31.5.05






Assinaturas do rei Alfonso XIII de Espanha...



e Manuel II de Portugal. A assinatura é simplesmente 'eu' seguido do título, no caso do rei espanhol. No caso do rei português é só o título, mais qualquer coisa que poderá ser um sinal pessoal (uma assinatura, portanto), mas não sei, seguido duma cruz, que também não sei se será uma espécie de 'sinal do rei português', ou de 'rei português da casa de tal', ou será pessoal e portanto também parte da assinatura. Em todo o caso, a expressão 'El-Rei' é autógrafa e, caso isto se possa considerar uma assinatura, faz parte dela. Como se houvesse uma despersonalização do rei -- não uma pessoa, com um nome próprio, mas apenas o Rei tal, no caso do português, ou, mais radical ainda, 'eu, o rei', no caso do espanhol. Terá sido sempre assim? Pensava que este tipo de documentos eram apenas assinados pela pessoa que de facto os escrevia (o escrivão, e aqui de facto também lá está a assinatura deles) e a autenticação, a garantia de aquilo correspondia a algo que o rei tinha dito, era dada apenas pelo selo (que também aparece aqui). Terá sido assim antes e depois passaram também a assinar? Se tivessem de assinar com o nome completo o documento teria de ser maior, pelo menos no caso português - Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio, e ainda de Sax-Coburg e Bragança e sabe-se lá que mais. Estou a imaginá-los: 'Ora deixa cá ver, como é que eu me chamo mesmo? Bolas, como é que já era aquele nome a seguir ao Amélio? Ainda bem que posso assinar só El-Rei'.

A poet is sitting down. In Holland. He's thinking about tradition. He says to himself: "I'm nourished by the centuries, I live immersed in the history of other people." And the primordial breeze wafts through his soul. But his soul is lost: he's an innocent playing with the fires of hell. In the depths of his Dutch meditation a huge lake opens up: solitude, surrounding by grazing cows. Holland is now this: cows, and in the midst of the cows hell, the revolutionary innocence of a poet sitting down.
"Who do you take me for?" he might ask. "What I want is love."
It's always, always like this: inexplicable cities in the middle of nowhere, or sprawling pastures which induce anxiety. Pastures for cows, not for a poet di-la-ce-ra-ted by a tormenting innocence.
He no longer writes poems nor asks people their name. He himself, destined to utter perdition, is losing his name as he delves deeper into the country. Now he observes the devouring peace of the animals, the things, the stillness. I'm going to leave, he imagines. The cities are burning, the fields are going insane. A poet has to leave, go away, depart, disappear. A poet must be one. Hell won't let him. Sometimes he laments: I feel as if I'd criss-crossed the desert; I know nothing.


Herberto Helder, 'Holanda', traduzido por Richard Zenith (o resto está aqui)

Uma sensação curiosa, não?, ler um grande escritor português noutra língua.

30.5.05





Para que serve a Imprensa Nacional como editora? A pergunta ocorre-me mais uma vez a propósito da edição da versão portuguesa do "Portugal Contemporâneo" dirigido pelo A. Costa Pinto, sete anos depois da edição original americana e cinco anos depois da edição espanhola (acabo de descobrir!). Parece-me que lá em casa só tenho uma edição da INCM, o interessantíssimo e esgotadíssimo 'Feiticeiros, Profetas e Visionários'; vendo o catálogo deles, aqui, verifico que, de facto, estaria interessado em mais meia dúzia ou isso, dos quais metade estão esgotados. Ora, se o estado tem uma editora, essa editora teria obrigação, no mínimo, de editar obras de síntese e referência para o conhecimento de Portugal. Mas não. Não sei quem têm sido os responsáveis pelas edições da INCM, mas parecem ter um forte pendor para a filosofia e estudos literários obscuros.
A julgar apenas pelos casos que conheço (e limito-me às ciências sociais e humanas por razões óbvias), a quantidade de obras de síntese importantes que foram originalmente publicadas no estrangeiro (com edição portuguesa mais ou menos tardia) é impressionante: desde a já velhinha História de Portugal do Oliveira Marques, editada originalmente nos EUA e que continua sem rival português equivalente (ultimamente apareceram duas novas sínteses, ambas de autores estrangeiros) à Geografia de Portugal do Orlando Ribeiro, que durante décadas só existiu em versão espanhola, passando pela única história da língua portuguesa editada em Portugal (originalmente editada em França pela PUF) e até pela única gramática do português destinada ao grande público (que é a versão portuguesa duma obra brasileira). Recentemente saiu a primeira obra de síntese numa área que obviamente me interessa, a história da cidade de Lisboa, mais uma vez vinda de França, isto quando permanecem por editar, pelo menos, duas obras essenciais nesta área da Raquel Henriques da Silva.
Parece-me natural que estas sínteses sejam raras -- não cabem na produção académica normal e dão muito trabalho. Se calhar são também tidas como pouco úteis pelos universitários -- o que me parece bastante discutível, visto que, no mínimo, trazem referências bibliográficas úteis. Por tudo isto, o estado português tem a obrigação de apoiar essas edições, tem os meios para isso e não o faz. E não é que custe uma exorbitância, longe disso, e a prova é que acabam por ser editadas mais ano, menos década.

