30.10.04





Gosto desta escada que não leva a lado nenhum.



Adorava saber o que medem ao certo estes aparelhómetros ao lado do elevador do Ginjal.



Penso que tem a ver com a possibilidade da falésia se desmoronar, portanto devem medir a tensão ou a pressão de qualquer coisa ou algo assim.




Ainda não vi nada escrito sobre os novos edifícios do Siza na rua do Alecrim. Eu gosto. São sóbrios e respeitam o contexto sem caírem no pastiche.


Quando fui ao sul da Suécia e a Copenhaga fiquei admirado: não sabia que eram tão próximos. Há um braço de mar entre Copenhaga e Malmö, mais ou menos da largura do Tejo entre Lisboa e o Barreiro, e há pouco tempo fizeram uma ponte, aliás muito parecida com a Vasco da Gama. A construção da ponte foi controversa, porque corresponde a uma vontade política de aproximar as regiões de Skane e de Copenhaga, por razões económicas. Só que os dois países são muito mais diferentes do que nós poderíamos imaginar por cá, e para complicar ainda mais as coisas Skane foi durante séculos território dinamarquês.

Suponho que as diferenças têm a ver principalmente com a religião. Embora ela seja a mesma, em princípio, na Suécia parece prevalecer uma interpretação mais estrita e puritana do luteranismo. Aliás, uma coisa surpreendente na Suécia é que a separação entre Igreja e Estado ocorreu apenas há 4 anos, em 2000. Até aí, era um estado confessional, tal como muitos países muçulamanos.



Seja como for, o contraste é enorme entre Malmö, a capital de Skane, e Copenhaga. A primeira coisa que salta à vista é a publicidade: na Suécia não há outdoors, nada de publicidade nas ruas. A foto de cima é de uma das principais praças de Malmö, e vêem-se os anúncios antigos, com ar de princípio de século XX, pintados nas paredes.



De modo que este edifício cheio de logotipos em néon, à entrada de Copenhaga, lembra-nos logo que estamos noutro país, apesar da arquitectura muito parecida.



Uma coisa que as duas regiões têm em comum são as bicicletas (isto é um bocado do parque de estacionamento de biclas da estação de comboio de Malmö). Muito mais bicicletas que carros. Nas ruas de Malmö e de Lund passa só um carro de vez em quando.



Estava nesta rua com uma rapariga sueca da empresa que tinha ido visitar. Ela tinha vindo indicar-me o caminho para o centro de Lund, e deixou-me numa passadeira de peões. Vinha um carro a uns 50 metros, devagarinho, e ela disse-me: 'Podes atravessar a passadeira à vontade. Se o carro não parar paga uma multa de' (não me lembro bem quanto era, qualquer coisa como 200 euros). Pensei 'Ora bem, aqui está o famoso civismo dos escandinavos. Se em Portugal as multas fossem assim paravam logo todos'.

Aquela inscrição no muro Berlim estaria escrita em sueco se o 'for' tivesse um trema no 'ö', assim, e em dinamarquês se o 'o' tivesse uma barra diagonal impossível de escrever com este teclado. São três línguas bastante semelhantes, e é engraçado que acontece o mesmo fenómeno entre o dinamarquês e o sueco do que com o português e o espanhol: os dinamarqueses têm muita facilidade em compreender o sueco, mas o inverso não é verdade. Quanto aos noruegueses, entendem os suecos e os dinamarqueses mas os outros não os entendem. Não sei exactamente as razões disso, mas suponho que tem a ver principalmente com o sistema vocálico.

Isto fez-me lembrar o mito recorrente em Portugal de que os espanhóis têm imensa relutância em aprender ou mesmo simplesmente compreender o português, que não passa disso mesmo. O grande obstáculo é o sistema vocálico: o português tem 9 vogais e duas semivogais, enquanto o espanhol tem apenas cinco vogais e duas semivogais. Como as cinco vogais espanholas são iguais a cinco vogais que também existem em português (correspondem ao 'á', 'é' e 'ó' abertos, mais o 'i' e o 'u'), nós percebemo-las perfeitamente; os espanhóis, pelo contrário, vêem-se aflitos para perceber os dois 'e' diferentes de 'percebes', por exemplo, ou os dois 'a' de 'calado'

29.10.04





Uma nova revista online portuguesa de fotografia, a BZKmag. Já cá faltava, e gosto bastante do primeiro número.



Um simpático visitante enviou-me esta foto do muro de Berlim. É uma sorte partilhar o espaço de trabalho com pessoas de várias nacionalidades (vários portugueses, uma luso-espanhola, um sueca, um alemão e um austríaco), senão não tinha descoberto tão rapidamente que o que está ali escrito é 'céu sobre Berlim', em norueguês.





Não resisti a gamar o registo da busca do provérbio desconhecido no Farpas & Bitaites.



Na mesma noite, o Quinteto Tati actuou no Frágil. Uma música completamente fora de moda: arranjos banais, composição bastante sofisticada, as melhores letras de há muitos anos e uma tristeza que não tem nada a ver com o fado. Um exemplo:

No quarto impecável, ao lado do corpo, a carta, com um último artigo a sair no jornal de domingo, no correio dos leitores, dizia assim:
"Sou jovem. Honesto, estudante. Trabalho, sou pago: eu pago os impostos, as letras, os juros da casa, dos móveis, dos livros na estante, dos discos, dos filmes. Que hei-de fazer? Eu vou ao cinema, eu leio poemas, gosto de ler! Eu voto, eu escolho, eu olho nos olhos dos casos, dos factos, das coisas concretas. Eu não tomo drogas, não sou alcoólico! Eu estou preocupado e um pouco dorido ao ver que em várias revistas adultos, ministros, artistas, nas revistas da tv, demonstram que os jovens são brutos, boémios, incultos, autistas, não têm emprego, ou são arrivistas e mal educados. São tão depressivos, são tão destrutivos, que hei-de fazer? Com 23 anos já não faço planos: para quê fazer? Eu vivo na esperança, na vaga mudança que nunca vai acontecer. Eu não tomo drogas, não sou alcoólico!


