27.2.06



Mais luxos nortenhos:


A galeria Mário Sequeira, nos arredores de Braga. Parece que não é fácil de encontrar uma coisa destas: uma localização excepcional, com um relvado enorme de onde se avista Braga ao fundo, e a galeria propriamente dita, muito discreta e elegante (arquitectura de José Carvalho Araújo).



O estádio de Braga, de Eduardo Souto Moura, não desilude, mesmo quem venha com grandes expectativas. Já foi tão fotografado (e ainda por cima aqui em baixo há uma foto dele do Catrica) que prefiro mostrar aqui o mimético bar do lado de fora. É muito duvidoso que a pipa de massa que custou justifique a sua utilização como estádio, mas pelo menos fica como escultura gigante e atracção turística.




De volta ao Porto, as estações do metro são, não direi luxuosas, mas também muito elegantes e discretas, sempre em tons suaves e com estas letras lindas neo-art-déco.


Descobri que estava muito longe de conhecer a Foz. Pobres ricos de Lisboa, refundidos em subúrbios novos-ricos e condomínios de gosto duvidoso. Isto sim é qualidade de vida.


As casinhas oscilam entre estes chalés de influência norte-europeia

e prédios como este, que é do Souto Moura e de que gostei especialmente, com as suas persianas metálicas que permitem pôr e tirar a varanda sem necessidade de marquise,

passando por moradias como estas.

Até as casas de banho públicas do Passeio Alegre são espectaculares.

Enfim, fiquei a achar que a Foz deve ser óptimo para tirar umas férias, com umas incursões a Braga, Viana e ao Gerês.

Intervalo para autopromoção: o Indústrias Culturais publicou uma recensão da Adufe, agenda cultural de Idanha-a-Nova. O design gráfico e concepção editorial são do general Jorge Silva/Silva!designers. A redacção do céu colabora como editor. As fotografias são do Valter Vinagre, do Paulo Muge e do Jorge Silva himself, as ilustrações da Cristina Sampaio e do Gonçalo Viana, e os textos são também maioritariamente aqui da redacção, com a colaboração de vários competentíssimos eruditos locais. O resultado, modéstia à parte, é bastante agradável. Um pequeno luxo.

24.2.06



Eflúvios Magnéticos II, de Pedro Paiva e João Maria Gusmão, na ZDB. Pelo menos tão boa como a primeira e melhor que a exposição no Museu do Chiado. A não perder, antes que o gelo derreta.

Nuno Ramalho, instalação com 100 notas de 5 euros recortadas em forma de borboleta, na galeria Graça Brandão, Porto.

Amputação barroca da perna, segundo um tratado cirúrgico da primeira metade do século XVIII, numa exposição no Museu Botânico do Porto. O que me impressiona nesta gravura é imaginar que estas pessoas desconheciam totalmente o que provocava as infecções, e, logo, a importância da assepsia. Cerca de metade dos operados morriam da cura, por infecção. Para não falar que ainda não tinham inventado a anestesia.

Porto, 22-02-06








Afurada, 22-2-06



Metro do Porto, 23-02-06

20.2.06



Parece que o balanço entre as características positivas e negativas dos estereótipos que são atribuídos aos países acaba por ser negativo para Portugal, o que é fomentado, em grande parte, creio eu, pelos próprios portugueses e em especial pelas suas elites. Na Europa, o outro grande exemplo é a Bélgica. Uma pessoa diz que vai passar uns dias à Bélgica e é logo objecto de olhares condescendentes ou piedosos, o que não acontece com mais país nenhum, que eu tenha dado por isso. Eu não percebo o que é que a Bélgica pode ter assim de tão mau, e é um dos dois países que conheço melhor, juntamente com a Espanha. Gosto imenso de lá ir, nem que seja pelos fantásticos cafés e cervejarias de Bruxelas, e acho fascinantes os esforços mirabolantes que a Bélgica faz para evitar a desagregação, que só não me parece provável de acontecer a curto prazo por existir a União Europeia.