Já agora, só mais umas palavrinhas sobre o 'Portugal Contemporâneo'. Gostava que este livro se vendesse tanto, pelo menos, como o 'Portugal - O Medo de Existir'. Parece-me bastante mais útil para quem vive aqui e quer tentar perceber o que se passa. Posto isto, passo directamente àquilo que eu gostava de ver e não está lá. Verifico que lhe falta um capítulo em relação à edição espanhola (sobre a situação das mulheres) e tenho curiosidade em saber porquê. Tem uma grave lacuna -- nada de história cultural, dos costumes, do quotidiano ou como lhe queiram chamar. Em vez disso, dois artigos, um sobre literatura e outro sobre aquilo a que chamam 'arte' hoje em dia, e que corresponde àquilo que antes se chamava artes plásticas -- ou seja, a música, a fotografia e o cinema estão excluídos --, ainda por cima escrito por uma pessoa que é um dos principais protagonistas da tal 'arte' nos últimos 20 anos, e que assim se vê obrigado, por exemplo, a mencionar as polémicas em que ele próprio participou, as críticas que escreveu e as exposições que organizou. Sobre ciências, nada, como se as ciências (incluindo, claro, as ciências sociais e a própria História) não fossem cultura. E nadinha sobre media, calças boca de sino, charros, Amália Rodrigues, copos de três, MEC, Festival da Canção, pastilhas, preservativos, SIC, telenovelas, automóveis, Quim Barreiros, GNR e por aí fora. Também não estou a ver quem é que poderia escrever sobre isso, e mais vale omitir do que convidar a Filoménica, mas estes dois capítulos parecem-me mesmo assim deslocados -- a categorização da 'cultura' em 'letras' e 'arte' parece-me profundamente anacrónica, além de totalmente inoperante. Mais valia assumir o livro apenas como uma síntese de história política, institucional, económica e social (pouca) do que incluí-los só para dizer que também se fala de história cultural.
Para além disso, parece-me óbvia a falta de um artigo, por mais sintético que fosse, sobre o território. E aí não era difícil encontrar quem o escrevesse.
E pronto. Fora isto, é um livrinho altamente recomendável, útil, sintético, bem feito e bem escrito. E é único no seu género.








Desfile de bombeiros no Rossio, 29-05-05

29.5.05










(fotos gamadas do Barnabé)

Que cidades fantásticas. O Iémen é o único país árabe onde me apetecia ir.

27.5.05





Ao contrário do que parece ser a opinião generalizada, Faro está longe de ser uma cidade desinteressante. Pelo contrário: é uma das cidades mais bonitas do Algarve, em especial no antigo centro histórico, a chamada Vila Adentro, recuperada durante os anos 1990. É uma surpresa passar este Arco da Vila e descobrir uma pequena cidade muralhada, impecavelmente preservada, com belos edifícios como o antigo Convento de Nossa Senhora da Assunção, na foto em baixo. Outra surpresa é encontrar aqui, em vários edifícios além deste convento, os "telhados de tesouro" que se lê por todo o lado só existirem em Tavira. Saindo pela Porta do Mar vamos ter a uma zona entre a linha do comboio e a ria, onde fica aquele cais que se vê ali em baixo com umas pessoas a lagartarem ao sol. Nos meses de Verão pode-se apanhar aqui um barquinho até à ilha do Farol, pelo meio dos esteiros da ria, e encontrar vários quilómetros de praia deserta.

