29.9.05



Eu aqui a tentar perceber o que seria um 'molasses tank' e descubro que 'molasses' é uma palavra de origem portuguesa, vem de 'melaço', segundo o Merriam-Webster. Curiosamente nunca a ouvi a ninguém na Madeira, é mel de cana, e se há algum sítio onde houve bastante em Portugal foi aqui. Parece que há uma confusão generalizada entre os termos 'mel de cana' e 'melaço' (podem ser ou não coisas diferentes) mas em todo o caso é provável que as palavras portuguesas associadas à produção de açúcar se tenham difundido a partir da Madeira até Cabo Verde, Brasil, Antilhas, Hawai e por aí fora até aos Estados Unidos.


Na Trinidad há o famoso rum Fernandes, nome de família de origem madeirense como quase todos os 'portugueses' da Trinidad -- um tema explorado na Trinidad pela Jo-Anne Ferreira e em Portugal pelo Miguel Vale de Almeida.

No Google, as primeiras três referências a 'molasses tank' dizem respeito à Tragédia do Mel de Cana em Boston. Em 1919, um dia antes da ratificação da Lei Seca, um gigantesco depósito de mel de cana (na altura a principal matéria-prima para a destilação do álcool) explodiu em Boston, dando origem a uma onda de mel com uns três metros de altura e uma velocidade de 60 km/h que foi destruindo edifícios e submergindo pessoas e carros à sua passagem, acabando por ir parar ao porto, onde provocou naufrágios. Houve 21 mortos e 150 feridos, além de vários cavalos que ficaram grudados e foram abatidos. Ao fim do dia a área do acidente estava toda coberta de melaço, agora endurecido, com as equipas de salvamento em grandes dificuldades para conseguirem fazer alguma coisa. Muitos bombeiros ficaram sem botas, grudadas ao mel, e a várias pessoas foi preciso rasgar as roupas para se conseguirem libertar.
A distilaria a quem pertencia o depósito foi mais tarde processada pelos danos e a respectiva administração alegou que a explosão tinha sido provocada por anarquistas, mas ao fim de um ano de julgamento foi condenada a pagar um milhão de dólares desse tempo em indemnizações. A limpeza das ruas demorou seis meses e dizem que ainda hoje se sente o cheiro nos dias mais quentes.

26.9.05



Engraçado como ninguém consegue dizer grande coisa deste disco. Nem eles, a não ser que a Maria João canta sussurrando e que queriam fazer um pouco de electrónica mas não percebem nada disso e então convidaram um músico dos Clã. Gosto muito do resultado, parece um disco pop português bastante sofisticado e contido, às vezes tem medo de parecer pop demais com a electrónica tão discreta (ficava-lhes bem um pouco mais de ousadia nesses aspecto), outras vezes a voz da Maria João faz lembrar (demasiado) a Bjork (de quem o Mário Laginha diz gostar muito). Os músicos são todos muito bons -- o tal rapaz dos Clã, Miguel Ferreira, na electrónica, o guitarrista Mário Delgado, um dos melhores músicos de jazz portugueses, dois brasileiros há muito residentes em Portugal, o contrabaixista Yuri Daniel e o baterista Alexandre Frazão, e o percussionista norueguês Helge Norbakken. Das 11 músicas, todas do Laginha, apenas duas são numa onda samba jazz fusão mais previsível, as outras são canções pop e pelo menos uma delas podia ser um hit de rádio e candidata a remixes dançantes ('Gosto') se eles fossem uma banda pop e não uns senhores crescidos, uma espécie de músicos de jazz que gostam de pop inglesa e de música popular brasileira.

A primeira referência a João Francisco Camacho no Google passou a ser a deste blog.

[Post repetido, com mais de um ano, mas que vem a propósito. Já agora, traduzido]

P - Pensa que é bom proibir através duma lei o véu e os sinais religiosos na escola, como se fez em França?
R - Sou a favor dessa lei. É uma garantia de dignidade para as mulheres. Às que se lhe opõem em nome da liberdade, pergunto se o seu amor pela liberdade vai ao ponto de reivindicar
para as sauditas e iranianas o direito de não o usar...
O que significa o véu? Que as mulheres são reduzidas ao estatuto de objecto sexual, que o olhar que os homens lhes podem deitar é necessariamente libidinoso. Apesar disso, usar o véu permanece uma liberdade que pode exercida na rua ou na universidade. A limitação pode ser legitimamente praticada nas escolas primárias e secundárias onde as raparigas, geralmente ainda menores, devem ser protegidas da pressão dos pais.


