29.6.05



O site da Alta de Lisboa abre com as palavras 'Alta de Lisboa, o Segredo que Lisboa guardou para o fim'. Não sei como é que ninguém se tinha já lembrado disto no governo, na administração pública e nas empresas de serviço público. Tipo 'Prolongamento da Linha Amarela para Cascos-de-Rolha (Onde Há Uns Gajos Que Por Acaso Têm Uns Terrenos À Venda), o Segredo que o Metropolitano guardou para o fim'. A pessoa ficava furiosa na mesma mas sempre se ria durante 5 segundos.
Bom, continuando no site, há depois um botão que 'esclarece todas as dúvidas quanto à localização' da Alta. Uf, estou mais descansado, não era só eu que não fazia ideia.



Então pelos vistos é aqui mesmo ao ladinho do aeroporto.



E está neste estado por enquanto.


(foto daqui)

Se ninguém se mexer, se ninguém falar do assunto, não são as autarquias nem o governo, e muito menos os construtores civis, que vão fazer alguma coisa para melhorar a qualidade de vida nas nossas cidades. Blogs como este, que está a acompanhar a feitura duma bocado novo de cidade, a Alta de Lisboa, fazem falta e podem ser um contributo importante.
A propósito, gostava imenso de ir lá. Alguém sabe onde fica e qual é o autocarro?

Intervalo publicitário para autopromoção

Apesar dos links estarem ali em baixo há muito tempo, não há muita gente que repare neles. São alguns textos que publiquei nos bons tempos em que conseguia ganhar dinheiro a fazer o que gostava e têm a ver com assuntos de que costumo falar aqui.

Há um texto feito a propósito da Linha Vermelha do metro, que de caminho fala da misteriosa política da empresa e da urbanização de Chelas, aqui.

Este, este (ambos sobre Chelas) e este (sobre as Olaias) são capítulos dum livro que talvez nunca seja publicado sobre os bairros sociais da CML. Têm esse defeito, de serem capítulos e lhes faltar ao menos um enquadramento, mas mesmo assim parecem-me documentos com algum interesse sobre um tema muito pouco falado.

Este aqui foi escrito pouco tempo antes do lançamento do chamado Dicionário da Academia e faz uma revisão dos problemas de que sofriam e sofrem os dicionários de língua portuguesa feitos em Portugal. Infelizmente não tive oportunidade de escrever a seguir sobre o DA e tive imensa pena depois de ler a quantidade de disparates que saíram sobre o assunto.

Outro tema sobre o qual gostava de ter escrito mais é o design (industrial, que é o único que interessa). Aqui está uma amostra, um texto sobre uma obra-prima do design português na qual toda a gente já se sentou.

Este é uma recensão sobre um livro-catálogo duma exposição organizada por Jorge Calado sobre o fotógrafo Wolfgang Sievers e é útil para quem nunca o leu (a obra de Sievers pode ser vista, creio que na totalidade, aqui).

Finalmente, este texto procura responder à questão de porque é que os diamantes são tão caros.

Todos foram publicados (fora os tais capítulos) em locais mais ou menos obscuros, muito possivelmente com menos leitores que este blog. Até agora, fora as pessoas envolvidas na produção dos textos, a única que eu tive conhecimento que leu um deles encontrou-o por acaso numa daquelas pilhas de revistas que há nos consultórios enquanto esperava a vez.