25.5.05











Faro, 3 de Maio, 2005

24.5.05






A melhor ilustração do Público de hoje (que teve só ilustrações em vez de fotografias) está na página 8. Em cinco páginas dedicadas ao famoso défice, nem uma palavra sobre a evolução do dito nos últimos anos. Ainda bem que alguém se lembrou de fazer o boneco, que aqui reproduzo toscamente.
Eu não percebo nada de economia, muito menos de finanças, mas creio saber ler gráficos, e este diz o seguinte. Primeiro, foi durante os governos do omnisciente Cavaco que o défice atingiu os valores mais altos dos últimos 15 anos, em 1991, 1993 e 1994. Durante os primeiros cinco anos do famigerado Guterres, o défice desceu (com a ponte Vasco da Gama e a Expo em construção) até ao valor mais baixo deste período (sem contar com receitas extraordinárias) e depois subiu, mas mesmo assim conseguiu no último ano um valor 1,1 pontos percentuais abaixo do do último ano cavaquista. Finalmente, os governos do execrável Durão e do outro inominável conseguiram baixar o défice com recurso a receitas extra (e de que maneira!, nem se percebe onde é que havia tanta coisa para vender), mas não evitar que continuasse de facto a subir.
Ou eu tenho estado muito desatento ou a história que toda a gente anda por aí a contar não tem nada a ver com esta. Ou então ninguém conhece ao certo os números, o que também não me espantaria. Ou então o que está na página 8 é mesmo uma ilustração. Cada vez percebo menos.

23.5.05



Achei curiosas as reacções ao post sobre Coimbra. As primeiras, por assim dizer, recebi-as até antes de publicar, de amigos/as que são de Coimbra, ou trabalham lá e portanto conhecem bem, e que na verdade nem leram o post nem vão ler mas é como se tivessem porque lhes contei as minhas impressões. Depois houve este post.
Todas as reacções têm algo em comum: primeiro, interpretaram negativamente a minha opinião; segundo, não se importam com isso. Ora, na verdade eu gosto de Coimbra, como aliás gosto de Portugal inteiro e até do Universo todo (tem dias). Ainda por cima, esta visita a Coimbra foi particularmente divertida e serviu de desforra da última vez que lá estive, com umas pessoas muito apressadas que não me deixaram embeber-me da cidade. O post foi muito mais atribulado do que é costume, o Blogger crashou três vezes e lá saiu aquela prosa minimal porque entretanto estava atrasado no trabalho. Agora, depois do tal post, apeteceu-se ser mais descritivo.

