31.3.06
Há imensos anos que há muita gente convencida de que as linhas da margem direita do Douro já não existem, o que não é bem verdade. As linhas do Tâmega, Corgo e Tua lá continuam, se bem que amputadas de grande parte dos seus percursos. Não conheço a do Tua; a do Corgo, que vai de Vila Real à Régua por entre aldeias e encostas com socalcos de vinha, é uma das linha mais bonitas que conheço, juntamente com o percurso da linha do Douro entre a Régua e o Pocinho. A CP ameaça de novo acabar com estas linhas, já neste ano (ver notícia em pdf aqui). Pelo que se torna urgente (re)visitá-las, dado que a CP não costuma avisar da data de fecho.
27.3.06
Foi assim com o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, e antes disso, pelo que me contam, com o edifício sede, que era censurado pela sua falta de monumentalidade e pelo betão à vista, interpretados como forretice da milionária fundação; com as torres das Amoreiras; e com o CCB. A lógica da contestação é de dífícil discernimento: o escândalo que foram as Amoreiras foi a par com a indiferença pelo revivalismo neonazi da sede da CGD no Arco do Cego (JA França dixit), cuja construção só foi contestada por ter sacrificado uma antiga fábrica de tijolos; o CCB, construído em terrenos devolutos, foi acusado de lesa-património e mamarracho; mais recentemente, a destruição do melhor da Lisboa oitocentista, desde a Avenida às Avenidas Novas, tem-se feito perante a indiferença geral, enquanto a recuperação dum quarteirão abandonado do Bairro Alto, sem qualquer valor patrimonial, provocou a indignação geral; a transformação do Colégio dos Inglesinhos em habitação de luxo foi objecto duma campanha completamente histérica e irracional, enquanto a destruição da antiga doca e do mercado do Cais do Sodré (um sítio carregado de memórias antiquíssimas) para a construção dum interface de implantação e arquitectura muito duvidosas foi ignorada. E nem escapam à má-língua as intervenções do Siza no Chiado, primeiro, e no buraco da Rua do Alecrim, depois, apesar de ser difícil imaginar soluções mais conservadoras e respeitadoras do sítio.
Na verdade, a resistência à inovação vem pelo menos do século XIX. A Baixa pombalina, que agora se pretende candidatar a património mundial, foi vilipendiada por alguns dos mais ilustres intelectuais portugueses, desde Almeida Garrett e Alexandre Herculano a Júlio de Castilho e Raul Proença.
Garrett qualifica a Baixa de 'vulgar e arratada prosa' com 'vilãs, tão ridículas e absurdas construções públicas'; Júlio de Castilho, considerado o primeiro olisipógrafo, fala de 'aprumado mau gosto' numa urbanização 'simétrica e pesada como a ideia policial'; e Raul Proença lamenta que Pombal não tivesse tido 'tempo nem recursos para erguer construções solenes ou pomposas'.
Expoentes da arquitectura modernista como Carlos Ramos, Cotinelli Telmo, Cassiano Branco e Tertuliano Marques partilhavam de opinião semelhante e propuseram, em 1934, um 'plano de melhoramento estético do Rossio'.
A primeira excepção veio de outro dos principais arquitectos modernistas de Lisboa, Pardal Monteiro, autor, por exemplo, do Técnico, das gares marítimas e do Hotel Ritz. Completamente em contra-corrente, Pardal diz, em 1949, que 'Felizmente, para Lisboa de então e até para os lisboetas de hoje, os homens dessa época tiveram bem o sentido das realidades', louva 'a coragem, a inteligência e o talento do Arquitecto Eugénio dos Santos' e considera o projecto da Baixa 'qualquer coisa de tão grande, de tão perfeito, de tão razoável, de tão português e ao mesmo tempo de tão universal, que se pode considerar no conjunto, sem receio, como do melhor que a história da arquitectura regista em Portugal'.
No entanto, a consagração da Baixa só aconteceria após a publicação, em 1965, da versão portuguesa da tese de doutoramento de José-Augusto França 'La Lisbonne de Pombal -- Une ville des Lumières', na sequência do que França é convidado pela CML, dois anos depois, para definir a área a classificar, evitando, nas palavras do próprio, 'perdas patrimoniais graves'.

Depois da Baixa, o empreendimento mais importante em Lisboa foi a abertura da Avenida da Liberdade, que motivou um abaixo-assinado com duas mil assinaturas promovido por Ramalho Ortigão, para quem a Aveinda era um 'presente funesto', 'de uma concepção bem tristemente pretenciosa' que 'não serve senão para espalhar os maus hábitos do café e do trottoir, o amor da ostentação, a ociosidade, o boulevardismo, a cocotice, o luxo pelintra da toilette'.
