21.7.05





Há anos que ouvia falar da Tapada da Ajuda sem perceber exactamente o que era, onde ficava e sobretudo como é que se entrava. Afinal é muito simples: entra-se pelo Instituto Superior de Agronomia, na calçada da Tapada, contorna-se o edifício do ISA e pronto.



Lá dentro é um pequeno mundo cheio de surpresas. A primeira é esta vista da ponte, uma das melhores para se perceber que está um pouco longe de ser plana.



Depois passa-se por este campo com ar de servir eventualmente para alguma coisa.



O Observatório Astronómico não parece lá em grande forma, e estes senhores italianos estavam lá a injectar um produto sofisticadíssimo nas fundações, pelo que me explicaram.



Ao lado do Pavilhão de Exposições, que muita gente conhece de noite ou já ouviu falar, há esta mini-aldeia portuguesa.



A Tapada está longe de estar desaproveitada. Há um pouco de tudo, aldeias, prediozinhos, chalets, laboratórios, uma escola ou duas, pessoas com ar de camponeses a viver lá dentro, dois restaurantes, dois campos de rugby,



um auditório, parques de merendas, pomares, vinhas e sei lá que mais,



com estradinhas destas pelo meio.



Uma pequena cidadezinha-aldeia-campus-jardim onde se podem passar tardes muito agradáveis e não vai quase ninguém, como um segredo bem guardado. Viver num país um bocado algo desorganizado tem os seus encantos, é preciso é procurar muito bem. O pior é que, apesar de ter escolas de agronomia, engenharia florestal e arquitectura paisagista, ninguém limpa o mato na Tapada e dá impressão de que se deitar um cigarro fora vai tudo para o galheiro.

E pronto. Agora vou-me pirar uns dias.




Esta tabela sobre o mercado hipotecário vem no relatório trimestral da UE sobre a economia da zona euro, que saiu há dias.
Era capaz de jurar já ter lido várias vezes que Portugal é o país da Europa onde a proporção de pessoas em casa própria é maior. De qualquer modo, parece ser uma convicção generalizada. É falso, a acreditar nos peritos da UE (podem clicar para ver melhor). O país da Europa em que há mais gente a residir em casa própria é a Espanha, seguida da Grécia, da Itália, da Irlanda e da Bélgica. É possível que os números portugueses estejam desactualizados, e são semelhantes aos que aparecem neste relatório de 2000 da Secretaria de Estado da Habitação.
Os números referentes aos prazos dos empréstimos dizem respeito ao prazo médio.
Como se pode ver, a tendência crescente para a aquisição de casa própria é um fenómeno generalizado, na Europa e parece que também nos EUA (a Reserva Federal equipara a 'bolha imobliária à 'bolha das novas tecnologias), e pensa-se que está associado, entre outros factores, à baixa das taxas de juro e ao aumento do rendimento disponível. Curiosamente, na zona euro, só há três países em que a proporção de famílias a viver em casa própria desceu desde 1990: a Finlândia, a Irlanda e... Portugal.




A subida dos preços da habitação é comum à Europa e aos EUA, como se pode ver aqui.

E pronto, já podem voltar a continuar a queixar-se da 'mentalidade portuguesa', esse suporífero mental usado para explicar tudo, desde a mania de estacionar em cima do passeio à mania de não comprar carros descapotáveis, passando pela mania de frequentar centros comerciais, de viajar pouco e de pegar fogo à floresta. Por falar em incêndios, o El Pais de terça dedicava 10 páginas ao enorme fogo que consumiu grande parte do Parque Natural do Alto Tejo por causa da inconsciência duns tipos que estavam a assar umas costeletas. A imprevidência é apontada como a principal causa humana dos incêndios, e o jornal exemplifica com vários casos anteriores em que isso aconteceu. Em Portugal, a acusação de imprevidência parece ser muito pouco para alimentar a mania da autofustigação -- é crime, fogo posto, está-se mesmo a ver, só pode, qual imprevidência qual o quê, os portugueses, entre muitos outros defeitos, odeiam árvores.

Por alguma razão misteriosa este blog não quer aceitar o código embed, não percebo o que se passa. Também estamos aqui numa situação surreal em que ninguém sabe qual o nosso ISP agora. De modo que a única maneira que consegui de pôr aqui uma das minhas músicas do coração foi assim. Isto é um blindfold test, uma brincadeira que se usa muito nos meios do jazz: quem é que toca isto?

18.7.05






Estava a ver que o 'caso Ballet Gulbenkian' morria sem que eu lesse uma notícia a esclarecer as implicações económicas da decisão, já que os motivos avançados pela administração da FCG são algo absurdos. Não se mais alguém falou sobre o assunto, mas o Expresso recolheu um depoimento da ex-directora artística do BG, a brasileira Iracity Cardoso. Com tanta gente cá que poderia falar sobre isso, pelos vistos foi preciso recorrer a uma pessoa que vive no Brasil para quebrar o silêncio, talvez um sintoma do enorme poder que a FCG ainda detém nos meios culturais e artísticos e do incómodo que os protagonistas do minúsculo meio da dança portuguesa sentirão ao falar do assunto em público.
Ficamos a saber que em 2004 a FCG gastou 2,9 milhões de euros com o Ballet, mais do dobro com a orquestra (5,9 milhões) e 'apenas' 2 milhões com o Serviço de Belas-Artes. O estado terá gasto, no mesmo ano, 1,8 milhões em apoios à dança, pelo que, se esse apoio se mantiver, e se a FCG apoiar a dança com uma verba equivalente à que gasta com o BG, como foi anunciado, a dança portuguesa terá, no total, mais do dobro do dinheiro. Três milhões é também do montante do patrocínio anual que a PT dava ao Teatro D. Maria II e que acaba de ser retirado.
Nenhum português ligado profissionalmente à dança, que eu tivesse dado por isso, exprimiu uma opinião que fosse além do choradinho habitual. Sucede que há dias tive aqui mesmo à mão uma pessoa ligada há muitos anos à chamada Nova Dança Portuguesa e que tem uma opinião que à partida se poderá considerar insuspeita, já que, em princípio, se FCG cumprir o prometido, os criadores independentes serão beneficiados com o fim do BG, e também porque o movimento da NDG foi, em grande medida, uma reacção contra o que BG representava -- uma companhia que não se soube renovar e acompanhar as novas tendências da dança.
Os principais argumentos que, nesta óptica, poderá ter levado à decisão de extinguir o BG são, por um lado, sair muito caro à FCG, para o que contribui, principalmente, o facto de os bailarinos passarem a ser, desde que lá entravam, um encargo vitalício para a FCG, que com o decorrer do tempo se foi agravando, por se reformarem muito cedo; e, por outro lado, o BG já não é o que era, em termos de reconhecimento internacional e de relevância no contexto da dança contemporânea, mesmo em termos nacionais. Ou seja, a FCG gastava uma fortuna numa coisa que era irrelevante no panorama artístico.
Os aspectos negativos são que o fim do BG representa o fim da única companhia de dança moderna portuguesa que proporcionava alguma estabilidade aos bailarinos e que tinha meios para fazer um trabalho a longo prazo -- e que deu os seus frutos, incontestáveis, pelo menos ao longo dos anos 1970-80. Isto tem várias implicações. Primeiro, deixa de haver bailarinos com o nível técnico que só o BG conseguia proporcionar. Segundo, a existência do BG era um estímulo para muitos jovens que estudavam dança na esperança de um dia lá conseguir entrar. Terceiro, o BG era muito popular e tinha sempre lotações esgotadas -- e, acrescento eu, tinha, por isso mesmo um papel importantíssimo na divulgação da dança, até pelas digressões anuais que fazia pelo país todo.