28.10.04





A foto só vale pelos dados temporais que a máquina indica: 28 de Outubro de 2004, 3.34. E eu acrescento: Eclipse total da Lua, fase de ocultação total. Há mais em 2007.



As nuvens não ajudaram, como se pode verificar aqui.



Esta é uma sequência de fotos tiradas nas Canárias na mesma noite.



Dizem que há diversos tipos de eclipses lunares, do ponto de vista de como aparecem ao observador. Não me lembro dos nomes agora, mas houve um que vi há uns 10 anos e baptizei como sendo do tipo bola de bilhar. Era quase isto, só que a Lua aparecia mais como uma bola lisa cor de marfim, distintamente em 3D. Entrei em conflito interno: a parte exterior do meu cérebro sabia que a Lua é um planeta satélite da Terra, mas o interior achava que ela era apenas um disco luminoso que de vez em quando se deslocava no céu à noite. Perante a visão daquela bola de bilhar gigante suspensa sobre a minha cabeça, o que prevalecia era a opinião do cérebro mais antigo, que me dizia 'Fónix, como é que esta coisa está ali suspensa e não cai? Algo de errado se passa aqui." Aí pensei que isso não deve ser nada comparado com a sensação que têm os astronautas quando vêem a Terra lá em baixo e percebem que afinal ela é mesmo aquela bola azul suspensa no vazio.

26.10.04



Ainda a propósito do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa, no outro dia não tinha comigo o teste. Eis a lista completa de problemas do dito.

Primeiro, há o já referido erro no próprio texto explicativo do teste, em que se escreve 'inclusivé' por 'inclusive'.

Na 1º teste sobre os erros que existem num texto, devia estar esclarecido se se trata de erros ortográficos, e há pelo menos uma situação que vai provocar confusão:

... quando aquele grupo de jovens se encontraram...

Segundo o tira-teimas oficial do campeonato, a gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra, a frase está correcta (cf. Breve Gramática do Português Contemporâneo, p. 350) mas a grande maioria das pessoas considerá-la-iam incorrecta.

A palavra 'concerteza' é um caso curioso: não está registada em nenhum dicionário, que eu saiba, mas se a introduzirmos no Google encontramos 14900 ocorrências. Cá para mim não vejo porque é que não se há-de escrever assim, dado que já se perdeu a noção dos seus elementos constituintes (um dos critérios para a formação de uma nova palavra por composição), e aí estão as 14900 ocorrências a prová-lo. É uma das palavras preferidas por alguns imbecis para acusarem os outros de ignorantes.

A seguir, na pergunta 1, as três frases estão correctas, só que a B contém um erro de ortografia. Logo, a pergunta não está correctamente formulada.

Na pergunta 3, presume-se que a resposta correcta é a E (chocolate é uma palavra de origem nauatle). Se lá estivesse 'espanhola' também estaria correcto, uma vez que, em rigor, 'chocolate' é um empréstimo do espanhol, que por sua vez o foi buscar ao nauatle. Mas parecia-me mais sensato pôr lá 'azteca' em vez de 'nauatle'. Eu, por exemplo, fiquei agora a saber que o nauatle era a língua falada pelos aztecas (e muitos outros povos da mesma região). Por que raio um miúdo de 15 anos há-de saber o que quer dizer 'nauatle'?

Pergunta 6: 'sine qua non' é português? Nós achamos que sim, tal como 'abat-jour', 'disc-jockey' ou 'ranking'. Mas muita gente dirá que não.

Na pergunta 7, por exclusão de partes, a resposta certa há-de ser a D. Mas, na verdade, nenhuma das respostas está correcta: uma pederneira (designação vulgar do sílex) é um pirómaco (material que quando percurtido produz centelhas), mas o contrário não é verdade. É equivalente a dizer 'a fruta é uma maçã'.

Pergunta 9: nem eu nem a minha amiga linguista e lexicógrafa tínhamos alguma vez ouvido falar de nenhuma destas expressões.

Pergunta 10: as quatro frases estão correctas, mas 3 delas contêm um erro de ortografia, portanto a pergunta não está bem fomulada. Só há três anos eu soube o que é uma laparotomia: é um termo médico que só quem trabalha em saúde tem a obrigação de saber. Das restantes pessoas que o sabem, a grande maioria deverá ter tido a infelicidade de precisar de fazer uma. As probabilidades de isso acontecer uma pessoa com menos de 19 anos são, felizmente, diminutas.

Pergunta 14: trata-se de uma pergunta descabida, visto que envolve uma expressão latina e este teste é sobre língua portuguesa.

Pergunta 17: uma pessoa com alguns conhecimentos de história da língua inclinar-se-á logo para a hipótese 'cutelo' por causa da terminação 'elo' que indicam tratar-se de um diminutivo latino: 'faquinha', portanto, em latim. Mas não sei se hoje em dia se aprende história da língua fora das licenciaturas em línguas.

Pergunta 18: excluindo a três primeiras hipóteses, testa-se as três seguintes pelo método de tentativa e erro e conclui-se que a resposta é 'hipocorísticos'. Mas duvido que haja mais de mil pessoas em Portugal que soubessem responder à pergunta.

