentos sólidos fico-me na minha, e, parafraseando o Bénard, acho que o saudosismo actual é muita bondade vossa, ou muito má memória.

Tavira, 17-08-04, 19.13
Na ideologia antipoder que de certo modo substitui a clivagem esquerda/direita, a designação de um culpado é a grande tarefa, diz o Eduardo Prado Coelho no Público de hoje. Estou quase de acordo. Eu diria: Para a ideologia antipoder de grande parte da esquerda, a designação de um culpado é a grande tarefa.
24.8.04

Os habitantes de Olhão orgulham-se de uma cidade que só eles podem ver. Por cima há uma infinidade de pequenas escadarias que conduzem a mirantes, cuja única finalidade é a de observar outros mirantes e, de vez em quando, tirar uma fotografia para mostrar aos habitantes das outras cidades.

Farol, 15-8-04, 19.06
No espalhafato mediático do 'caso das cassetes', pouca gente se lembrou duma coisa essencial: o círculo perverso do conluio entre fontes da administração pública e jornalistas só poderá ser ultrapassado quando os actos da administração pública forem transparentes. A administração pública portuguesa é opaca, e qualquer pessoa, jornalista ou não, que queira ter acesso a documentos que, legalmente, são do domínio público, depara com um muro dificilmente transponível. Há uns anos, de acordo com o estabelecido na Constituição, fez-se uma lei muito bem intencionada (a Lei de Acesso aos Documentos da Administração Pública, LADA, para os amigos) e até se criou uma Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (vulgo CADA) para assegurar o cumprimento da lei. A lei estabelece um prazo de 10 dias para qualquer cidadão ver satisfeito o seu direito de acesso aos documentos das administração pública (incluindo também documentos de entidades privadas que sejam concessionárias de serviços públicos); caso esse direito não seja satisfeito, o cidadão pode recorrer à CADA, que pode intimar a entidade em causa a cumprir o estabelecido. Na prática, a CADA não cumpre, nem pouco mais ou menos, o prazo estabelecido para dar provimento às queixas, que é de 45 dias, e demora muitos meses; pior ainda, o resultado corrente das queixas tem sido o de que a CADA intima a entidade desobediente a facultar os documentos, esta não liga nenhuma, e nada acontece. Ou seja, os cidadãos, na prática, não têm acesso aos documento que dizem respeito a decisões que os afectam, sejam de uma autarquia, de uma empresa de transportes públicos ou do governo central, a não ser que essas entidades lhes dê na real bolha facultá-los.
Perante isto, mesmo uma pessoa (um jornalista) que é paga para gastar tempo a investigar certas coisas que nos dizem respeito (as políticas concretas) tem poucas saídas, a mais fácil das quais é entrar no jogo das diversas entidades (polícias, tribunais, órgãos da administração pública, partidos políticos) que lhe facultam a informação que entendem, na ocasião que entendem, e com as finalidades que eles lá sabem. E assim ficam todos contentes: os jornalistas, que têm o trabalho facilitado; as 'fontes', que vêm a sua manipulação vendida como 'informação'; e a maior parte do público, que vê confirmadas as suas suspeitas de que a administração pública é uma cambada de gatunos. Quem fica a perder com tudo isto é uma coisa em desuso chamada 'interesse público'.
A esmagadora maioria dos casos mediáticos não têm como motivação ofensas ao interesse público, mas sim queimar determinadas pessoas, e a origem da informação é quase sempre a que já referi. Tem-me ocorrido, a propósito disto, alguns exemplos. Houve dois grandes escândalos relacionados com desvios de dinheiro na Expo'98, um que tinha a ver com a construção de habitação na área da Expo e outro com o aluguer dos navios para alojamento de visitantes. Ambos os casos vieram parar à comunicação social por iniciativa da PJ, que facultou toda a informação, e suponho que os responsáveis foram presos e julgados pelos prejuízos que nos causaram a todos nós. Agora, se a urbanização do Parque das Nações está a descambar, com índices de construção muito superiores ao previsto, o prejuízo causado é muito superior, e os lucros indevidamente obtidos também. Poderá não haver crime, mas o interesse público é muito mais lesado. E aposto que qualquer investigação sobre isso será dificílima.
Políticos e jornalistas estão fartíssimos se saber isto, mas pouco se fala, por comodismo. Quando há uma figura pública 'queimada' por alguma razão, há sempre, ou quase, alguém interessado nisso. No entanto, quando, há uns anos, um ministro recém-nomeado se demitiu por causa duma dívida ao fisco, parece que muita gente ficou baralhada: a dívida era irrisória; a pessoa em causa tinha, antes de assumir funções como ministro, um dos maiores ordenados de que há conhecimento em Portugal; e não se vislumbravam inimigos políticos que lucrassem com a sua queda. De modo que, por exclusão de partes, especulava-se que tinha sido o próprio a enviar a informação para a comunicação social, uma vez que era ele o maior interessado: o ordenado de ministro era uma dez vezes inferior ao que ele ganhava antes como gestor.
O último director da PJ a demitir-se acabou em ministro, depois de ter sido acusado de ter feito publicar a notícia da rusga da PJ à Moderna no próprio dia em que ela iria ocorrer, e é colega de governo de duas pessoas que trabalharam na dita universidade. Aceitam-se teorias da conspiração. Mas nada disto deveria ser assim.
23.8.04

Só houve uma coisa surpreendente na entrevista da Luísa Amaro à Capital, no sábado passado: quando lhe perguntaram onde gostaria de ir com o Paredes nessa noite se ele fosse vivo, ela disse 'ao Lux'. É dos sítios mais bonitos que existem, sim.
21.8.04
19.8.04

A palavra 'retrete' é uma das vítimas da tendência eufemística do português de Portugal, tal como 'urinol'. Pelos vistos, há 50 ou 60 anos, quando suponho que foi feita esta casa de banho na estação de Tavira, não havia problema nenhum em escrevê-la.