Tudo isto faz sentido, mas há mais duas ou três coisas, digo eu: a FCG há muito que deixou de ter um papel relevante em seja o que foi no panorama artístico português, pelo menos nas actividades directas. Nas artes plásticas, passou rapidamente a segundo ou terceiro plano nos anos 1990, assim que o CBB, Serralves e a Cultergest começaram a funcionar, para não falar das galerias. Nas outras áreas, extinguiu eventos fundamentais que não tiveram sucessores: os Encontros Acarte e os Encontros de Música Antiga e de Música Contemporânea. Há ainda outro facto que não tem sido recordado: no princípio dos anos 1990, quando se fez o CCB, a FCG tentou negociar com o estado a passagem para o CCB da Orquestra e do BG, que ficariam lá como companhias residentes. Tudo isto, juntamente com a intenção a FCG, declarada publicamente desde há anos, de abandonar as actividades directas e dedicar-se sobretudo ao financiamento de actividades externas, leva a crer que a 'decadência' da FCG foi premeditada, e que até o eventual menor dinamismo do BG poderá ter sido fruto do desinvestimento. E isso implica que a Orquestra poderá ter também os dias contados.



O que eu me pergunto é, se nesse caso, não valeria mais acabar primeiro com a Orquestra, que custa muito mais e nunca teve, aparentemente, uma relevância no campo da música equivalente à que o BG tinha na dança. Esse dinheiro, bem administrado, podia fazer muito -- em primeiro lugar no ensino, mas também no apoio a pequenos agrupamentos e orquestras. A música erudita é o parente pobre das já de si pobres artes nacionais, e não conheço melhor símbolo disto que o salão de audições do Conservatório Nacional, que está há anos e anos no estado que se pode ver na foto de cima. Só para falar duma área que me diz mais, o movimento de renovação da música barroca e medieval, que aconteceu por toda a Europa a partir dos anos 1970, nunca chegou cá -- e ainda por cima há público para ela, como se podia ver nos Encontros de Música Antiga. Acresce que, se houve uma época em que a música feita em Portugal teve algum relevo, foi nos séculos XVI e XVII, e parece haver mais entusiasmo por ela (e músicos a tocá-la, e dinheiro para apoiá-los) lá fora do que cá.

17.7.05



Eu a tentar imaginar como foi feita a notícia de capa do Expresso intitulada "Polícia desdiz 'arrastão'", na semana passada:

(Redacção do Expresso, noite de fecho da edição)

Editor: Oh pá, parece que a Diana Andringa pôs online uma entrevista em que o comandante da PSP de Lisboa diz que foi pressionado pelos media para dizer que tinha havido um arrastão em Carcavelos.
Jornalista: A Diana Henriques? Quem é?
Editor: Andringa, porra, aquela gaja do Bloco de Esquerda. Vai a este endereço, vê o que é que o gajo diz lá e telefona-lhe a perguntar qual é a posição dele perante isto.
Jornalista: OK.

(Jornalista vai ao site, ouve os 5 minutos de gravação, confirma que estão lá as palavras 'pressionado' e 'comunicação social' e liga para o telemóvel do comandante da PSP de Lisboa)

Jornalista: Boa noite, sr. comandante. Aquele golo foi fantástico, não? Olhe, sabe que o Bloco de Esquerda pôs uma gravação duma entrevista sua online, feita pela Diana Andringa, em que o sr. diz que foi pressionado pela comunicação social para...
Oliveira Pereira: O quê? Puseram a entrevista online? Mas a Diana Andringa disse-me que era para um trabalho que andava a fazer, que provavelmente não seria publicado...
Jornalista: Pois é, sr. comandante, mas afinal eles puseram a entrevista online.
Oliveira Pereira: Eles quem?
Jornalista: O Bloco de Esquerda, sr. comandante.
Oliveira Pereira: O Bloco? Mas porquê?
Jornalista: Ora, sr. comandante, como sabe a Diana Andringa é do Bloco, é candidata às autárquicas, anda a publicitar esta história para angariar votos... Estão a aproveitar-se politicamente da coisa.
Oliveira Pereira: Ah sim?! Acho isso inadmissível.
Jornalista: Muito obrigado sr. comandante. Gosto em ouvi-lo. Boa noite.

Jornalista: Olha, o Oliveira Pereira está furioso com a coisa e tal...
Editor: Boa. Vou dizer ao arquitecto, entretanto escreve 3 mil caracteres sobre isso.

Editor: Sr. arquitecto, sabe que o Bloco de Esquerda pôs online num site do Bloco uma entrevista com o comandante da PSP, sem o conhecimento dele, em que ele diz que foi pressionado pelos media a dizer que tinha havido um arrastão...
Arquitecto: A sério?
Isso é grave.
Que não tenha havido arrastão, é uma coisa.
Agora, que a Andringa ponha uma entrevista no site do Bloco sem ter pedido autorização ao senhor comandante, é outra.
Arranje-me aí espaço na capa para pôr isso.
E peça aí a alguém para escrever uma caixa a elogiar o senhor para a página 3 da próxima semana, coitado do tipo, até parece um homem sério e bem-intencionado, já deve estar a ficar deprimido com esta história toda.

Alguém me pode explicar como é que se põe música aqui?

14.7.05






Logo às 23h, na ZDB, o Quinteto Tati, de JP Simões, o único português escritor de canções que tem idade para ser filho do Sérgio Godinho.




Esquemas de exercício físico para boxeiros (como dizia o Belarmino), desenhados pelo treinador dum clube que fica no Largo das Três Marias.