Mohamed Charfi, professor universitário, ministro da educação da Tunísia entre 1989 e 1994, em entrevista à 'L'Histoire', Julho-Agosto de 2004.

Sobre o bicudíssimo problema das políticas de integração dos imigrantes, Rui Pena Pires publicou um texto no Canhoto com o qual concordo genericamente, embora me pareça redutor, na medida em que as 'minorias étnicas' se constituíram independentemente de haver 'multiculturalistas' que as defendessem, e o caso francês é exemplar disso. Por outro lado, em França, a imprensa de esquerda como Le Monde ou a L'Histoire defende posições semelhantes à de Pena Pires (e à minha) mas chamam-lhe defesa dos valores republicanos, tout court, sem invocarem o liberalismo como faz Pena Pires. O mundo visto de França é um bocado diferente.

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Isto vê-se do miradouro da foto de baixo, olhando para norte.

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O miradouro fica no sítio assinalado pela seta neste mapa tridimensional.


Senhora da Boa Morte, Ponta do Pargo

23.9.05



Recusar-se a falar inglês, porque é a língua de Bush. Recusar obedecer a um professor americano, porque é da pátria de Bush. Recusar a observação do impúdico tecto da Capela Sistina numa aula de italiano. Não escrever o sinal 'mais' em matemática, para não desenhar uma cruz ímpia. (...) Aplaudir quando uma professora de espanhol conta a expulsão dos judeus de Espanha em 1492 -- mas calar-se ao descobrir que a expulsão dos judeus precedeu de perto a dos muçulmanos. Recusar-se a admitir que o homem é um animal, que descende do macaco, e que Darwin não seja senão um aldrabão. Recusar-se a vestir roupas desportivas nas aulas de ginástica, para não ceder à falta de pudor.

Esta é uma síntese de alguns tópicos da contestação aberta dos alunos de origem magrebina às aulas do ensino secundário em França, contada no último número da L'Histoire numa reportagem dum jornalista do Nouvel Observateur, baseada em depoimentos de professores e em dois documentos, um projecto de investigação sobre o ensino da Shoah e das guerras de descolonização (disponível aqui) e um relatório do ministério da educação sobre 'Sinais e manifestações de pertença religiosa nos estabelecimentos escolares' (disponível aqui).

Eis um excerto das conclusões deste relatório:

Nalguns bairros, que estão longe, insistimos, de se confinar aos subúrbios das grandes cidades, estão já edificadas contra-sociedades cujas normas estão quase sempre em distanciação, senão em ruptura, com as da sociedade moderna e democrática que as rodeia. Para estas populações não se trata, de todo, de um fechamento identitário dos mais velhos, mas sim duma identidade de substituição que se difunde em primeiro lugar entre os jovens de segunda ou terceira geração. O terreno social no qual se desenvolvem estes processos é bem conhecido, trata-se da segregação de que são vítimas estas populações face ao acesso à habitação, ao emprego e ao lazer, devido à xenofobia e ao racismo, desde a sua chegada ao solo nacional. A interiorização desta injustiça conduz toda uma geração ao ressentimento, ao fechamento e por vezes à radicalização. Há organizações, quase sempre estruturadas no plano internacional, que prosperam neste terreno e asseguram uma promoção eficaz a esta nova identidade 'muçulmana', numa exaltação permanente que, frequentemente, dá aos mais radicais maior peso entre os mais jovens ou os mais frágeis (entre estes últimos pode-se situar um certo número de jovens convertidos). O projecto destes grupos abertamente segregacionistas, que denunciam a integração como uma heresia, vai ainda mais longe. Trata-se também de reunir estas populações no plano político, dissociando-as da nação francesa e agregando-as a uma vasta 'nação muçulmana'. Já dissemmos como este projecto nos pareceu bastante difundido e posto em prática entre a juventude escolarizada, nomeadamente entre alunos que se recusam, por vezes em massa, a identificar-se como 'franceses' e que tomaram como heróis os partidários da guerra radical contra o mundo ocidental.

São Martinho

Is there anything more startling than talkings or writing and then suddenly being struck by the realization one really has nothing to say at all? This has been happening to me lately. It all seems so redundant. The weather? It's already known. The state of the world? It's already known. The fact that life can royally er, be not cool? It's already known. Suddenly it all seems so wasteful, the movement of the tongue against the teeth and mouth. For what reason do I speak? I suppose, at the end of the day, it's to get out of myself, to be able to forget what horrified me so many years ago: that I am me and nobody else is. I was twirling around in the family room, spreading my arms out so that I could get the full effect, and I sneaked a peek at the window to see how my fast my hair was moving. And suddenly it struck me that it was only I who knew what the shirt upon my back felt like, and only me who was within the fingers flying about the room as I twirled - and I suddenly stopped and gazed into a real mirror, and thought: It's only me at the end. Nobody else. I am not them. They are not me. We are seperated-individuals. I felt sick, and sometimes I still do, thinking about it.