28.6.05





O núcleo primitivo de Lisboa -- Castelo, Alfama e Mouraria. É um caos tipicamente medieval, apenas ordenado pela rede de ruas 'em teia de aranha' que existia em quase todas as cidades europeias da altura -- uma sucessão de ruas que formam círculos concêntricos paralelos às muralhas da cidade, cortadas pelas ruas principais em estrela que ligam o centro às portas da cidade, e que são por sua vez prolongamentos das principais estradas de ligação às povoações vizinhas.
Em Lisboa existe ainda um troço de uma dessas estradas, com um traçado perfeitamente conservado, que vem pelo menos do tempo dos romanos e fazia a ligação a Benfica e a Sintra. Começa nas Portas de Santo Antão e segue pelas ruas de São José, Santa Marta e São Sebastião da Pedreira até Palhavã, onde está hoje a Gulbenkian. Quando foi urbanizada a zona a norte do antigo passeio público, com a construção da Avenida, dos bairros adjacentes e, depois, das Avenidas Novas, esta estrada foi deixada como estava. Na altura ainda tinha bastante movimento, das carroças dos saloios que vinham abastecer Lisboa, e foi em grande parte por esta razão que a avenida da Liberdade não foi prolongada -- argumentava-se que não ia servir para nada, uma vez que as carroças seriam incapazes de subir o declive de Campolide.



Nesta foto consegue-se vê-la, com algum esforço (o melhor é clicar para ampliar). Vê-se distintamente o princípio, em baixo à direita, com o pavimento branco. Segue paralela à avenida da Liberdade, ao chegar à Alexandre Herculano inflecte para norte, depois passa em túnel debaixo da Fontes Pereira de Melo, segue paralela à António Augusto Aguiar e vai dar à igreja de São Sebastião da Pedreira, que ainda hoje mantém um ar de igreja rural e se distingue muito mal, perto do canto superior esquerdo da foto.

27.6.05



Uma pequena história do urbanismo em Lisboa



O Bairro Alto, primeira metade do século XVI. É provavelmente o bairro mais dinâmico de Lisboa. Já foi aristocrático, decadente, operário, industrial, boémio e agora mais burguês e boémio e várias outras coisas. Na altura em que foi feito ocupava um lugar bem importante em Lisboa, pela dimensão, pela regularidade das ruase por ser um local desafogado em relação aos velhos bairros medievais. A aparente uniformidade escondia uma enorme diversidade social, com palácios dispersos, por todo o bairro, que se notam mais pela dimensão que pela arquitectura. Depois do terramoto a aristocracia abandonou o bairro em direcção à periferia, e esses palácios foram divididos para aluguer ou acabaram por se transformar em instalações industriais, nomeadamente de jornais e tipografias, e também de mobiliário, e o bairro acabou por se transformar num bairro popular como outros.



A Baixa, segunda metade do século XVIII. Foi o centro de Lisboa, agora não se sabe bem o que é e muito menos o que será. A seguir ao terramoto pôs-se a hipótese de mudar o centro para outro sítio, mas finalmente optou-se por reconstruir tudo mantendo as características que já tinha -- de centro comercial, sede do poder, e também bairro residencial. A norte, o Rossio e a praça da Figueira reproduziram as funções de 'centro social' e de mercado, respectivamente, enquanto a sul a praça do Comércio se manteve como lugar do poder, já antes representado pelo palácio real. Com o tempo, as residências foram sendo substituídas por escritórios e finalmente toda a Baixa entrou em decadência, à medida que o terciário foi subindo pela Avenida acima até ocupar as avenidas.



Campo de Ourique, segunda metade do século XIX. Continua predominantemente residencial e é um caso de sucesso, mesmo não tendo nada de especial e quase sem transportes públicos.

.

Avenidas Novas, inícios do século XX. Outrora um grande e agradável bairro residencial burguês, tornou-se o novo centro terciário de Lisboa a partir dos anos 1970/80, com cada vez com menos habitantes. Juntamente com a zona da avenida da Liberdade, tem sido vítima de agressões arquitectónicas sistemáticas e sem um mínimo de bom senso. Na viragem do século XIX para o século XX, Lisboa expande-se para norte, numa lógica de segregação social-espacial, com o eixo Avenida-Fontes Pereira de Melo-Avenidas Novas destinado às classe mais favorecidas e o eixo da Almirante Reis para os mais pobres. Mais tarde as Avenidas acabaram por substituir a Baixa como grande pólo do terciário, enquanto a Almirante Reis se especializou num comércio mais pobre, mantendo a função residencial nas ruas secundárias.