A forma como o relatório anual de 2000 da Fundação Gulbenkian, o único que está disponível online, não permite perceber quais são os custos da orquestra e do Ballet. Alguns dados interessantes: a despesa total da FCG foi nesse ano cerca de 100 milhões de euros. Desta verba, 60% eram custos estruturais (46% para custos com pessoal), 23% foram para subsídios e bolsas de estudo, e 17% para iniciativas próprias.
O dinheiro da FCG vem essencialmente dos dividendos da subsidiária Partex Oil and Gas, que nesse ano foram cerca de 70 milhões, e da carteira de investimentos, que nesse ano teve um retorno negativo de quase 100 milhões de euros, contra quase 400 milhões positivos no ano anterior (efeitos da 'bolha' das novas tecnologias).



Adorava saber duas ou três coisas: quanto é que o Ballet Gulbenkian custa(va) à fundação, por ano? Que proporção é que esse dinheiro representa(va) na parte do orçamento da FCG dedicada às artes? Por que é que ninguém falou nisso? Por que é que ninguém perguntou?

13.7.05




Acho sempre que nunca poderia viver noutra época senão esta. Uma das inúmeras vantagens é haver cada vez mais mulheres giras a trabalharem nas mais diversas coisas, e um gajo pode dar-se ao luxo de dizer que gosta de mulheres de uniforme, como aqui a nova carteira do bairro.

"Deixai, pois, a China dormir, porque quando ela despertar o mundo inteiro tremerá". Napoleão Bonaparte terá dito isto, segundo a lenda. Em todo o caso, parece que a China despertou finalmente, depois de dois séculos de sono, e estamos mesmo todos a tremer. São 1,3 mil milhões de pessoas, num país que é o maior produtor mundial de aço, o quarto maior produtor de automóveis, fabrica mais de um quarto da produção mundial de têxteis, metade da de máquinas fotográficas, quase um terço das televisões e um quarto das máquinas de lavar roupa. O melhor é habituarmo-nos à ideia, por exemplo lendo este magnífico número especial da melhor revista que eu conheço, com o essencial sobre a cultura e a história da China, desde os primórdios aos nossos dias, passando pela fundação do império, no século III, mil e muitos anos de prosperidade, a decadência na época das guerras do ópio e a tragédia maoísta.

11.7.05





Sou capaz de pretextos que alguns acharão invulgares para apanhar um comboio. Por exemplo, apetecer-me ler o jornal (permanecemos imóveis e sentados como se estivéssemos em casa ou no café, mas com a vantagem de que quando nos levantamos estamos noutro sítio qualquer); nunca ter andado nesse comboio, ou ter passado muito tempo da última vez; ou ter a secreta esperança de deparar com algo insólito e/ou agradável. Desta foi a vez da Linha do Oeste, que já não percorria há umas décadas. Dantes os comboios saíam do Rossio, agora é deste sítio chamado Mira-Sintra (ex-Meleças).



O comboio condiz com o ambiente neo-rural, semi-suburbano e algo industrial. Há muito mais gente a cumprimentar-se do que é normal nos comboios suburbanos.
Como as estações estão quase todas fechadas, os bilhetes são vendidos dentro do comboio, o que é uma vantagem para que não sabe bem onde quer ir. Cheio de calor, compro um bilhete para Mafra (a estação mais próxima) e sou rapidamente demovido por uns simpáticos passageiros que me explicam que a estação de Mafra só tem o nome, fica a 13 km e não há transportes para lá, convencem-me a ir antes para a Malveira, agora já têm mais motivo de conversa, sobre as pessoas que saem por engano numa estação chamada Mafra.



Já sabia que a Malveira é uma espécie de Queluz a meio dos campos saloios, mas desconhecia esta nova atracção, uma manifestação de fervor clubístico tão grandiosa que se veria nas fotos de satélite.



Infelizmente são anteriores à vitória do Benfica, seão ver-se-ia nitidamente neste monte aqui em baixo à esquerda.



Posto isto, resolvo aproveitar o comboio daí a meia hora. Já conheço a Filiteira, não quero arriscar a Zibreira e alguém me falou de Dois Portos, já não me lembro o quê mas de qualquer modo o nome é muito interessante.



A estação de Dois Portos é o sítio perfeito para não se fazer absolutamente nada. Tem a adega cooperativa à beira da linha, um café, um multibanco e uma farmácia



e uma junta de freguesia com estas armas na fachada, as mais pão-pão-queijo-queijo que alguma vez vi, e as únicas que lembro de ter visto com um objecto posterior ao século XVIII.



No café há imensos cartazes a anunciar festarolas e festivais de acordeão. Hei-de lá voltar.

O Expresso fez a manchete "Polícia desdiz arrastão", sem remeter para nenhum desenvolvimento no interior e com uma pequena notícia que não traz novidade nenhuma -- o comandante distrital da PSP já tinha tinha tentado desmentir que tivesse havido algum arrastão no dia 17 de Junho, como se pode ver por esta notícia do Público e este despacho da Lusa (que o próprio Expresso online usou do modo que pode ver aqui). Segundo a notícia que saiu agora no Expresso, o superintendente Oliveira Pereira fez um depoimento a Diana Andringa, que esta colocou num site do BE sem o seu conhecimento, onde ele diz que foi pressionado para dizer que tinha havido um arrastão -- o que é, no mínimo, uma interpretação abusiva do que ele de facto disse, como se pode verificar pela gravação. O comandante da PSP de Lisboa terá ainda dito ao Expresso que considera "inqualificável o aproveitamento político" das suas declarações -- por, presume-se, excertos da entrevista terem sido postos online no tal site do BE. E nem uma palavra sobre o inqualificável aproveitamento jornalístico e político que o Expresso, outros media e os partidos fizeram do assunto, nem sequer sobre as filhas do Pedro d'Anunciação e do Nicolau Santos.
O Expresso podia ao menos ter dito que a dita entrevista estava no site Era uma vez um arrastão, e tinham-me poupado, e a outras pessoas, o trabalho de andar no site do BE à procura do que não estava lá. Registo que, para o Expresso, um site que é da Diana Andringa é um site do BE. Pela mesma ordem de ideias, um site ligado a qualquer pessoa que seja militante ou simpatizante ou candidata dum partido é um site desse partido. Ficamos avisados.
Não faço ideia porque é que a Diana Andringa colocou online apenas excertos da entrevista, e sem os transcrever -- se é que foi ela. Não me parece nada boa ideia e só contribui para a confusão.
Da qualquer modo, a acreditar no Expresso, o comandante da PSP de Lisboa diz que a entrevista é autêntica. Então aqui vai a transcrição, na íntegra, feita por mim, dos excertos que estão online. Só omiti as repetições e hesitações do comandante da PSP, como poderão verificar pela gravação. DA = Diana Andringa, OP = Oliveira Pereira, os sublinhados são meus. Já agora esclareço que não tenho, tive ou terei alguma coisa a ver com o BE (a não ser que a ala da 'direita' social-democrata expulse as restantes, o que parece muito improvável), que não conheço a Diana Andringa de lado nenhum e que não tenciono escrever mais sobre este assunto.


