29.11.05
O João Pedro George diz que "Um leitor minimamente exigente tem o direito de reclamar muito mais de uma intelectual prestigiada como Maria Filomena Mónica". Ela é uma intelectual prestigiada? Onde? Acho que o livro vale como diário duma pessoa qualquer, e realmente não se nota nada que é escrito por uma "intelectual prestigiada". Nesse aspecto, concordo que é decepcionante. Agora, quantos diários de betas dos anos 1960 existiam até hoje?
28.11.05
Já vou na segunda sessão de Fnac a ler as memórias da Maria Filomena Mónica. Estou surpreendido. Sem ironia nenhuma, parece-me um livro notável, bem escrito, cheio de informação, embora, francamente, seja demasiado exaustivo na enumeração dos amantes -- há pormenores que não precisávamos de saber, a coisa chega a tornar-se embaraçosa. Na escassez de ficção actual sobre a burguesia portuguesa, o livro da MFM tem, entre outras, a virtude de soar bastante verosímil e lê-se como um romance.
Diz ela no prefácio que o Rui Ramos, um muito respeitável historiador, disse que este é o livro da vida dela, no duplo sentido, creio, de ser também o melhor livro dela, é muito provavelmente verdade e não deixa de ser irónico que a obra maior duma socióloga acabe por ser uma fonte para a sociologia e não uma análise.
Para quem se interessa em perceber a sociedade em que vive, há sempre uma barreira dificilmente transponível que é a de saber, para além da vida política e dos grandes números da sociologia ou da economia, como é que vivem de facto as pessoas, o que elas pensam e como que a história passa por elas. Este é, no mínimo, um testemunho indispensável sobre a vida duma beta gira entre o princípio dos anos 1960 e meados dos anos 1970, que acaba, bastante por acaso, por transformar-se em intelectual, entre as eras pré-pílula e pós-pílula, o salazarismo e a democracia, entre os betos de Cascais e os intelectuais da avenida de Roma, com umas passagens por Oxford e Cabanas de Tavira, num tom sempre algo autocrítico, quase humilde por vezes, que desarma quaisquer bocas que apeteça mandar. Já que MFM nunca se meteu na política nem sabe grande coisa, ao que parece, sobre o protagonismo que alguns dos seus amigos próximos tiveram na politica, aguardo ansiosamente o segundo volume sobre os bastidores do GIS/ICS e do ISCTE.
Diz ela no prefácio que o Rui Ramos, um muito respeitável historiador, disse que este é o livro da vida dela, no duplo sentido, creio, de ser também o melhor livro dela, é muito provavelmente verdade e não deixa de ser irónico que a obra maior duma socióloga acabe por ser uma fonte para a sociologia e não uma análise.
Para quem se interessa em perceber a sociedade em que vive, há sempre uma barreira dificilmente transponível que é a de saber, para além da vida política e dos grandes números da sociologia ou da economia, como é que vivem de facto as pessoas, o que elas pensam e como que a história passa por elas. Este é, no mínimo, um testemunho indispensável sobre a vida duma beta gira entre o princípio dos anos 1960 e meados dos anos 1970, que acaba, bastante por acaso, por transformar-se em intelectual, entre as eras pré-pílula e pós-pílula, o salazarismo e a democracia, entre os betos de Cascais e os intelectuais da avenida de Roma, com umas passagens por Oxford e Cabanas de Tavira, num tom sempre algo autocrítico, quase humilde por vezes, que desarma quaisquer bocas que apeteça mandar. Já que MFM nunca se meteu na política nem sabe grande coisa, ao que parece, sobre o protagonismo que alguns dos seus amigos próximos tiveram na politica, aguardo ansiosamente o segundo volume sobre os bastidores do GIS/ICS e do ISCTE.
25.11.05
Há anos que não ouvia um programa de rádio como as tardes da Radar (97.8), com Pedro Ramos. Bom, não é bem um programa, são cinco horas de rádio personalizada qb, da 15 às 20, impregnadas de espírito pop, muito divertido, passatempos absurdos, música bastante boa.



O presépio da basílica da Estrela, de Machado de Castro, após vários anos de restauro, está finalmente visível, embora com algum esforço: das 3 às 4 da tarde, e está bem escondido, atrás do altar-mor à direita. É uma das obras-primas do barroco português.
21.11.05
Três novos links para blogues: um que já devia cá estar há muito, o Doc-Log, mais virado para o cinema documental, da documentarista Leonor Areal; o Garedelest, directamente de Paris por um dos meus Barnabés preferidos; e o Pequeno Blogue do Grande Terramoto, do Rui Tavares, outro Barnabé idem.