Nickie, no Meteorological Journal of a Mind

22.9.05




De todas as que eu conheço, esta foto parece-me a mais exemplar do estilo de J.F. Camacho e daquilo que faz a diferença em relação aos seus contemporâneos (daqui pelo menos). A legenda diz "Igreja do Monte", um sítio incontornável, por muitas razões, para quem vivia de fazer retratos e paisagens da Madeira. Só que esta não tinha, nem tem, nada de especial, uma igreja banal numa encosta com árvores. A solução foi esta, pôr uma personagem num plano à frente, uma pose inverosímil num lugar improvável -- o comprador tinha sempre a garantia que aquilo era uma vista do Monte e isso é que interessava, não era lá por ter uma pessoa à frente que deixava de ser o Monte e até ficava melhor assim.

Comparando estas paisagens com as de outros fotógrafos, como as do famoso Vicente Gomes da Silva, o primeiro a abrir uma casa de fotografia na ilha, é sobretudo esta a novidade -- um retrato encenado sobre a paisagem, o que aparentemente não fez escola por cá.
Camacho não descobriu a pólvora sozinho, é provável que a tenha visto com Disdéri em Paris, onde foi parar por acaso, patrocinado por uma aristocrata brasileira. Quando vai para Lisboa e se estabelece em pleno Chiado, ao que parece já precedido pela fama, é um discípulo dele que assume a direcção da casa do pioneiro e rival Vicente, mas tudo volta ao princípio. Talvez afinal, quem sabe, os clientes preferissem a igreja do Monte sem ninguém à frente.

21.9.05






Mais duas paisagens da João Francisco Camacho, o fotógrafo madeirense mais conhecido em Portugal e mais desconhecido na Madeira.

20.9.05



A exiguidade da net no que toca a Portugal nunca deixa de me surpreender -- um país desconhecido, é o que isto é. No caso de João Francisco Camacho, quase bate o recorde: 12 páginas no Google, todas respeitantes ao fotógrafo oitocentista (até é estranho não aparecer mais gente com este nome por esse mundo fora), das quais cinco em português (amanhã passa a haver mais uma). Três destas páginas têm a ver com um alfarrabista holandês especializado em medicina mas que também tem livros de fotografia, entre eles o álbum de onde estas fotos foram tiradas (presumo), um 'scarce and desirable item' à venda por 4000 euros.
Como ele disponibiliza a lista das fotos, fico a saber que aquela a sépia no post em baixo é do Pico Ruivo, quase de certeza, e a outra talvez do Pico Cidrão. Quem conhece estes sítios pode imaginar o que era carregar uma daquelas máquinas enormes até lá. A data provável do álbum é 1879, ano em que Camacho foi para Lisboa.
Outra das páginas que aparece é de um professor do departamento de engenharia electrotécnica e computadores da Universidade do Porto, que faz colecção de estereografias e tem umas belas páginas sobre o assunto, aqui.



E assim fico a saber que na História da Arte Fotográfica em Portugal, do António Sena (que eu adorava ter mas não é fácil), está reproduzida uma destas fotografias. Deve ser esta, que suponho ter sido tirada no Rabaçal, outro sítio que me põe a pensar como é que se chegava lá naquele tempo com uma câmara.



João Francisco Camacho (1833-1898) estabeleceu-se como fotógrafo em 1863, no Funchal e em 1879 mudou-se para Lisboa.



Pensa-se que talvez seja este senhor aqui, fotografado em Paris por volta de 1870, quando lá foi aperfeiçoar-se na arte da encadernação mas acabou por virar-se para a fotografia. É uma 'carte de visite' feita no atelier dum fotógrafo parisiense, Disdéri, com que Camacho terá estudado, e aparece num site dum arquitecto australiano que faz colecção destas coisas.
Desconheço a data destas paisagens da Madeira, que me parecem tão admiráveis como pouco vistas, com uma sensibilidade romântica sintonizada com alguma pintura do seu tempo (o modo como ele fotografava pessoas a olhar a paisagem faz-me pensar em Caspar David Friedrich, seria o zeitgeist?).