OP: O que suponho que terá acontecido terá sido uma questão de desentendimento entre casais, por um lado, e por outro uma tentativa de furto a um cidadão. Isto numa praia em que (...) estavam cerca de 15 mil pessoas (...). Isso criou uma sensação de alteração da ordem pública grave (...), as pessoas começaram a fugir (...) e houve um grupo de cerca de 30 pessoas que, aproveitando-se da circunstância da situação da alteração da tal ordem pública, tentaram furtar e roubar, nalguns casos, porque utilizaram alguma violência, algumas outras pessoas.
(...)
Foi efectivamente infeliz, eu assumo essa responsabilidade. A intenção desse comunicado (...) era dizer que estava um grupo de 400 pessoas e que desse grupo alguns teriam praticado o tal arrastão. A base da informação que saiu nesse comunicado foi (...) as pessoas que assistiram, as testemunhas oculares (...). O polícia que viu a alteração da ordem pública não sabia consubstanciar exactamente o que teria acontecido (...). Foi feito com base em pessoas que entendíamos como credíveis, que eram responsáveis, alguns deles meios de comunicação social, que me telefonaram e que supostamente teriam assistido também ao incidente, e o Comando Metropolitano foi pressionado para (...) "mas então vocês não têm opinião, vocês não viram nada, vocês não?", e nós, naturalmente, à custa dos testemunhos, não só do pouco que a polícia viu (...) mas até dos testemunhos doutros jornalistas que entretanto considerámos como fonte fidedigna, fizemos esse comunicado.
Porque esta informação, que outro dia tive oportunidade de transmitir na SIC, dos tais 20, ou 30, porque não sabemos exactamente quantos são, de que o arrastão, por si, não houve arrastão nenhum, no sentido em que um grupo organizado fez um arrastão ao longo da praia (...). Tudo isso eu, passado cerca de uma hora, eu já tinha conhecimento disto, e não consegui (e este é um facto importante) (...). Eu quis transmitir (...) quis esclarecer melhor o comunicado e nunca o consegui. Isto digo e escrevo também em comunicado caso seja necessário.
(...)
Tive a preocupação, porque o cenário estava montado de tal maneira (...)
Isto em termos de formação, até dos próprios jornalistas, ou da própria polícia, isto vai servir de referência, porque eu aprendi alguma coisa. Aprendi que para a próxima, independentemente das fontes que vierem que me pareçam credíveis, independentemente do forcing, do pressing a que fui sujeito, e que não faz ideia, eu já actuarei duma maneira diferente.
(...)
Esse filme corresponde a uma fase já subsequente, já à fase final, depois da intervenção da polícia, é a fase posterior em que efectivamente quando a polícia entra, as pessoas começam a fugir.
DA: E portanto muitas daquelas pessoas que aparecem como, digamos, ladrões em fuga com o seu roubo...
OP: ?Não são, não são, não são, definitivamente.
(...)
DA: Dois dias depois do arrastão começaram a aparecer essas notícias, iam em crescendo e apareceu o Diário de Notícias a falar de "470% de aumento da criminalidade de gang em Portugal". O que é que quer dizer "criminalidade de gang"?
OP: Considera-se a criminalidade grupal, ou de gang, como eles lhe chamaram, aquela que é (...) executada por mais de três indivíduos. Normalmente esses estudos nunca se fazem nesse sentido, não é, não se vai agora buscar os últimos 10 anos para fazer o comparativo...
DA: Aqui foram os sete...
OP: Foram sete anos?
DA: Sete anos.
OP: Pronto. Isso é uma maneira de fazer uma análise da criminalidade que não é a mais correcta, naturalmente, porque as circunstâncias alteram-se, porque há uma série de factores que alteram.
(...)
Pela primeira vez nos últimos seis anos a criminalidade violenta, que é aquela que tem mais efeito no sentimento de segurança do cidadão, decresceu... 3 vírgula... quase quatro por cento, o que na minha opinião é extraordinariamente importante e é muito valorizativo. Outro aspecto importante foi a criminalidade geral, também baixou cerca de 12,6%, o que também é significativo.
(...)
Tenho dito a múltiplos jornalistas, isto exactamente, que a criminalidade baixou, é um motivo de transmitir alguma tranquilidade aos cidadãos, que é fundamental, criar-lhes este sentimento de segurança, e de acreditarem nalguma coisa, nomeadamente que há segurança no país, e não tenho conseguido.


Conclusões: isto dá um óptimo estudo de caso sobre o modo de produção das notícias, e aposto que já há quem esteja a pensar em teses de mestrado; provavelmente nunca vamos saber ao certo o que aconteceu naquela tarde em Carcavelos; e a PSP ainda não sabe lidar com os media, ao contrário dos partidos, que se tornaram mestres na manipulação nos últimos tempos.

7.7.05





O governo acaba de anunciar que afinal a ampliação do terminal de contentores de Alcântara sempre vai para a frente. Isto tem implicações bastante graves: primeiro, significa o encerramento definitivo ao público de toda a zona ribeirinha entre Santos e Alcântara; segundo, implica a construção duma via férrea que irá ligar o terminal a Alcântara Terra; terceiro, vai comprometer a recuperação urbanística da zona de Alcântara. Não se sabe muito bem em que consiste o plano de ampliação do terminal, mas há ainda mais possilidades maléficas. Não estou a ver como se possa ampliar o terminal de contentores sem ocupar a zona da doca de recreio de Alcântara. Por outro lado, a anunciada construção duma nova gare de passageiros na zona de Santa Apolónia permite antever a desactivação definitiva das antigas gares, obras emblemáticas da arquitectura modernista portuguesa e que contam com os raramente vistos painéis do Almada Negreiros. Demoli-las será difícil, mas pode acontecer é que fiquem definitivamente inacessíveis, rodeadas de um mar de contentores.

O governo anterior, numa das suas poucas boas iniciativas, já tinha chegado a acordo com a concessionária do terminal para deslocá-lo para Santa Apolónia, onde já existem todas as infraestruturas necessárias, nomeadamente a ligação ferroviária. Isso iria permitir libertar toda a zona acima referida (já que praticamente a única operação portuária que lá se faz, para além dos cruzeiros e da navegação de recreio, é a descarga de contentores) e ainda a reabilitação e reabertura ao público das antigas gares marítimas da Rocha e Alcântara.