Fiquei impressionado com o texto do Miguel Sousa Tavares sobre Campo de Ourique, que pode ser lido no Viver na Alta de Lisboa, onde apareceram uma série de comentários sobre o que faria a diferença de Campo de Ourique. Não que o artigo seja brilhante, mas é tão raro ler-se uma declaração de amor a uma cidade em Portugal que chega a ser comovente quando se vê uma. Conheço relativamente bem o bairro, conheci muito bem uma nativa de lá, e nunca ouvi ninguém dizer mal daquilo. Parece mesmo talvez o bairro de Lisboa em que há mais bairrismo, no bom sentido, de amor ao bairro. E eu não me importava nada de viver lá.
Agora, porque é que Campo de Ourique funciona e outros bairros não? Arrisco algumas hipóteses.
Primeiro, Campo de Ourique é suficientemente pequeno para ser percorrido a pé, e suficientemente grande para ter uma população apreciável (mais de 25 mil habitantes, se incluirmos a freguesia de Sta. Isabel). Esta 'massa crítica' é essencial para que os atributos da vida urbana funcionem -- anonimato qb, possibilidade de cada um ter a sua vida sem ser controlado, de encontrar potenciais amigos/as, namoradas/os com quem nos identifiquemos. É também essencial para viabilizar um comércio variado, que num bairro mais pequeno teria dificuldade em subsistir por falta de clientes. E o facto de poder ser facilmente percorrido a pé confere unidade ao bairro.
Segundo, Campo de Ourique tem um centro relativamente bem definido, um vago quadrilátero centrado no Jardim da Parada e que vai até às ruas principais Ferreira Borges e Saraiva de Carvalho. Ou seja, uma zona de sociabilidade mais activa, onde há todo o comércio que é preciso e que propicia o estabelecimento de relações.
Terceiro, o bairro obedece ao tradicionalíssimo esquema de malha ortogonal com quarteirões, com uma relação razoável entre a altura dos edifícios e a largura das ruas, e com o comércio estabelecido nas lojas dos prédios. Até prova em contrário, esta é a melhor forma urbana até hoje inventada.
Quarto, Campo de Ourique demarca-se facilmente do resto da cidade, sem que, ao mesmo tempo, haja uma descontinuidade. E é razoavelmente bem servido de transportes, embora não tenha metro (no entanto, interrogo-me se a ausência do metro não terá contribuído para manter o carácter residencial e evitar a terciarização que aflige outras zonas da cidade).
E pronto. Não me parece que haja grande mistério no sucesso de Campo de Ourique. Foi um bairro bem planeado, é tudo. O triste é que parece evidente que o urbanismo da segunda metade do século XIX era muito melhor que o de hoje.
O ministro Nicolas Sarcozy é um 'imigrante de 2ª geração', filho de pai húngaro. O mesmo acontece com o ministro Azous Begag, filho de argelinos. O segundo é sempre referido como 'beur', mas ao primeiro ninguém se lembra de chamar-lhe 'húngaro'. Begag, apesar de ser sociólogo, 'beur', criado num bairro de lata, e ministro para a igualdade de oportunidades, foi ostensivamente afastado de qualquer protagonismo na crise.
18.11.05

Os München entraram ontem à noite directamente para o Top 4 d'O Céu para Melhor Banda Portuguesa Ao Vivo, ex-aequo com os Loosers, os Tora-Tora e os Quinteto Tati. Que estas bandas não tenham quase nada a ver umas com as outras não é só mais um sinal do meu electismo, é um excelente sinal de que há muitos bons músicos por cá a apostarem na música que lhes apetece fazer..
Nunca tinha ouvido falar destes München (é pena o nome, não atingi a piada), parece que actuaram muito poucas vezes mas ontem encheram a ZDB, com direito a encore. Vou tentar adjectivá-los. É uma música muito elaborada, inteligente, com sentido de humor, contemporânea, cosmopolita, culta, com instrumentos maioritariamente acústicos (desde mini-acordeões a melódicas a viola de arco e contrabaixo, passando por várias braguinhas, umas electrificadas outras não, e percussões diversas) tocados por multi-intrumentistas muito competentes. A não perder.