19.9.05



Caniçal

18.9.05





Alguém me lembrou esta foto, tirada em Serralves há quase um ano, e vem a propósito por causa do que eu disse sobre o Centro das Artes Casa das Mudas. Serralves é um bom exemplo daquilo que deve ser o investimento estatal na cultura -- boa programação e montes de gente a ver, montes de gente, montes de gente. Nada faz sentido se não for assim, por melhor que seja tudo o resto.

16.9.05







Ora aqui estão eles, os peixes que eu fui lá visitar à Barreirinha antesdontem. Aqueles primeiros em cima são os tais que andam pràli a pastar, e estes aqui pretos e azuis também, e os outros são os tais que andam dum lado para outro todos juntos e um gajo não percebe o que é que os sacanas comem. Isto na realidade é muito mais giro do que parece aqui, e além disso os sacanas dos peixes parecem que fogem dum gajo com uma câmara, parece que não gostam de fotografias, de modo que havia muito mais que estes aqui. Bom, também um gajo não consegue estar parado dentro de água, assim não é fácil, e ainda por cima parece que não se pode usar flash. Diz que um gajo pode amarrar uma pedras ou lá o que é não sei como para conseguir ficar quieto, tenho que ver isso.

E isto aqui é a parte de cima daquilo lá em baixo onde está a peixada toda. Aquele prédio amarelo é o Forte de São Tiago, que dantes era da tropa e agora fazem lá umas exposições. Daqui a nada vou ali dar um mergulho e depois vou à inagauração mamar uns copos à borla.

15.9.05



Eira do Serrado

Funchal

Madalena do Mar

14.9.05



E já agora, eu não me considero nacionalista, na medida em que me é indiferente a existência de Portugal como estado, penso que é muito possível que Portugal seja inviável como país e acho que 1640 foi um ano fatídico. Mas Portugal é mais que um estado, é um território habitado por umas pessoas a que damos o nome de portugueses, e se esse projecto de estado eventualmente falhar não é grande drama. Há muitos estados na Europa que desapareceram, outros que reapareceram e outros que nunca existiram, e não me parece que os seus ex-habitantes, neo-habitantes ou nunca-habitantes sejam mais ou menos felizes por causa disso.
Agora, esta obsessão crescente de atribuir a falta de tudo aquilo que não há em Portugal e que supostamente todos os outros países têm a uma espécie de defeito genético duma entidade mítica e intemporal chamada "os portugueses" é-me insuportável. A ideia de que o grau de desenvolvimento (um conceito discutível)de um estado resulta de uma hipotética "alma nacional" é um pensamento romântico oitocentista que é irracional e inaceitável hoje em dia. Não seria grave se não fosse tão reiterada por pessoas com acesso privilegiado aos media, ou com o prestígio que lhes advém de serem "intelectuais", o que lhe confere uma credibilidade desproporcionada. É ao mesmo tempo um alibi da parte de quem a difunde e um apelo à inacção dos outros. E ainda por cima consegue convencer alguns estrangeiros.
Racionalismos à parte, a mim custa-me incluir, por exemplo, toda a minha família, mortos e vivos, em classificações pejorativas generalizadas. E aos meus amigos, e até a todas as pessoas com que me cruzo na rua, desde que não tenha nada contra elas, claro, e mesmo assim. E, finalmente, a mim próprio.

Mas há um problema lógico incontornável neste tipo de argumentos. Por exemplo, quando o Vasco Barreto, autor do texto abaixo (que, reconheço, tem o mérito de ser um condensado bem escrito dos principais lugares comuns sobre a nacionalidade portuguesa) diz que "Being in steady decline is part of our nature", isso implica que faz parte da natureza do Vasco Barreto estar em declínio persistente. Mesmo sem saber qual é o grau de declínio actual do Vasco Barreto, que crédito é que alguém pode dar ao Vasco Barreto actual, depois sabermos que já passou, com certeza, bastante tempo desde que ele nasceu, visto que teve tempo para fazer um doutoramento?
Só há uma maneira de resolver a questão, mas que põe em causa todas as bases em que assenta o raciocínio do Vasco Barreto. Um país é uma espécie de clube a que não escolhemos pertencer, um pouco como aquelas pessoas que mal nascem já são dum clube qualquer de futebol. Ora, se, por exemplo, uma pessoa for sportinguista, não pode dizer que "os sportinguistas são incultos", porque ao dizer isso ela está a incluir-se nessa categoria, o que logicamente lhe retira o discernimento para fazer essa afirmação. Mas se a pessoa se mudar para o Benfica (o que não é impossível, apesar do que dizem) já não há problema nenhum. O mesmo vale para a nacionalidade. A mim não me choca nada que uma pessoa renuncie à sua nacionalidade, e eventualmente passe a dizer cobras e lagartos dos seus ex-colegas de nação. Só que, pela lógica do Vasco Barreto, mesmo que ele fizesse isso, haveria sempre o problema de ele, no fundo, ter, por exemplo, a tal característica do declínio persistente.