O Courier Internacional desta semana dedica algumas páginas aos 175 anos da fundação do reino, e repesca um artigo do Guardian escrito por um britânico lá expatriado que, depois de referir a obesidade dos belgas por, claro, comerem muitos chocolates e batatas fritas com mexilhões, afirma que o verdadeiro problema (toda a gente sabe que eles têm um problema, embora eu nunca tenha percebido qual) dos belgas é sofrerem de um complexo pelas atrocidades que terão cometido no Congo, as quais teriam alimentado a prosperidade do país durante imenso tempo (como quem diz, num país povoado por belgas o dinheiro tinha de vir de outro lado, e claro que a prosperidade não pode ter a ver com o facto de ser um dos primeiros países industrializados da Europa, quase 100 anos antes da aventura do Congo, com uma indústria pesada que sustenta uma balança comercial positiva). O argumento do complexo colonial não deixa de ser inesperado para quem vem do país que teve o maior e mais duradouro império colonial de sempre, mas enfim, os estereótipos não costumam ser racionais. O artigo original está aqui.

17.2.06



Madrid, 22-12-05

Entretanto recebi uma simpática carta das relações públicas do CCB, na sequência duma reclamação que lá deixei no respectivo livro e de que já falei aqui:


Exmo. senhor


Analisámos cuidadosamente a sua observação na qual se opõe a que que um instituição privada, no caso particular o Banco Espírito Santo, ofereça bilhetes aos seus clientes para a exposição BES Photo, patente neste centro.

Importa referir que a Fundação Centro Cultural de Belém, gestora do Centro Cultural de Belém, é uma instituição de direito privado e utilidade pública, que estabelece parceiros ao abrigo da Lei do Mecenato.

Gostaríamos ainda de esclarecer que não se trata de uma exposição do BES, mas sim do Centro Cultural de Belém, com o apoio Mecenático do Banco Espírito Santo.



Ou seja, ficamos na mesma. O CCB é gerido por uma fundação de direito privado, tal como Serralves e outras instuições culturais que são, no entanto, propriedade do estado e construídas com financiamento estatal. Acresce que, pelo menos no caso do CCB, é do estado que provém a esmagadora maioria do dinheiro que o mantém em funcionamento.

A oferta de bilhetes por um mecenas é uma operação de marketing que não se coaduna, julgo eu, com o espirito da lei do mecenato. E vai contra a lógica de funcionamento duma instituição como o CCB. A haver descontos, deveriam fazê-los a categorias de pessoas economicamente desfavorecidas, e nunca aos clientes do mecenas. Se o mecenas quer comparticipar no preço dos bilhetes, que o faça para toda a gente -- e poderia, por exemplo, pagar metade do preço, que de resto me parece excessivo (3,50 euros). Não me parece que a lei do mecenato contemple a realização de operações de marketing.

Isto pode parecer uma coisa sem importância -- afinal, é uma simples exposição no CCB, o CCB é uma bosta, são todos uns bandidos, etc. A mim deixa-me indignado e parece-me um precedente perigoso contra o qual se deve protestar. Quem concordar com esta posição, e for ver a exposição do BES Photo, pode reclamar usando o livro de reclamações que está ao vosso dispor no balcão do lado esquerdo de quem entra.

15.2.06



(c) Paulo Catrica


Paulo Catrica não ganhou o prémio BES Photo, como toda a gente já adivinhava

13.2.06



A mim também me faz confusão a quantidade de gente que de repente aparece com tantas certezas sobre a civilização ocidental, a civilização muçulmana, a cultura de não sei onde. Eu nem sequer tenho a certeza de esses conceitos corresponderem a alguma coisa, quanto mais.

10.2.06



A propósito da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma defesa dos direitos iguais para as uniões de facto, impecavelmente argumentada, aqui.

Já antes tinha aqui elogiado as tardes da Radar (Lisboa, 97.8 FM) com Pedro Ramos, mas ainda não tinha ouvido o melhor: a final do OK Computador, às sextas-feiras, uma espécie de top semanal das cinco melhores músicas com uma característica estapafúrdia qualquer em comum. Chorei a rir. Parece-me haver na Radar um gozo de fazer rádio que julgava ter desaparecido de vez Apesar da publicidade (o que é chato, mas espero que lhes dê imenso dinheiro para prosseguirem) e das playlists (que fazem com que seja melhor o ouvinte fazer intervalos de umas semanas de vez em quando).