A primeira 'célula' de Alvalade (entre as av. Brasil, Roma e da Igreja e o Campo Grande), cerca de 1950, com a escola a meio, os caminhos pedonais, a ruptura com o quarteirão tradicional. Alvalade tem uma população algo envelhecida mas tem resistido muito bem ao tempo, é uma das zonas de Lisboa mais equilibradas na relação emprego/residência. Um paradigma de sucesso do urbanismo português, conseguiu integrar arquitecturas diferentes de épocas diferentes, desde bairros sociais a bairros de vivendas, do prédio mais conservador ao mais modernista. Alvalade representa a introdução em Portugal do urbanismo moderno, com algumas originalidades que criavam uma hierarquia sócio-espacial 'de proximidade'. O eixo principal, da avenida de Roma, foi destinado às classe mais altas e entregue a privados em regime de renda livre, enquanto as traseiras foram ocupados com bairros sociais e/ou de renda condicionada, também construídos por privados que se sujeitavam a rendas pré-estabelecidas em troca de benefícios fiscais. Todos os construtores foram também obrigados a respeitar projectos pré-definidos ou à aprovação dos projectos pela CML, noutros casos.



Chelas, o descalabro, sempre a piorar desde a zona J (à direita, cerca de 1970) até ao bairro do Armador (anos 1990). À esquerda, em cima, fica a estação de metro da Bela vista, que, a partir da Zona J e dos outros bairros a leste do vale, só é acessível de carro. Apesar de ficar mesmo ao lado da Quinta do Armador, não foi feito um acesso a este bairro.
Chelas tornou-se um paradigma de tudo o que não se deve fazer, desde as dificuldades de circulação, seja a pé, seja de transportes públicos, seja de carro, até às descontinuidades do edificado, à má qualidade de construção, e à arquitectura utópica, disfuncional, simplesmente abaixo de cão ou mesmo a roçar o criminoso, passando pela separação de zonas residenciais e comerciais e pelos realojamentos em massa de populações miseráveis. Pior que isto é muito difícil. Para mim é a grande mancha da gestão João Soares, que perdeu uma oportunidade de repensar tudo para cumprir a promessa eleitoral de acabar com as barracas.



E finalmente, as maravilhas do neoliberalismo aplicado à construção civil (1970-????), num sítio que ninguém deve querer saber onde fica.

(imagens de satélite do Google maps, uma pequena maravilha)














É uma excelente ideia, simples e de resultado espectacular, a instalação de Diogo Saldanha no troço final do aqueduto das Águas Livres -- as aberturas da galeria do aqueduto foram substituídas por óculos que projectam imagens do exterior pelo efeito de camera obscura. A não perder, até dia 30, e é também uma oportunidade para visitar (grátis) um espaço que costuma estar fechado ao público. A entrada é pelo portão da EPAL no final da rua das Amoreiras. As pessoas nas fotos de baixo já não fazem parte da instalação.



Entrada duma exposição da Lisboa Photo no palácio da Ajuda.



Azulejos na entrada de quartel, calçada da Ajuda.









Motivos comerciais na calçada, largo do Rato.

Sir Isaiah pousou uma mão protectora no meu ombro. Caminhávamos vagarosamente para o seu velho Jaguar, que nos havia de conduzir a Oxford.

É JC Espada no seu melhor, esta semana no Expresso, onde ficamos também a saber que JCE é patrocinado pelo maior banco privado português, e que se acha injustamente acusado de promover as ideias anglo-saxónicas em Portugal. Os anglo-saxões são, recorde-se, umas tribos germânicas que terão invadido a Britannia por volta do século IV, dando início a um período que ficou conhecido como Dark Ages.

24.6.05





A proposta de lei das rendas prevê o alargamento do prazo de 5 para 10 anos para pessoas com rendimentos baixos -- menos de 5 salários mínimos, ou seja 1873 euros por mês em 2005. Já suspeitava que andava a ganhar muito mal, mas nunca pensei que fosse tanto. Quem me dera ganhar 370 contos.
Fiquei sem perceber o que tenciona fazer o governo com os prédios arrendados cujos senhorios não tenham dinheiro para recuperá-los. Se as câmaras de Lisboa e Porto tivessem dinheiro para fazer obras coercivas em todos os prédios nesta situação era óptimo.
Outra boa ideia é a criação de comissões arbitrais municipais, 'compostas por representantes da Câmara Municipal, do serviço de finanças competente, dos proprietários e dos inquilinos', para resolver litígios sobre o aumento das rendas. Vai ser lindo.