O outro autor de 'As Farpas', Eça de Queirós, falava assim da Avenida: 'Dos dois lados seguiam, em alturas desiguais, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco'. E comentava que 'Este Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrageiro (...) como lhe falta o sentimento da proporção (exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura'. Para Fialho de Almeida, a Avenida era, em 1894, 'um corredor de cantaria', um 'bisonho canal de casarões saloios que arrotam sobre a via, chatos e altíssimos'.

Uns anos mais tarde, em 1906, quando da urbanização das Avenidas Novas, o mesmo Fialho de Almeida escrevia que as casas aí edificadas não passavam de 'fábricas de moagem de seis andares', com palacetes dignos de 'teatros de província' e 'casarões sem estilo nem elegância, sem conforto e sem beleza'.
Ressano Garcia, engenheiro formado com uma das mais altas notas do seu curso na famosa École des Ponts et Chaussés de Paris, responsável, enquanto director da Repartição Técnica da CML a partir de 1874, pela abertura da Avenida da Liberdade, dos bairros a esta adjacentes, e das Avenidas Novas, acabaria por ser demitido, em 1907, por ter tentado controlar a especulação imobiliária dos 'patos bravos' nos novos bairros, e cairia definitivamente em desgraça até à morte, em 1911.
Fontes: Joana Cunha Leal, 'Legitimação artística e patrimonial da Baixa Pombalina', in 'Monumentos', 21 (Set. 2004), DGEMN; J-A França, 'Lisboa: Urbanismo e Arquitectura' (1997), Livros Horizonte; Raquel Henriques da Silva, 'Lisboa de Frederico Ressano Garcia' (1989), Gulbenkian/CML
Entretanto, dizem-me que La Giuditta, de Francisco António Almeida, que também vai ser tocada no CCB, é uma obra-prima e foi gravada pelos Concerto Koln com René Jacobs -- uma óptima referência, e mais uma vez parece que em Portugal somos os os últimos a saber da música que cá se fazia antigamente.
23.3.06
Parece que o Cinema Batalha ficou lindíssimo. Da última vez que lá passei ainda estava em obras, mas fiquei surpreendido com aquele edifício modernista tão bonito, tão elegante, por onde tinha passado tantas vezes sem reparar. Há mais fotos e comentários aqui. Estes gajos do Porto começam a irritar-me. Não tenho aqui nada recente para mostrar.
Esta é a minha short list, por agora e com a pouca informação que tenho.
Depois de quase me ter convertido pela segunda vez ao catolicismo na igreja do Loreto (a primeira foi na visita à Sagrada Família do Gaudí) a ouvir as lições de
Couperin, o Grande, pelo Gérard Lesne, não sei se arrisco outra vez.
Já ouvi duas vezes a Chiara Banchini com o Ensemble 415, e, não sendo geniais, são muito simpáticas/os e vou repetir, agora com Vivaldi.Os La Venexiana devem esgotar instantaneamente como aconteceu das outras vezes a ver se desta consigo vê-los no Scarlatti.
Handel foi um genial compositor de ópera, só recentemente redescoberto -- nunca ouvi ao vivo e não posso perder esta oportunidade.
Não sabia que o Pierre Hantaï deu em maestro. Como cravista é genial, com uma presença muito peculiar, quase como um guitarrista heavy metal virtuoso -- também imperdível portanto, e outro esgotanço instantâneo provavelmente. Os outros concertos do Bach, são Bach. Nunca ouvi as suites para violoncelo ao vivo; as suites para orquestra já, e pela Akademie fur Alte Musik (também no Loreto, num concerto com o Andreas Scholl), e não são das minhas preferidas dele, mas mesmo assim.
Vejo com tristeza que o Telemann continua a ser discriminado -- ó João Sebastião Ribeiro, convence lá esta gente que o teu amigo e compadre também é genial.
22.3.06
Estas marcas surgem de 30 em 30 metros entre Santos e a Rocha Conde de Óbidos e, tanto quanto percebo, estão pintadas sobre a vedação do antigo estaleiro da Lisnave, que entretanto mudou de nome e suponho estar hoje desactivado, assinalando a distância que falta até à entrada. São um bocado intrigantes e parecem-me irónicas, ou sádicas, como se fossem uma intervenção artística sobre a frustração de não se poder ver o rio. (foto amavelmente enviada por uns leitores que também gostam de passear à beira-rio)
21.3.06
20.3.06
Tem qualquer coisa de versão aquática dum Volkswagen e dum Mercedes anos 1960, na napa dos bancos, no desenho impecável e nas algo luxuosas escadas de madeira.