Esta epígrafe na fachada do Compromisso Marítimo de Olhão é um curioso testemunho de como, no século XVIII, já se pronunciavam os 'o' finais como 'e' - quem se esmerou a fazer isto escreveu 'marit.es' em vez de marit.os', ou seja 'marítimes' por 'maritímos'. E vivam os besugues e linguades mais frescos que se comem no Algarve.
11.8.04
A 'Demanda da Ortografia Portuguesa' que referi em baixo contém um divertidíssimo artigo da Rita Marquilhos, "O acento, o hífen e as consoantes mudas nas ortografias antigas portuguesas".
Como explica a autora, até 1911 não existiu norma ortográfica; a partir do século XVI, digladiaram-se duas grandes tendências, a 'etymologica', que preconizava um maior conservadorismo em relação ao latim, e a 'sónica', que defendia uma maior aproximação à língua tal como era falada. Eis alguns argumentos dos dois campos, escritos na ortografia original, tanto quanto este computador me permite (não dá para pôr o til no 'u'):
Sobre as consoantes dobradas, escreve um 'etymologico':
Teem para si algu~us curiosos da lingoa Hespanhol, que o dobrar das letras, he escusado entre nos. Porque não sentimos, quando se dobrão, se não o .r e o .s e que tiradas estas, as outras todas de deuem escrever singellas. O que he grãde erro. Porque a razão, que há, para se dobrarem essas, há para se dobrarrem essoutras; ainda que nem toda a orelha sinta a diferença, que há de singellas a dobradas.
(..)
E ainda que na verdade, as nossas orelhas não comprehenderão a differença das letras dobradas, para conseruação da origem e etymologia dos vocabulos, era necessario dobraremse, tomando os nos dos Latinos, ou Gregos, assi como eles nolos dão.
(Duarte Nunes de Leão, 1576)
Um 'sónico' da mesma época:
E bem sey que por ser nouidade e o uso estár em contráiro, será coisa trabalhósa serem lógo estas nóuas figuras reçebidas em nóssa orthographia: mas o tempo âs pará tam próprias como sam as outras de que usamos.
(João de Barros, 1540)
Um 'etymologico' do século XVIII:
Todas as lingùas cultas tem letras, que se não pronuncião, e se conservarão na escrittura, para mostrar a derivação das palavras. E por que razão não devemos nós usar o mesmo? A origem das palavras, havendo-a, ha de conservar-se; que o mais seria ingratidão: ter-mos nós composto o nosso Dialecto de outras lìnguas, e agora querer-mos escurecer isto, dando nova fòrma às palavras, só pera que se ignore o donde as adoptámos.
(Francisco Souto-Maior, 1783)
Um 'sónico' do século XIX:
Mas esta Orthographia, ou por facil, ou por estranha ao uso presente da Nação, não he do gosto dos homens litteratos, que não tendo a mesma difficuldade que tem os idiotas, para escreverem segundo as Etymologias, julgarião ter perdido seus estudos, se por isto não se distinguissem do vulgo imperito.
(Jerónimo Soares Barbosa, 1822)
Outro sónico do século XIX, bem mais radical, propunha uma reforma ortográfica segundo a qual, exemplificava, esta estrofe de Os Lusíadas se escreveria assim:
Cecem do çabiu gregu e do troianu
As navegaçõis grandes kê fizeram,
Kale-ce de Alexandru i de Trajanu
A fama das vitorias kê tiveram
(António Corte Real, 1877)
Um ano antes da reforma de 1911, um lamento 'etymologico':
Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase; não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto; que querem? Contende-nos com os nervos, e affligimo-nos extraordinariamente, quando pensamos que haveriamos de ser obrigados a escrever assim!
(Alexandre Fontes, 1910)
Finalmente, sobre o uso das maiúsculas:
Em 1827 escrevia-se na Secretaria de Estado o nome de Candido José Xavier, elevado da Cadeira de Mestre de Escola da Villa de Santarem á categoria de Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Guerra com todas as letras do seu nome, pronome e apelido maiusculas. Em 1848 escreve-se na mesma Secretaria, e até nos Periodicos o nome de Rainha com todas as letras minusculas; apenas lhe permitiram a regalia de entrar no prello em griffa; (...) Que adulação alem! Que humilhação aqui (...) Que empolação á baxeza, e que desacato á Jerarquia! Isto parece indicar pôr a cadeira de Mestre sobre os degraus, e a do Throno sobre o sobrado. Entrará isto tambem na ordem do progresso?
(António José Vaz Velho, 1856)
Como explica a autora, até 1911 não existiu norma ortográfica; a partir do século XVI, digladiaram-se duas grandes tendências, a 'etymologica', que preconizava um maior conservadorismo em relação ao latim, e a 'sónica', que defendia uma maior aproximação à língua tal como era falada. Eis alguns argumentos dos dois campos, escritos na ortografia original, tanto quanto este computador me permite (não dá para pôr o til no 'u'):
Sobre as consoantes dobradas, escreve um 'etymologico':
Teem para si algu~us curiosos da lingoa Hespanhol, que o dobrar das letras, he escusado entre nos. Porque não sentimos, quando se dobrão, se não o .r e o .s e que tiradas estas, as outras todas de deuem escrever singellas. O que he grãde erro. Porque a razão, que há, para se dobrarem essas, há para se dobrarrem essoutras; ainda que nem toda a orelha sinta a diferença, que há de singellas a dobradas.
(..)
E ainda que na verdade, as nossas orelhas não comprehenderão a differença das letras dobradas, para conseruação da origem e etymologia dos vocabulos, era necessario dobraremse, tomando os nos dos Latinos, ou Gregos, assi como eles nolos dão.
(Duarte Nunes de Leão, 1576)
Um 'sónico' da mesma época:
E bem sey que por ser nouidade e o uso estár em contráiro, será coisa trabalhósa serem lógo estas nóuas figuras reçebidas em nóssa orthographia: mas o tempo âs pará tam próprias como sam as outras de que usamos.
(João de Barros, 1540)
Um 'etymologico' do século XVIII:
Todas as lingùas cultas tem letras, que se não pronuncião, e se conservarão na escrittura, para mostrar a derivação das palavras. E por que razão não devemos nós usar o mesmo? A origem das palavras, havendo-a, ha de conservar-se; que o mais seria ingratidão: ter-mos nós composto o nosso Dialecto de outras lìnguas, e agora querer-mos escurecer isto, dando nova fòrma às palavras, só pera que se ignore o donde as adoptámos.
(Francisco Souto-Maior, 1783)
Um 'sónico' do século XIX:
Mas esta Orthographia, ou por facil, ou por estranha ao uso presente da Nação, não he do gosto dos homens litteratos, que não tendo a mesma difficuldade que tem os idiotas, para escreverem segundo as Etymologias, julgarião ter perdido seus estudos, se por isto não se distinguissem do vulgo imperito.
(Jerónimo Soares Barbosa, 1822)
Outro sónico do século XIX, bem mais radical, propunha uma reforma ortográfica segundo a qual, exemplificava, esta estrofe de Os Lusíadas se escreveria assim:
Cecem do çabiu gregu e do troianu
As navegaçõis grandes kê fizeram,
Kale-ce de Alexandru i de Trajanu
A fama das vitorias kê tiveram
(António Corte Real, 1877)
Um ano antes da reforma de 1911, um lamento 'etymologico':
Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase; não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto; que querem? Contende-nos com os nervos, e affligimo-nos extraordinariamente, quando pensamos que haveriamos de ser obrigados a escrever assim!
(Alexandre Fontes, 1910)
Finalmente, sobre o uso das maiúsculas:
Em 1827 escrevia-se na Secretaria de Estado o nome de Candido José Xavier, elevado da Cadeira de Mestre de Escola da Villa de Santarem á categoria de Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Guerra com todas as letras do seu nome, pronome e apelido maiusculas. Em 1848 escreve-se na mesma Secretaria, e até nos Periodicos o nome de Rainha com todas as letras minusculas; apenas lhe permitiram a regalia de entrar no prello em griffa; (...) Que adulação alem! Que humilhação aqui (...) Que empolação á baxeza, e que desacato á Jerarquia! Isto parece indicar pôr a cadeira de Mestre sobre os degraus, e a do Throno sobre o sobrado. Entrará isto tambem na ordem do progresso?
(António José Vaz Velho, 1856)
Dois dos aspectos mais controversos do Dicionário da Academia:
A inclusão de neologismos coloquiais, como este 'bute'. O problema não é esse, muito menos o do célebre 'bué', que, de facto, teria de figurar num dicionário que se pretende representativo do português contemporâneo. Agora, problemática mesmo é a inclusão, como se vê aqui em baixo, de siglas como JC, JC-GP e JCP. Dado o princípio de que fazer um dicionário implica uma escolha das palavras mais representativas, o aparecimento destas siglas é o suficiente para lançar fortes suspeitas sobre o rigor com que este trabalho foi feito.
A disparidade de critérios quanto à grafia de estrangeirismos foi outra fonte de polémica, quanto a mim injustificada: mantém-se, umas vezes, a grafia original, como se vê aqui em 'jazz' e 'jeans'; outras vezes adaptou-se a grafia, como no caso de 'ateliê' em vez de 'atelier'. Era o único critério exequível, como justificou na altura o coordenador do dicionário: 'ateliê' pode custar a engolir mas é muito bem capaz de acabar por se impor; a opção por 'jines' em vez de 'jeans' dificilmente seria aceite. Parece-me de bom senso.
Agora, a única coisa que me escandaliza mesmo neste dicionário é o facto de ter sido financiado pela Gulbenkian, e não pelo Estado português, e de ter sido editado por uma editora privada, a um preço que equivale a perto de um terço do salário mínimo. De resto é, com todos os defeitos que tenha, uma pedrada no charco. E, para quem trabalha em edição de texto, tem um valor inestimável como obra de referência para a ortografia, dado que os sucessivos acordos ortográficos se têm revelado incapazes de resolver os problemas que mais dúvidas põem.
Este é o famoso Acordo Ortográfico de 1990, que corre o risco de finalmente entrar em vigor. Retiro o que disse quanto à questão dos hífens: a regra continua a ser ambígua e muito mal formulada para um texto que se pretende normativo. Quanto ao emprego das maiúsculas, o Acordo é, de facto, clarificador.
As alterações introduzidas pelo Acordo são mínimas - tanto quanto me apercebi, limitam-se à supressão de algumas consoantes mudas (por em exemplo, em 'ação', 'exato' e 'diretor' e à consagração de grafias como 'aeroespacial' e 'autoestrada', em vez de 'aero-espacial' e 'auto-estrada'. Caso venha a ser ratificado, a polémica será muito menor do que em 1986. Em todo o caso, aconselho vivamente os futuros contendores a munirem-se deste excelente livrinho, escrito por um punhado de linguistas no rescaldo da polémica, onde se apresenta um conjunto de argumentos academicamente autorizados contra o Acordo de 1986.
Este Dicionário Mais é um raro exemplo das tais ferramentas auxiliares de escrita que tanta falta fazem em Portugal. Embora seja adaptado do francês, não deixa de ser bastante útil.
Aqui está um exemplo de entrada. Como se vê, o objectivo não é fornecer definições para as palavras, mas sim de relacioná-las entre si, de modo a auxiliar quem está a escrever a encontrar as palavras que nem sempre ocorrem. No Brasil há vários dicionários deste tipo, como o ambiciosíssimo (e utilíssimo) Dicionário Analógico, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, em que as entradas correspondem a grandes campos semânticos onde estão listadas palavras com diversos tipos de relação entre si (de sinonómia, antonímia, derivação, etc.).
Não é por acaso que na Grã-Bretanha, ou no Brasil, são editadas muito mais obras deste tipo do que em Portugal: são obras caras, que só se pagam se tiverem grandes tiragens. Por isso me parece que seria obrigação do Estado português financiar este tipo de edições.