23.6.05



On a hot, Sunday afternoon last summer, a dear member of the family became increasingly weak and progressively unresponsive. Much to our surprise, the healthcare system worked remarkably well. Why is our story different than so many others?

* Timely access: The PCP [primary care physician] answering service worked; humans answered the phones; the doctor met us immediately upon arrival in the emergency room; admission happened in less than 30 minutes.

* Compassion: From the receptionist who told us to wear sweaters, to the technician who provided hugs to patients and our children, to the doctor who gently raised the issue of how far we should go to save this critically ill patient, people cared and they showed it.

* Shared information and decisions: At every step, the doctor shared the differential diagnosis, details on evaluation and treatment, the time it would take, and the price they would bill. Then she asked what we wanted to do. Later we shared research and data by email and cell phone about possible causes of the internal hemorrhage and ITP (idiopathic thrombocytopenic purpura). We felt a part of the care team. And the team shared information with each other -- another unexpected event. They called with updates and didn't always wait for us to call them.

* Expertise and the right tools: The doctors were highly trained, usually correct, and worked in a clean, modern facility that made their jobs easier and our visiting more pleasant.

On the fourth day, we brought our dog, Rico, home.


(artigo no conceituado site de informação médica americano Medscape, escrito por uma investigadora da área de saúde pública. As reacções dos leitores estão aqui)

Prometo não voltar a falar deste assunto


O homem apesar de tudo impecável...

«Havia sempre muitas mulheres à volta dele. Nesse aspecto, ele era impecável

Mário Soares sobre Álvaro Cunhal, SIC-Notícias, 14 de Junho de 2005


... e que ainda por cima conseguiu calar o Carlos do Carmo

«Uma vez, o Carlos do Carmo pediu-me para o apresentar ao Álvaro Cunhal. Ele até já trazia o discurso preparado, mas quando chegou o momento não lhe saiu uma palavra

Zita Seabra, RTP, 13 de Junho de 2005



(dois posts pirateados do Olha que não)



O João dos Santos não merecia uma homenagem como esta que apareceu no jardim das Amoreiras. Ainda bem que ele não está cá para ver. Parece que foi uma figura muito importante na psiquiatria e psicanálise infantil em Portugal, mas sobre isso nada sei. Recordo-o pelo espantoso programa de rádio Se Não Sabe Porque é Que Pergunta, com João de Sousa Monteiro, que não tinha indicativo, nem música, era o João dos Santos a falar e o outro fascinado, e os ouvintes também. Começava-se a ouvir e era difícil não ficar até ao fim.

21.6.05



Eis uma boa ideia: um blog sobre design gráfico, o 10Aine.



Wolfgang Sievers, 'Drilling for oil by Shell's 'Nymphea' oil rig in Bass Strait, Victoria, 1983'


Esta foto serviu para a capa dum relatório e contas da Shell Australia.



O conselho de redacção aqui d'O Céu resolveu, excepcionalmente, pronunciar-se sobre dois assuntos de que toda a gente fala no momento.