O meu lado reaccionário fica com pena de cada vez que acaba um meio de transporte obsoleto. Desde que este blog existe, finaram-se, em 2004, os velhos barcos do Barreiro (fotos aqui), e agora o jurássico comboio do ramal de Évora (mal sabia eu que esta seria a minha última viagem nele).
Tanto o barco do Barreiro como este comboio eram hoje em dia uma espécie de heavy metal dos transportes que só fanáticos como eu apreciavam -- barulhentos, trepidantes e desconfortáveis, absolutamente desprovidos de plástico e com pormenores deliciosamente anacrónicos como as tubagens de ferro cobertas de grossas camadas de tinta e caixilhos das janelas em madeira.
Mas enfim, ainda bem que o velho comboio acabou. A Refer promete uma linha novinha em folha até ao Verão, a CP assegura que finalmente haverá o intercidades para Évora ainda este ano e estou certo que será um sucesso, como tem acontecido sempre que há uma modernização dum comboio. Conto lá ir na inauguração.

8.2.06



Pensando melhor, os muçulmanos não podem produzir caricaturas com personagens sagradas do cristianismo, uma vez que elas próprias são sagradas para o islão, incluindo Jesus. É uma incontornável desvantagem numa eventual guerra religiosa de caricaturas.

7.2.06



Entretanto, parece que o meu apelo de ontem foi mal interpretado: segundo o Público, um jornal iraniano abriu um concurso de caricaturas sobre o Holocausto. Não era bem essa a ideia, caros conterrâneos. Estava mais a pensar numa série de caricaturas envolvendo Jesus, Maria, os apóstolos, etc., nas mais variadas situações escrabrosas e depravadas. Dava muito mais resultado.

Aliás, escapa-me a lógica da ideia de responder aos insultos a Maomé com piadas antijudaicas. Os judeus são simples pessoas, e Maomé é Maomé. Parece-me uma falta de respeito pelo profeta.


Anda um pobre bloguista a digitalizar uma imagem persa do Maomé, escondido na caverna com o seu companheiro e futuro sogro Abu Bakr, e prepara-se para pô-la no ar quando repara que o Público lhe roubou a ideia. Tá mal.

Segundo a minha fonte (Les Collections de L'Histoire, nº 30, Janeiro 2005), as representações do profeta de rosto foram comuns no Irão do século XIV e no império otomano do século XVI, após o que passaram a ser cada vez mais raras, aparecendo mais frequentemente, a partir daí, Maomé com o rosto encoberto, como se pode ver na imagem abaixo:


Da esquerda para a direita, Moisés, o anjo Gabriel e Maomé, em amena cavaqueira no Céu, segundo um manuscrito otomomano do século XVI.

Não encontro explicação para isto: pelos vistos, o problema não é tanto a representação da figura humana, nem de seres celestes, nem sequer de Maomé, mas sim, principalmente, a do rosto do profeta.

6.2.06



Um artigo duma lei francesa, promulgada em Fevereiro de 2005, incita os historiadores a darem "à história da presença francesa no ultramar o lugar que ela merece" e estabelece, para os professores do ensino secundário, a obrigação de evocar nas aulas "o papel positivo da presença francesa no ultramar".

Em Novembro passado, Olivier Pétré-Grenouilleau, um historiador que publicara recentemente um livro sobre o tráfico de escravos, foi processado judicialmente por "negação de crime contra a humanidade" (a escravatura foi oficialmente declarada com tal por uma lei de 2001) pela organização Collectif DOM, na sequência duma entrevista do historiador (notícia aqui) onde este "relativizava" a importância dos europeus no esclavagismo, recordando que o tráfico já existia antes da chegada dos europeus e persiste até aos nossos dias, sempre praticado por africanos contra outros africanos. Aqui está outra entrevista com Pétré-Grenouilleau.

Na sequência destes dois episódios, um grupo de historiadores publicou o manifesto Liberté pour l'histoire, entretanto transformado em associação. O manifesto exige a revogação das leis que permitem que um historiador possa ser processado em tribunal por manifestar opiniões alegadamente 'discordantes' do disposto na lei: a que classifica de crime a negação de um crime contra a humanidade; uma segunda que reconhece o genocídio arménio; a mencionada lei sobre o tráfico de escravos; e a também já citada lei sobre o "papel positivo da colonização francesa".

O manifesto inicial (que pode ser lido aqui) foi assinado, entre outros, por Paul Veyne, René Rémond (que preside à associação) e Marc Ferro.