A inclusão de neologismos coloquiais, como este 'bute'. O problema não é esse, muito menos o do célebre 'bué', que, de facto, teria de figurar num dicionário que se pretende representativo do português contemporâneo. Agora, problemática mesmo é a inclusão, como se vê aqui em baixo, de siglas como JC, JC-GP e JCP. Dado o princípio de que fazer um dicionário implica uma escolha das palavras mais representativas, o aparecimento destas siglas é o suficiente para lançar fortes suspeitas sobre o rigor com que este trabalho foi feito.

A disparidade de critérios quanto à grafia de estrangeirismos foi outra fonte de polémica, quanto a mim injustificada: mantém-se, umas vezes, a grafia original, como se vê aqui em 'jazz' e 'jeans'; outras vezes adaptou-se a grafia, como no caso de 'ateliê' em vez de 'atelier'. Era o único critério exequível, como justificou na altura o coordenador do dicionário: 'ateliê' pode custar a engolir mas é muito bem capaz de acabar por se impor; a opção por 'jines' em vez de 'jeans' dificilmente seria aceite. Parece-me de bom senso.
Agora, a única coisa que me escandaliza mesmo neste dicionário é o facto de ter sido financiado pela Gulbenkian, e não pelo Estado português, e de ter sido editado por uma editora privada, a um preço que equivale a perto de um terço do salário mínimo. De resto é, com todos os defeitos que tenha, uma pedrada no charco. E, para quem trabalha em edição de texto, tem um valor inestimável como obra de referência para a ortografia, dado que os sucessivos acordos ortográficos se têm revelado incapazes de resolver os problemas que mais dúvidas põem.

Este é o famoso Acordo Ortográfico de 1990, que corre o risco de finalmente entrar em vigor. Retiro o que disse quanto à questão dos hífens: a regra continua a ser ambígua e muito mal formulada para um texto que se pretende normativo. Quanto ao emprego das maiúsculas, o Acordo é, de facto, clarificador.

As alterações introduzidas pelo Acordo são mínimas - tanto quanto me apercebi, limitam-se à supressão de algumas consoantes mudas (por em exemplo, em 'ação', 'exato' e 'diretor' e à consagração de grafias como 'aeroespacial' e 'autoestrada', em vez de 'aero-espacial' e 'auto-estrada'. Caso venha a ser ratificado, a polémica será muito menor do que em 1986. Em todo o caso, aconselho vivamente os futuros contendores a munirem-se deste excelente livrinho, escrito por um punhado de linguistas no rescaldo da polémica, onde se apresenta um conjunto de argumentos academicamente autorizados contra o Acordo de 1986.

Este Dicionário Mais é um raro exemplo das tais ferramentas auxiliares de escrita que tanta falta fazem em Portugal. Embora seja adaptado do francês, não deixa de ser bastante útil.

Aqui está um exemplo de entrada. Como se vê, o objectivo não é fornecer definições para as palavras, mas sim de relacioná-las entre si, de modo a auxiliar quem está a escrever a encontrar as palavras que nem sempre ocorrem. No Brasil há vários dicionários deste tipo, como o ambiciosíssimo (e utilíssimo) Dicionário Analógico, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, em que as entradas correspondem a grandes campos semânticos onde estão listadas palavras com diversos tipos de relação entre si (de sinonómia, antonímia, derivação, etc.).
Não é por acaso que na Grã-Bretanha, ou no Brasil, são editadas muito mais obras deste tipo do que em Portugal: são obras caras, que só se pagam se tiverem grandes tiragens. Por isso me parece que seria obrigação do Estado português financiar este tipo de edições.
10.8.04

Mais um sinal dos tempos em Lisboa: um templo da Igreja Ortodoxa Romena, instalado num templo católico, suponho que cedido pelo Patriarcado.