Estava completamente distraído, como de costume, e perdi a maior manisfestação comunista dos últinos anos e provavelmente dos que hão-de vir. Mas se calhar ainda bem que não fui, acho que me ia sentir mal. Nunca percebi o que é que o Cunhal tinha de especial, e por mais que me expliquem continuo sem perceber. Foi um líder carismático do seu partido durante décadas, terá talvez batido o recorde de isolamento na prisão, mas também não me parece que seja isso o importante, e como nunca senti a menor simpatia pelo PCP sempre me estive nas tintas para quem fosse o líder deles. Agora, incomoda-me ver que, passados 30 anos do 25 de Abril, tanta gente ainda encare o Cunhal e o PCP como os principais responsáveis da queda do regime salazarista. É uma história muito mal contada. Os militantes do PCP foram de facto os mais perseguidos durante o salazarismo. Não sei até que ponto o regime os considerava perigosos para a sua sobrevivência, mas lá que ele era ferozmente anticomunista, era. Mas o facto de Mário Soares, por exemplo, ter sido tratado com alguma benevolência não impede que ele tenha tido um papel tão ou mais importante na queda do regime. O próprio Marcelo Caetano precipitou essa queda, assim como Costa Gomes e Spínola, que, recorde-se, foi nada mais nada menos do que o chefe do estado-maior general das forças armadas de 1972 a 1974. E depois, muita gente, muita mesmo, deu a sua contribuição. O regime era altamente impopular. O meu pai, por exemplo, foi um elemento com alguma importância na campanha de Humberto Delgado, deu a cara e nunca foi preso nem sofreu quaisquer represálias por isso (nem qualquer compensação). As sessões da oposição na campanha eleitoral de 1969 no Funchal decorreram numa sala cedida pela família da minha mãe, na altura prósperos comerciantes da cidade, e nunca me constou que tivesse havido alguma confusão por causa disso -- o que, num meio pequeno, provinciano e conservador como aquele, quer dizer muito. E o facto de nenhum deles ser comunista nem ter estado preso não invalida os pequenos contributos que deram.

O outro assunto não tem nada a ver, trata-se do falatório sobre uns miúdos negros que fizeram um assalto em massa numa praia dos subúrbios de Lisboa. Incomoda-me que a meio disto tudo pouco se fale dum aspecto essencial: os miúdos são portugueses. A questão da marginalidade e da criminalidade nos filhos dos imigrantes das ex-colónias africanas é real e importante, mas não tem directamente a ver com a imigração, mas sim com a integração social dos filhos dos imigrantes, em especial africanos, por causa, obviamente, do racismo. Se eu fosse negro, tivesse 16 anos, fosse filho dum operário africano analfabeto e morasse num qualquer bairro social ou clandestino, é provável que andasse por aí a fazer patifarias. Há vários aspectos em causa, mas há um em especial que ainda não vi referido: a existência de bairros inteiros tão homogéneos socialmente como a Cova da Moura, bem como o realojamento em massa de populações desses bairros no mesmo sítio (como aconteceu com a Pedreira do Húngaros) pode ser muito interessante para os sociólogos mas não é do interesse deles nem de ninguém. E se pensam que eles gostam de viver assim, perguntem-lhes. Um inquérito feito há uns anos na Pedreira dos Húngaros mostrava que a grande maioria não queriam ser realojados junto com os outros, preferiam dispersar-se. É também uma questão de planeamento urbano, e aqui o Estado Novo seguia uma política sensata de contrariar a segregação. Por contraste, por exemplo, a CML da coligação PS/PCP fez realojamentos em massa, nomeadamente em Chelas, numa altura em que já sabia que esse modelo tinha falhado em toda a Europa e tinham já começado a demolição dos prédios de habitação social construídos nos anos 1960. É urgente repensar esta política.

20.6.05






Finalmente uma reprodução de jeito duma foto do Benoliel, do embarque em Santa Apolónia dos soldados portugueses enviados para a frente de combate na I Guerra Mundial, em 1917.



De caminho para a exposição da Hannah Starkey, todos os que também se interessam pela história de Lisboa não podem perder a visita à enorme maquete de Lisboa pré-1755 que está no museu. Achei particularmente interessante ver os percursos nos antigos arrabaldes campestres daquilo que hoje são ruas plenamente integradas na cidade, como a da Escola Politécnica ou o eixo São José-Santa Marta-S. Sebastião da Pedreira. Só consegui tirar esta foto das actuais zonas de Santos/Cais do Sodré e Bairro Alto/Bica/Santa Catarina, antes de o vigilante vir chatear com o 'não se pode tirar fotografias' (por que raio? Ainda se as tivessem à venda...). A seta da esquerda assinala a antiga igreja de Santa Catarina, desaparecida com o terramoto e que ficava mais ou menos onde hoje está a sede da ANF, e a da direita a igreja italiana, ainda existente, do Loreto, entre o Camões e o Chiado. A zona ribeirinha em baixo chamava-se naquele tempo Cata-que-Farás, ainda estou para saber porquê.

