20.4.06



Para quem gosta de fotografia, é de não perder a exposição Em Foco, no Pavilhão Preto do Museu da Cidade -- uma selecção de fotografia portuguesa do pós-guerra: António Sena da Silva, Augusto Cabrita, Carlos Afonso Dias, Carlos Calvet, Eduardo Gageiro, Fernando Lemos, Francisco Keil do Amaral, Gérard Castello-Lopes, João Cutileiro, Jorge Guerra, Manuel Costa Martins e Victor Palla.

É, por exemplo, uma oportunidade de ver fotografias do mítico Lisboa Cidade Triste e Alegre, de Costa Martins e Victor Palla (foi a primeira vez que as vi na parede) e as igualmente míticas fotos surrealistas de Fernando Lemos. Do resto, gosto especialmente das fotos de Victor Palla (estas não conhecia mesmo) e de Carlos Calvet.

17.4.06



I'm O.K., You're Biased

A Princeton University research team asked people to estimate how susceptible they and "the average person" were to a long list of judgmental biases; the majority of people claimed to be less biased than the majority of people. A 2001 study of medical residents found that 84 percent thought that their colleagues were influenced by gifts from pharmaceutical companies, but only 16 percent thought that they were similarly influenced.

In The New York Times (acesso grátis mediante registo), via A Praia


O artigo refere-se em especial aos erros de julgamente em profissões de 'responsabilidade' como gestores, consultores, médicos, etc., mas na verdade isto parece-me fazer parte duma tendência mais geral para cada um de nós se julgar relativamente imune aos defeitos que verifica nos outros -- provavelmente é uma maneira de estimular a auto-estima e evitar a depressão.
E isto não é 'sabedoria popular'. Por exemplo, em Portugal, e em relação a um fenómeno percebido como negativo pela grande maioria, a irresponsabilidade dos automobilistas e os acidentes que eles provocam, há estudos que chegaram a conclusões equivalentes à do exemplo acima com os médicos que pensam que só outros médicos são influenciados pelo marketing dos laboratórios. Ou seja, a esmagadora maioria dos condutores pensam que a esmagadora maioria dos outros condutores conduzem irresponsavelmente, ao mesmo tempo que pensam que eles próprios são responsáveis a conduzir.
De um modo geral, dado que a maioria dos portugueses parecem ter uma percepção negativa deles próprios como colectivo, o que acontece, graças a esse mecanismo de autodefesa, é que cada um deles julga não ter os defeitos que os outros supostamente têm. Supostamente. O que, aliado a uma concepção essencialista da identidade nacional (os tais "defeitos" entendidos como fazendo parte duma hipotética "essência" do "português"), conduz à inacção e ao niilismo.

Évora parece a grande excepção ao escasso património arquitectónico português de relevo, quando comparado com Espanha, por exemplo. Por ter sido residência preferida dos reis portugueses? A verdade é que os residências eborenses dos poderosos têm uma elegância que raramente ocorre nos palácios lisboetas contemporâneos, e, melhor ainda, a arquitectura popular é também ela elegante como poucas, quem sabe se por contágio.



Esta marca nas escadas da entrada da Sé de Évora é muito parecida com a que encontrei no castelo de Beja (pode ser vista aqui e é possível que tenha sido feita na mesma época, algures no século XIV. O que quererá isto dizer? Aceitam-se sugestões.

13.4.06



O meu mundo está perdido. Depois de ter achado imensa piada à MFM, há dias na Gulbenkian, vejo-me agora a ter de concordar com um texto do VGM.

12.4.06



Mais um caso dramático de falta de estendais.



Um texto medíocre, niilista e inconsequente, escrito pelo jovem Eça de Queirós n'As Farpas, recém-chegado a Lisboa "com o Proudhon mal lido debaixo do braço" e disparando em todas as direcções, como ele próprio escreveu mais tarde -- e especialmente nefasto por ser de alguém que conseguiu obter um prestígio inabalável como escritor. A pretensa "actualidade" deste e outros textos do Eça vem da sua superficialidade -- como comentários à realidade são tão certeiros como os horóscopos, à força de repetir lugares-comuns que podem, mais palavra menos palavra, aplicar-se a quase todas as épocas e lugares. Ou seja, não querem dizer nada.