Pergunta 19: no Google, a expressão 'Tão bela como o laranjal' ocorre uma única vez, e é num blog em que o autor diz que nunca ouviu falar dela. Considerando que há cerca de 10 milhões de páginas em português na web, é obra.

Pergunta 20: suponho que a resposta correcta será a B, que implica que 'antroponímia' é um 'vocábulo' da lexicologia. Seria mais correcto dizer 'termo' e não 'vocábulo'. Por definição, todos os vocábulos pertencem à lexicologia, dado que são o seu objecto de estudo. 'Termo' implica que é uma palavra que faz parte do vocabulário técnico específico da disciplina e que tem uma definição inequívoca. Mas há outra opção possível: se eu disser que 'antroponímia' é um termo da arqueologia, não estou a dizer asneira nenhuma. Um arqueólogo latinista, por exemplo, tem de perceber de antroponímia romana.



Estatísticas: 1 erro no enunciado; 2 expressões populares desconhecidas; 1 pergunta em que todas as respostas estão incorrectas; 1 pergunta descabida neste teste mas que podia estar num teste de religião católica; 3 perguntas mal formuladas. Em 22 questões, não está mal.

Concepção geral do teste: imbecil.

25.10.04





Uma agradável surpresa: não sabia que o Edgar Pêra, o único artista undergound português (e do mundo, quem sabe), tem um blogue, o Elementarista. Na verdade não é bem um blogue, é um sítio onde ele vai dando novas dos seus filmzz. O último post tem uma série de fotos feitas recentemente na China.



As noites de quarta-feira no Frágil têm estado às moscas, depois de terem estado na moda o ano passado, e é pena - há oportunidade de ir vendo a pop mais ou menos mainstream que vai aparecendo, e à borla. Depois dos Dead Combo, a semana passada foram os Tetvocal com um novo disco de versões do rock português anos 80. Agradável, nada de especial, mas é engraçado ouvir as canções assim despidas e em igualdade de condições. Confirmou-se a bondade dos melhores GNR com o 'Ana Lee', que já tinha saudades de ouvir:

Ana lee, Ana Lee
meu lótus azul,
ópio do povo,
jaguar perfumado,
tigre de papel

Ana lee, ana lee
no lótus azul,
nada de novo
poente queimado,
triângulo dourado.


Próxima quarta são os Quinteto Tati, que gravaram um dos melhores discos portugueses dos últimos tempos. O JP Simões devia ter começado logo por aqui.

Sempre me pareceu que os textos em qualquer publicação deviam usar apenas letras serifadas classicíssimas, tipo Times ou Garamond, porque têm uma legibilidade insuperável. Por qualquer razão que me escapa, na net quase não se usa letras serifadas, e este blog ao usá-las era uma ave rara. Mas depois comecei a achar que se calhar a net é a excepção à regra e que as letras sem serifas funcionam melhor no ecrã, de modo que lá me converti. Aceitam-se comentários.



Contaram-me que há uma velhinha que canta esta canção:

Se eu morrer sem te lograr
Hei-de vir-te atormentar
Não te vou deixar dormir
Nem de dia trabalhar

Depois de ler o blog da Katchu fiquei a pensar nisto: salvo raríssimas excepções, o português que se escreve em Portugal ou é mau ou é tão bem-comportadinho, arrumadinho, respeitador, receoso de chamar os bois pelos nomes, temente da censura dos burocratas da língua... O salazarismo está vivo nos nossos corações.

O Campeonato Nacional de Língua Portuguesa parece-me uma iniciativa absurda. O primeiro teste, que saiu este fim de semana no Expresso, confirma as piores expectativas. Para já, tem um erro no próprio texto do regulamento, com a palavra 'inclusive' grafada 'inclusivé'. Depois, os textos que são propostos para correcção contêm ambiguidades, ou melhor, questões que são polémicas e que como tal não deviam aparecer num teste destes. Não conheço nenhum dos provérbios que lá aparece - por que raio um adolescente há-de sabê-los? Há uma pergunta que me parece, além de absurda, inconstitucional, sobre o significado da expressão 'urbi et orbi': primeiro, não é uma expressão portuguesa mas sim latina; segundo, parece-me que tem qualquer coisa a ver com religião católica, e ninguém tem a obrigação de saber nada sobre esse assunto. Há perguntas mal formuladas, que induzem o leitor em erro ao procurar uma incorrecção do sentido da frase quando o problema é um erro de ortografia. E há perguntas cuja resposta é dúbia: 'antroponímia' é um termo do domínio da lexicocologia? Sim, é, mas também de muitos outros. Sei quem fez uma tese em antropologia sobre antroponímia.



Descobri que é possível ir a pé da Ameixoeira ao Senhor Roubado, embora não seja para qualquer um.



Ao lado do Palácio da Justiça há um barracão de telhado de zinco com uma placa metálica redonda por cima da porta: "Núcleo de Amigos do Palácio da Justiça". Nunca lá entrei, mas imagino-o cheio de fumo, mesas de fórmica com polícias a jogar à lerpa com delegados de Ministério Público, agentes da Judiciária encostados ao balcão a beberem ginjinhas com mulheres-polícias de rabo-de-cavalo, juízes de charuto ao canto da boca jogando bilhar com ex-reclusos, ao canto um guarda prisional perdido de bêbado com a cabeça sobre a mesa, empregadas da Caixa e dos Correios comendo pastéis de nata e meias de leite. Na primeira quinta-feira de cada mês juntava-se o pessoal todo para comer um cozido à portuguesa.
Sempre que lá passei estava fechado.