Já se sabe que nas últimas décadas, no mundo ocidental, as humanidades (incluindo as agora chamadas ciências sociais, conceito que admito ser discutível) foram perdendo prestígio a favor das ciências mesmo, ou o que lhe queiram chamar. Daí que quando se fala, por exemplo, da falta de cultura científica esteja subentendido que se está a falar de física, ou biologia, ou matemática, e não de história, geografia ou linguística, como se fossem coisas mais ou menos fúteis e especulativas a que uma pessoa, depois de ter a sua formação científica, se pode dedicar recordando as aulas que teve no ensino básico há 20 anos ou 30 anos.
Mas não me conformo que um especialista em imunologia escreva uma coisa destas, uma colecção dos lugares mais comuns que se possa imaginar sobre Portugal, com um toquezinho de pretensão a ter lido umas coisas (fica sempre bem um cientista interessar-se por 'cultura geral') numa revista duma universidade americana, com pérolas como esta: "Every nation's people, no matter how collectively mediocre, includes a few exceptional individuals" (apetece perguntar em qual das categorias o autor se inclui). E ainda por cima parece achar-se original e espirituoso.
Começo a deixar-me contaminar por este tipo de discurso, e a achar que os portugueses têm mesmo um problema grave: é que há uns que são intelectuais.

O Centro das Artes Casa das Mudas desenvolve-se de cima para baixo, uma estratégia comum na habitação popular em sítios com grande declive em que a estrada passa a num nível superior, como é o caso (é vulgar ver-se a cobertura das casas a servir de estacionamento, por exemplo). A primeira coisa de que me lembrei ao entrar no terraço foi de alguns jogos de computador como o Quake, aqueles labirintos com umas texturas parecidas com estas nas paredes. Era capaz de apostar que o arquitecto Paulo David joga ou jogou estes jogos. O revestimento é feito com umas plaquinhas de basalto ligeiramente poroso ('favado' como dizem aqui), tradicionalmente usado como cantaria na Madeira.

O edifício ocupa um terreno à beira da falésia e no topo do vale da ribeira da Calheta, ao lado e num nível inferior ao do belo solar do século XVIII com o mesmo nome que foi o núcleo inicial da Casa da Cultura, e sem interferir minimamente com ele. Uma situação espectacular.


O interior é também espectacular e não pode ser fotografado, por uma razão qualquer que me escapa inteiramente. Há escadarias com grandes vãos, aberturas longitudinais no tecto que deixam ver o céu e, em duas das salas principais, grandes janelas que dão para o vale e valem só por si a visita.


Aqui está uma delas vista duma escada exterior.

Para além das escadarias bastante estreitas que ligam as salas dos vários pisos entre si (cabem duas pessoas à justa), e de uma sinalética quase inexistente que reforça demasiado o carácter labiríntico, pareceu-me nesta visita que os pontos discutíveis do edifício têm a ver com a iluminação -- as tais belíssimas aberturas no tecto provocam bastantes reflexos, as grandes janelas deixam entrar luz directa de manhã. Além disso, estas janelas têm um impacto tão grande que ofuscam completamente quaiquer obras que estejam lá expostas. Aliás, todo o edifício ofusca tudo o que lá se possa pôr, o que será óptimo para quem não tem paciência de ver as exposições.

E pronto, é um belo edifício. Mas fica numa parte da ilha bastante desertificada, provavelmente com mais emigrantes que habitantes permanentes, e a uma hora de carro do Funchal, onde há perto de 150.000 habitantes e uma actividade cultural quase nula. A antiga Casa das Mudas fazia muito mais sentido aqui -- tinha uma dimensão mais simpática, uma programação bastante original, era de entrada livre e o facto de estar mesmo ao lado duma escola compensava, quanto a mim, a situação periférica. E era interessante como essa situação periférica correspondia a uma saudável marginalidade, tanto em relação ao pequeníssimo e medíocre meio artístico insular como a a Porta 33 e o Museu de Arte Contemporânea da Fortaleza de São Tiago, no Funchal, que apostam numa relação preferencial com a arte portuguesa contemporânea mais institucional (se bem que hoje em dia isto é quase um pleonasmo, a arte está quase toda institucionalizada).