10.4.06





Um desencontro num sítio altamente improvável para mim (Gare do Oriente, 8h30 de sábado) deu-me a oportunidade de realizar uma antiga fantasia: estar numa estação de comboio e apanhar o primeiro a partir. Sempre dá para ler descansadamente os jornais de sábado, especialmente se conseguirmos arranjar um daqueles lugares com mesa.

Calhou ser o comboio para Beja. Na verdade há um pouco de batota aqui -- talvez houvesse comboios noutras direcções mas sul era a inicialmente prevista porque já há uns tempos que não via o Alentejo nesta altura verdejante.

Havia também algumas razões para ser Beja. A começar pela mais óbvia, que era não ir lá há muuuuuito tempo. Nem que fosse ver se o Luís da Rocha ainda existia.

A outra era regressar ao castelo de Beja, que tem a particularidade de ter estes sinais inscritos nas pedras com que construído. Dizem que são as marcas dos pedreiros, uma espécie de assinatura de quem fez cada bloco daqueles. É difícil dizer a emoção que isto me provoca -- são apenas umas marcas pequenas, mas dizem-me que houve umas pessoas, há mais tempo do que eu consigo imaginar, que fizeram aquilo e deixaram lá uma marca que diz 'fui eu que fiz isto'.

Aqui está ela, a torre de menagem do castelo de Beja, construída há uns 700 anos, reinava D. Dinis.

Além dessa, Beja tem esta outra torre mais pequena mas também muito bonita.

De onde se pode continuar a seguir para sul.

7.4.06



Até 18 de Abril há uma oportunidade rara de visitar o chamado Palácio do Manteigueiro, na rua da Horta Seca, ao Camões, um belo edifício mandado construir nos finais do século XVIII pelo sr. Domingos Mendes Dias, natural de Montalegre. Segundo o Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Domingos Mendes Dias terá sido aguadeiro e marçano em Lisboa, acabando por tornar-se, a seguir ao Terramoto, um dos mais ricos comerciantes de Lisboa, conhecido por o Manteigueiro, presume-se que por ter enriquecido com o negócio da manteiga. Ainda de acordo com a mesma fonte, "querendo mostrar-se de origem fidalga, [Domingos Mendes Dias] obteve de António de Sousa Pereira Coutinho, morgado de Vilar de Perdizes, a sua aceitação no tratamento de primo, prometendo, em troca, legar-lhe o palácio do 'Manteigueiro' e toda a sua fortuna. E se assim o prometeu, melhor o cumpriu. Após a morte que lhe foi provocada por assaltantes que o apunhalaram, o palácio passou a ser propriedade do morgado de Vilar de Perdizes."

Depois de muitos outros inquilinos que por lá passaram, entre eles o general Junot, ao que parece, o palácio é hoje a sede do Ministério da Economia. A abertura do palácio ao público (de segunda a sexta, das 17h às 20h) deve-se uma exposição promovida pelo nosso ministro-coleccionador de fotografia, com fotos de Helena Almeida, Jorge Molder, Candida Höfer e Cecília Costa, e ainda um vídeo de Vasco Araújo. Além da visita guiada por uma simpatiquíssima e perspicaz funcionária, o público tem direito a um catálogo, também grátis, com textos do ministro Manuel Pinho, António Gomes de Pinho (presidente de Serralves), Rosina Gómez-Baeza (Instituto de Arte Contemporáneo, Madrid), Alexandre Melo, Vasco Graça Moura, Eduardo Prado Coelho, Nicolau Santos e Delfim Sardo (que organiza a exposição e o catálogo), e ainda a reproduções das fotos.

É uma experiência algo cómica, a começar pela candura da guia, que vai apontando as fotos com comentários do tipo "Na opinião do dr. Delfim Sardo este é um das melhores trabalhos deste autor", ao mesmo tempo que confessa não gostar das fotos, e a acabar no catálogo, com os seus textos medíocres, pretensiosos e forçados (à excepção do do A. Melo, que continua a escrever muito bem) de meia dúzia de manda-chuvas culturais -- caramba, tanta legitimação para quê? Será assim tão perigoso fazer uma exposição num ministério? E ficamos sem saber a quem pertencem as fotos -- se ao ministro, se à colecção do BES dirigida pela sua esposa, se a Serralves.