Fiz as contas por alto e concluí que este assunto é cerca de 50 vezes mais importante do que o túnel do Marquês, 1000 vezes mais que o convento dos Inglesinhos e 10.000 vezes mais que a casa Garrett, com a agravante de quase ninguém falar nele. Infelizmente, este tipo de operações não costumam despertar a atenção, quer dos media, quer dos movimentos de cidadãos, muito sensíveis a tudo o que diga respeito ao património edificado, às cagadelas dos cães, aos eucaliptos de Monsanto e a tudo o que o Ribeiro Telles diga, e muito pouco sensíveis a todas as outras questões que dizem respeito à qualidade de vida dos humanos, o que é uma pena.

Há outro ponto bastante irritante. Durante décadas e décadas falou-se da ligação entre a linha de Cascais a Campolide e daí à linha de cintura, que teria vantagens enormes, ao permitir desviar um importantíssimo fluxo de passageiros para os seus locais de trabalho na zona das Avenidas Novas e assim descongestionar a Baixa. E nunca se fez por alegadamente ser muito caro fazer o atravessamento da marginal e a duplicação da ligação ferroviária entre Alcântara Terra e Campolide.
O que vemos agora? Primeiro, que a ligação Avenidas Novas se vai fazer por metro, que como se sabe é uma infraestrutura caríssima e ainda por cima obriga ao transbordo dos passageiros da linha de Cascais. E segundo, a ligação desta linha à restante rede ferroviária sempre se vai fazer, mas para o tráfego de mercadorias.
Tudo isto é absurdo mas ainda se vai a tempo de evitar.

6.7.05



Vi-o no balcão da tabacaria onde compro o jornal todos os dias, folheei-o e não resisti. A Vida Passo a Passo é um livrinho ilustrado de divulgação científica para crianças (recomendado a partir dos 9 anos) que transmite o essencial sobre a biologia evolucionista, desde as origens da vida à clonagem, duma forma divertida e rigorosa. Os autores são Jean-Benoit Durand (texto) e Robin Gindre (ilustrações), ganhou um prémio em França e é baratinho (6 euros). A não perder, para quem tem ou não tem crianças.

É verdade que os estatutos da Fundação Calouste Gulbenkian são suficientemente vagos para que, na prática, os seus administradores façam o que lhes der na real gana. Mas também é verdade que, desde a morte de José e Madalena Azeredo Perdigão, as sucessivas administrações parecem empenhadas em destruir a obra notável que o carismático presidente e sua mulher construíram, ao longo de décadas, sem que se perceba os motivos. Depois das tentativas de entregar a Orquestra ao estado, nos anos 1990, sucederam-se a extinção das bibliotecas itinerantes, o apagamento cada vez maior das actividades do Acarte, o definhar dos Encontros de Música Contemporânea, o fim dos magníficos Encontros de Música Antiga, os concertos da orquestra numa lógica cada vez mais elitista, e agora a extinção do Ballet Gulbenkian. Se algumas destas actividades tivesse corrido mal, ou se a FGC estivesse com dificuldades financeiras, compreendia-se. Mas não. Todas elas tiveram um papel importantíssimo e Portugal seria um país muito mais pobre sem elas. E a situação financeira da FCG só tem vindo a melhorar. O que a administração da Gulbenkian está a fazer pode ser legal mas é imoral, é um ultraje à memória dos Azeredo Perdigão, um desperdício incompreensível duma experiência de décadas e um insulto ao povo português. Eles não têm o direito moral de fazê-lo.

5.7.05





(capa da revista Visão, de há 10 anos atrás)

A ler, o excelente artigo do jornalista Nuno Guerreiro sobre 'Os media e o "crime"', aqui. Para perceber uma série de coisas que ele sabe explicar melhor que eu.




O vídeo 'Era uma vez um arrastão' está disponível aqui.

O "caso arrastão" é, mais do que tudo, a prova do estado de miséria da nossa comunicação social. Quando já nem se consegue dizer com segurança quantas pessoas participaram num "arrastão" ou se sequer houve arrastão, estamos mesmo mal. Em segundo lugar, que a criminalidade e as representações sociais da mesma (e das suas raízes, causas, etc) são dois problemas que vão juntos, precisando ambos de ser atacados com igual determinação.
Qualquer crime contra a segurança das pessoas é horrível e deve ser reprimido; qualquer situação de marginalização, pobreza e exploração de mão-de-obra imigrante é horrível e deve ser solucionada; qualquer demonstração de racismo e xenofobia é horrível e dever atacada. Não consigo hierarquizar os três problemas (nem como vítima que já fui do primeiro) enquanto prioridades na construção duma sociedade mais decente.


Gostava de conseguir ser tão conciso como o Miguel Vale de Almeida neste post.

"Os gangs não têm composições fixas. Há indivíduos que hoje estão num grupo e no dia seguinte já acompanham outros. Se for preciso, três dias depois já andam com outros do primeiro grupo, outros do segundo e até outros que nunca foram referenciados. Quando se fala de grupos de jovens negros, nunca é seguro dizer-se que pertencem a um determinado gang, porque na verdade eles dividem-se por vários", afirma um responsável policial.

In Publico.pt, 5-07-05, ainda propósito do "arrastão".

Acho esta citação extraordinária, pelo modo como revela a incapacidade da PSP em compreender o fenómeno da delinquência juvenil e pela facilidade com que forçam a adaptação à realidade portuguesa do que vêem em séries de TV americanas -- na melhor das hipóteses, pois espero bem que não aprendam isto nas escolas da polícia. Eu não percebo grande coisa de delinquência urbana, mas parece-me que um gang difere dum simples grupo de delinquentes por: 1) ser mais estruturado, com membros mais ou menos fixos; 2) ter uma liderança mais ou menos clara; 2) ser de pertença exclusiva (não se pode ser de dois gangs ao mesmo tempo). Ora, se "os gangs não têm composições fixas" e os seus supostos membros hoje estão num e amanhã noutro, então, simplesmente, não são gangs, mas grupos de jovens delinquentes..

4.7.05



Está esclarecido. Foi mesmo a Lusa que deu, em primeira mão, a "notícia" do "arrastão", citando fontes da PSP, conforme se pode verificar por este despacho da agência italiana Ansa emitido às 19.01 e guardado na cache do Google.