19.6.05










Uma bela exposição, a de Hannah Starkey no Museu da Cidade.



Da exposição do CCB da Lisboa Photo, retive esta coisa de David Claerbout (a sombra das árvores mexe enquanto o resto é uma imagem fixa)..



O resto pareceu-me no limite do irrisório, mesmo as fotos do Jeff Wall como esta.
A ideia da exposição é interessante, mas há algo que me irrita profundamente na Lisboa Photo e que nesta edição ainda é mais notório que na anterior. Que haja quem se dedique à filosofia da arte, que a mim não me diz nada, não tenho nada a ver com isso mas não me parece condição necessária para fruir o que quer que seja, antes pelo contrário, passo muito bem sem ela. Agora, que a informação disponibilizada ao público se limite à dita reflexão, sem qualquer informação sobre o percurso dos fotógrafos ou as técnicas usadas, parece-me indecente.Como acontece cada vez mais nas exposições, os textos que as acompanham são esotéricos, para não dizer mal escritos, e de uma sobranceria insuportável para um público que não é suposto ser exclusivamente constituído por artistas e licenciados em filosofia ou comunicação social. Assim não vale.

15.6.05



Ainda em maré demográfica, mas dois artigos: um do Economist, sobre as diferenças neste campo entre a Europa e os EUA, e um resumo (bastante legível) da situação num documento do Conselho da Europa. Parece que, pior ainda que do aqui neste lado da Europa, só no Leste, onde vários países têm taxas de crescimento negativas.

Os estrangeiros contribuíram para cerca de 9/10 do aumento do número de nascimentos registado em Portugal entre 1995 e 2001 (aqui está um artigo em PDF sobre o impacto dos imigrantes na demografia portuguesa).



Este anúncio é um pequeno achado, ao brincar com os dos ícones mais conhecidos do nacionalismo-colonialismo português. O engraçado é que quando vi achei que funcionava perfeitamente, mas depois, pensando melhor, é bastante ambíguo e non-sense -- supostamente, os portugueses exploraram o Oriente e não o Ocidente. O padrão dos descobrimentos está virado para sul, o que faz sentido, mas também é verdade que o caminho era o mais o Oriente do que África. Por outro lado, no poema da Mensagem depois glosado pelo Estado Novo, 'O Ocidente é o futuro do passado da Europa', e a verdade é que Portugal, de certo modo, re-uniu-se ao Ocidente nas últimas décadas, mas também é verdade que o resto da Europa fica a oriente para quem cá está. Finalmente, é também verdade que sempre vivemos de costas voltadas para o Oriente, apesar de toda a retórica colonialista, pelo que, em termos simbólicos, o anúncio faz todo o sentido.



Esta campanha parece-me bastante bem, ao recordar uma coisa óbvia de que muita gente anda esquecida. Só lhe mudava o slogan, para 'Portugal Imigrante. Portugal Triunfante'.









Mais fotos da Bica. Uma coisa interessante nisto é que a festa reflecte a mudança do bairro, e os novos habitantes também participam. A presença dos Djs não é uma intromissão -- aliás um deles aproveitou o espaço em frente à casa dele para pôr música e vender umas cervejas e umas saladas. As velhas colectividades ocupavam a parte de baixo do bairro, talvez em sintonia com a população mais 'tradicional' que aí vive. Outra coisa que reparei foi que grande parte das casas de rés-do-chão estavam transformadas em bares.