Parece-me que os muçulmanos têm razão quanto à irrepresentabilidade de Deus (o que não lhes confere, claro, o direito de impedir qualquer pessoa de fazê-lo). Já a irrepresentabilidade de Maomé, e da figura humana em geral, parece-me mais discutível, e de resto esta concepção nem sempre vigorou ao longo da história. No relato abaixo, os nossos antepassado lisboetas muçulmanos gozam com os cristãos por admitirem a redução de Deus a uma forma humana, o que faz todo o sentido. Mas também não me parece que, naquele tempo, impedissem os cristãos de representarem Cristo.


As representações antropomórficas de Deus são raras no cristanismo. Até no Google são muito difíceis de encontrar. Na verdade, o único exemplo de que lembro é este senhor de barbas grisalhas no tecto da Capela Sistina. É mesmo absurdo, sobretudo por causa das barbas, que não me parecem coadunar-se com o conceito de um deus eterno. Se bem que se pode argumentar que Deus pode aparecer da forma que quiser, mas nesse caso porquê representá-lo?



As representações não antropomórficas são raras. Só me ocorre este símbolo do triângulo com o olho, que fiquei muito espantado ao ver pintado no tecto duma igreja católica, e que é mais conhecido das notas de dólar. É também usado pela maçonaria como representação de Deus, ou coisa parecida, mas ignoro a origem. Parece que nos EUA há controvérsia sobre o significado deste símbolo nas notas, e principalmente sobre se indicaria uma filiação maçónica dos fundadores dos EUA.

Apesar das consequências eventualmente nefastas, não consigo deixar de achar hilariante o episódio das caricaturas de Maomé. Sendo certo que uma onda de caricaturas equivalentes, na Europa, sobre o cristianismo, poderia ter consequência imprevisíveis.

Atrevo-me a sugerir aos nossos conterrâneos muçulmanos que respondam à provocação, não com violência, mas com cartoons. A não ser que a religião os proíba de desenhar ícones cristãos, mas mesmo que assim seja o problema resolve-se com um édito. E há pelo menos um antecedente.

Além dos Monty Python, o episódio recordou-me irrestivelmente um famoso relato da conquista de Lisboa aos mouros, escrita por um cruzado inglês cuja identidade não se conhece ao certo. Conta ele, a certa altura, que, durante o cerco a Lisboa, os mouros se divertiam, do alto das muralhas, a provocar os cruzados:

Em arruídos e palavras injuriosas e insultantes, afrontavam constantemente a Santa Maria, mãe do Senhor, amesquinhando-nos porque adoramos com tanto respeito, como a um Deus, o filho duma pobre mulher, e dizermos que é Deus e filho de Deus, quando é evidente que só há um Deus, por quem foram criadas todas as coisas que têm princípio; que não pode existir outro que lhe seja coeterno e participante da divindade; que Ele era a suma Bondade, Perfeição e Omnipotência, e que, sendo omnipotente, era indigno e blasfemo restringirmos a um corpo humano e às formas dos membros o tão grande poder duma tão alta divindade; que nada julgavam mais insano e contrário à nossa salvação do que acreditarmos em semelhantes coisas; e perguntavam-nos porque não afirmámos antes que esse Filho de Maria era um dos maiores profetas, já que ao homem não é lícito usurpar o nome de Deus
Caluniando-nos, vociferavam contra nós estas e outras blasfémias semelhantes. Mostravam-nos também com grande irritação o sinal da cruz, cuspiam-lhe em cima, limpavam com ela a sujidade posterior, e depois de urinarem sobre ela, atiravam para cima de nós, como um supremo opóbrio.*

Fora esta última parte, que me parece de facto algo excessiva e indelicada, o que me espanta neste relato é a solidez da argumentação teológica dos mouros, a que, aliás, o autor não responde, e a consciência de se tratarem de duas religiões muito próximas -- uma consciência que se perdeu, o que é notório, por exemplo, no disparate diariamente repetido de que os muçulmanos adoram Alá, quando esta é apenas a palavra árabe para Deus, e também usada pelos cristãos arabófonos. De resto, ao longo de todo o livro fica a sensação de que a razão está do lado dos muçulmanos, tanto nestas questões teológicas como nas justificações para não entregarem a cidade aos cristãos -- que ainda por cima se portaram muito mal, saqueando e destruindo tudo o que puderam, infringindo o que tinha sido acordo com os mouros e chegando ao ponto de degolaram o próprio bispo cristão de Lisboa.