LISBOA,10 (ANSA) - Centenas de jovens organizados em grupos invadiram hoje à tarde uma praia nos arredores de Lisboa, onde agrediram os banhistas e roubaram seus pertences, informou a agência de notícias portuguesa Lusa, citando fontes policiais. Cerca de 500 jovens, entre 12 e 20 anos, invadiram a praia de Carcavelos, a 15 quilômetros da capital, e agrediram brutalmente os que resistiram. A praia estava lotada já que hoje foi feriado em Portugal e o clima é propício para aproveitar o mar. A polícia atirou para o alto para dispersar os ladrões e retomar o controle da situação. Dois banhistas foram feridos gravemente e levados ao hospital, e vários jovens foram presos. Segundo a polícia, a maioria é da periferia. (ANSA)

10/06/2005 19:01


Entretanto, verifico que as opiniões sobre este assunto (desde os colunistas dos jornais até aos deputados, passando pelos bloguistas) parecem sobretudo determinadas pela maior ou menor antipatia que as pessoas têm pelo BE. Quanto a mim, o BE não se tem revelado menos demagógico que os outros partidos. Agora, acusar a Ana Drago de estar a delirar quando cita declarações do comandante distrital da PSP veiculadas pela Lusa é o delírio total. Pelos vistos, a Lusa e a PSP merecem toda a credibilidade quando falam dum acontecimento a quente, em cima da hora e servindo as expectativas, e perdem-na totalmente a partir do momento em que, dias depois, vêm corrigir a versão inicial, porque se o BE cita esta última versão é porque ela é obviamente falsa. Pensava eu, talvez ingenuamente, que o que está aqui em causa não tinha nada a ver com esquerda e direita, mas sim com sentido crítico.
A coisa começa tornar-se montypythoniana quando Nicolau Santos, do Expresso, acusa a Ana Drago de "falta de aderência à realidade", baseando-se no testemunho da filha dele, umas semanas depois de Pedro d'Anunciação, no mesmo jornal, ter defendido uma teoria idêntica à de Ana Drago, baseada também no testemunho da própria filha. Proponho portanto um debate televisivo entre as meninas Santos e d'Anunciação.

Estou com a sensação de que há quem fale do artigo d'A Capital sobre o 'arrastão' sem o ter lido, e imaginam o seu conteúdo por causa dos partidos com que o jornal tem sido identificado ultimamente. O artigo está aqui na íntegra (pdf), numa página do ACIME onde se pode encontrar também outras notícias e artigos sobre o caso. Leiam e julguem por vocês.

Só mais uma coisa. A julgar por alguns comentários que tenho ouvido e outros que tenho lido aqui, muita gente faz uma leitura da crítica ao modo como o caso foi tratado nos media como se fosse um 'branqueamento' duma questão que é real e uma desculpabilização da delinquência em nome do anti-racismo. Pensava que tinha deixado claro o que penso sobre o assunto, mas parece que não. A mim parece-me que essa atitude existe de facto, mas eu não tenho nada a ver com isso.
Houve alguém no debate, já não me lembro quem, que chamou a atenção para o facto de, em nenhuma das notícias terroristas que passaram na TV, a palavra 'negro' ou 'negros' nunca foi mencionada. Acabo de reparar que o mesmo acontece nesta notícia do DN. Apesar disso, a mensagem que passou para a opinião pública foi a de que um bando de centenas de negros praticou assaltos em massa numa praia. E depois, muita gente faz uma associação entre ser negro e ser estrangeiro, apesar de, pelo menos neste caso, ela não existir. Não tenho dados concretos sobre o assunto, mas parece-me verosímil que pelo menos a maioria destas pessoas sejam portugueses, filhos de pais cabo-verdianos, que em muitos casos terão também a nacionalidade portuguesa por terem emigrado antes da inpendência do seu país. Outro dado que raramente é referido é a juventude das pessoas envolvidas. Ou seja, este é um problema de pessoas que são jovens e são negras.
Que a criminalidade e a delinquência, em meio urbano, estão associadas à pobreza, creio ser um lugar comum de que ninguém duvida. Em Lisboa, por exemplo, os bairros mais pobres sempre foram associados à criminalidade. Se quebrar o círculo vicioso da pobreza é sempre complicado, ainda o é mais quando está associado ao estigma de ser negro.
O racismo é sempre uma questão hierárquica. Nenhum português louro e de olhos azuis se sentirá ofendido se lhe disserem que parece um alemão ou um inglês, porque essas características e nacionalizades são associadas a riqueza. De resto, por alguma razão é muito comum as pessoas que têm apelidos ingleses ou alemães, ou franceses, adoptarem-nos como nomes profissionais. Pelo contrário, ter a pele escura é associado a uma origem no continente mais pobre do mundo. Ser um negro implica ouvir bocas na rua, ser maltratado nos restaurantes e ter dificuldade em apanhar um táxi ou em alugar uma casa. Por isso, para um negro pobre e pouco escolarizado, filho de pais analfabetos ou quase, ultrapassar o círculo vicioso da pobreza é ainda mais difícil. E é por isso que a cobertura mediática dos acontecimentos de Carcavelos é potencialmente muito perigosa, porque ao empolar os acontecimentos vai reforçar o estigma.
O problema da marginalização dos jovens negros portugueses parece-me bem real, e terá tendência a agravar-se. Não tenho soluções para o assunto. Mas parece-me que os realojamentos em massa com base em critérios étnicos não são boa ideia. Desculpabilizar a violência em nome do racismo de que as pessoas são vítimas é inaceitável. E receio que as tentativas de reforçar a auto-estima destes jovens fomentando a adesão a uma qualquer identidade étnica, por mais bem intencionadas que sejam, acabem por ser contraproducentes.
Mas ser conivente com a cobertura noticiosa dos acontecimentos de Carcavelos em nome do não alinhamento com alguma demagogia dos movimentos anti-racistas que possa haver é ser conivente com um crime.

Um esclarecimento: as fotos do 10 de Junho em Carcavelos parecem ter vindo duma página associada ao blog Megafone, para onde terão sido enviadas por "amigos". Para esse blog de claques de futebol, elas são uma prova que confirma a versão transmitida pelas televisões, mesmo depois do comunicado da PSP segundo o qual "Muitos jovens que apareceram em imagens televisivas e fotográficas a correr na praia de Carcavelos, naquele dia, não eram assaltantes, mas tão só jovens que fugiam com os seus próprios haveres".
Para mim, as fotos dispensam comentários -- numa delas vê-se umas pessoas a correr, sem se perceber porquê, e nas outras vêem-se polícias na praia a meio dos banhistas, e é tudo.
Entretanto, aqui está um despacho da Lusa sobre o debate da Videoteca, e aqui outro, datado de dia 17, no qual é referida a citação acima.
E descobri também esta notícia da Sic datada de 15 de Junho, e já agora transcrevo.