O Santo António na Bica foi bastante divertido. A subversão iniciada há uns anos pelo Wip alastrou, e este ano contei pelo menos cinco bailaricos com Djs (todos eles com techno bastante bom à excepção do da Bicaense que foi inexplicavelmente mau como de outras vezes), mais Djs dub-reggae-hip-hop no miradouro, os clássicos conjuntos de baile hiper-kitsch no largo de Santo Antoninho e na Bica Grande, um grupo que parecia ser de acordeonistas romenos e, para culminar, uma bateria de samba como nunca tinha visto. Ah, e vi uma coisa inédita -- um Dj (da Sonic) tão entusiasmado que continuou a tocar debaixo de chuva. Pensei que já tinham inventado pratos e mesas de mistura anfíbias, mas não, foram-nos cobrindo com pratos de plástico, guardanapos, mãos e sei lá mais o quê até que a desligaram e levaram-na a tempo, pelos vistos, porque meia hora depois lá estava outra vez. Deviam mudar o Sonar para aqui.
Serviu para compensar a decepção total que foi o Sonic Fresh no Op Art, na quinta-feira anterior. Não sei como foi das outras vezes. Sei que uma data de gente pagou um balúrdio para ficarmos todos espremidos, com um som péssimo, a música igual ao costume (significa muito boa) e meia hora para beber uma imperial. Um absurdo, quando nos dias normais é magnífico, calmo qb, arejado, o som óptimo e a música muito boa na mesma.

9.6.05



Daqui a pouco, às 22h, na Feira do Livro, há uma oportunidade para ver e ouvir os Wordsong. O até agora único CD deles parte dos poemas de Al Berto, modificando-os com hábil desrespeito para fazer um dos melhores discos portugueses dos últimos anos -- está mesmo a bater o recorde nacional de passagens no meu leitor. O espectáculo é ainda melhor. Quem nunca os viu bute.



Duas das fotografias de Joshua Benoliel que vêm no catálogo da Lisboa Photo (aqui aparecem com péssima qualidade, vou ver se consigo fazer melhor, nem se consegue ver o grafiti na foto de baixo que diz 'Viva a República'). Talvez não sejam das melhores dele, mas mesmo assim parece-me inegável que saem dos cânones do fotojornalismo, embora ambas tenham a ver com o contexto político da época (a de cima é de um comício republicano). Parece-me que, mesmo hoje em dia, se saíssem na primeira página dum qualquer jornal, continuariam a ser bastante invulgares e arrojadas. Por outro lado, fiquei sem perceber se foram de facto publicadas, e onde. Não me parecem muito o estilo da Ilustração Poruguesa, que era para onde o Benoliel trabalhava principalmente.

8.6.05






Ver um rio português em Espanha é como encontrar um velho conhecido -- 'Olha-me este por aqui', 'se fosse por aqui abaixo ia dar ao mar' -- em Lisboa, no Porto, em Caminha ou em Vila Real de Santo António. Já vi o Tajo a passar na espantosa ponte romana de Alcántara, à beira do palácio de Aranjuez ou das muralhas de Toledo, o Guadiana a deambular pela Mancha e Extremadura e o Miño, belíssimo, na Galiza. Este só o tenho bebido, volta e meia, sob a forma do magnífico Ribera del Duero. Já passei por ele mas foi há muitos anos e quase não me lembro, mas agora veio aqui ter comigo em versão electrónica, enviada de Soria por uma amável visitante. Já vai crescido o nosso Douro, aqui tão longe da foz.

Não sabia que Gérard Castello-Lopes o acha 'o único génio da fotografia portuguesa', nem que um especialista como Ian Jeffrey o considera 'um caso singular' na sua época. Também não sabia que, até hoje, não houve em Portugal uma única exposição monográfica sobre ele; que, apesar de ter sido famoso enquanto viveu, se sabe pouco sobre a sua vida; nem que, apesar de ser consensualmente um nome importantíssimo da fotografia portuguesa, o enorme espólio que deixou está disperso e por catalogar. Fiquei a saber tudo isto no artigo de Alexandre Pomar sobre a exposição 'Joshua Benoliel, 1873-1932, Repórter Fotográfico' (Expresso, 4-06-05).