Perdoem-me esta divagação, e fico então à espera das tais caricaturas.

*In Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um cruzado inglês que participou nos acontecimentos, p. 52 Tradução do latim por José Augusto Oliveira, apresentação e notas de José da Felicidade Alves, Livros Horizonte.


A entrada para a exposição do BES Photo, no CCB, é gratuita para os clientes do BES e para todos os outros cidadãos custa 3,50 euros.

Já tinha lido isto algures, mas depois de a menina da bilheteira me ter perguntado se eu era cliente do BES quando ia a comprar bilhete, fiquei tão mal disposto que só me apetecia vandalizar a exposição toda.

Ou seja: uma empresa privada patrocina uma exposição numa instituição pública e depois oferece os bilhetes aos seus clientes. Que os facínoras do BES façam uma coisa destas, não me admira; mas que o CCB aceite participar num operação de marketing assim parece-me uma vergonha inconcebível.

Há, de certo modo, um precendente disto, que é a Culturgest oferecer bilhetes aos seus muitos milhares de funcionários, com a consequência de que muitos espectáculos esgotam com pessoas que não estão interessadas naquilo que vão ver, enquanto quem quer ver porque gosta e está disposto a pagar não consegue bilhete. A mim já me aconteceu várias vezes. Mas enfim, isto insere-se, de certo modo, numa velha tradição (muito discutível) de as empresas oferecerem os seus serviços gratuitamente aos funcionários.

O caso do BES Photo é diferente. Se o BES resolver exposições e espectáculos aos seus clientes, diria que era uma prática aceitável desde que o fizessem em instalações privadas, e que não beneficiassem de qualquer incentivo fiscal por mecenato.

Depois deste precedente, é possível imaginar um cenário em que, por exemplo, os clientes do BPI iriam à borla ou com desconto às óperas do São Carlos, os do BCP às peças do D. Maria, a Sonae ofereceria descontos para Serralves para quem fizesse compras de mais de 50 euros no Continente, etc.

Nesse caso, para ficar tudo em igualdade de condições, proponho a privatização imediata de todas as instituições culturais e a revogação da lei do mecenato.

4.2.06





Confesso que, depois de ter feito o post abaixo sobre o porto de Lisboa, fiquei a remoer uma citação no final do artigo do Público que referi. Diz Teresa Sá Pereira, responsável da APL, que "em Hamburgo há um grande orgulho da cidade pelo seu porto. Em Lisboa isso não acontece. É uma pena".

É um excelente exemplo do tipo de afirmações gratuitas que os responsáveis políticos portugueses usam para disfarçar a sua incompetência, confiando na ignorância e na tradicional auto-maldicência dos portugueses. Hamburgo, tal como Le Havre ou Roterdão, são citados pela APL como exemplos de cidades que estão a ampliar os seus portos. É uma comparação idiota. Em nenhuma destas cidades, que eu saiba, o porto está em pleno centro da cidade, nem interfere com a vivência dos seus habitantes como acontece em Lisboa. Além de que o enorme estuário do Tejo (para não falar do do Sado) admite muitas localizações para o porto que não no centro da cidade. E há os contra-exemplos de Londres e de Barcelona, onde se optou por reconverter as zonas portuárias.

E depois, que sentido faz falar da alegada 'falta de orgulho' dos lisboetas pelo porto? Como é que a Teresa sabe se esse 'orgulho' existe ou não? Pelo que me toca, não me orgulho de nada, nem em Lisboa nem em qualquer ponto do planeta, simplesmente gosto, ou então não me interessa. E adoro portos, incluindo, claro, o de Lisboa. Mas não gosto que a APL me vede o acesso a zonas desactivadas do porto, sem qualquer justificação.

No mesmo artigo, há ainda uma afirmação extraordinária dos responsáveis da APL: a de que a localização dos terminais de contentores em Lisboa é vantajosa porque retira muito tráfego de pesados das estradas para sul e das pontes sobre o Tejo. Quer isto dizer, presumo, que acham preferível o tráfego dos ditos pesados fazer-se pelo meio da cidade de Lisboa. Tirem-me daqui.

Podia ser suspeito ao dizer isto, mas não. A exposição do Carlos Miguel Fernandes na galeria do Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço, é uma das melhores que tenho visto. Paisagens urbanas estáticas, sem pessoas, escuras, artesanais, com muito grão, impossíveis de serem apreciadas num ecrã de computador. Até 28 de Fevereiro, das 8h às 20h.