O motivo/pretexto para ir a Coimbra era ver uma exposição do Philip Lorca DiCorcia, de que já tinha falado aqui e de quem já tinha visto umas fantásticas fotos no LisboaPhoto de há dois anos (e também falei disso aqui). Para rechear a visita, o plano era, primeiro, (conseguir) almoçar no Zé Manel dos Ossos, onde já tinha tentado ir, sem sucesso, umas 10 vezes, porque parece estar fechado pelo menos metade dos dias do ano. Depois, dar umas voltas pela Alta, ir ao Machado de Castro se já estivesse aberto e eventualmente à Biblioteca Joanina e/ou a Santa Clara-a-Velha se desse tempo.
O Zé Manel estava de facto aberto, e pareceu-me à altura da lenda. Depois, ao Turismo tentar saber onde seria a tal exposição. A simpática funcionária não sabia de nada, não fazia ideia. Apesar de esta ser a única exposição importante na cidade, de o Lorca DiCorcia ser considerado um dos fotógrafos mais importantes da actualidade e de esta ser a primeira individual dele em Portugal. Mas estas cenas são recorrentes nos postos de turismo em Portugal inteiro e ela lá conseguiu descobrir onde era, com a minha preciosa ajuda. Também fiquei a saber que o Machado de Castro continua fechado (para quem não sabe, este museu é irrelevante enquanto tal mas está assente num magnífico criptopórtico romano que só por si valeria uma ida a Coimbra).
Seguiu-se a tradicional bica num dos cafés mais bonitos de Portugal, o Santa Cruz, e a subida à Alta no belíssimo novo elevador (ambos já documentados aqui). Aqui chegados, a ideia era como já disse dar uma volta por ali e revisitar a Biblioteca Joanina (um dos poucos monumentos que vale mesmo a pena ver em Portugal). Mas como o mapa que entretanto tinha trazido do Turismo assinalava um tal de Museu da Física, pensei logo "hum, não me digas que o tal lendário museu com a maior colecção do mundo de instrumentos científicos das Luzes já abriu, bute lá imediatamente". De modo que perguntei onde era a uma senhora que ia a passar de bata branca, com um ar de cientista. "É já aqui, eu levo-vos lá", respondeu ela sorridente. "Ali ao cimo das escadas". De facto dizia lá "Museu da Física", só que todas as portas estavam fechadas. Ainda tentámos entrar pela porta do lado, que conduzia a magníficos corredores e anfiteatros, tudo vazio, e de museu nada (são duas das fotos que estão no outro post). Voltámos a descer a escada, deparamos com a mesma senhora cientista, que disse "Ah está fechado? Olhe, não sei de nada". Aí continuámos, encontrámos o tal edifício que dizia Bar 4º Andar (e que me disseram depois ser a Faculdade de Medicina) e onde dois tipos bebiam três cervejas de cada vez e comiam bolos de coco, não fomos à Biblioteca Joanina porque estava superlotada de turistas estrangeiros, passámos por um parque de estacionamento/miradouro,




conhecemos as belíssimas faculdades de Farmácia e




Psicologia (dois belos edifícios dos séculos XVII/XVII de que nunca tinha ouvido falar) e fomos à procura do Pátio da Inquisição, onde estava a exposição do DiCorcia. Neste pátio há diversos serviços camarários com as respectivas setas, mas nada de exposição. À terceira tentativa alguém nos disse que devia ser "ali", e era, no que fiquei a saber ser o Centro de Artes Visuais. É novo e tem umas instalações magníficas.




A exposição era boa mas não deslumbrante, em parte por as fotos serem impressões pequenas, em parte por não serem das mais interessantes do DiCorcia.
Fiquei também a saber que este CAV é uma espécie de herdeiro dos saudosos Encontros de Fotografia. Não sei em pormenor o que aconteceu com os Encontros. Parece-me que, por razões que me escapam (provavelmente a ver com dinheiros, interesses mesquinhos e invejas, quesílias provincianas, etc.), houve problemas com o organizador e programador dos Encontros, ele foi afastado, e os Encontros finalmente acabaram. Ou seja, acabou-se com a principal manifestação cultural de Coimbra, que trazia muitos milhares de pessoas à cidade (e teve uma importância para a fotografia portuguesa, suponho, semelhante à que tiveram os Encontros Acarte para a dança), e criou-se mais uma estrutura de divulgação de artes numa cidade onde já havia outra com grandes tradições, o CAPC.




Coimbra desapareceu ainda mais do mapa com o fim dos Encontros. Não consegue deixar de depender quase totalmente da universidade, ao ponto de viver ao ritmo desta. Da universidade pouco se fala, em termos de investigação, e não parece ter qualquer efeito económico na cidade para além dos negócios dos alugueres de quartos e apartamentos e dos bares e restaurantes. No Verão não se passa nada, e até encontrar alojamento se torna quase impossível às vezes. E é uma cidade mal amada, vítima aliás, logo no começo do salazarismo, duma operação urbana de destruição em massa sem paralelo em Portugal que substituiu a velha Alta pela arquitectura mais genuinamente fascista que existe por cá. Mas é uma bela cidade, com um património urbano e monumental considerável e uma situação geográfica invejável, entre o Norte e o Sul, a Beira Alta e o mar.
Eu gosto de deambular por Coimbra deserta, gosto das coisas que não funcionam. Gosto de Portugal. Às vezes irrita-me mas depois passa. Se isto fosse um país rico não era tão divertido, quem sabe.