O fascismo na linguagem está bem presente neste anúncio dum colóquio organizado pela CML: as formas de tratamento vão do "Exmo. Sr. Presidente Prof." à ausência de título, passando pelo "Sr.", pelo "Dr." e pelo "Eng.". O Appio Sottomayor, seguramente uma das maiores autoridades na matéria em questão (toponímia lisboeta), é "Sr." enquanto preside à mesa em que são oradores vários "Drs.", "Arqs." e "Engs.", mas quando é orador passa a ser simplesmente Appio Sottomayor.



Um dos mais belos edifícios recentes em Lisboa, a Reitoria da Universidade Nova, dos irmãos Aires Mateus, prémio Valmor 2002 ex-aequo com o edifício do ISCTE, do Hestnes Ferreira, de que já falei aqui.

21.10.04



Bom, e atrás da Katchu vêm outros. Não resisto a transcrever isto:

Sonho

A situação foi ficando difícil, nada de aparecer emprego, então fui trabalhar num pesque-e-pague aqui perto de casa. Mas nada de trabalho ao ar livre: era um pesque-e-pague indoor, ficava nos fundos de um boteco, meio clandestino. Eu acordava ainda de madrugada e ia para lá. Meu trabalho era pescar peixes ensinados com iscas preparadas, de modo e estimular os outros a continuarem gastando seu dinheiro. Resumindo: o negócio era feito um cassino, mas com minhocas em vez de fichas.
Depois de um dia particularmente cansativo, cheguei em casa e estavam todos tristes: meu irmão havia sido preso. Foi comprar folhas de maconha (tão bonitinhas...) com cheque. O cheque voltou, aí fodeu tudo: prenderam o moleque. Aquela choradeira em casa, saí para dar uma volta.
(Continua...)

No Jesus, me chicoteia!

Um blog duma moça rockeira do Brasil. Há muito tempo que não descobria um blog assim, tão bem escrito e com essa urgência de escrever.
Tem uma citação do Pessoa que não conhecia ou não me lembro:

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis

Interessante é que ela aparece em outros cerca de 1000 blogs brasileiros.

20.10.04





Uma das melhores esplanadas de Lisboa fica aqui, no topo do que resta do Éden. Os preços são bastante altos, mas também o bar está quase sempre fechado e pode-se ir para lá na mesma. Entra-se no hotel, diz-se boa tarde ao porteiro, entra-se no elevador e carrega-se no botão T.

Não há em Portugal qualquer inpacidade atávica de fazer bom planeamento, duradouro e com visão de futuro, e uma das provas é o bairro de Alvalade, como foram antes as Avenidas Novas ou a Baixa. O que há é incapacidade de planear em democracia. Ou melhor, incapacidade de planear sem uma mão de ferro. É um lugar comum (em parte verdadeiro) dos escritos sobre Lisboa que a cidade só cresceu em situações excepcionais de ditadura, como aconteceu com Pombal e Duarte Pacheco. A excepção foi Ressano Garcia, que se aguentou décadas na CML, contra ventos e marés, insultado e ridicularizado até pelas elites intelectuais (como Eça) e nos deixou a avenida da Liberdade e as Avenidas Novas.



Estes prédios ficam entre as avenidas de Roma e do Brasil e o Campo Grande, pertencem à primeira fase da urbanização de Alvalade e foram construídos por volta de 1950. Por incrível que nos pareça agora, trata-se de habitação social, tal como acontece mais abaixo, no chamado bairro de São Miguel



onde se preservou o palácio dos Coruchéus.

O plano de Alvalade está organizado em 'células', cada uma disposta à volta duma escola. Entre os diversos quarteirões há caminhos pedonais que permitem atalhar caminho entre as ruas. Os lotes foram vendidos a baixo preço a empreiteiros, já infraestruturados e com os respectivos projectos. Em troca, os empreiteiros eram obrigados a alugar as casas por um preço previamente fixado pelo governo.



Do outro lado da avenida de Roma, para o lado da avenida do Rio de Janeiro, ficava outra célula, com casas de 'renda limitada' - as rendas não podiam ultrapassar um certo limite, e em compensação os empreiteiros usufruiam de benefícios fiscais.



Nas vias principais, como a avenida de Roma, os terrenos foram vendidos a preço de mercado. Os lucros assim obtidos serviram para financiar o prejuízo decorrente da venda dos terrenos para habitação social.




Foi também construída uma zona de moradias, divididas em moradias de renda económica e renda livre, entre as avenidas do Rio de Janeiro e Gago Coutinho.



O plano revelou uma flexibilidade notável, ao incluir propostas mais modernas como os prédios da avenida dos Estados Unidos, dispostos perpendicularmente à via ou com um ângulo de 30º e com as traseiras voltadas para a avenida (não foi um capricho urbanístico, previa-se que a av. EUA tivesse muito tráfego e pretendia-se assim evitar o contacto com ela),





o bairro das Estacas



ou os prédios do cruzamento das avenidas dos EUA e de Roma.

O único defeito do plano de urbanização de Alvalade foi não se ter estendido ao resto da cidade. A concetização de planos como este implica que os solos urbanos deixem de ser considerados um bem como qualquer outro, livremente transaccionável. Não podem - são um bem muito escasso que tem de estar ao serviço da comunidade.



Lembram-se deste boneco? Os telefones eram estatais e considerava-se que cumpriam um serviço público essencial. Esperava-se meses ou anos por uma linha. O serviço é agora sem dúvida mais eficiente, mas pergunto-me se estaremos condenados a optar entre monopólios estatais ineficazes e monopólios privados abusadores.