Este Centros das Artes é um objecto de prestígio, intimidante, com entradas a 5 euros, funcionários demasiado zelosos que se comportam como aquilo que são -- funcionários dum museu de província --, um café fechado e uma loja sem quase nada para vender. Suponho que irá ter sempre uma programação interessante, presumivelmente baseada em parte na colecção Berardo, por um lado, e prosseguindo a divulgação da fotografia contemporânea que já vinha sendo feita na Casa das Mudas, por outro. Ou seja, faz todo o sentido em termos de divulgação, sobretudo no fraquíssimo panorama madeirense, e a nível nacional, fora de Lisboa e Porto, suponho que não tem nada que se lhe compare.
Mas o auditório continuará provavelmente a ter escasso público, como parece que tem acontecido até agora, tal como com o espaço de exposições. Enfim, em termos de política cultural, a Casa das Artes é um investimento muito discutível. Mas mesmo assim faz mais sentido que os outros investimentos faraónicos e completamente disparatados que têm sido feitos na costa sudoeste da Madeira pela mesma entidade, a Sociedade de Desenvolvimento da Ponta Oeste. Mas esta é outra história.






O que sempre me impressionou mais nestes tapetes de flores é serem tão efémeros. São destruídos logo a seguir e nem sei se chegam a durar, no seu todo, uma hora ou uns minutos. Estes estavam a ser feitos durante a missa da festa de verão da Ponta do Sol e parece-me que devem ter ficado prontos mesmo a tempo de a procissão começar a pisá-los. Se calhar só há uma maneira de vê-los, que é ir assistindo à sua destruição. Nunca vi, só antes e depois. Não gosto de me meter nas religiões dos outros.

Aqui estão alguns dos artistas, a braços com um problema técnico algo complicado que se resolveu ao fim de 10 segundos de discussão.


Esta miúda já ia atrasada.

13.9.05




Hoje acordei, abri a janela, deitei-me na cama e vi isto.


Esta é foto é parecida, mas não é a mesma dali de baixo, embora tenha sido tirada à mesma hora, pelo que me diz aqui o computador -- já agora, 18.43 de dia 11-08-05. A hora legal aqui é a TMG, igual à de Londres e Lisboa, mas como fica mais uns 7 graus a oeste de Lisboa o sol põe-se um pouco mais tarde, cerca de 30 minutos, o que faz uma agradável diferença.


Esta pequena dúvida sobre porque é que o sol se põe mais tarde aqui levou-me a uma descoberta inesperada -- a acreditar nesta página duma universidade americana, a longitude zero foi durante cerca de 300 anos a da Madeira, antes de se transferir para Greenwich, na metrópole britânica, no auge do império que nos abrangia informalmente. Não fazia a menor ideia de que esta montanha a meio do mar tinha participado na epopeia tecnológica que afligiu a marinha europeia durante séculos, mas faz sentido -- era um entreposto importante na rota das índias ocidentais, suponho.



Para além do mar e o céu assim tão azuis às 18.43 do dia 11 de Setembro, há outras duas coisas especiais nesta paisagem.
Uma é a área ocupada pelo mar, muito maior do que costumo vê-lo. Por mais que racionalize, há uma parte do meu cérebro que acha estranho o mar estar sempre à mesma altura, como se fosse mais lógico que, à medida que eu fosse subindo, ele fosse ficando para baixo. Mas não, permanece obstinadamente à mesma altura. E às tantas, quando estou num sítio um bocado alto como este, a mesma partezinha do cérebro pensa que o mar fica à mesma altitude, portanto bastante mais alto do que devia, ameaçando mesmo derramar-se por cima da ilha.
A segunda coisa é o reflexo das nuvens no mar, especialmente visível aqui na costa sudoeste. Suponho que é por estar especialmente abrigada dos ventos dominantes de nordeste, mas tenho outra rodela cerebral, não sei se será a mesma, que acha um bocado estranho. O resultado é que fico para aqui a olhar para isto.

12.9.05




Um cidadão a passar em frente à Casa das Mudas, na Calheta, ontem à tarde.


O mar e o céu vistos do mesmo sítio uma hora depois ou isso.











A mítica onda do Jardim do Mar...


...que agora é bastante difícil de surfar por causa disto (já não há praia, a história está explicada aqui e aqui), enfim não me apetece agora falar de coisas tristes, nem de nada.



O mar e o céu no Paul do Mar (onde também há ondas e ainda há praia), umas horas mais tarde.