A mim parecia-me que, pelo que fui vendo ao longo dos últimos anos, era, de longe, o fotógrafo português mais interessante da primeira metade do século XX, pelo menos. E, tal como muito gente, talvez, criei uma grande expectativa em relação a esta primeira exposição individual da obra de Benoliel. Mas ainda não foi desta. A exposição não devia ter este nome, mas sim algo como 'A I República e os últimos anos da monarquia no fotojornalismo português', e devia incluir mais fotógrafos além de Benoliel. O que lá está não é um olhar sobre o Benoliel fotógrafo, mas sobre fotografias publicadas na imprensa que foram tiradas por Benoliel, muitas delas absolutamente banais, enquanto muitas das melhores foram ingoradas, propositademente ao que parece. Como se o fotojornalismo fosse uma 'arte menor', um ramo das artes gráficas, por oposição à fotografia 'artística', essa sim uma das 'belas-artes'. É uma oposição que faz algum sentido -- o próprio Benoliel nunca quis expor nas exposições de 'arte fotográfica', mas participou (foi premiado) em exposições de artes gráficas, em Portugal e lá fora -- numa óptica, digamos, da arte entendida em função do modo como circula na economia. Mas, nesse caso, o facto de Cartier-Bresson, por exemplo, ter trabalhado como fotojornalista retira-o do âmbito da 'arte'? E Castello-Lopes ou Sena da Silva serão mais 'artistas' por nunca terem sido fotógrafos profissionais? Enfim, resta-nos esperar por outra exposição, talvez chamada 'Joshua Benoliel, fotógrafo' -- que era, de resto, como ele próprio se apresentava.
E acabo de verificar que quase não se encontram na net fotografias dele.

7.6.05







Eu pràqui a querer escrever sobre imensas coisas -- o mistério do Manuel Salgado no Expresso há duas semanas, o que se escreveu sobre o Benoliel e o DiCorcia neste fim de semana, mais umas novidades sobre Lisboa que estão para sair, design industrial, cadeiras portuguesas -- e nada, só tenho o I Get Around na cabeça.



Fica uma modesta homenagem àquele japonês que apareceu há dois anos na PhotoLisboa e há mais uns no CCB e de que agora não me lembro o nome. Nem percebi como é que consegui tirar uma foto desfocada, tenho que controlar melhor esta técnica.

1.6.05



Parece que tive uma espécie de premonição ao publicar na semana passada o post sobre o défice. Apareceram logo três economistas que esclareceram a minha perplexidade, depois seguiram-se umas dezenas de comentários que entretanto se prolongaram para outro blog, num diálogo quase surdo entre economistas (que nas entrelinhas foi bastante revelador). No sábado seguinte o Expresso faz a manchete do 'Cavaco pai do monstro'. Hoje leio o ex-provedor do leitor do Público, o veterano jornalista Joaquim Fidalgo, a escrever sobre o assunto duma maneira que dá a entender que ninguém sabia de nada até ao Cadilhe mencionar o que agora parece uma espécie de pecado original cavaquista. Ora, o crescimento descontrolado da dívida pública a partir do início dos anos 90 não era propriamente segredo de estado, como de resto se viu logo aqui com as tais intervenções dos meus amáveis comentadores economistas. E pelo menos um conhecidíssimo economista, Medina Carreira, tinha já vindo a falar insistentemente no problema, como se pode ver por exemplo por esta crónica de 2003. A notícia do Expresso tem um ar de tudo menos inocente, até pela maneira bombástica como alude na manchete a declarações do ex-ministro das Finanças do Cavaco que afinal não são assim tão bombásticas. Ou seja, os especialistas sabiam mas os media não quiseram saber até que se achou oportuno falar disso, sabe-se lá porquê.... Mais um triste exemplo de como os media andam a reboque da política.



Quando deixar de fumar vou sentir saudades dos meus Bic. Alguém sabe quem desenhou esta obra-prima?

Weblog Commenting by HaloScan.com eXTReMe Tracker

Google PageRank Checker Tool

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Get Firefox!

Who Links Here