Duas situações intoleráveis que persistem: as escadas do metro da Baixa-Chiado, que todos os dias avariam, e quase sempre no sentido ascendente. Já protestei várias vezes, reclamei, ia andando à batatada com os funcionário, escrevi ao provedor, e nada. A resposta oficial é a do costume: a culpa é do vandalismo dos utentes.



Há anos e anos que esta situação se repete todos os dias na linha do 28: carros mal estacionados ou parados quando não deviam impedem o funciomanento normal do único transporte público que liga os bairros ocidentais aos orientais. A PSP e a CML não fazem nada, apesar de anos de protestos da Carris.
Interrogo-me como é que é possível as pessoas aguentarem uma situação destas durante tanto tempo sem se revoltarem, e a única resposta que me ocorre é que Lisboa é uma cidade de velhos sem poder reivindicativo.

18.10.04









El 17 de junio, cada año, la familia pasa por un ritual privado: nos fotografíamos para detener, por un momento evanescente, la flecha del tiempo que por allí pasa.

Diego Goldberg


O resultado está aqui.



Vale a pena ir à Cordoaria ver a exposição dos 20 anos da galeria Luís Serpa. Entre muitas outras coisas há a instalação vídeo da Judith Barry que lá esteve há uns anos, a instalação que o Robert Wilson fez a propósito da ópera Alice, fotografias de Luís Campos, Jorge Molder e Daniel Blaufuks.



Aqui não me lembro o nome do fotógrafo mas a cara deste gajo não me é estranha.



O som deste Outono é a Feist a cantar isto:

The spinning top made a sound
like a train across the valley,
fading, oh so quiet but constant til it passed,
over the ridge
into the distances
written on your ticket to remind you where to stop,
and when to get off.





A publicidade às vezes é irresistível.Viva o capitalismo.

17.10.04





Uma boa notícia, a abertura da Trem Azul, uma loja especializada em jazz na rua do Alecrim cá em baixo. Encontrei logo dois CDs que me faltavam: este Nuits de la Fondation Maeght vol. 2 do Sun Ra, o melhor disco dele que eu conheço,



e o Live Evil do Miles Davis, quanto a mim o melhor da fase eléctrica. Música de duas sessões muito diferentes: uma ao vivo, com o baixo eléctrico funk do Michael Henderson e a guitarra do John McLaughlin a darem um tom funk/hard rock à coisa; e outra de estúdio onde a presença do Hermeto Pascoal é preponderante e parece uma homenagem à bossa nova, num tempo muuuuito lento. Presentes também Keith Jarrett e Hermeto Pascoal, entre muitos outros. A banda ao vivo é quase igual à que tocou em Cascais em 1971, fora o McLaughlin.














Domingo, fim de tarde. A praça da Figueira cheia de máquinas de guerra por causa das comemorações do dia do exército. No meio há um bailarico. Os soldados e polícias que estão por lá dizem que não fazem a mínima ideia do que se trata. Vou perguntando a umas pessoas com ar de estrangeiras, até que consigo perceber a muito custo que a festa faz parte da campanha de um dos candidatos que vão disputar as eleições presidenciais na Ucrânia, no fim deste mês.







Sábado, fim de tarde em Belém. Em frente à estação dos barcos há uma esplanada onde costumam aparecer uns brasileiros com uma bateria de samba. Hoje não estavam. O dono do bar estava sempre a fritar carne que tinha sobrado duma churrascada na véspera, disse ele, e ia oferecendo a quem aparecia. Estava óptima.

14.10.04





Isto é um folheto da Aquila Arways, a primeira companhia a voar para a Madeira, com voos de hidroavião de Southampton para o Funchal, entre 1949 e 1958. Uma coisa interessante que não se consegue ver aqui é a lista de preços dos hotéis, do lado direito: alguns deles não tinham quartos com casa de banho, e mesmo o Reid's Hotel, na época o mais luxuoso hotel português (bom, na verdade era inglês), tinha quartos sem casa de banho. O hábito do banho diário ainda estava longe de ser generalizado, mesmo para os ricos de um dos países mais ricos do mundo. É com estes pormenores que se faz a história da vida quotidiana.



No último post sobre os Inglesinhos não referi um aspecto essencial da notícia do Público: a compra do convento pela Misericórdia foi autorizada por uma resolução do Conselho de Ministros que a condicionava expressamente ao fim que a Misericórdia se propunha, a construção de um lar de idosos. Face a isto, não sei se a posterior venda ao grupo Amorim pode ser declarada nula, ou se este poderia ser obrigado a manter essa função para o edifício.



Não me perturba tanto como o facto de a Igreja não fazer caso do 5º Mandamento, é até bastante inócuo em comparação, mas não deixa de ser outro dos grandes mistérios teológicos católicos que me afligem: que Maria era virgem já se sabe; agora, terá sido 'concebida sem pecado original', como se lê nesta e noutras inscrições em igrejas portuguesas, ou seja, a mãe dela também era virgem? Já agora, não faria mais sentido a mãe da mãe dela também ser, e por aí fora até à Eva? Faria, só que entrava em contradição com o Génesis, já que Eva não teve nenhuma filha. Ups, e só agora reparo que, depois de ter morto Abel, Caim 'conheceu a sua mulher' e teve descendência. Ora, se esta mulher não era filha de Eva, de onde saiu ela? É óbvio que se perdeu um pedaço do Génesis, onde Deus criou a mulher de Caim. Ou então não era humana.

