1.7.05














Permaneci com uma dúvida inquietante depois da sessão da Videoteca, ontem, sobre o que se passou na praia de Carcavelos no dia 10 de Junho: de onde partiu, afinal, a falsa notícia do "arrastão"? Da PSP? Da TVI? Da SIC-Notícias?

O vídeo, de Diana Andringa (que promete estar em breve disponível aqui), mostrava as imagens dos noticiários que eu não tinha visto (cada um mais aterrorizante que o outro, chegando ao ponto de falar em 'terror na praia' e em assaltos à mão armada com pistolas e facas), excertos de notícias dos jornais e depoimentos do colunista do Expresso Pedro d'Anunciação e da filha dele (que estava lá e assistiu a tudo), do Miguel Vale de Almeida e de uma dirigente da Casa do Brasil em Lisboa que falou do último arrastão no Rio, em 1992..
Participaram na mesa-redonda os sociólogos José Rebelo e Rui Pena Pires, e os jornalistas Miguel Gaspar, do DN, e Nuno Guedes, d'A Capital.
José Rebelo fez uma intervenção muito interessante mas num tom académico algo deslocado ali, com muitas citações de Bourdieu sobre o mecanismo mimético dos media -- todos vão sucessivamente noticiando o que os outros noticiaram, cada um dramatizando um pouco mais a notícia anterior (efeito bola de neve parece-me mais sugestivo) --, como este tipo de notícias acontecem porque vêm de encontro às expectativas das pessoas, e citou um caso semelhante de falso acontecimento com repecussões enormes ocorrido há algum tempo em França. Miguel Gaspar pôs a tónica na fraca atenção e/ou deficiente formação dos jornalistas em relação à 'crítica das fontes' (os jornalistas tendem a acreditar piamente no que as fontes dizem). Rui Pena Pires manifestou a sua indignação perante a forma como todos o media emitiram uma notícia manifestamente falsa e apelou a uma retratação pública dos media e da PSP. Finalmente, o jovem Nuno Guedes contou como fez a notícia que fez a manchete d'A Capital. Muito simples: ele estava convencido de tinha havido uma acção combinada de gangs da linha de Sintra; foi a uma escola secundária falar com dois dos jovens que tinham sido detidos (um deles branco), que lhe contaram uma história muito diferente; e depois foi à praia de Carcavelos, onde várias pessoas confirmaram essa versão.

Ouvi uma intervenção duma pessoa que não sei quem é mas disse duas coisas que tiveram em mim um efeito bombástico e puseram em causa grande parte do que se tinha dito até aí: que a PSP emitiu um comunicado às 17h01 do próprio dia, ou seja enquanto a confusão ainda perdurava, dizendo que tinha havido um arrastão envolvendo 400 pessoas e imensos assaltos, numa acção concertada; e que a outra fonte das notícias, incluindo as fotos, foi uma única pessoa, o dono de um bar na praia. Foi ele que chamou a polícia e tirou as fotos da actuação policial, que são estas aqui em cima. Repare-se que, destas cinco, foi sobretudo usada a de cima, a única que pode vagamente dar ideia dum hipotético 'arrastão'. De facto, são pessoas a fugir da polícia. Ou seja, uma única pessoa conseguiu provocar um acontecimento mediático -- o que não é nada de extraordinário hoje em dia.

O que é que aconteceu afinal?

Os antecedentes da coisa, segundo a notícia d'A Capital.

Pedro e João, alunos numa das várias escolas secundárias da Amadora, e dois dos jovens detidos naquele dia pela polícia, garantem que tudo não passou de uma enorme confusão. O início do Verão aproximava-se e, como noutros anos, explicam, «milhares de alunos das várias escolas da Linha de Sintra foram passando a palavra dizendo que no feriado iam à praia a Carcavelos».
O ponto de encontro seria, como sempre, a velha bola da Nívea, mesmo no centro da praia. Hora e meia de viagem depois, Pedro e João (nomes fictícios de dois adolescentes de 16 e 17 anos de cor negra e branca, respectivamente, que nos recebem à porta da sua escola secundária) chegaram ao início da tarde à praia, que na zona da bola de Nívea já estava completamente cheia de grupos de jovens, sobretudo de pele negra.