22.5.05






É tão bom ouvir falar de Lisboa e de Portugal com inteligência e humor (e amor), sem tretas, angústias identitárias e comparações absurdas, no blog do Momus.

20.5.05





Nunca tinha visto as fotografias da Raquel Porto. Estão aqui.

(parece que está na moda os fotógrafos portugueses fazerem páginas em Flash com as fotos pequeninas em pop-ups. Ponham-me isso maior pá, não é por mais uns pixeizitos que vos gamam as fotos)



E aqui está o homem da pala no concerto dos Belle Chase Hotel de que ele fala ali em baixo, debaixo da estátua do outro poeta da pala, numa aparição-surpresa a cantar uma versão duma música dele próprio. Acabei de descobri-lo nos meus arquivos. Foi a 9 de Abril de 2003.

19.5.05





A feira do livro antes deles chegarem.



Eu no Ginjal, 15-05-05



No ferry a caminho de Cacilhas, 15-05-05

18.5.05





Coimbra, a cidade do Sul mais a norte, tem uma espécie de abandono diferente. Fecha aos fins de semana, no Verão e sempre que lhes dá na bolha.



Numa sexta-feira normalíssima, pensava eu, havia de ser uma cidade normal.



Mas não, é mais misterioso que isso.



Há sempre portas fechadas, onde nós queríamos entrar, e outras abertas em sítios onde devia (supunha eu) estar alguém e não está. Podia-se ficar lá o resto do dia a praticar pequenas perversões.



Há homens de meia-idade sentados em bares de estudantes desertos a comer bolos com cervejas ímpares.



Anúncios imaginativos.



Cadeiras esquecidas em lugares improváveis.



É assim o abandono de Coimbra: alguém vai lá de vez em quando abrir a porta.

17.5.05





Lisbon links one-eyedness to poetry (but then again the city of Pessoa links everything to poetry) thanks to one-eyed poet Luis Vaz de Camões, whose statue stands in Camões Square in Baixa. As I walked through the square last night dressed in cap, cape and flip flops, two young girls shouted out "Es Camões!", as if I'd just jumped down from the pedestal. In 2003 I performed on an outdoor stage directly under that statue as a guest of local group Belle Chase Hotel, who've since split, allowing singer JP Simões to pursue a career as a "talking singer", one of those Portugese literary cantautores who whispers romantic poetry over heart-rending music.

Flipping through literary records of this type in Ler Devagar last night, I came across many titles like "Incerteza Da Identidade". The uncertainty of identity is a big theme here, and yet it can't help but seem poignant and even cute in such a gorgeously unalienated environment, a place where narrow streets full of nothing but the sound of human voices wind up hills to tiny hidden bars, walls and pavements are tile mosaics lovingly tooled by artisans, and all seems right with the world. Could we call Pessoa's characteristic tone "Cute Alienation"?

Ontem à noite ia chocando com o Momus em pleno Calhariz. Está mesmo cá, para um concerto amanhã no Santiago Alquimista, tem sempre coisas interessantes sobre Lisboa no blog dele, como da outra vez há dois anos.



A publicidade é muitas vezes do melhor que há na TV, como se pode ver pela campanha da AmEx. Os três primeiros filmes, incluindo um, belíssimo, com o Robert DeNiro e realizado pelo Scorsese, podem ser vistos e descarregados aqui. O do Mourinho está aqui, bem como outro também muito interessante da Adidas (estes dois via all of me).