9.9.05



Depois de uma das habituais habilidades do grupo PT, vi-me de repente sem os meus endereços do Sapo. De modo que agora o endereço aqui da redacção passou para o Gmail, como se pode ver aqui ao lado. Quem tinha o endereço anterior é favor mudar.


O Expresso Lisboa-Díli foi actualizado, e a autora começa a suspeitar que os timorenses não são assim tão católicos como isso, ou talvez mesmo quase nada. Talvez já comece também a suspeitar que nunca tiveram grande coisa a ver com Portugal.

8.9.05





Porto de Lisboa
Terminal de contentores afinal fica em Alcântara

A Liscont irá continuar a operar o terminal de contentores de Alcântara, tendo o Governo já afectado, no âmbito do Programa de Investimentos em Infra-estruturas Portuárias, uma verba para proceder ao alargamento deste terminal, de acordo com uma notícia avançada pelo Diário de Notícias. Esta decisão da Administração do Porto de Lisboa enquadra-se no plano estratégico a executar nos próximos 20 anos, cuja prioridade é devolver ao porto à marinha mercante e separar as actividades ligadas à restauração e lazer das operações portuárias. O referido plano deverá ser apresentado no próximo ano.


(in Transportes em Revista, Julho 2005)

Depois de décadas em que o discurso oficial era 'devolver o rio à cidade' (com alguns progressos), agora a prioridade é 'devolver o porto à marinha mercante', e ainda por cima 'separar as actividades ligadas à restauração e lazer das operações portuárias' -- um passo em frente, dois passos atrás. Enquanto Barcelona, Londres e outras cidades portuárias deslocam o porto para fora da cidade, Lisboa reforça-o, desprezando um dos seus maiores atractivos que é o magnífico estuário.
Parece que, além de mim, há mais três ou quatro pessoas preocupadas com isto. Não querem juntar-se?

7.9.05



(foto gamada do Hardblog, e reduzida a um peso mais razoável)

Ainda não fui ver a muito badalada Casa das Mudas. Dizem-me que é de facto um edifício muito bonito mas com alguns problemas funcionais imperdoáveis.
Mas há uma coisa intrigante: há dias encontrei uma pessoa conhecida, daquelas que se exprime em Novilíngua madeirense (um dia destes falo sobre isso), que às tantas me pergunta 'Então já foste ver o Museu Berardo?'. Quase dei um salto na cadeira -- então o Berardo, que andou anos a tentar negociar um museu aqui sem sucesso, sempre conseguiu e eu não ouvi dizer nada? 'Então, o Museu Berardo, é uma grande mais-valia para a Região, nunca ouviste falar?', prosseguiu ela na sua Novilíngua. 'Não, onde é que fica?'. 'Na Calheta.' 'Ah, tás a falar da Casa das Mudas. Aquilo não é do Berardo. Parece é que ele anda tentar tomar conta daquilo'. 'Mas está lá uma exposição dele'. 'Pois está, parece que até fins de Setembro, mas no antigo edifício também tinham exposto coisas dele'. 'Tá um dia lindo, não?'
Agora é o Hardblog, que, extasiado com o dito edifício, não hesita em dizer ainda mais, que ele foi encomendado pelo Joe Berardo, certamente informado por alguém de cá. Bom, tanto quanto sei não foi (o Centro de Artes Casa das Mudas é um desenvolvimento da Casa da Cultura da Calheta, como consta aqui), mas parece que o dito senhor gostava de expor lá a sua colecção regularmente (então agora com a fama que o edifício está a ganhar), mas não se sabe bem em que termos e se de facto vai acontecer. Também pode acontecer que o Berardo tenha de facto encomendado o museu (secretamente, através duns testas de ferro) e arranjado maneira de sermos nós (os portugueses) a pagá-lo com os nossos impostos (aqui tudo é possível), mas não me parece.
Bom, agora tenho que ir meditar sobre o que significa este boato (que se calhar acaba por se tornar realidade).

5.9.05



Clássicos funchalenses #5: a praça de táxis do Jardim Municipal

Uma praça de táxis é um fila de carros parados em que volta e meia o primeiro se vai embora, e aí todos os outros têm avançar uns metros para repor a situação inicial.
Nesta praça, a principal da Ilha, uma tradição imemorial, certamente criada pelo mítico Mestre Taxista, determina que: 1.º, os Táxis estão estacionados em ponto morto e destravados; 2.º, quando o Táxi da Frente sai com um Cliente, os Motoristas dos restantes Táxis empurram-nos suavemente com a mão esquerda no Pára-Brisas e a mão direita no Volante do Veículo, abstendo-se de entrar no dito e de pôr o motor em funcionamento, até que a Situação Inicial seja reposta. Parágrafo Único: o sacana que se atreva a pôr o motor a funcionar paga uma rodada de Rótulo Prete no Café do Teatro a todos os restantes Motoristas da Ilha.