Esta versão apareceu num comentário no Diário de Lisboa e parece-me plausível, ou pelo menos não é incompatível com o que o Nuno Guedes ouviu:

Por volta das 13:30 quando cheguei à praia ela tinha um aspecto no mínimo invulgar!! Ela estava como que dividida ao meio. Numa parte haviam muito mais negros que brancos e noutra quase somente brancos. Na metade em que haviam mais negros estavam dois grupos a competir para ver qual dança melhor. Finda a dança um grupo venceu e o outro não aceitou a derrota e pedia a desforra.(estou a falar hip-hop) Após algumas discusões, recomeçaram a competição e nisto a coisa ficou muito agressiva e os dois grupos começaram a lutar (dois grupos de pretos e mulatos). A polícia ao ver a situação deslocou-se à zona e começou a disparar balas de borracha para tentar parar a briga de negros. Ao ouvir os tiros todos os que estavam nesta zona começou a fugir da polícia. Fugiram todos das balas (que soube depois que eram de borracha). A fuga deu-se no sentido paralelo à praia em direcção aos que estavam no lado em quase só haviam brancos. Contudo entre os que fugiam alguns iam roubando o que encontravam pelo caminho. E também vi pelo menos 5 pretos a assaltarem à força banhistas. No final houve três indivíduos feridos, segundo a tsf. Eu vi duas miúdas negras (mulata e preta para ser mais preciso) a serem transportadas para dentro de uma ambulância.

Mas Pedro d'Anunciação, numa crónica intitulada 'Notícias que são pura ficção', diz que não houve assaltos nenhuns: havia um ajuntamento de jovens negros a dançar, a polícia chegou, tentou dispersá-los, não conseguiu, carregou sobre eles e provocou uma confusão generalizada, e refere não ter havido uma única queixa de furto na praia.

Depois vêm os noticiários em directo na TV e o tal comunicado da PSP às 17h01. Falei com vários jornalistas e não consegui perceber se as televisões e os restantes media foram lá por causa do comunicado da PSP ou chegaram antes. Para o Nuno Guedes, a acusação de 'desleixo jornalístico' não faz muito sentido neste caso, uma vez que partem do princípio que a PSP é uma fonte credível.

Passado uma semana, o comando metropolitano da PSP vem dizer que afinal

Sempre foi comum juntarem-se vastos grupos nas praias de onde depois divergiam pequenos núcleos de oito ou dez indivíduos que praticavam assaltos. Concluímos que na sexta-feira aconteceu o mesmo, só que devido às centenas de pessoas que se encontravam na praia o fenómeno tomou outras proporções. De um grande grupo de 400 ou 500 pessoas só 30 ou 40 praticaram ilícitos.
(...)
Muitos jovens que apareceram em imagens televisivas e fotográficas a correr na praia de Carcavelos, naquele dia, não eram assaltantes, mas tão só jovens que fugiam com os seus próprios haveres.
(...)
Os assaltos também terão sido decididos na altura na praia e não fruto de uma organização mais elaborada que levasse centenas de pessoas a Carcavelos com intuitos criminosos.


No dia 24, o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas emite um comunicado a tomar a posição de

1. Solicitar aos Meios de comunicação social que corrijam, com o necessário destaque, as informações erradas entretanto veiculadas, repondo a verdade dos acontecimentos.
2. Solicitar à PSP um cabal esclarecimento dos factos ocorridos, da proporcionalidade da intervenção, bem como da origem das informações para a Comunicação Social quanto à dimensão do acontecimento e do seu carácter de "crime organizado".
3. Solicitar a intervenção da Alta Autoridade para a Comunicação Social para que promova com urgência uma avaliação crítica da cobertura mediática destes acontecimentos e, na sequência, promova um Acordo de Princípios entre os Meios de comunicação em relação a notícias com potencial leitura xenófoba e racista.
4. Apresentar um protesto formal à empresa responsável pela divulgação das imagens seleccionadas de assaltos em comboios da linha de Sintra e pedir esclarecimentos pela motivação de tal acto.


e acrescenta que

É necessária uma análise serena e racional e não uma leitura precipitada e preconceituosa que leve ao aumento da tensão social entre comunidades. Sublinhe-se que nessa missão os Meios de Comunicação Social têm um papel determinante e não podem ignorar a sua responsabilidade social.
Numa altura que, em Inglaterra, os emigrantes portugueses estão sob protecção policial por receio das injustas reacções xenófobas de alguns ingleses na sequência de um assassinato de uma cidadã inglesa por um alegado cidadão português, saibamos nós não fazer o mesmo.