Arrastão em Carcavelos
Polícia garante que não foi organizado


O arrastão na praia de Carcavelos ganhou uma dimensão tal que está a ser aproveitado para gerar o pânico com ameaças de vandalismo em algumas zonas do país. O alerta é da polícia, que garante que nada foi organizado.
A ideia de que havia de um grupo organizado de 500 vândalos para varrer a praia de Carcavelos não corresponde à verdade. Segundo a PSP, reuniram-se, de facto, cinco centenas de pessoas, mas para protegerem um grupo de apenas dezenas de indivíduos responsáveis pelos primeiros distúrbios e assaltos na praia. Quem esteve no local confirma. Os 500 indivíduos são frequentadores habituais das praias da linha e conhecem-se e defendem-se uns aos outros. Naquele dia, estavam todos em Carcavelos. De qualquer forma, o tão falado arrastão, que foi notícia em Portugal e no estrangeiro, está longe de ser comparável à realidade brasileira.



Martin Rev, dos Suicide, uma lenda dos anos 70, sexta-feira passada na ZDB.



Não sei se ainda existe aquele letreiro no pinhal do Meco, a dizer 'Isto aqui tem dono'. Agora, este, além de invulgar, é enigmático.



A parte central da praia mais perigosa do país tinha este aspecto desolador, ontem, às 17.30.



A parte norte estava mais animada, mas não tanto como no passado dia 10 de Junho.



Se bem que, olhando mais atentamente, se via um grupo a querer armar confusão.



E mesmo assaltos à mão desarmada.

De resto, para minha grande decepção, não havia polícias plantados a meio do areal. Sempre podia pedir-lhes para me guardarem a máquina enquanto ia dar um mergulho.

1.7.05














Permaneci com uma dúvida inquietante depois da sessão da Videoteca, ontem, sobre o que se passou na praia de Carcavelos no dia 10 de Junho: de onde partiu, afinal, a falsa notícia do "arrastão"? Da PSP? Da TVI? Da SIC-Notícias?

O vídeo, de Diana Andringa (que promete estar em breve disponível aqui), mostrava as imagens dos noticiários que eu não tinha visto (cada um mais aterrorizante que o outro, chegando ao ponto de falar em 'terror na praia' e em assaltos à mão armada com pistolas e facas), excertos de notícias dos jornais e depoimentos do colunista do Expresso Pedro d'Anunciação e da filha dele (que estava lá e assistiu a tudo), do Miguel Vale de Almeida e de uma dirigente da Casa do Brasil em Lisboa que falou do último arrastão no Rio, em 1992..
Participaram na mesa-redonda os sociólogos José Rebelo e Rui Pena Pires, e os jornalistas Miguel Gaspar, do DN, e Nuno Guedes, d'A Capital.
José Rebelo fez uma intervenção muito interessante mas num tom académico algo deslocado ali, com muitas citações de Bourdieu sobre o mecanismo mimético dos media -- todos vão sucessivamente noticiando o que os outros noticiaram, cada um dramatizando um pouco mais a notícia anterior (efeito bola de neve parece-me mais sugestivo) --, como este tipo de notícias acontecem porque vêm de encontro às expectativas das pessoas, e citou um caso semelhante de falso acontecimento com repecussões enormes ocorrido há algum tempo em França. Miguel Gaspar pôs a tónica na fraca atenção e/ou deficiente formação dos jornalistas em relação à 'crítica das fontes' (os jornalistas tendem a acreditar piamente no que as fontes dizem). Rui Pena Pires manifestou a sua indignação perante a forma como todos o media emitiram uma notícia manifestamente falsa e apelou a uma retratação pública dos media e da PSP. Finalmente, o jovem Nuno Guedes contou como fez a notícia que fez a manchete d'A Capital. Muito simples: ele estava convencido de tinha havido uma acção combinada de gangs da linha de Sintra; foi a uma escola secundária falar com dois dos jovens que tinham sido detidos (um deles branco), que lhe contaram uma história muito diferente; e depois foi à praia de Carcavelos, onde várias pessoas confirmaram essa versão.

Ouvi uma intervenção duma pessoa que não sei quem é mas disse duas coisas que tiveram em mim um efeito bombástico e puseram em causa grande parte do que se tinha dito até aí: que a PSP emitiu um comunicado às 17h01 do próprio dia, ou seja enquanto a confusão ainda perdurava, dizendo que tinha havido um arrastão envolvendo 400 pessoas e imensos assaltos, numa acção concertada; e que a outra fonte das notícias, incluindo as fotos, foi uma única pessoa, o dono de um bar na praia. Foi ele que chamou a polícia e tirou as fotos da actuação policial, que são estas aqui em cima. Repare-se que, destas cinco, foi sobretudo usada a de cima, a única que pode vagamente dar ideia dum hipotético 'arrastão'. De facto, são pessoas a fugir da polícia. Ou seja, uma única pessoa conseguiu provocar um acontecimento mediático -- o que não é nada de extraordinário hoje em dia.

O que é que aconteceu afinal?

Os antecedentes da coisa, segundo a notícia d'A Capital.

Pedro e João, alunos numa das várias escolas secundárias da Amadora, e dois dos jovens detidos naquele dia pela polícia, garantem que tudo não passou de uma enorme confusão. O início do Verão aproximava-se e, como noutros anos, explicam, «milhares de alunos das várias escolas da Linha de Sintra foram passando a palavra dizendo que no feriado iam à praia a Carcavelos».
O ponto de encontro seria, como sempre, a velha bola da Nívea, mesmo no centro da praia. Hora e meia de viagem depois, Pedro e João (nomes fictícios de dois adolescentes de 16 e 17 anos de cor negra e branca, respectivamente, que nos recebem à porta da sua escola secundária) chegaram ao início da tarde à praia, que na zona da bola de Nívea já estava completamente cheia de grupos de jovens, sobretudo de pele negra.