De resto, a exposição não é grande coisa apesar dos nomes sonantes (a funcionária tem toda a razão na sua candura). Mas é de não perder a oportunidade de visitar este edifício algo delirante, como se pode ver pelas extraordinárias janelas ao cimo da foto (não, não é distorção, são mesmo janelas utópicas e disfuncionais, como que feitas de manteiga).

4.4.06
















Imagens do vídeo "Piso Térreo", de Filipa César, em exibição na Gulbenkian

Um travelling de 40 minutos sobre os subterrâneos da Gulbenkian, como que uma fábrica enterrada de cultura onde trabalham seguranças, músicos, serralheiros, telefonistas, costureiras, lavadeiras, electricistas, bibliotecários e burocratas na manutenção e produção daquilo que se passa cá em cima. Ocorreu-me logo o lendário filme em plano-sequência "único" de Hitchcock, "A Corda" -- também aqui se persegue a ilusão do plano único, com os cortes quase invisíveis e disfarçados de paredes por onde a câmara passa; os documentários de Wiseman com as suas personagens aparentemente indiferentes à câmara; R2-D2, o robot da Guerra das Estrelas, que podia muito bem ter sido o cameraman deste vídeo, filmado àquela altura minorca e com a segurança duma máquina; e a novela de HG Wells "A Máquina do Tempo". E isto aqui tem a ver com o lado negro daquele edifício onde a administração tem direito à vista para o jardim e os operários da cultura, desde os serralheiros aos afinadores de pianos, passando pelos músicos e cantores, vivem privados de luz natural, como os Have-not de Wells. Mas é um mundo fascinante com motores sempre ligados, esculturas e pinturas românticas a eito sobre fundos de mosaico cerâmico, casacos espalhados em cima de caixas de contrabaixos, oficinas desarrumadas com cartazes de mulheres nuas, máquinas de costura, ferros de engomar e máquinas de lavar, e a meio disto tudo ecos de um piano a ser afinado, um coro ou uma orquestra a ensaiar. Magnífico.

Parece que ganhámos um prémio, finalmente, e ainda por cima dum colega bastante recomendável -- um Bloguito para Os Melhores da Blogosfera Alternativa, categoria Cityblog. Já estávamos quase desesperados, a pensar em criar outro blog para atribuir prémios a este, e vice-versa. A redacção agradece comovida.

3.4.06



Vista aérea do terreno onde foi construída a Gulbenkian (ainda sem praça de Espanha, que estranho)

Contou-me um amigo arquitecto que um grupo de arquitectos estrangeiros em visita de estudo a Lisboa foi à Gulbenkian e um deles comentava depois que "o edifício do Leslie Martin é realmente uma obra-prima, mas já não gostámos muito do Centro de Arte Moderna dos vossos colegas portugueses". Uma gafe eloquente sobre um ponto alto da arquitectura portuguesa, agora tema duma exposição na própria fundação.

Para mim e talvez muitos outros da mesma geração, a Gulbenkian existiu desde sempre. Uma das recordações mais antigas que tenho é a do meu pai furioso por me ver lá de ténis, suponho que aí por volta de 1970. Acho que isso de algum modo traduz o sentimento ambivalente, que comporta algum desconforto, que nós lisboetas temos em relação à FCG.

Em todo o caso é um dos espaços mais amados de Lisboa (sobretudo o jardim, cada vez mais bonito com a remodelação em curso pelo próprio autor, o inevitável Ribeiro Telles). Para quem não tem qualquer relação sentimental com a Gulbenkian, a exposição vale por várias coisas: a contextualização do edifício na obra dos autores (Ruy Athouguia, Alberto Pessoa e Pedro Cid, autores de outros edifícios notáveis nos anos 1960, nomeadamente em Alvalade); a série de fotografias de Lisboa encomendadas a Gabriele Basilico, um fotógrafo de cidades que já teve uma magnífica exposição no CCB há uns anos; e o excelente vídeo da Filipa César, que merece só por si a visita.

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