Uma pequena esplanada à popa
de onde se vê Belém assim.
Chama-se Trafaria Praia e nasceu em 1960 nos Estaleiros Hanseáticos de Hamburgo.
16.3.06
O famoso problema das marquises, um dos lugares comuns que supostamente ilustra o alegado mau gosto dos portugueses, ingratos que assim desbaratam de ânimo leve magníficas varandas que os arquitectos portugueses insistem em proporcionar-lhes, sabe-se lá porquê.Quanto a mim o problema é dos arquitectos e não dos utentes. Repare-se neste exemplo colhido na zona da Conde de Redondo: para que raio servem estas varandas? Quem é que, numa cidade do século XX, quer estar à varanda? Para quê? A ver passar os carros? Munido de binóculos a ver quem passa na rua? Isso também se faz duma simples janela. É um espaço inútil, logo fecha-se.
Quando as coisas não funcionam o problema é sempre de quem as desenhou, nunca de quem as utiliza.

Uma excelente introdução ao choro, com alguns dos grandes históricos como Pixinguinha e Abel Ferreira, e um som bastante bom. No link pode-se ouvir extractos.
15.3.06
14.3.06
Um passeio pelo porto de Lisboa, de Santa Apolónia a Alcântara:
Entra-se por esta passagem de nível pedonal, debaixo do viaduto da Infante D. Henrique, junto à paragem do 46. Do lado de lá temos a entrada do Terminal Multipurpose de Lisboa, ali à esquerda.
Do lado direito, este velho quiosque.
Ultrapassando um sinal que diz 'Proibida a passagem a pessoas estranhas', podemos percorrer este cais semiabandonado.
Lá ao fundo costumam estar as gruas-fetiche do Lux. Aqui tem de se voltar ao ponto de partida e seguir ao longo da vedação até à Bica do Sapato.
A zona da Bica do Sapato parece uma área de alta segurança militar, com arame farpado e tudo. Ao que parece, o Manuel Reis e companhia conseguiram substituí-lo aqui por uma rede menos feia.
A zona das lojas e restaurantes está vedada por vidros. O restaurante Bica do Sapato manteve a vista impecável. É óptimo para se beber um copo à tarde, com música óptima e preços razoáveis. Não estava lá ninguém nesta tarde.
Uma das entradas para a tal zona de alta segurança, onde costumam estar uns inofensivos navios em pequenas reparações, ou simplesmente à espera de lugar noutro sítio.
Isto é a Gare Marítima de Santa Apolónia, não sei se já ouviram falar. Às vezes fazem lá umas festas.
Segue-se um parque de estacionamento, com este toque manuelreisiano.
Continuando, passamos pela doca do Terreiro do Trigo. Na parte norte existiu em tempos uma marina e um clube náutico. A parte sul está igualmente abandonada. Este barco naufragado já apareceu há dois anos aqui no blog, exactamente na mesma posição mas um pouco menos degradado.

A seguir fica o Jardim do Tabaco, com os seus bares e restaurantes, e a beira-rio muito degradada, quem sabe se à espera da decisão sobre a transferência da feira popular. É um dos dois bocadinhos não vedados, juntamente com o que fica entre a Ribeira das Naus e Santos.
Segue-se a doca da Marinha, que não parece tão abandonada, mas simplesmente com falta de barcos. Tem um parque de estacionamento bastante activo, suponho que para uso exclusivo de militares e suas famílias.
Passando as obras do metro do Terreiro do Paço (há quanto tempo? Dez anos? Alguém se lembra do Cais das Colunas?), temos, a meio do muito degradado passeio ribeirinho que vai até ao Cais do Sodré, esta curiosidade: a estação fluvial fantasma da Ribeira das Naus, condenada ao limbo antes da inauguração.
O Cais do Sodré é a única zona mais frequentada até aqui.
No pequeno troço entre o Cais do Sodré e Santos há algumas esplanadas e restaurantes, e também este lindo parque de estacionamento. Há uns anos atrás, a morte duns putos idiotas que se atiraram com o carro para debaixo do comboio foi o pretexto para a extinção da passagem da 24 de Julho para a beira-rio, em frente à D. Carlos I. Agora, quem não entrar no Cais do Sodré tem passar pela passagem aérea sobre a estação de Santos, uns dois quilómetros mais à frente, e andar junto à vedação mais um quilómetro para trás.
E depois mais uma vedação. Do lado de lá, nada.