Esta versão apareceu num comentário no Diário de Lisboa e parece-me plausível, ou pelo menos não é incompatível com o que o Nuno Guedes ouviu:

Por volta das 13:30 quando cheguei à praia ela tinha um aspecto no mínimo invulgar!! Ela estava como que dividida ao meio. Numa parte haviam muito mais negros que brancos e noutra quase somente brancos. Na metade em que haviam mais negros estavam dois grupos a competir para ver qual dança melhor. Finda a dança um grupo venceu e o outro não aceitou a derrota e pedia a desforra.(estou a falar hip-hop) Após algumas discusões, recomeçaram a competição e nisto a coisa ficou muito agressiva e os dois grupos começaram a lutar (dois grupos de pretos e mulatos). A polícia ao ver a situação deslocou-se à zona e começou a disparar balas de borracha para tentar parar a briga de negros. Ao ouvir os tiros todos os que estavam nesta zona começou a fugir da polícia. Fugiram todos das balas (que soube depois que eram de borracha). A fuga deu-se no sentido paralelo à praia em direcção aos que estavam no lado em quase só haviam brancos. Contudo entre os que fugiam alguns iam roubando o que encontravam pelo caminho. E também vi pelo menos 5 pretos a assaltarem à força banhistas. No final houve três indivíduos feridos, segundo a tsf. Eu vi duas miúdas negras (mulata e preta para ser mais preciso) a serem transportadas para dentro de uma ambulância.

Mas Pedro d'Anunciação, numa crónica intitulada 'Notícias que são pura ficção', diz que não houve assaltos nenhuns: havia um ajuntamento de jovens negros a dançar, a polícia chegou, tentou dispersá-los, não conseguiu, carregou sobre eles e provocou uma confusão generalizada, e refere não ter havido uma única queixa de furto na praia.

Depois vêm os noticiários em directo na TV e o tal comunicado da PSP às 17h01. Falei com vários jornalistas e não consegui perceber se as televisões e os restantes media foram lá por causa do comunicado da PSP ou chegaram antes. Para o Nuno Guedes, a acusação de 'desleixo jornalístico' não faz muito sentido neste caso, uma vez que partem do princípio que a PSP é uma fonte credível.

Passado uma semana, o comando metropolitano da PSP vem dizer que afinal

Sempre foi comum juntarem-se vastos grupos nas praias de onde depois divergiam pequenos núcleos de oito ou dez indivíduos que praticavam assaltos. Concluímos que na sexta-feira aconteceu o mesmo, só que devido às centenas de pessoas que se encontravam na praia o fenómeno tomou outras proporções. De um grande grupo de 400 ou 500 pessoas só 30 ou 40 praticaram ilícitos.
(...)
Muitos jovens que apareceram em imagens televisivas e fotográficas a correr na praia de Carcavelos, naquele dia, não eram assaltantes, mas tão só jovens que fugiam com os seus próprios haveres.
(...)
Os assaltos também terão sido decididos na altura na praia e não fruto de uma organização mais elaborada que levasse centenas de pessoas a Carcavelos com intuitos criminosos.


No dia 24, o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas emite um comunicado a tomar a posição de

1. Solicitar aos Meios de comunicação social que corrijam, com o necessário destaque, as informações erradas entretanto veiculadas, repondo a verdade dos acontecimentos.
2. Solicitar à PSP um cabal esclarecimento dos factos ocorridos, da proporcionalidade da intervenção, bem como da origem das informações para a Comunicação Social quanto à dimensão do acontecimento e do seu carácter de "crime organizado".
3. Solicitar a intervenção da Alta Autoridade para a Comunicação Social para que promova com urgência uma avaliação crítica da cobertura mediática destes acontecimentos e, na sequência, promova um Acordo de Princípios entre os Meios de comunicação em relação a notícias com potencial leitura xenófoba e racista.
4. Apresentar um protesto formal à empresa responsável pela divulgação das imagens seleccionadas de assaltos em comboios da linha de Sintra e pedir esclarecimentos pela motivação de tal acto.


e acrescenta que

É necessária uma análise serena e racional e não uma leitura precipitada e preconceituosa que leve ao aumento da tensão social entre comunidades. Sublinhe-se que nessa missão os Meios de Comunicação Social têm um papel determinante e não podem ignorar a sua responsabilidade social.
Numa altura que, em Inglaterra, os emigrantes portugueses estão sob protecção policial por receio das injustas reacções xenófobas de alguns ingleses na sequência de um assassinato de uma cidadã inglesa por um alegado cidadão português, saibamos nós não fazer o mesmo.


Entretanto, tinham já surgido pequenas notícias que desmentiam as notícias iniciais, pelo menos no Público, e A Capital fez manchete com a reportagem do "Arrastão que nunca existiu". O Expresso publicou uma notícia completamente tendenciosa e cheia de contradições, assinada por pessoas que eu pensava serem mais responsáveis, na mesma edição em que aparece a tal crónica do Pedro d'Anunciação.

Agora, como dizia o Rui Pena Pires no debate, o mal está feito. As imagens que passaram na televisão foram, para muita gente, a confirmação irrefutável de que negro=perigoso delinquente potencial. Por mais desmentidos que haja, a grande maioria das pessoas vão continuar convencidas disso. Espero não ter razão para estar alarmado, mas oiço um pouco por todo o lado bocas cada vez mais assumidamente e violentamente racistas.

Tudo isto me tem feito lembrar uma história tristíssima, ocorrida em 1975 ou 1976. Um guarda-freio e um cobrador da Carris foram assassinados dentro dum eléctrico na Cruz Quebrada, numa altura em que havia um sentimento de insegurança que muita gente associava à chegada massiva de negros das ex-colónias. Durante o funeral, a que foram milhares de pessoas, uma mulher queixou-se de que um negro estava a tentar roubar-lhe a mala. O negro foi linchado no momento pela multidão. No dia soube-se pelos jornais quem era ele. Era um trabalhador da Carris no funeral dos colegas. E na altura não havia televisão em directo para deitar gasolina na fogueira.

Enfim, tanto a PSP como os media se portaram inadmissivelmente mal na divulgação da história de Carcavelos. E a PSP mostrou também, mais uma vez, como não está preparada para lidar com situações complicadas, como se veio a verificar de novo na manifestação de extrema direita no sábado seguinte. Para além de tudo o resto que apareceu nos jornais, contaram-me uma história tristemente exemplar, de um polícia de intervenção que perdeu as estribeiras numa troca de insultos com um contra-manifestante, avançou para ele, depois desobedeceu às ordens do oficial para voltar para trás, e finalmente teve de ser levado à força para dentro da carrinha pelos colegas. Quanto mim, a PSP presta um serviço público tão imprescindível como o da EDP ou da EPAL, e que deve ser avaliado nessa óptica. Responder a um insulto numa situação daquelas e ainda por cima desobeder a uma ordem é inconcebível e revela uma formação muito deficiente e/ou desadequação às funções. Ter um serviço de relações públicas e forças de intervenção que lançam a desordem em vez de combatê-la revela uma disfunção inaceitável da organização.

Weblog Commenting by HaloScan.com eXTReMe Tracker

Google PageRank Checker Tool

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Get Firefox!

Who Links Here