Lisboa, 8-8-04, 19.24
Fiquei mais esclarecido sobre o que o Aviz queria dizer com 'classe educada' - uma expressão que me tinha ficado atravessada não por incómodo mas pelas questões que levanta. Parece que temos uma 'classe educada' comparativamente numerosa e de qualidade mas 'demissionária' e 'irresponsável', como diz o Francisco, que menciona 'a irresponsabilidade social das elites cultas'. Eu diria que, de facto, algo não bate certo quando comparamos a situação agora e há 30 anos quanto ao número de pessoas com graus académicos e à própria qualidade da produção intelectual portuguesa, por um lado, e à qualidade da administração pública e da intervenção cívica das pessoas, por outro. Ou seja, temos, de um lado, uma administração pública medíocre, principalmente ao nível do topo, parece-me, e do outro uma quantidade de pessoas que podia estar lá, mas não está, e que também não intervém doutro modo. E também uma comunicação social que podia ser mais activa.
9.8.04

Foi surpreendente o impacto da discussão sobre a ortografia e o ensino do português - ou talvez não. Parece que este é um assunto apaixonante, como se recordarão os que viveram os debates acaloradíssimos sobre o Acordo Ortográfico nos anos 80. Eu próprio tive um desabafo irritado do 'fascistas' quando alguém me chamou de 'relativista ortográfico' e isso deixou-me perturbado - e ainda mais ao Francisco José Viegas, que ficou 'amargado' com toda a razão, e eu lamento porque é injusto.
Reflectindo sobre a razão pela qual estes pensamentos me ocorrem nestas ocasiões, concluo, provisoriamente, que é porque a grande maioria das pessoas só se pareçam interessar pela língua quando está em causa a 'correcção', ao mesmo tempo que se desinteressam de todos os outros aspectos. Já no que toca à gramática, entendida no sentido normativo, como um repositório da 'boa prática' do português culto, o que acontece, curiosamente, é que as pessoas - incluindo muitos profissionais da escrita - fiam-se naquilo que se pode considerar uma tradição oral. De facto, pelo menos de acordo com a experiência que tenho, a Nova Gramática do Português Contemporâneo (NGPC), de Celso Cunha e Lindley Cintra, é muito pouco consultada. E isto apesar de ser uma obra expressamente construída no intuito de fixar uma norma, com citação abonatórias de escritores consagrados.
Apenas um exemplo: a NGPC diz que, quando o sujeito é uma 'expressão partitiva' (do tipo 'a maioria dos portugueses' ou 'grande parte dos jornalistas'), o verbo pode ir para o singular ou para o plural, citando exemplos literários em que aparecem as duas opções (ou seja, opções do tipo 'grande parte dos jornalistas escreve mal' versus 'grande parte dos jornalistas escrevem mal'). No entanto, conheço pouquíssimas pessoas que aceitem como correcta a segunda opção, e se lhes apresentarmos um exemplo que um autor clássico português a utilizou, respondem que 'estava errado'. É talvez um fenómeno de hipercorrecção, análogo ao ao célebre 'copo com água' por 'copo de água'.

Compreendo que, para um linguista, fazer gramática normativa deva ser tão interessante como será para um sociólogo escrever um manual de etiqueta e boas maneiras. Mas, se não há bons instrumentos de trabalho para a língua portuguesa (dicionários analógicos, manuais de estilo, dicionários para entrangeiros, por exemplo), talvez fosse dever do Estado patrocinar essas edições, entregando-as a especialistas credíveis - para deixarmos de estar à mercê dos amadores que escrevem a esmagadora maioria deste tipo de obras em Portugal.

Fiquei admirado por ninguém comentar a minha alusão ao Acordo Ortográfico de 1990. Na verdade, não penso que seja importante, ou sequer exequível, reformar a ortografia - de resto, as sucessivas tentativas falhadas em França confirmam-no. Mas o acordo resolveria dois problemas mesquinhos, de que a maior parte das pessoas não se apercebe e que não são difíceis de resolver mas são a principal dor de cabeça e fonte de perda de tempo para todos os que se dedicam à edição: a fixação das regras para as maiúsculas iniciais e para o uso do hífen para as palavras compostas.
Há uma terceira dor de cabeça que não sei se pode ser resolvida por decreto, e daí talvez possa: a questão dos estrangeirismos com ortografia não-aportuguesada. Há uma tradição portuguesa, também oral porque não está escrita em lado nenhum, que obriga a que se escreva com itálico ou entre aspas qualque palavra deste tipo. Se, em certos contextos, não é complicado de segui-la, noutros é praticamente impossível - por exemplo, numa publicação como o suplemento Y do Público, a norma não é seguida, caso contrário uma em cada cinco palavras ou coisa assim estaria entre aspas ou em itálico, o que, além de ser uma dor de cabeça para os paginadores e revisores, dificultaria imenso a leitura. O mesmo vale para publicações sobre informática, gestão e muitas outras áreas.
Para os que vêem isto como um cataclismo, recordo que, mesmo na França, onde se fez um esforço titânico para criar neologismos para os termos informáticos (os 'octets', 'logiciels' e por aí fora), escreve-se weekend, assim, tal e qual.
Nestas coisas dos estrangeirismos, recordo-me sempre do meu espanto adolescente quando deparei, numa aula de inglês, com uma expressão que me parecia obviamente francesa, com acento e tudo - 'coup d'état'. Perguntei ao Mr. Harrison, meu professor: 'Então vocês usam palavras francesas??'. E ele, imperturbável: '"Coup d'état" não é uma expressão francesa, é uma expressão inglesa que os franceses também usam.' E nós cá, com o jazz e o rock, como é? Ouviremos jaze-suingante, jaze-livre, roque-e-role, ritmo-e-azuis?

E agora uma coisa totalmente diferente: a expressão 'classe educada' que o Francisco José Viegas usou no primeiro post da série ficou-me atravessada. Quem é a 'classe educada'? As pessoas que estão no Governo? No Ministério da Educação? Ou pessoas como o Rui Oliveira ou o Paulo Jorge Santos, cuja contribuição esclarecida para este debate blogosférico acabou por ser, para mim, a parte mais gratificante? O que leva a outra questão: a massificação do ensino em Portugal não teve só o efeito de baixar o nível geral. Teve também o efeito de termos hoje em dia professores universitários, investigadores, especialistas, enfim, uma 'classe educada', numa quantidade e qualidade que não tem qualquer comparação com a de há 30 anos. Só que parece que, quanto mais e melhores são, mais invisíveis se tornam - pouco se nota a presença deles na comunicação social, para já não falar no poder.