O rio só volta a aparecer uns quilómetros depos, em Alcântara, depois do terminal de contentores, neste bocadinho de cais à entrada da Marina, onde os pescadores se misturam impassíveis noite fora com os noctívagos do Op Art, um dos bares mais bonitos de Lisboa.
Nesta foto aérea do Tiago Figueiredo vê-se uma parte da zona abandonada do porto, entre Santos e a Rocha Conde de Óbidos, a doca da Marinha, e lá ao fundo vislumbram-se a Vigorosa e a Poderosa, em frente ao Panteão.
Entre o Terminal Multipurpose e o Terminal de Contentores de Alcântara são vários quilómetros (quatro? cinco?) de porto, quase sempre vedado. Inutilmente, tanto quanto se percebe. No centro de Lisboa, com um estuário deslumbrante. Para nada. À espera que nos esqueçamos que ele existe.
8.3.06


IMP, NERVAE, TRAJANO, CAESARI AUGUSTO,
Tradução em espanhol:
Se dedica este templo al emperador Nerva Trajano, César Augusto, vencedor de Alemania y Dacia
Abaixo desta epígrafe há outra:
ARS UBI MATERIA VINCITUR IPSA SUA.
QUIS QUALI DEDERIT VOTO FORTASE REQUIRET
CURA VIATORUM, QUOS NOVA FAMA JUBAT
IN GENTEM BASTA PORTERAT, QUI MOLE PEREGIT
SACRA LITATURO FECIT HONORE LACER
QUI PONTEM FACIT LACER ET NOVA TEMPLA DICAVIT,
SCILICET ET SUPERIS MUNERA SOLA LITANT
PONTEM PERPETUI MANSURUM IM SAECULA MUNDUM
FECIT DIVINA NOBILIS ARTE LACER;
IDEM ROMULEIS TEMPLUM CUM CAESARE DIVIS
CONSTITUIT, ¡FELIX UTRAQUE CAUSA SACRI!
CAJUS JULIUS LACER HOC SACELLUM FECIT ET DEDICAVIT AMICO CURIO LACONE IGAEDITANO
Tradução em espanhol:
Este templo, fabricado sobre una roca del Tajo, está lleno de culto y veneración de los dioses y del César, y en él, la grandeza de la materia vence al primor del arte. Por ventura dará cuidado a los pasajeros, que siempre gustan de cosas nuevas, saber quien y con qué fin se ha hecho: sepan, pues, que Lacer, que acabó este puente de extraordinaria grandeza, hizo el templo para ofrecer el sacrificio a los dioses y tenerlos propicios y favorables. Lacer, que hizo el puente, dedicó también el templo, porque ofreciendo dones a los dioses, se aplaca y alcanza su favor. Lacer, insigne en el arte divino de la arquitectura, hizo este puente que ha de durar por los siglos del mundo. El mismo Lacer hizo el templo en honra y reverencia de los dioses de Roma, y del César: ¡dichoso uno y otro motivo de este edificio sagrado! Cayo Julio Lacer hizo y dedicó este templo con el favor de Curio Lacón, natural de Idaña.
Então pelos vistos o nosso arquitecto Caius era grande amigo do Curio Lacone, egitaneense, ao ponto de lhe dedicar a ponte.
Outra epígrafe, na própria ponte, diz:
IMP. CAESAR: DIV. NERV. TRAJAN. AUG. GER.
DACICO. PONTIFICE. MAXIMO TRIB. POTEST.
(fonte: Pascual Madoz. Diccionario histórico-geográfico de Extremadura, 1846, aqui)
6.3.06
Há também o novíssimo Sítio do Cefalópode, de que um dos donos é o trompetista Nuno Reis (ex-Cool Hipnoise, Ena Pá 2000, etc.) e que tem uma programação ecléctica. Às terças (mas não todas infelizmente) há sessões de choro, um género brasileiro aparentado ao jazz primitivo e ligado às origens do samba, muito pouco conhecido por cá e também não muito no próprio Brasil. Estive lá uma dessas terças e adorei.
3.3.06
Na Fnac, um grupo de cinco rapazes à volta dos 16 anos chega à estante da filosofia e cada um tira um livro dum filósofo célebre (Kant, Descartes, Nietzsche) e fazem uma pose encenada com o livro na mão enquanto o sexto puxa do telemóvel e lhes tira uma fotografia. Para mandar à stora, talvez, não percebi bem.
Numa loja de instrumentos da rua do Telhal, um tipo com um trompete à Dizzy e outro ao piano tocam uma versão de Dindi, do Tom Jobim