Outra história escabrosa, no Público de ontem: em 1998, enquanto presidente da câmara da Figueira da Foz, Santana não gostou dum editorial publicado num jornal local, e a partir daí vedou-lhe o acesso à informação e cortou a publicidade da câmara. O jornal entra em dificuldades. Meses depois, José Braga Gonçalves tenta comprar uma posição maioritária no jornal, mas o dono e director do jornal associa o dirigente da Moderna a Santana e exerce o direito de preferência. Em 2001 o jornal fecha.

Pelos vistos a história dos Inglesinhos é mesmo bastante escabrosa, como se no Público de hoje. Em suma, parece que por volta dos inícios dos anos 1980, as instalações estavam em estado razoável e estiveram cedidas ao British Council. Em 1984, a Misericórdia de Lisboa compra o convento aos ingleses por um preço reduzido, dada a intenção de lá instalar um lar de idosos. Não faz nada, deixa o edifício degradar-se e 20 anos depois vende-o ao grupo Amorim.

13.10.04



A ler, o muito esclarecedor post do Planeta Reboque sobre a história da ideia de cobrar entradas no Castelo.


Fajã dos Padres, Madeira, 29-9-04, 16.46


Adeus Verão, até para o ano.

Diz o Planeta-Reboque que a ideia de cobrar entradas no Castelo foi uma ideia do pelouro da reabilitação urbana quando detido pelo PCP. Este comunicado da EGEAC, actual empresa municipal responsável pelo Castelo, não sendo tão explícito, confirma que "a questão do pagamento de entradas data de 1995 quando a CML iniciou um processo de reabilitação da freguesia e da zona monumentalizada. Um posterior desentendimento no seio do anterior executivo camarário, sobre o tema da cobrança de ingressos no Castelo, impediu que ela se concretizasse, apesar de ter sido constituída uma empresa municipal, a EBAHL, com base no pressuposto das receitas geradas por esses ingressos nomeadamente para financiar um conjunto de obras necessárias à reconversão, reabilitação, manutenção e funcionamento nas diversas vertentes do monumento".
Curioso é este artigo do Avante! de Março de 2003, intitulado " Entradas pagas, não! O PCP vai lançar na Cidade de Lisboa um abaixo-assinado contra qualquer decisão autárquica que vá no sentido de haver entradas pagas no Castelo de São Jorge". Enfim, não é a primeira vez que o PCP diz uma coisa quando está no poder e outra quando está na oposição.
Voltando ao comunicado da EGEAC, a empresa justifica que a "cobrança de ingressos no Castelo de S. Jorge não representaria uma excepção, a nível nacional e internacional, entre os monumentos deste tipo", e dá alguns exemplos como a Torre de Belém e os Mosteiros de Alcobaça, dos Jerónimos e da Batalha (que cobram uma entrada semelhante, de 3 euros). Quanto aos exemplos internacionais que eles mencionam, são nada mais nada menos que a Alhambra, a Torre de Pisa e o Coliseu de Roma, entre outros.
Se a comparação com monumentos que são obras primas da arquitectura portuguesa (ou feita em Portugal) já é despropositada, não sei se desate a rir ou a chorar com as comparações internacionais.
A questão é que o Castelo de S. Jorge é sobretudo um espaço de lazer, sem grande interesse do ponto vista arquitectónico ou monumental, que foi recuperado de forma mais ou menos atabalhoada quando das comemorações nacionalistas-salazaristas de 1940. Numa cidade em que são tão raros os espaços públicos de qualidade, é escandaloso que se cobre entradas num deles só porque é muito visitado por turistas (cerca de metade do total de visitantes, segundo a EGEAC).
Quanto à isenção para os residentes em Lisboa, é algo que simplesmente me provoca vergonha de ser lisboeta e português.

11.10.04



Ora aqui está algo que me indigna profundamente: a CML vai passar a cobrar 3 euros pela entrada no castelo de S. Jorge. Como não me parece que vá haver grande resistência a esta medida (não estou a ver os mesmos que se manifestaram contra a venda do convento dos Inglesinhos a mexerem uma palha por isto) e visto que os residentes em Lisboa estão isentos, sugiro que os residentes em todos os outros concelhos nacionais passem a cobrar entradas mais caras a todos os residentes em Lisboa em tudo o que seja lugares públicos. Diria mesmo mais: que em todos os outros países se tome a mesma medida.