Só para terminar com uma imagem que tem alguma coisa a ver com o texto: nesta estação da Transtejo, por exemplo, onde se lê 'Venda de Títulos' deveria talvez estar escrito 'Bilheteira'. Proponho que se faça uma campanha contra o eufemismo galopante das empresas e da administração pública em Portugal.
6.8.04
Caro Francisco, a minha observação de que 'parece que quando chegamos à questão da língua viramos todos fascistas' foi um comentário a outro comentário.
Mas a verdade é que as tendências conservadoras predominam sempre neste domínio. Mais ainda em Portugal.
Alguém me colocou no blog este comentário:
Considero este assunto interessante e gostava de alinhavar duas ou três ideias sobre esta polémica. Sou professor numa Faculdade de Letras de uma universidade pública e trabalho na área da formação de professores. Digo já, para que não subsistam dúvidas, que a minha área não é a didáctica do Português ou de qualquer outra disciplina, pelo que as minhas opiniões sobre a matéria valem tanto quanto as de um economista sobre a criação de canários. O diagnóstico do Francisco José Viegas sobre a forma como a nossa língua é tratada nos mais diversos cenários (legendagens, jornais, etc.) parece-me certeiro. Escreve-se mal embora julgue não ser possível dizer que se escreva actualmente pior do que há 20 anos. Acontece, simplesmente, que as taxas de escolarização aumentaram brutalmente, pelo que um número muito maior de alunos, uma parte substancial dos quais oriundos de níveis socioeconómicos desfavorecidos, atingiram níveis de escolaridade impensáveis para a geração dos seus pais. Todos sabemos, com base em inúmeras investigações, da relação estreita entre origem sociocultural e competência linguística. Para dar um exemplo, há poucos anos realizei um estudo, juntamente com dois colegas da Faculdade na qual trabalho, com alunos do 4º ano de licenciatura que frequentavam todos os cursos de licenciatura com formação educacional. Mais de metade dos pais e das mães tinham somente concluído a antiga 4ª classe. Embora em níveis residuais existiam ainda casos de analfabetismo (1% no caso dos pais e 0,7% no caso das mães). Em suma, o ponto de partida de muitos dos nossos alunos que frequentam o ensino secundário e superior, ao nível do enquadramento sociofamiliar, não potencia um bom domínio da língua ao nível oral e escrito. Mas ainda bem que isto acontece porque, de outro modo, a situação seria bem pior.
No caso dos meus alunos julgo estar a ser objectivo se disser que uma parte muito substancial deles tem dificuldades acentuadas ao nível da dimensão escrita da língua portuguesa. Não falo somente de erros de pontuação, acentuação ou de ortografia. Falo de competências básicas ao nível da estruturação frásica. A situação, na minha opinião, é bastante má. Mas se pensarmos que quem entra no ensino superior público são os alunos com melhores médias de candidatura mas quem ocupa os poucos lugares disponíveis ao nível da docência em escolas públicas são os alunos das universidades privadas que concluem os seus cursos com médias muito superiores, receio termos diante de nós a receita da catástrofe. Para quem tem filhos em idade escolar, como é o meu caso, tenham medo, tenham muito medo?Enquanto não se colocar de pé um sistema de acreditação da formação inicial de professores credível, quem entra no sistema educativo como docente tende a ser o refugo.
Um comentário final sobre a opinião do Pedro Ornelas relativamente à importância da leitura. Afirma ele que 'fomentar o gosto pela leitura será a melhor maneira de fazer com que as pessoas escrevam bem. E não me parece que isso tenha de passar necessariamente pela leitura dos clássicos.' Concordo inteiramente com a observação mas penso que estamos a deixar escapar um aspecto que me parece essencial. Ler é condição necessária para se escrever com um mínimo de correcção. A discussão dos clássicos de leitura obrigatória parece-me, com toda a sinceridade, uma bizantinice. Para escrever com correcção mais do que ler é necessário escrever. Escrever muito e ser muito vezes corrigido. Pode ser sobre o Eça ou sobre o futebol. Sobre política ou sobre religião. Mas aprofunde-se o treino da escrita. Ora, quando falo com professores de Português do ensino secundário quase todos se queixam dos programas enciclopédicos que têm que gerir e que proporcionam poucas oportunidades para a escrita (além do mais dá trabalho corrigir textos feitos pelos alunos, sejamos francos?). Programas estes que eram, pelo menos até há pouco tempo, compêndios da história da literatura portuguesa. A situação mantém-se na universidade. Na minha Faculdade, com pontuais excepções, os alunos só escrevem na altura de exames. Alguns alunos chegam ao 3º ano sem terem nunca realizado um único trabalho escrito. Alguém me explica como é possível melhorar o domínio da língua portuguesa desta maneira?
Concordo quase inteiramente, embora duvide de algumas afirmações. 'Para escrever com correcção mais do que ler é necessário escrever'? Voltando à vaca da ortografia, parece-me evidente que quem dá poucos erros ortográficos é sobretudo porque se habituou a reconhecer a forma gráfica das palavras através da leitura intensiva, embora a prática e a correcção também sejam importantes. Os erros ortográficos dos alunos sempre foram corrigidos nas aulas de português, suponho, e no entanto... Do mesmo modo, o primeiro passo para escrever bem é ler muito, interiorizando as regras da escrita. A prática só vem aperfeiçoar essa competência que se adquire pela leitura em primeiro lugar. Agora, essa de os alunos de Letras chegarem ao 3º ano sem um único trabalho escrito deixa-me estupefacto. Em alguns cursos na área de Ciências Sociais é o oposto - muitos trabalhos e poucos testes.
Eu não penso que se escreva mal nos jornais portugueses. Mas acho que se pratica uma escrita burocrática, pouco criativa e demasiado cautelosa. E concordo com o Francisco em que teríamos muito a aprender com os brasileiros, e até com os clássicos que refere. De facto, se o Eça ressuscitasse agora como jornalista era bem capaz de escandalizar muita gente, e sei de alguns revisores que não o deixariam passar. A pergunta que os meus colegas jornalistas me fizeram mais vezes nos anos que trabalhei numa redacção deve ter sido 'Ouve lá, esta palavra existe?', ao que eu respondia 'Se não existe passa a existir', se a palavra me parecia bem formada, o que era quase sempre o caso. E lá iam eles ao Porto Editora, e não estivesse lá substituíam-na por outra, nem que a palavra em causa fosse o 'agrafador' ou a 'esferovite' de que falo no meu artigo sobre dicionários. Eu próprio adorava ser mais criativo, mas receio bem já ter apanhado demasiados vícios.
Quanto aos erros ortográficos, também concordo inteiramente que essa profusão é inaceitável, e que é bizarro termos um secretário de Estado da Educação que se desculpa com o corrector ortográfico do computador.
Também estou de acordo, como já disse antes, em que terá havido alguma desorientação quanto ao uso da linguística no contexto do ensino básico/secundário. Mas isso não invalida que talvez pudesse haver mais investigação no campo da linguística aplicada à didáctica da língua, o que é uma história totalmente diferente. Se, como diz o autor do comentário acima, até há pouco tempo os programas de português do ensino básico eram 'compêndios enciclopédicos da história da literatura portuguesa', e se agora se pretende alterar a situação, que instrumentos têm os professores ao dispor?
Lembrei-me de visitar o site do Iltec, que é dum poucos sítios onde faz investigação linguística em Portugal (e onde tive a sorte de ser aluno da Margarita Correia, que me ensinou o pouco que sei sobre dicionários), e verifico que, embora 'Ferramentas de apoio ao ensino do Português (língua materna / língua estrangeira)' lá figure como uma das áreas de investigação a que se propõem, não têm nenhum projecto, nem finalizado nem em curso, neste campo. Também sei que sempre lutaram com grandes dificuldades financeiras, assim como as outras instituições que trabalham neste campo.