16.5.05





Já há uns anos que não ficava assim siderado, boquiaberto, esmagado, fascinado, etc, como no concerto dos Jackie O Motherfucker, sexta na ZDB.. Que raio de nome, é verdade, absolutamente inesperado para uma música inclassificável, radical e sei lá mais o quê. Não sei se seria capaz de ouvi-los em casa, muita gente não aguentou as duas horas ou isso ininterruptas de ruído acústico-electrónico-eléctrico de onde emergiam de vez em quando umas coisas parecidas com canções, eu fiquei completamente hipnotizado. Que cena.
Na véspera os Loosers mostraram mais uma vez porque é que merecem o estatuto de única banda de culto portuguesa, com concertos sempre diferentes e os Gang Gang Dance deram um concerto memorável. Sábado perdi-me antes de lá chegar e ao que parece perdi mais um concerto fantástico dos Magic Marker. A sala tem um PA novo com um som impecável, a ZDB está mais uma vez de parabéns, definitivamente no mapa mundial da vanguarda pop. Até estou comovido.

15.5.05













Entre Lisboa e Coimbra, 13-05-05



Lisboetas.

11.5.05



Há anos, o Miguel Esteves Cardoso argumentava numa crónica que a palavra 'não' era muito mais usada em Portugal que o 'sim'.

O projecto do Português Fundamental (de que já falei aqui) mostra que ele tinha razão. O 'não' é a terceira palavra mais frequente, enquanto o 'sim' aparece em 50.º lugar, com uma frequência menos de 10 vezes inferior.

Aqui vão os 50 vocábulos mais frequentes na língua portuguesa, segundo esta investigação:

ser, de, não, e, ter, para, estar (incluindo 'tar'), eu, dizer, ir, mas, haver, por, com, fazer, querer, ele, muito, lá, já, mais (advérbio), coisa, assim, aqui, saber, isso, depois, me, ou, também, poder, pessoa(s), vir, dar, ver, pois (adv.), nós, tudo, só (adv.), portanto, até, ano(s), agora (adv.), vez(es), ela, gostar, aquilo, então, casa, sim.

(não foram contados os seguintes vocábulos gramaticais homógrafos muito frequentes: a, como, em, nos, o, onde, porque e quando)


Já agora, duas listas das 50 palavras mais frequentes no inglês

the, of, and, a, to, in, is, you, that, it, he, for, was, on, are, as, with, his, they, at, be, this, from, I, have, or, by, one, had, not, but, what, all, were, when, we, there, can, an, your, which, their, said, if, do, will, each, about, how, up

e o francês:

de, la, le, et, les, des, en, un, du, une, que, est, pour, qui, dans, a, par, plus, pas, au, sur, ne, se, le, ce, il, sont, la, les, ou, avec, son, il, aux, d'un, en, cette, d'une, ont, ses, mais, comme, on, tout, nous, sa, mais, fait, été, aussi

(listas extraídas daqui)

O 'no' é mais frequente que o 'yes', e o 'non' mais que o 'oui', segundo estas listas, e nos dois casos são palavras muito menos frequentes que em português. Em todo o caso, estas listas não são comparáveis com a do português (provavelmente foram feitas com métodos diferentes), portanto não se pode tirar grandes conclusões daqui (mas pode-se sempre especular). Nos três casos, referem-se apenas à oralidade.










Estas casas de Ayamonte podiam ser algarvias, não fossem as janelas, com gradeamentos e/ou este tipo de estores, que se vê por toda a Espanha.
As fronteiras intrigam-me. Lembro da primeira vez que fui de comboio para Espanha. Saí pela fronteira de Marvão. Olhava pela janela, a tentar perceber se havia algum indício de estar em Espanha. A paisagem permanecia igual, azinheiras e mais azinheiras. Subitamente pensei: mas isto não são azinheiras. São a mesma árvore mas têm outro nome, que de repente deixei de saber. Tornei-me incompetente para descrever esta paisagem.
Para além da língua, pergunto-me se a identidade nacional não residirá em certos pormenores, que se calhar não são pormenores mas coisas muito importantes, como os estores e os gradeamentos nas janelas. E os horários, e a vivência na rua. Ayamonte, às 3 da tarde, estava deserta, Vila Real cheia de gente na rua. Em Encinasola, perto de Barrancos, tive uma sensação semelhante. Fazia muito calor. Em Barrancos havia bares cheios de jovens, festas em casas particulares. Encinasola dormia, e acordou de repente ao fim da tarde com uma procissão espantosa, com sevilhanas e foguetes a abrir caminho para o andor.
Noutro contexo, as regiões de Malmö/Lund e de Copenhaga, separadas por um estreito pouco maior que o Guadiana ou o Tejo na foz, são tão diferentes com uma arquitectura e uma paisagem semelhantes, e até um passado comum de vários séculos no mesmo país (a Dinamarca). O lado dinamarquês é completamente frenético comparado com o sueco.
Povoações com um longo passado de vizinhança, de contactos comerciais, de casamentos, mantêm-se irredutivelmente ligadas aos seus países. Para mim, português, há mais pontos de contacto entre Ayamonte e Cangas, na Galiza, por exemplo, do que entre Ayamonte e Vila Real, e Vila Real tem mais a ver com Ponte de Lima do que com Ayamonte. Contra a geografia, contra a história.