Ainda a propósito do convento dos Inglesinhos, o Planeta Reboque menciona um aspecto que também me chamou a atenção: os manifestantes manifestam-se contra a vinda de ricos para o Bairro Alto. Primeiro, há uma contradição que resulta do facto de muitos dos manifestantes, pelo menos, para não dizer todos ou quase, não serem propriamente pobres (quando muito são demasiado novos para terem dinheiro que se veja, mas são dum estrato sócio-cultural alto). É a lógica do 'eu já cá estava antes e além disso posso ter dinheiro mas sou de esquerda e trabalhador intelectual e não quero bimbos novos-ricos cá no bairro, deixem o meu povinho em paz'.
Segundo, morar no Bairro Alto (ou em qualquer bairro histórico de Lisboa) só se consegue ou sendo de lá e herdando dos familiares uma renda irrisória ou pagando bastante bem. Pensando melhor, isto é válido para Lisboa inteira: neste momento, para vir morar para aqui é preciso ou ganhar relativamente bem (ou então fazer muitos sacrifícios), ou ser muito pobre e conseguir uma habitação social, ou herdar da família a tal casa com renda irrisória. A grande maioria das pessoas que migraram para os subúrbios nos últimos 30 anos voltaria se a habitação tivesse preços razoáveis.
Terceiro, só por um preconceito primário é que se poderá ter alguma coisa contra a aparição de prédios novos (sendo novos, serão necessariamente muito caros como toda a construção nova em Lisboa) nos bairros históricos. E eles até já existem. O mais antigo, suponho que de finais dos anos 60, fica na rua Nova do Loureiro, muito perto do agora famoso convento dos Inglesinhos; outro, dos anos 80, entre a rua do Século e a rua da Academia das Ciências; e o mais recente na rua do Trombeta (este só com muito boa vontade se poderá considerar de luxo). Quais são as consequências da vinda de pessoas dum estrato socioeconómico mais alto para um bairro popular? Só vislumbro consequências positivas: mais dinheiro para gastar no comércio local, mais influência sobre a administração pública para conseguir melhoramentos para o bairro, e maior heterogeneidade social.
Quarto, a própria heterogeneidade social é algo que se deve promover. Só há desvantagens em querer acentuar ainda mais as disparidades que já existem à partida, mantendo os pobres nos bairros históricos, mandando os mais pobres de todos para Chelas, a classe média para Telheiras e os ricos para o Belas Clube de Campo. Só os sociólogos da treta e antropólogos da tanga, incapazes de lidar com a complexidade do real e sempre prontos a encaixar à força a realidade na teoria, é que conseguem defender que, para preservar as pretensas vantagens da interajuda, da solidariedade e de um pretenso "equilíbrio" que só existe nas cabeças deles, é preciso impedir os pretensos "desequilíbrios" introduzidos pela vinda de novos habitantes nos bairros históricos. O Bairro Alto era, até aos anos 1980, um sítio onde as pessoas tinham vergonha de morar. Agora continua a não ser grande coisa mas melhorou.
Pelo contrário, alguém se queixa da heterogeneidade da zona da Lapa, onde os contrastes (que também existiam no Bairro Alto até ao século XIX) persistiram, ou de Alvalade, onde se misturou, propositadamente, habitação social com habitação de classe média?
Finalmente, há um argumento que li há tempos e que não sei se é verdadeiro mas faz sentido: o de que a decadência de Lisboa se deve principalmente ao facto de as elites terem abandonado a cidade.


Retrato de Samuel Pepys, por Godfrey Kneller, 1689


Há uns tempos que não visitava o blog do Samuel Pepys, e eis que me deparo com uma entrada, de 27 de Setembro de 1661, onde ele diz que foi buscar uns melões, fruto que nunca tinha visto antes, enviados de Lisboa pelo Lord dele. O que estaria o Edward Mountagu, Earl of Sandwich, a fazer em Lisboa? Ora bem, a tratar do casamento da Catarina de Bragança, filha do João IV de Portugal, com o Charles II de Inglaterra.




Quase me apetece autofustigar-me por só ter conhecido melhor este ano a música do Bill Evans. Lembro-me de alguém ter dito, para aí numa das primeiras vezes que estávamos a ouvir o Kind of Blue do Miles, logo na introdução do So What: "Este tipo é um génio". Mas não liguei muito. Agora, pergunto-me até que ponto a participação do Bill Evans nesse disco não foi fundamental - a onda do Kind of Blue prolonga-se mais nos discos dele da altura do que nos discos seguintes do Miles. A partir de 1959, pelo menos, todos os discos do Bill Evans são perfeitos. Ainda só vou em 1962.

9.10.04





Por falar em conventos, Lisboa está cheia deles. A Assembleia da República e o edifício onde está o Governo Civil e a FBAUL, por exemplo, são antigos conventos. Só na foto de cima aparecem dois, pelo menos. O cor de rosa mais à frente, de que não me lembro o nome e fica na encosta de Sant'Ana, é, suponho, um lar de terceira idade. Lá atrás está o Convento da Graça, pertencente ao Estado e neste momento ao abandono. Aceitam-se sugestões de reconversão.

45% não vão ao cinema há mais de um ano, e 6% nunca foram; 44% não foram a um museu nos últimos 12 meses, e 23% nunca foram; 50% nunca foram a uma exposição, e 43% nunca foram ao teatro.
São dados de um inquérito recente à população dum país onde grassa a iliteracia, como dizem os profetas da desgraça: a França.
Estas estatísticas vêm em mais um magnífico número especial da L'Histoire, chamado 'Les Français, 1944-2004', que faz o balanço do que mudou em 60 anos, desde a alimentação à cultura, passando pela família. Pena que a revista não tenha uma edição inglesa, agora que cada vez menos gente em Portugal domina o francês. É das leituras mais estimulantes que conheço neste momento, sempre a desfazer lugares comuns.



Não foi de propósito, e só depois reparei que dificilmente poderia haver maior contraste entre o camp dos Roxy Music e o talho improvisado daquele senhor de bigode ali em baixo.
Agora imaginem o que é um festival de 'música electrónica' na Madeira programado pelos bairro-altinos Ananana/Major Eléctrico com o Rui Lourenço. Imprevisível. Se bem que a Madeira é de extremos, entre a hiperbetice provinciana de algum Funchal e o primitivismo rural de quase tudo o resto. Os bairroaltinos estavam um pouco em pânico com a perpectiva de não aparecer ninguém, visto que ainda por cima a divulgação local tinha sido quase inexistente. Mas o auditório da RDP esteve quase cheio, com umas 150 ou 200 pessoas, o que não é nada mau considerando que este tipo de música só consegue atrair, em Lisboa, pouco mais que isso. A última noite do festival foi mesmo no hipocentro da betalhada, no Café do Teatro num sábado à noite - foi um pouco como assistir a um concerto organizado pela ZDB na Kapital.



Das duas noites no auditório da RDP, gostei sobretudo dos austríacos Radian, aqui em cima, e do Burnt Friedman (sem o Jaki Liebezeit como estava previsto).