Que livro lindo me mostraram hoje na Livraria Portugal. Reproduz 'La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos', publicada pelo cosmógrafo português Pedro Texeira em 1634 para o rei Felipe IV, e inclui 21 mapas do litoral português. Uma maravilha.

3.2.06




Já escrevi por duas vezes sobre a ampliação do terminal de contentores de Alcântara, aqui e aqui, e sobre o problema mais geral da escassez de acessos à beira-rio. Recapitulando, em toda a zona que vê acima, há actualmente dois ou três locais em que pode aceder ao Tejo: o Jardim do Tabaco, o Cais do Sodré, mais um bocadinho em Santos e outro em Alcântara. A zona da Bica do Sapato foi vedada recentemente, apesar de aparentemente não estar a servir para grande coisa, e uma grande zona entre Santos e a Rocha Conde de Óbidos está aparentemente desactivada mas vedadíssima. A ampliação do terminal de Alcântara ameaça agora a zona da Doca do Espanhol e da Gare Marítima. Para quem mora no centro de Lisboa, a maneira mais simples de andar à beira rio é apanhar o cacilheiro e seguir pelo cais do Ginjal.Um assunto que não parece preocupar quase ninguém.

Qual não foi o meu espanto quando, há umas duas semanas, li no Público as que foram, tanto quanto me apercebi, as primeiras declarações públicas de um responsável político sobre o assunto, vindas, nada mais nada menos, do presidente da câmara, que se manifestou radicalmente contra a ampliação do terminal, queixando-se que a CML não foi tida nem achada no assunto e que desconhece totalmente os planos da APL para Alcântara, e interrogando-se porque raio o terminal tem de ficar naquele sítio.

O anterior governo tinha negociado com a Liscont, concessionária do terminal de Alcântara, a tranferência para Santa Apolónia, o que foi posto de parte pelo actual governo. Ao que parece, haveria um impedimento complicado: o contrato com a PSA, concessionária do Porto de Sines, teria uma cláusula pela qual o governo português se comprometia a não fazer dragagens em nenhum outro porto de modo a aumentar a sua profundidade, para evitar a concorrência com Sines. Como a transferência do terminal da Liscont para Santa Apolónia implicava dragagens, isso implicaria o imcumprimento do contrato com a PSA e, presume-se, uma pesada indemnização.

Ora, uma notícia no Público de hoje anuncia a finalização de dragagens no rio, destinadas a aumentar a capacidade dos terminais de contentores de Santa Apolónia, Poço do Bispo e Beato.
Comentando as afirmações de Carmona Rodrigues, a APL diz que elas "não fazem sentido", dado que o terminal da Liscont é o que tem "a melhor implantação" e que "não faz sentido os cais de contentores ficarem longe da cidade", e que a CML "terá oportunidade de se pronunciar" no âmbito da discussão do Plano Estratégivo do Porto de Lisboa, que deverá estar concluído no segundo semestre deste ano.

Tudo isto me parece absurdo. Afinal sempre há alternativas a Alcântara, mas a APL continua, como sempre, a marimbar-se no impacto que as suas decisões têm na cidade e não apresenta nenhuma razão de força para insistir na ampliação do terminal de Alcântara. Toda a zona entre Santos e Alcântara poderia ser desafectada dos contentores e dedicada, por exemplo, aos cruzeiros e à navegação de recreio. A cidade ganharia imenso com isso. Espero que, quando for a altura da discussão do Plano, não seja só a CML a pronunciar-se.

Mais um micro-road-movie, aqui.

2.2.06



Mais outro filmezinho, aqui. Desde há um ano e tal, tenho registado imagens a partir de todos os meios de transporte que utilizei, desde barcos a aviões, passando por carros, camionetas e elevadores. Agora que penso nisso, falta-me a bicicleta, que é a única máquina de transporte que sei conduzir.

Entretanto, talvez alguém me saiba explicar porque é que não consigo ter os filmes reproduzidos numa janela do blog. Suponho que será do formato (.wmv). Alguém conhece uma maneira de passar o wmv para um formato mais simpático como o Quicktime (sem gastar dinheiro)?

1.2.06



Parece que há um problema. Não consigo pôr os vídeos aqui como queria. Mas podem descarregar o primeiro aqui.

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