E até esta janela em Ayamonte seria imediatamente manuelina para mim, se estivesse do lado de cá. Assim, é mudéjar.

8.5.05










Azulejos arte nova no largo do Corpo Santo, Lisboa.



Fui parar a Vila Real de Santo António por acaso. Além de outros pretextos, entre os quais conhecer a cidade, dois tinham a ver com o rio. O primeiro é que tinha estado há pouco tempo no sítio onde nasce o Guadiana, na Mancha. Sempre que estou em Espanha e vejo um rio que desagua em Portugal dá-me vontade de começar a descer por ali abaixo e vir cá parar à foz. Como isso é um bocado complicado fiz um curto-circuito.



O Guadiana é um rio bastante original. Nasce duas vezes, à segunda num sapal, e acaba noutro. Começa num sítio (que na verdade parece difícil de identificar, pois está associada a vários lagos e nascentes), corre durante um bocado, depois desaparece debaixo da terra e reaparece, emergindo de um enorme aquífero, aqui, numa zona chamada Tablas de Daimiel, onde se junta ao rio Cigüelas, de água salobra. A alta salinidade da água, o relevo plano e o regime irregular dos rios fez com que se formasse uma espécie de sapal, bastante improvável em plena Mancha, com toda a passarada do costume que adora procriar nestes sítios.



Parece que chegou a haver aldeias de pescadores por aqui. Na verdade, o aproveitamento intensivo do aquífero para irrigação, a partir dos anos 1950, pôs em perigo as Tablas, que são agora alimentadas artificialmente a partir do Tejo, e os Ojos del Guadiana, que eram a tal segunda nascente, secaram. De modo que cada vez se percebe menos onde o rio começa, se é que começa.



Lá acabar, acaba, aqui perto deste sapal onde há umas salinas que agora fazem um sal SQPRD.



O segundo pretexto era atravessar o rio para Ayamonte, pela segunda vez, por causa de uma memória de infância. Uma vez passei aqui férias com os meus pais e os meus irmãos, e tínhamos um veleirozito. O Guadiana era uma fronteira a sério. Do outro lado havia Coca-Cola.



Não sei de quem foi a ideia, mas o certo é que atravessámos o rio, acostámos do outro lado e eu e os meus irmãos fomos beber uma Coca-Cola. Quando voltámos tínhamos um guardia civil à nossa espera no barco, que nos deu uma pequena seca mas nos deixou ir embora. Foi o meu primeiro acto antifascista, que me lembre pelo menos. Os meus pais já estavam habituados. Suponho que lhe deve ter dado um pequeno gozo.



Também me lembrei do D. Sebastião. Em 1573, quando ele visitou o Algarve, meteu-se num barco em Castro Marim, foi ver a barra do Guadiana, passou por Santo António, que na altura tinha 15 ou 16 vizinhos, segundo conta o cronista, e desembarcou em Ayamonte, onde a marquesa, que morava neste palácio, o mandou receber. Era dia de Entrudo. "A festa durara muito mais do que durou, se a noite não sobreviera, o que fez aos portugueses muito tristes, os quais desejavam que durasse o dia eternamente", diz o cronista João Cascão, que ficou muito impressionado com a beleza e altivez das moças andaluzas, "senhoras muito confiadas, porque sofriam muito bem tudo o que se lhes dizia, e respondiam a propósito".