Noutro campeonato, gostei muito de ver e ouvir os Divino Sospiro, uma banda portuguesa de música barroca que tocou no sábado passado no CCB dirigida pelo Rinaldo Alessandrini, um dos nomes mais importantes do barroco contemporâneo, que esteve num workshop com eles. O programa era muito interessante, dedicado à influência de Corelli no seu tempo. Os Divino Sospiro existem há pouco tempo e, logo, estão longe de ser um Concerto Italiano (a banda do Alessandrini), mas brilharam, sobretudo num concerto para quatro violinos de um tal de Valentini, de que nunca tinha ouvido falar mas parece que é uma daquelas vítimas inexplicáveis do esquecimento. E sobretudo fiquei muito contente por saber que o CBB tem agora uma orquestra barroca residente. O Pequeno Auditório encheu, o público adorou e teve direito a encore. Que continuem por muitos anos.
17.11.05
Nós, os que alimentamos um pequeno ódio de estimação pela Maria Filomena Mónica, estamos divididos quanto às memórias dela. Impacientes de cusquice, vamos resistir à tentação de comprar o livro, lendo-o aos bocados na Fnac? Ou compramo-lo apesar de tudo, contribuindo para alimentar-lhe ainda mais o ego e a conta bancária mas tapando os olhos no momento da compra, quais comunistas a votarem Soares?
Seja como for, é um acontecimento. As nossas classes médias, as nossas elites intelectuais, falam demasiado pouco de si, nem mesmo através da ficção, e preferem alimentar o voyeurismo mais ou menos neo-realista sobre 'o povo'. Parabéns, portanto, MFM. Espero que façam o filme a seguir.
Seja como for, é um acontecimento. As nossas classes médias, as nossas elites intelectuais, falam demasiado pouco de si, nem mesmo através da ficção, e preferem alimentar o voyeurismo mais ou menos neo-realista sobre 'o povo'. Parabéns, portanto, MFM. Espero que façam o filme a seguir.
10.11.05
Dijon, na região de Burgundy, Sudeste da França, viveu também horas de verdadeiras loucura. E os cidadãos exigem do governo uma resposta eficaz.
(Excerto de notícia do Jornal da Tarde da RTP1, transcrita por um leitor do Abrupto)
'Burgundy' é a designação inglesa para 'Bourgogne', em português Borgonha. Quem escreveu esta peça fê-lo obviamente baseado num meio anglófono, quem sabe um noticiário de outra estação de TV. O ridículo foi acentuado pelo sotaque afrancesado com que o locutor pronunciou uma palavra inexistente em francês. Estes deslizes servem para nos recordarmos da displicência com que a informação é produzida nos media.
(Excerto de notícia do Jornal da Tarde da RTP1, transcrita por um leitor do Abrupto)
'Burgundy' é a designação inglesa para 'Bourgogne', em português Borgonha. Quem escreveu esta peça fê-lo obviamente baseado num meio anglófono, quem sabe um noticiário de outra estação de TV. O ridículo foi acentuado pelo sotaque afrancesado com que o locutor pronunciou uma palavra inexistente em francês. Estes deslizes servem para nos recordarmos da displicência com que a informação é produzida nos media.
9.11.05
Nos subúrbios deserdados reina um terror brando. Quando demasiados jovens não vêem despontar senão o desemprego ou os pequenos estágios ao fim de estudos incertos, acabam por revoltar-se. Por agora, o Estado esforça-se por manter a ordem e o tratamento social do desemprego evita o pior. Até quando?
Jacques Chirac, Outubro 2003

No Público de hoje, Pascal Perrineau põe uma questão perturbante: para além de saber se as políticas contra a exclusão são suficientes, "que fazer contra mecanismos de exclusão social que são provocados pelo desemprego?"
8.11.05
Bouna (no círculo a vermelho), um dos dois miúdos cuja morte desencadeou a vaga de motins em França, 'et ses potes'. A imagem aparece num blog de homenagem, aqui, com a legendavoila bouna et une partie de ses potes sa fé tro plaisir de la voir
e em baixo, noutra foto
Bouna tu restera gravé dan no coeur
Outros blogs citados pelo Le Monde são Les émeutes de France, com uma cronologia dos motins urbanos em França desde 1995,
e o Cités de France, que inclui centenas de fotografias de bairros sociais em toda a França e territórios ultramarinos.
3.11.05

E um dos mistérios da Ria Formosa: como se pode ver, o Ministerio de Hacienda está a contribuir para a manutenção das ilhas. Esperemos que seja a troco de nada. (fotos HS)