Entretanto, tinham já surgido pequenas notícias que desmentiam as notícias iniciais, pelo menos no Público, e A Capital fez manchete com a reportagem do "Arrastão que nunca existiu". O Expresso publicou uma notícia completamente tendenciosa e cheia de contradições, assinada por pessoas que eu pensava serem mais responsáveis, na mesma edição em que aparece a tal crónica do Pedro d'Anunciação.

Agora, como dizia o Rui Pena Pires no debate, o mal está feito. As imagens que passaram na televisão foram, para muita gente, a confirmação irrefutável de que negro=perigoso delinquente potencial. Por mais desmentidos que haja, a grande maioria das pessoas vão continuar convencidas disso. Espero não ter razão para estar alarmado, mas oiço um pouco por todo o lado bocas cada vez mais assumidamente e violentamente racistas.

Tudo isto me tem feito lembrar uma história tristíssima, ocorrida em 1975 ou 1976. Um guarda-freio e um cobrador da Carris foram assassinados dentro dum eléctrico na Cruz Quebrada, numa altura em que havia um sentimento de insegurança que muita gente associava à chegada massiva de negros das ex-colónias. Durante o funeral, a que foram milhares de pessoas, uma mulher queixou-se de que um negro estava a tentar roubar-lhe a mala. O negro foi linchado no momento pela multidão. No dia soube-se pelos jornais quem era ele. Era um trabalhador da Carris no funeral dos colegas. E na altura não havia televisão em directo para deitar gasolina na fogueira.

Enfim, tanto a PSP como os media se portaram inadmissivelmente mal na divulgação da história de Carcavelos. E a PSP mostrou também, mais uma vez, como não está preparada para lidar com situações complicadas, como se veio a verificar de novo na manifestação de extrema direita no sábado seguinte. Para além de tudo o resto que apareceu nos jornais, contaram-me uma história tristemente exemplar, de um polícia de intervenção que perdeu as estribeiras numa troca de insultos com um contra-manifestante, avançou para ele, depois desobedeceu às ordens do oficial para voltar para trás, e finalmente teve de ser levado à força para dentro da carrinha pelos colegas. Quanto mim, a PSP presta um serviço público tão imprescindível como o da EDP ou da EPAL, e que deve ser avaliado nessa óptica. Responder a um insulto numa situação daquelas e ainda por cima desobeder a uma ordem é inconcebível e revela uma formação muito deficiente e/ou desadequação às funções. Ter um serviço de relações públicas e forças de intervenção que lançam a desordem em vez de combatê-la revela uma disfunção inaceitável da organização.
Comments:
Peço Asilo Político, Je demande Asile Politique, Ich verlange politisches Asyl, I ask for Political asylum
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Liberdade, Democracia, Justiça, Imprensa, Direitos Humanitários. Sim.
Ditaduras, PIDE/D.G.S.E., Tortura, Fome, Corrupção. Não Obrigado.
Peço Asilo Político, Dinheiro, Doente e Invalido com Fome em Tribunal com Dívidas.
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Liberté, Démocratie, Justice, Presse, Droits Humanitaires. Oui.
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Freiheit, Demokratie, Justiz, die Presse, Humanitäre Rechte. Ja.
Diktaturen, PIDE/D.G.S.E., Tortur, Hunger, Bestechung. Nein Danke.
Ich verlange politisches Asyl, das Geld, Kranke und Invalide mit dem Hunger vor dem Gericht mit Schulden.
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Wenn nicht aufdrängen kann der Frieden, kann durch das Beispiel überzeugen. -----

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Freedom, Democracy, Justice, The Press, Humane Rights. Yes.
Dictatorships, PIDE/D.G.S.E., Torture, Hunger, Corruption. Not Thank You.
I ask for Political asylum, Money, Sick and Invalid with Hunger in Court with Debts.
To send money for the Anti Pide/D.G.S.E..
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If it can not impose peace, can convince by example. -----

I ask for Political asylum -----

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