Clássicos funchalenses #4: o Cais


Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É - sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.


Perdoem-me a citação do Grande Mestre, mas se há um lugar onde estas linhas fazem sentido é aqui. Quando eu o conheci, o Cais ainda era um cais, onde atracavam as lanchas que traziam os passageiros dos paquetes, e nós aproveitávamos para apanhá-los e ir namorar para a Pontinha, o molhe do porto. Sabíamos de cor os nomes dos navios,e alimentávamos o sonho de embarcar num deles, porque uma ilha é sempre um ponto de partida.

O Cais continua a ser um lugar mágico nos fins de tarde, um pedaço de terra pelo mar dentro com olhares perdidos, pares de namorados, grupos de velhos à conversa, e skaters a saltarem por cima dos bancos.

2.9.05





Clássicos funchalenses #3: o Lido

Aqui, 'ir à praia' sempre significou (para mim, pelo menos) ir a uns sítios de que não conheço equivalente, uma mistura de rochas com lajes de betão à beira-mar com pranchas para mergulhar, uma piscina anexa e um bar. Os três sítios tradicionais eram, e são, a Barreirinha, o Lido e o Clube Naval, e estão associados a uma hierarquia social e uma média etária ascendentes, por esta ordem -- classe média-baixa com mais crianças, média-média com mais adolescentes e média alta com todos à mistura. A mim calhou-me o Lido, logicamente.
O conceito é um bocado diferente do de 'praia' em sentido estrito (e muito melhor quanto a mim). Primeiro, não há areia nem calhaus a chatear. Daqui decorre também que a água é mais azul e transparente. E depois, não se 'entra na água', mergulha-se duma vez -- não há hipótese de hesitação nem comentários prévios sobre a temperatura da água -- e uma vez lá dentro não há pé, pelo que é essencial saber nadar mais ou menos bem e não ter medo do mar.


Há formas mais ou menos elegantes de mergulhar, desde o mergulho de cabeça à forma mais minimal que consiste simplesmente em ir andando até cair no mar, da qual podem observar a demonstração feita por esta miúda aqui em cima.


Uma vez comprei uma máscara de mergulho, um tubo e um óculo porque queria assistir a um concerto subaquático que decorreu na antiga piscina da Torralta em Tróia, e depois vim cá, trouxe o equipamento e experimentei-o no mesmo cantinho do Lido que frequento há anos e que é aquele da primeira foto de cima. E aí descobri que o mar não só é transparente como está cheio de peixes.
O melhor sítio para vê-los é nas rochas perto da superfície como aquela que se consegue entrever aqui em cima e que fica mesmo à beira. Andar ali por cima de tubo é como sobrevoar umas montanhinhas cobertas de plantas com uns peixes de várias cores por lá a pastar. Mas a vida destes herbívoros não tem nada a ver com a das vacas e é muito mais agitada do que parece nos aquários: para eles, a mais ligeira ondulação equivale a uma ventania ciclónica; mal debicam um bocadinho de planta e são imediatamente arrastados para trás vários centímetros (que para eles equivalem a metros); a seguir, fartam-se de nadar e lá conseguem comer mais um bocadinho; e assim sucessivamente, em ciclos de mais ou menos 3 segundos (que a eles talvez lhes pareçam horas).
Estes peixes parecem um bocado individualistas, cada um a pastar para seu lado. Há outros, mais pequenos, que andam todos juntos às voltas dum lado para outro, não faço ideia a fazer o quê, nem percebo o que comem. Mais para baixo há uns maiores com um ar mais sorumbático que também não sei o que andam para ali a fazer e que parecem ter um grau de sociabilidade intermédio. E deve haver outros que comem estes todos, ou talvez cada um desses só goste de comer um deles em particular, e quem sabe outros menos esquisitos, mas nunca os vi, ou então foi porque não os apanhei em flagrante peixicídio.

1.9.05




Sempre tive a sensação de que as notícias dos media portugueses sobre Timor-Leste eram histórias muito mal contadas, e ainda há pouco tempo encontrei uma pessoa que vai lá regularmente e me confirmou isso mesmo. Agora, uma velha amiga acaba de lá chegar e promete contar tudo neste blog. Para já, de Timor é só esta foto.

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