Pinturas selvagens no Farol, Ria Formosa, fotografadas pela nossa correspondente no Sotavento Helena Soares.
Não garanto que isto seja verdade, mas suspeito que a grande maioria dos portugueses não sabem que as câmaras municipais são órgãos colegiais, de tal modo as eleições são personalizadas. E que é possível o presidente eleito não ter maioria, o que lhe reduz consideravelmente a liberdade de acção. Isto aconteceu, por exemplo, na câmara de Lisboa eleita em 2001, em que a maioria (relativa) PSD chegou a acordo com o PP para conseguir a maioria absoluta, e também no Porto, em que o vereador do PCP Rui Sá apoiou o PSD de Rui Rio, na mesma situação. Na anterior CML, os vereadores dos partidos de esquerda recusaram qualquer pelouro ou negociação com a maioria relativa PSD, mas Carmona acabou por conseguir recrutar um vereador do PS, Fontão de Carvalho. O PS reagiu indignado, acusando Carmona de falta de ética por ter arrebanhado um vereador deles sem os ter consultado.
Enquanto no Porto Rio obteve agora a maioria absoluta, o cenário de 2001 voltou a repetir-se em Lisboa, com o PSD a obter maioria relativa e os vereadores da esquerda a recusarem pelouros, mas com a diferença de que desta vez a vereadora do PP, Maria José Nogueira Pinto, a subir a parada e a exigir três pelouros para proporcionar a maioria a Carmona. Até agora não houve acordo, e pelo que se soube hoje Carmona viu ser-lhe recusadas uma série de atribuições muito importantes relacionadas com o urbanismo, que desta forma terão de ser votadas na câmara, se entretanto Carmona não chegar a acordo com Maria José Nogueira Pinto.
A mim não me parece nada óbvio que os vereadores da oposição devam recusar pelouros, dado que nas políticas autárquicas a clivagem esquerda/direita não é nada evidente -- basta pensar no rol de apoiantes que José Sá Fernandes reuniu, desde monárquicos a compagnons de route do PCP, passando pelo António Barreto. A única justificação que vejo nisso é a de não quererem trabalhar num projecto alheio e depois o PSD vir colher os louros. Mas se, por exemplo, Ruben de Carvalho aceitasse o pelouro da Cultura, todos ficaríamos a ganhar com isso, e o PCP poderia reivindicar o que fosse feito nessa área. E se as coisas não corressem bem podia sempre demitir-se. Em todo o caso, parece-me que os vereadores da oposição deveriam justificar publicamente a sua recusa. Sobretudo no caso do PCP, dado o precedente: porquê apoiar Rui Rio no Porto e, em Lisboa, deixar que seja o PP a impor condições? Tanto quanto sei, nem os militantes do PCP percebem.
Enquanto no Porto Rio obteve agora a maioria absoluta, o cenário de 2001 voltou a repetir-se em Lisboa, com o PSD a obter maioria relativa e os vereadores da esquerda a recusarem pelouros, mas com a diferença de que desta vez a vereadora do PP, Maria José Nogueira Pinto, a subir a parada e a exigir três pelouros para proporcionar a maioria a Carmona. Até agora não houve acordo, e pelo que se soube hoje Carmona viu ser-lhe recusadas uma série de atribuições muito importantes relacionadas com o urbanismo, que desta forma terão de ser votadas na câmara, se entretanto Carmona não chegar a acordo com Maria José Nogueira Pinto.
A mim não me parece nada óbvio que os vereadores da oposição devam recusar pelouros, dado que nas políticas autárquicas a clivagem esquerda/direita não é nada evidente -- basta pensar no rol de apoiantes que José Sá Fernandes reuniu, desde monárquicos a compagnons de route do PCP, passando pelo António Barreto. A única justificação que vejo nisso é a de não quererem trabalhar num projecto alheio e depois o PSD vir colher os louros. Mas se, por exemplo, Ruben de Carvalho aceitasse o pelouro da Cultura, todos ficaríamos a ganhar com isso, e o PCP poderia reivindicar o que fosse feito nessa área. E se as coisas não corressem bem podia sempre demitir-se. Em todo o caso, parece-me que os vereadores da oposição deveriam justificar publicamente a sua recusa. Sobretudo no caso do PCP, dado o precedente: porquê apoiar Rui Rio no Porto e, em Lisboa, deixar que seja o PP a impor condições? Tanto quanto sei, nem os militantes do PCP percebem.