No que respeita às gramáticas e dicionários, a situação é também reveladora do quase nulo investimento na língua: das três gramáticas que conheço, uma é de uma autora espanhola (Pilar Vázquez Cuesta), outra é de um brasileiro (Celso Cunha - embora apareça em co-autoria com o Lindley Cintra, a contribuição deste foi mínima, como é esclarecido no prefácio da obra); a terceira é de uma equipa dirigida pela Maria Helena Mira Mateus e destina-se unicamente a um público universitário. A única obra disponível por cá sobre história da língua é um excelente livrinho de divulgação escrito por um francês, Paul Teyssier, e traduzido por... Celso Cunha. A consulta à bibliografia deste livrinho é esclarecedora: o autor refere apenas uma obra de referência sobre história da língua, escrita por um brasileiro, e dois dicionários, ambos brasileiros (o Morais e o Aurélio). Das restantes obras, constam apenas dois nomes portugueses, o de Lindley Cintra, na área da dialectologia, e o velhinho Rodrigues Lapa para a estilística. Bem sei que o livro tem 20 anos, mas não me parece que as coisas tenham mudado muito desde aí. Fora isto, só a famigerada Edite Estrela e mais uns curiosos.
É verdade que convém saber as regras da arte para poder infringi-las. Só que, neste triste panorama, sem obras de referência, com os linguistas remetidos ao silêncio, sem divulgação capaz, quando se fala da língua é quase sempre numa perspectiva meramente reaccionária, de repúdio por qualquer inovação, de obsessão pela norma, de desprezo pelos dialectos regionais e pelas variantes não-europeias do português. Tudo coisas que, ao fim e ao cabo, acabam por conduzir precisamente àquilo que os puristas dizem querer evitar - o empobrecimento da língua.
Mas a verdade é que as tendências conservadoras predominam sempre neste domínio. Mais ainda em Portugal.
Alguém me colocou no blog este comentário:
Considero este assunto interessante e gostava de alinhavar duas ou três ideias sobre esta polémica. Sou professor numa Faculdade de Letras de uma universidade pública e trabalho na área da formação de professores. Digo já, para que não subsistam dúvidas, que a minha área não é a didáctica do Português ou de qualquer outra disciplina, pelo que as minhas opiniões sobre a matéria valem tanto quanto as de um economista sobre a criação de canários. O diagnóstico do Francisco José Viegas sobre a forma como a nossa língua é tratada nos mais diversos cenários (legendagens, jornais, etc.) parece-me certeiro. Escreve-se mal embora julgue não ser possível dizer que se escreva actualmente pior do que há 20 anos. Acontece, simplesmente, que as taxas de escolarização aumentaram brutalmente, pelo que um número muito maior de alunos, uma parte substancial dos quais oriundos de níveis socioeconómicos desfavorecidos, atingiram níveis de escolaridade impensáveis para a geração dos seus pais. Todos sabemos, com base em inúmeras investigações, da relação estreita entre origem sociocultural e competência linguística. Para dar um exemplo, há poucos anos realizei um estudo, juntamente com dois colegas da Faculdade na qual trabalho, com alunos do 4º ano de licenciatura que frequentavam todos os cursos de licenciatura com formação educacional. Mais de metade dos pais e das mães tinham somente concluído a antiga 4ª classe. Embora em níveis residuais existiam ainda casos de analfabetismo (1% no caso dos pais e 0,7% no caso das mães). Em suma, o ponto de partida de muitos dos nossos alunos que frequentam o ensino secundário e superior, ao nível do enquadramento sociofamiliar, não potencia um bom domínio da língua ao nível oral e escrito. Mas ainda bem que isto acontece porque, de outro modo, a situação seria bem pior.
No caso dos meus alunos julgo estar a ser objectivo se disser que uma parte muito substancial deles tem dificuldades acentuadas ao nível da dimensão escrita da língua portuguesa. Não falo somente de erros de pontuação, acentuação ou de ortografia. Falo de competências básicas ao nível da estruturação frásica. A situação, na minha opinião, é bastante má. Mas se pensarmos que quem entra no ensino superior público são os alunos com melhores médias de candidatura mas quem ocupa os poucos lugares disponíveis ao nível da docência em escolas públicas são os alunos das universidades privadas que concluem os seus cursos com médias muito superiores, receio termos diante de nós a receita da catástrofe. Para quem tem filhos em idade escolar, como é o meu caso, tenham medo, tenham muito medo?Enquanto não se colocar de pé um sistema de acreditação da formação inicial de professores credível, quem entra no sistema educativo como docente tende a ser o refugo.
Um comentário final sobre a opinião do Pedro Ornelas relativamente à importância da leitura. Afirma ele que 'fomentar o gosto pela leitura será a melhor maneira de fazer com que as pessoas escrevam bem. E não me parece que isso tenha de passar necessariamente pela leitura dos clássicos.' Concordo inteiramente com a observação mas penso que estamos a deixar escapar um aspecto que me parece essencial. Ler é condição necessária para se escrever com um mínimo de correcção. A discussão dos clássicos de leitura obrigatória parece-me, com toda a sinceridade, uma bizantinice. Para escrever com correcção mais do que ler é necessário escrever. Escrever muito e ser muito vezes corrigido. Pode ser sobre o Eça ou sobre o futebol. Sobre política ou sobre religião. Mas aprofunde-se o treino da escrita. Ora, quando falo com professores de Português do ensino secundário quase todos se queixam dos programas enciclopédicos que têm que gerir e que proporcionam poucas oportunidades para a escrita (além do mais dá trabalho corrigir textos feitos pelos alunos, sejamos francos?). Programas estes que eram, pelo menos até há pouco tempo, compêndios da história da literatura portuguesa. A situação mantém-se na universidade. Na minha Faculdade, com pontuais excepções, os alunos só escrevem na altura de exames. Alguns alunos chegam ao 3º ano sem terem nunca realizado um único trabalho escrito. Alguém me explica como é possível melhorar o domínio da língua portuguesa desta maneira?
Concordo quase inteiramente, embora duvide de algumas afirmações. 'Para escrever com correcção mais do que ler é necessário escrever'? Voltando à vaca da ortografia, parece-me evidente que quem dá poucos erros ortográficos é sobretudo porque se habituou a reconhecer a forma gráfica das palavras através da leitura intensiva, embora a prática e a correcção também sejam importantes. Os erros ortográficos dos alunos sempre foram corrigidos nas aulas de português, suponho, e no entanto... Do mesmo modo, o primeiro passo para escrever bem é ler muito, interiorizando as regras da escrita. A prática só vem aperfeiçoar essa competência que se adquire pela leitura em primeiro lugar. Agora, essa de os alunos de Letras chegarem ao 3º ano sem um único trabalho escrito deixa-me estupefacto. Em alguns cursos na área de Ciências Sociais é o oposto - muitos trabalhos e poucos testes.
Eu não penso que se escreva mal nos jornais portugueses. Mas acho que se pratica uma escrita burocrática, pouco criativa e demasiado cautelosa. E concordo com o Francisco em que teríamos muito a aprender com os brasileiros, e até com os clássicos que refere. De facto, se o Eça ressuscitasse agora como jornalista era bem capaz de escandalizar muita gente, e sei de alguns revisores que não o deixariam passar. A pergunta que os meus colegas jornalistas me fizeram mais vezes nos anos que trabalhei numa redacção deve ter sido 'Ouve lá, esta palavra existe?', ao que eu respondia 'Se não existe passa a existir', se a palavra me parecia bem formada, o que era quase sempre o caso. E lá iam eles ao Porto Editora, e não estivesse lá substituíam-na por outra, nem que a palavra em causa fosse o 'agrafador' ou a 'esferovite' de que falo no meu artigo sobre dicionários. Eu próprio adorava ser mais criativo, mas receio bem já ter apanhado demasiados vícios.