E lá regressaram a Castro Marim, onde o rei, no dia seguinte, ao embarcar em direcção a Alcoutim e Mértola, se viu em "grande afronta" quando quis beijar a mão duma castelhana que não estava para aí virada.

7.5.05





A sede do IVV em Lisboa, nitidamente inspirada, como se pode ver, no Balneário Público de Vila Real de Santo António. O arquitecto é, salvo erro, Cassiano Branco.

4.5.05





A ELREY D JOSÉ I
AUGUSTO INVICTO PIO
RESTAURADOR
DAS ARMAS DAS LETRAS
DO COMMERCIO E DA AGRICULTURA
REPARADOR
DA GLORIA E FELICIDADE PUBLICA
E CLEMENTISSIMO PAY DE SEUS VASSALLOS
PROTECTOR DA INNOCENCIA
VINGADOR SUPREMO DA OPRESSAÕ
CONSERVADOR DA PAZ PUBLICA
E INIMIGO DA DISCORDIA
O COMMERCIO DAS PESCARIAS
DESTA VILLA REAL DE STO ANTONIO
LEVANTADA EM CINCO VEZES PELAS
SUAS REAES PROVIDENCIAS E DECRETOS
QUE COM TODO O ZELLO EXECUTOU
O MARQUEZ DE POMBAL
DA INUNDAÇAÕ DO OCEANO EM QUE
SECULOS ANTES ESTEVE SUBMERGIDA
ERIGIO ESTE OBELISCO
PARA PERPETUO PADRAÕ DO SEU
HUMILDE E IMMORTAL RECONHECIMENTO
ANNO DE 1776

Em Portugal há um género literário à parte, que são as lápides do tempo de D. José I e do Marquês de Pombal, pequenas pérolas do barroco. Todas as que eu conheço aludem a acontecimentos importantes, mas esta, no centro da praça Marquês de Pombal em Vila Real de Santo António, é particularmente bonita. Onze linhas a enumerar as virtudes do monarca, qual ditador comunista, e outras tantas dedicadas ao relato, que me deixa intrigado: "levantada em cinco vezes", da "inundação do oceano em que séculos antes esteve submergida"?? O que aprendíamos na escola é que a vila foi fundada pelo Marquês, sem mais. Teria lá existido uma povoção piscatória, destruída por um maremoto? Pelos movimentos naturais das areias? O certo é que todo o estuário do Guadiana parece uma zona bastante periclitante, como se pode ver na foto, cheia de esteiros e sapais, e aquele pinhal mesmo junto à actual foz tem todo o ar de ter sido plantado para fixar as areias e proteger a vila.





A praça Marquês de Pombal e o traçado da vila, com ruas largas e prédios de um ou dois pisos faz pensar no que seria a Lisboa pombalina se se tivessem respeitado as cérceas iniciais.



A arquitectura do resto da cidade oscila entre casas térreas oitocentistas que existem um pouco por todo o Algarve, como esta,




prédios anónimos e versões modernizantes das casas tradicionais, mais ou menos bem sucedidas como esta..



Os pastiches são muito raros, felizmente, como se as pessoas não tivessem levado demasiado a sério os pergaminhos pombalinos.



E há este magnífico balneário público em estilo português suave, que me fez irrestivelmente lembrar o edifício da Junta Nacional do Vinho ou o Pavilhão dos Desportos. Passei por ele na noite em que cheguei e no dia seguinte já não o encontrava. Vi um senhor de idade impecavelmente vestido, de fato escuro e gravata vermelha, e perguntei-lhe. "Sei perfeitamente, morava na casa em frente quando aquilo foi feito. Sabe, eu sou muito velho, tenho quase 80 anos. Naquele tempo as pessoas não tinham água em casa. Sabe, eu sou muito velho, tenho quase 80 anos. Lembro-me que passava todos os dias uma carroça que a gente chamava a 'carroça da merda' e as pessoas atiravam lá para dentro as fezes que faziam durante a noite. Sabe, eu sou muito velho, tenho quase 80 anos. Boa noite".

Weblog Commenting by HaloScan.com eXTReMe Tracker

Google PageRank Checker Tool

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Get Firefox!

Who Links Here