Também gostei de rever a AGF (em condições incomparavelmente melhores que na ZDB).



No sábado, o concerto no Café do Teatro começou com a Kevin Blechdom, que também já conhecia dum concerto memorável na ZDB e que aqui me pareceu pouco à vontade, o que não admira.



Este é o Jamie Lidell, que já aparece ali na outra foto ao lado da Kevin, e que foi a grande revelação deste festival. Só lhe conhecia a belíssima voz soul, do disco da Herbert Big Band. O que ele faz é um achado: sampla a própria voz em tempo real e com ela constrói músicas em camadas vocais que passam vertiginosamente da house e do techno para o soul e o rythm'n'blues. Espantoso.



E a festa acabou em cheio com o hip-hop marado do Mocky. Ficámos todos satisfeitos, bairro-altinos e indígenas, e espero que haja mais para o ano.


Foto pirateada do Hardblog


Alguma coisa não corre bem quando, sistematicamente, as pessoas tomam posições sobre intervenções urbanas quando já não há nada a fazer. Não percebo. A venda do Convento dos Inglesinhos a uma imobiliária para construir um condomínio de luxo já foi noticiada há uns dois anos. Foi preciso as máquinas entrarem em acção para, de repente, uma série de pessoas, desde o Fonseca e Costa ao mentor do Hardblog, se lembrarem de protestar.
Já há uns anos aconteceu o mesmo com o quarteirão entre a rua do Trombeta e a rua da Rosa. Conhecia muito bem o famoso "quarteirão antigo", demolido "para a construção de um Condomínio Privado", como diz o Hardblog, porque tenho uma velha amiga que mora mesmo em frente há muitos anos: era uma ruína, simplesmente, onde parecia ter funcionado em tempos uma instalação industrial. Estava tão degradado que nem o Hélder Carita, no 'Bairro Alto, Tipologias e Modos Arquitectónicos', conseguia identificar com segurança o que aquilo teria sido. Ora, o que a mim sempre me escandalizou foi aquele buraco no meio do bairro, e não o facto de terem construído lá um prédio novo (não percebo porque é que lhe chamam condomínio privado). Acho-o feio, mas é muito melhor aquilo que um buraco degradado. Como diz a minha vizinha Rosa Pomar, venham os tios e tias, casais novos e menos novos, e já agora solteir@s também. Não vejo qual é o problema de se fazerem prédios de luxo em zonas históricas. Pelo contrário, acho muito bem. Os ricos também têm direito, e de resto, historicamente, no Bairro Alto sempre coexistiram habitação popular e palácios. E é preciso contrariar a tendência para a cidade se dividir em zonas socialmente homogénas, como tem acontecido nas últimas décadas.



Com o convento dos Inglesinhos é um pouco a mesma coisa. Só uma vez tive oportunidade de lá entrar, há dez anos, quando aconteceram por lá umas coisas no âmbito da Capital da Cultura. Era um espaço magnífico, mas muito degradado. Entre a manutenção ad aeternum da ruína e o condomínio de luxo, venha o condomínio de luxo. Manter património fechado e a degradar-se para servir de pasto aos arqueólogos do século XXII, não obrigado. A única posição sensata, neste momento, é a de exigir que os jardins sejam abertos ao público e que seja restaurada a igreja de S. Pedro e São Paulo, que é, segundo percebi do site dos Monumentos Nacionais, o que justifica a classificação do edifício. A mim também me escandaliza que a Misericórdia de Lisboa possa vender um património destes nestas condições, mas agora paciência. Acordássemos antes.

8.10.04





Só hoje de manhã descobri o que diz o coro no refrão do Remake-Remodel. É assim:

Ferry: "She's the sweetest queen I've ever seen"
Coro: "CPL593H"

Como o LP original não trazia as letras, imagino o esforço que durante décadas os fãs deste disco terão feito para perceber aquilo. Calculo que terá servido como senha para reuniões secretas e tudo.

1.10.04





A chamada cozinha tradicional é quase sempre cozinha de festa, como acontece com a espetada na Madeira. Os camponeses madeirenses eram (e devem continuar a ser em muitos casos) vegetarianos - a cozinha tradicional do dia a dia compunha-se simplesmente de vegetais cozidos servidos com casca, que vinham para a mesa envoltos num pano de onde as pessoas se serviam. Embora a criação de vacas fosse generalizada, destinava-se à venda de leite e carne. Esta era um luxo proibitivo, mas ostensivamente consumida em quantidades exageradas nos arraiais de Verão, acompanhada de um pão redondo e achatado (bolo do caco), amassado e cozido no local em cima duma pedra aquecida a lenha. A carne compra-se nestes talhos improvisados, onde é enfiada numa vara, tradicionalmente de louro, e depois cada um trata de assá-la numa das fogueiras que os talhantes acendem para isso. Aqui em baixo, uma barraca de fabrico e venda de bolo do caco; atrás, vêem-se as tais fogueiras. Come-se de pé no local - cada um vai tirando bocados de carne e de pão. Estas fotos foram tiradas quando eu fui comer uma espetada nas festas de Nossa Senhora da Piedade, no Caniçal, a 18 de Setembro passado. O barco que se vê ali em baixo é um dos atuneiros que participam na procissão marítima, e foi tirada por mim de outro atuneiro. São uns 20 ao todo.



Farol do ilhéu da ponta de S. Lourenço, 18-09-04, 18.14


Caniçal, 18-09-04, 18.14



Areeiro, Madeira, 27-09-04, 19.52



Areeiro, Madeira, 28-09-04, 01.09

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