18.7.05

Estava a ver que o 'caso Ballet Gulbenkian' morria sem que eu lesse uma notícia a esclarecer as implicações económicas da decisão, já que os motivos avançados pela administração da FCG são algo absurdos. Não se mais alguém falou sobre o assunto, mas o Expresso recolheu um depoimento da ex-directora artística do BG, a brasileira Iracity Cardoso. Com tanta gente cá que poderia falar sobre isso, pelos vistos foi preciso recorrer a uma pessoa que vive no Brasil para quebrar o silêncio, talvez um sintoma do enorme poder que a FCG ainda detém nos meios culturais e artísticos e do incómodo que os protagonistas do minúsculo meio da dança portuguesa sentirão ao falar do assunto em público.
Ficamos a saber que em 2004 a FCG gastou 2,9 milhões de euros com o Ballet, mais do dobro com a orquestra (5,9 milhões) e 'apenas' 2 milhões com o Serviço de Belas-Artes. O estado terá gasto, no mesmo ano, 1,8 milhões em apoios à dança, pelo que, se esse apoio se mantiver, e se a FCG apoiar a dança com uma verba equivalente à que gasta com o BG, como foi anunciado, a dança portuguesa terá, no total, mais do dobro do dinheiro. Três milhões é também do montante do patrocínio anual que a PT dava ao Teatro D. Maria II e que acaba de ser retirado.
Nenhum português ligado profissionalmente à dança, que eu tivesse dado por isso, exprimiu uma opinião que fosse além do choradinho habitual. Sucede que há dias tive aqui mesmo à mão uma pessoa ligada há muitos anos à chamada Nova Dança Portuguesa e que tem uma opinião que à partida se poderá considerar insuspeita, já que, em princípio, se FCG cumprir o prometido, os criadores independentes serão beneficiados com o fim do BG, e também porque o movimento da NDG foi, em grande medida, uma reacção contra o que BG representava -- uma companhia que não se soube renovar e acompanhar as novas tendências da dança.
Os principais argumentos que, nesta óptica, poderá ter levado à decisão de extinguir o BG são, por um lado, sair muito caro à FCG, para o que contribui, principalmente, o facto de os bailarinos passarem a ser, desde que lá entravam, um encargo vitalício para a FCG, que com o decorrer do tempo se foi agravando, por se reformarem muito cedo; e, por outro lado, o BG já não é o que era, em termos de reconhecimento internacional e de relevância no contexto da dança contemporânea, mesmo em termos nacionais. Ou seja, a FCG gastava uma fortuna numa coisa que era irrelevante no panorama artístico.
Os aspectos negativos são que o fim do BG representa o fim da única companhia de dança moderna portuguesa que proporcionava alguma estabilidade aos bailarinos e que tinha meios para fazer um trabalho a longo prazo -- e que deu os seus frutos, incontestáveis, pelo menos ao longo dos anos 1970-80. Isto tem várias implicações. Primeiro, deixa de haver bailarinos com o nível técnico que só o BG conseguia proporcionar. Segundo, a existência do BG era um estímulo para muitos jovens que estudavam dança na esperança de um dia lá conseguir entrar. Terceiro, o BG era muito popular e tinha sempre lotações esgotadas -- e, acrescento eu, tinha, por isso mesmo um papel importantíssimo na divulgação da dança, até pelas digressões anuais que fazia pelo país todo.

Tudo isto faz sentido, mas há mais duas ou três coisas, digo eu: a FCG há muito que deixou de ter um papel relevante em seja o que foi no panorama artístico português, pelo menos nas actividades directas. Nas artes plásticas, passou rapidamente a segundo ou terceiro plano nos anos 1990, assim que o CBB, Serralves e a Cultergest começaram a funcionar, para não falar das galerias. Nas outras áreas, extinguiu eventos fundamentais que não tiveram sucessores: os Encontros Acarte e os Encontros de Música Antiga e de Música Contemporânea. Há ainda outro facto que não tem sido recordado: no princípio dos anos 1990, quando se fez o CCB, a FCG tentou negociar com o estado a passagem para o CCB da Orquestra e do BG, que ficariam lá como companhias residentes. Tudo isto, juntamente com a intenção a FCG, declarada publicamente desde há anos, de abandonar as actividades directas e dedicar-se sobretudo ao financiamento de actividades externas, leva a crer que a 'decadência' da FCG foi premeditada, e que até o eventual menor dinamismo do BG poderá ter sido fruto do desinvestimento. E isso implica que a Orquestra poderá ter também os dias contados.

O que eu me pergunto é, se nesse caso, não valeria mais acabar primeiro com a Orquestra, que custa muito mais e nunca teve, aparentemente, uma relevância no campo da música equivalente à que o BG tinha na dança. Esse dinheiro, bem administrado, podia fazer muito -- em primeiro lugar no ensino, mas também no apoio a pequenos agrupamentos e orquestras. A música erudita é o parente pobre das já de si pobres artes nacionais, e não conheço melhor símbolo disto que o salão de audições do Conservatório Nacional, que está há anos e anos no estado que se pode ver na foto de cima. Só para falar duma área que me diz mais, o movimento de renovação da música barroca e medieval, que aconteceu por toda a Europa a partir dos anos 1970, nunca chegou cá -- e ainda por cima há público para ela, como se podia ver nos Encontros de Música Antiga. Acresce que, se houve uma época em que a música feita em Portugal teve algum relevo, foi nos séculos XVI e XVII, e parece haver mais entusiasmo por ela (e músicos a tocá-la, e dinheiro para apoiá-los) lá fora do que cá.
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