Quanto aos erros ortográficos, também concordo inteiramente que essa profusão é inaceitável, e que é bizarro termos um secretário de Estado da Educação que se desculpa com o corrector ortográfico do computador.
Também estou de acordo, como já disse antes, em que terá havido alguma desorientação quanto ao uso da linguística no contexto do ensino básico/secundário. Mas isso não invalida que talvez pudesse haver mais investigação no campo da linguística aplicada à didáctica da língua, o que é uma história totalmente diferente. Se, como diz o autor do comentário acima, até há pouco tempo os programas de português do ensino básico eram 'compêndios enciclopédicos da história da literatura portuguesa', e se agora se pretende alterar a situação, que instrumentos têm os professores ao dispor?
Lembrei-me de visitar o site do Iltec, que é dum poucos sítios onde faz investigação linguística em Portugal (e onde tive a sorte de ser aluno da Margarita Correia, que me ensinou o pouco que sei sobre dicionários), e verifico que, embora 'Ferramentas de apoio ao ensino do Português (língua materna / língua estrangeira)' lá figure como uma das áreas de investigação a que se propõem, não têm nenhum projecto, nem finalizado nem em curso, neste campo. Também sei que sempre lutaram com grandes dificuldades financeiras, assim como as outras instituições que trabalham neste campo.
No que respeita às gramáticas e dicionários, a situação é também reveladora do quase nulo investimento na língua: das três gramáticas que conheço, uma é de uma autora espanhola (Pilar Vázquez Cuesta), outra é de um brasileiro (Celso Cunha - embora apareça em co-autoria com o Lindley Cintra, a contribuição deste foi mínima, como é esclarecido no prefácio da obra); a terceira é de uma equipa dirigida pela Maria Helena Mira Mateus e destina-se unicamente a um público universitário. A única obra disponível por cá sobre história da língua é um excelente livrinho de divulgação escrito por um francês, Paul Teyssier, e traduzido por... Celso Cunha. A consulta à bibliografia deste livrinho é esclarecedora: o autor refere apenas uma obra de referência sobre história da língua, escrita por um brasileiro, e dois dicionários, ambos brasileiros (o Morais e o Aurélio). Das restantes obras, constam apenas dois nomes portugueses, o de Lindley Cintra, na área da dialectologia, e o velhinho Rodrigues Lapa para a estilística. Bem sei que o livro tem 20 anos, mas não me parece que as coisas tenham mudado muito desde aí. Fora isto, só a famigerada Edite Estrela e mais uns curiosos.
É verdade que convém saber as regras da arte para poder infringi-las. Só que, neste triste panorama, sem obras de referência, com os linguistas remetidos ao silêncio, sem divulgação capaz, quando se fala da língua é quase sempre numa perspectiva meramente reaccionária, de repúdio por qualquer inovação, de obsessão pela norma, de desprezo pelos dialectos regionais e pelas variantes não-europeias do português. Tudo coisas que, ao fim e ao cabo, acabam por conduzir precisamente àquilo que os puristas dizem querer evitar - o empobrecimento da língua.
4.8.04
ESCOLA E B DA ...
Exercício escrito de Língua Portuguesa
Nome_______________________________Ano _____ Turma ______ Data ______________
Observações:__________________________________________________________________
Classificação________________ O Professor_____________
Encarregado de Educação________________________________________
Responde com correcção e de forma completa às questões que te são apresentadas:
I
1- Transcreve a resposta correcta e justifica a tua opção:
"Os Lusíadas " são: a) Um poema lírico
b) Uma obra dramática
c) Uma narrativa épica
d) Um ensaio sociológico
e) Uma "moralidade"
1.1 Completa os espaços:
Segundo a tradição do género épico, a ___________ constitui a primeira parte da estrutura da epopeia e, nela, o autor
2- Lê o texto:
19 Já no largo oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,
20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vem pela Via Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do Velho Atlante.
2.1 Na estância 19, narra-se uma acção. Transcreve o verbo que a traduz e diz qual é o sujeito da acção.
2.2 Qual é o acontecimento central da narração?
2.3 Explica o que descreve a estância 20.
2.4 Identifica os dois planos em que Camões situa a narrativa. Como é feita a ligação entre eles?
2.5 Porque razão Camões inicia a narrativa quando a armada portuguesa já se encontra no oceano Índico? Diz o nome pelo qual é conhecido este processo narrativo, e transcreve do texto o verso que melhor o identifica.
3- Identifica e diz em que consiste o recurso estilístico presente nos seguintes versos:
a) "As armas e os barões assinalados / Que, da Ocidental Praia Lusitana"
4- Faz o esquema rimático da estrofe 19 e identifica o tipo de rima usado.
6- O autor d'Os Lusíadas insere-se no movimento cultural que foi o Renascimento. Escreve um pequeno texto em que dês conta dos traços mais característicos dessa época.
Isto é um teste de Língua Portuguesa do 9º ano sobre os Lusíadas, que descobri algures na net. Agora digam lá como é que sentiam aos 14 ou 15 anos perante uma coisa destas, e se os putos não têm razão em achar isto uma inútil palhaçada.
Exercício escrito de Língua Portuguesa
Nome_______________________________Ano _____ Turma ______ Data ______________
Observações:__________________________________________________________________
Classificação________________ O Professor_____________
Encarregado de Educação________________________________________
Responde com correcção e de forma completa às questões que te são apresentadas:
I
1- Transcreve a resposta correcta e justifica a tua opção:
"Os Lusíadas " são: a) Um poema lírico
b) Uma obra dramática
c) Uma narrativa épica
d) Um ensaio sociológico
e) Uma "moralidade"
1.1 Completa os espaços:
Segundo a tradição do género épico, a ___________ constitui a primeira parte da estrutura da epopeia e, nela, o autor
2- Lê o texto:
19 Já no largo oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,
20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vem pela Via Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do Velho Atlante.
2.1 Na estância 19, narra-se uma acção. Transcreve o verbo que a traduz e diz qual é o sujeito da acção.
2.2 Qual é o acontecimento central da narração?
2.3 Explica o que descreve a estância 20.
2.4 Identifica os dois planos em que Camões situa a narrativa. Como é feita a ligação entre eles?
2.5 Porque razão Camões inicia a narrativa quando a armada portuguesa já se encontra no oceano Índico? Diz o nome pelo qual é conhecido este processo narrativo, e transcreve do texto o verso que melhor o identifica.
3- Identifica e diz em que consiste o recurso estilístico presente nos seguintes versos:
a) "As armas e os barões assinalados / Que, da Ocidental Praia Lusitana"
4- Faz o esquema rimático da estrofe 19 e identifica o tipo de rima usado.
6- O autor d'Os Lusíadas insere-se no movimento cultural que foi o Renascimento. Escreve um pequeno texto em que dês conta dos traços mais característicos dessa época.
Isto é um teste de Língua Portuguesa do 9º ano sobre os Lusíadas, que descobri algures na net. Agora digam lá como é que sentiam aos 14 ou 15 anos perante uma coisa destas, e se os putos não têm razão em achar isto uma inútil palhaçada.
3.8.04

'Agora é que isto está sossegado', dizia-me uma mulher em Sines na segunda-feira. 'Sossegado até demais', acrescentou. 'Não se passa nada aqui'.

Pergunto-lhe o que terá corrido mal em Sines. 'As pessoas não se fixam aqui, vêm cá trabalhar e vão a casa aos fins de semana'.

Terá sido um erro construir Vila Nova de Santo André, em vez, de ampliar a cidade de Sines?

'Talvez, não sei. Sei que isto está mais morto que há 20 anos. As pessoas não estão só velhas por fora. Estão velhas por dentro', continuou ela, aludindo aos protestos dos moradoras pelo ruído durante as noites do festival.
Em 30 anos, a experiência de Sines passou de promessa de desenvolvimento do Alentejo a elefante branco, com a descolonização e as crises petrolíferas. Depois, as coisas parecem ter melhorado, mas continua a não ter o efeito que se esperava. Em contrapartida, Évora, que há 25 anos não passava de uma múmia retrógrada, é um caso de sucesso, com a aposta no ensino, no turismo, na cultura e no património. Alguém já fez o balanço de Sines, três décadas depois?

O melhor momento do Festival de Sines foi a conferência do Tom Zé, qual missa psicadélico-tropicalista.

A música do Tom Zé propriamente dita, algures entre os ritmos populares nordestinos e o rock, já não me entusiasma tanto.

Tudo começou com uma crónica do José Vítor Malheiros no Público, cujo conteúdo me irritou bastante, como é costume sempre que se fala destas coisas. A par com algumas observações certeiras, tem algumas bastante despropositadas e que me fazem arrepiar, como esta:
Mas se a ortografia vive uma perpétua mutação, é evidente que nem todas as cambiantes são aceitáveis, imaginativas e justificáveis. E muitas surgem por pura ignorância e pertencem ao domínio da calinada arrogante que não sabe, não quer saber e tem raiva a quem sabe - como Goering quando ouvia falar de cultura.
Pela experiência que tenho - bastantes anos a corrigir textos - quase toda a gente dá erros ortográficos e de pontuação, independentemente da idade e até do nível de escolaridade. E corremos o risco de cair no domínio estéril do terrorismo irracional quando começamos a acusar-nos uns aos outros de infringir a norma - confundindo a observâncias das normas estabelecidas com a prática da boa escrita, o que para mim são coisas obviamente diferentes. Há pessoas que escrevem (mais ou menos) bem, e há outras cujo trabalho é corrigi-las (mais ou menos bem). Cá para mim, quanto mais gente houver a escrever, melhor, e a obsessão pela norma tem um efeito castrador. Quem costuma ler jornais, e conhece a imprensa britânica, talvez perceba o que quero dizer. O que não quer dizer que não concorde com o Malheiros em que são inaceitáveis as gralhas que vê nos lugares mais inesperados - só que acho que isso se deve, não à crescente ignorância dos portugueses, mas às poupanças que os meios - desde os jornais às agências de publicidade - fazem na revisão dos textos.
Vai daí, o Francisco José Viegas fez um comentário inflamado no Aviz em que invoca os argumentos do costume para a suposta decadência da escrita em português. Como o FJV teve a iniciativa e a gentileza de publicar dois mails que lhe enviei, limito-me aqui a resumir o que penso sobre o assunto:
Não tenho nenhuma indicação de que hoje em dia se escreva pior - ou melhor - português que no passado;
Mesmo que isso seja verdade, duvido que isso se deva isso se deva "à falta de leitura de bom português nas escolas" e "à decadência do estudo dos autores clássicos da nossa língua". Inclino-me mais para admitir que, como a proporção de população escolarizada é hoje várias vezes superior à que era nos nossos tempos de juventude - meus e do FJV, em que ter o antigo 7º ano do liceu era praticamente um apanágio de menino bem -, os outros meninos não-tão-bem que entretanto passaram a ter o acesso facilitado ao secundário e à universidade escrevam pior que nós. Mas não estou nada certo disto, e seria uma investigação bem interessante de fazer.
O FJV, para não variar, também se insurge contra a culpa nisto tudo da "euforia da linguística teórica nas universidades e escolas secundárias". Aqui, penso que há dois aspectos a considerar. Por um lado, é natural que tenha havido uma grande desorientação quando, nas universidades e no ensino básico e secundário, se passou da pré-história da linguística (a chamada filologia) para a linguística moderna - programas mal concebidos, professores obrigados a dar aulas segundo um novo paradigma de que nunca tinham ouvido falar. Mas o problema dos programas mal concebidos é generalizado, creio. Eu fui professor no secundário durante muitos anos, de Geografia, e sei que os programas eram totalmente disparatados - demasiado longos e exigentes, sem ter minimamente em conta o nível etário dos alunos. Também sei que estes problemas não são um exclusivo português, muito longe disso.
Não sendo especialista no assunto, parece-me que o gosto pela leitura deve ser adquirido precocemente (entre os 8 e os 12 anos, digamos). E pode-se aprender a gostar de ler lendo qualquer coisa, seja literatura juvenil, banda desenhada ou jornais desportivos. Parece-me óbvio que os alunos que saem do ensino básico devem ter um conhecimento básico da história, da geografia e da cultura portuguesa, incluindo a literatura. Duvido muito é que seja possível dar 'saltos', isto é, aprender a gostar de ler pelos Lusíadas sem passar pelos Cinco ou seja o que for.
Suponho que por detrás das angústias do FJV e outros intelectuais está, principalmente, a reformulação do ensino do português no ensino básico. Tanto quanto percebi da leitura dos programas que estão disponíveis no site do MInistério da Educação, passou a privilegiar-se a competência na compreensão e expressão da língua, no primeiro e segundo ciclos. A literatura passa para o terceiro ciclo; a lírica de Camões é abordada no 10.º ano, e Os Lusíadas no 12º, juntamente com o Memorial do Convento. Não podia estar mais de acordo.
Mas será que esta reforma tem correspondência nos currículos das licenciaturas onde se formam os professores de Português? Olhando, por exemplo, para os currículos destes cursos na faculdade onde andei, espero que as duas cadeiras de Didáctica da Língua nas área de opção educacional sejam suficientes.
Desconheço como eram estes currículos no tempo em que andei na faculdade, mas a ideia que tenho pelo contacto com colegas era que se privilegiava demasiadamente a literatura em detrimento da história e da cultura, e mesmo da própria língua - o que também não facilitava as coisas, nem no ensino do português nem no ensino das línguas estrangeiras.
Se bem que a linguística não tenha de ter necessariamente uma utilidade imediata, por vezes tem-na - na didáctica da língua, por exemplo. Tanto quanto sei, os britânicos foram quem mais investiu na linguística aplicada, e não por acaso que têm os melhores dicionários que existem e o melhor ensino de língua estrangeira. Quem passou pelas escolas que seguem o método do British Council e pelas escolas da Alliance Française sabe do que estou a falar. E acho que ninguém se ofende se disser que um aluno que passe o nível de Proficiency das escolas do British Council tem um nível de domínio da língua inglesa muito superior ao que se adquire na faculdade. Sei de licenciados em LLM que fizeram o Proficiency por isso mesmo.

Quanto aos dicionários, é espantoso como este prefácio, escrito pelo Cândido de Figueiredo para a primeira edição do seu dicionário, de 1899, se mantém actual.

E isto é um fragmento do Longman Dictionary of Contemporary English, um dicionário especialmente destinado a não-falantes de inglês. Como se pode ver, dão-se ao luxo de, em relação a determinadas palavras sinónimas, quantificar o uso na oralidade e na escrita. Algo que está a anos-luz do que se faz em Portugal, e que continuará a estar enquanto não se investir como deve ser na linguística.





