13.5.06
Um T37 dos Asas de Portugal oferecido pela FAP, em Alcafozes, frente à ermida de Nossa Senhora do Loreto, padroeira principal e mundial da aviação por determinação do papa Bento XV em 1920. A lápide da frente diz que "Com a Senhora do Lorêto ao leme, perdurará para sempre, nesta colina como sentinela vigilante de todos quantos cruzarem este espaço aéreo". Assim seja.
6.5.06
Estado em que se encontra o elevador da Glória, encerrado por causa das obras no túnel do Rossio e devidamente protegido contra o vandalismo. Mesmo assim, se eu fosse a Carris punha-lhe arame farpado e cacos de vidro em cima.
Dedico esta foto ao Vasco Pulido Valente e todos os restantes fadistas da comunicação social portuguesa.
4.5.06
Um buraco muito mais perfeitinho do que é costume. Trata-se duma prospecção arqueológica junto ao passeio do quarteirão do Rossio que faz esquina com o largo de S. Domingos. Estando completamente fora do assunto, arriscaria que se vê, por baixo da actual calçada, sucessivamente, a antiga camada de asfalto que existia antes da última remodelação da praça há poucos anos, uma camada de areia sobre a qual o asfalto assentava, o entulho proveniente das ruínas do terramoto de 1755, e uma calçada anterior ao terramoto, possivelmente do antigo Hospital de Todos-os-Santos que por aqui existia.
(outro post atrasado) Devo uma explicação sobre um enigmático post de há dias, onde falava da MFM. Trata-se obviamente da Maria Filomena Mónica, de que assisti à apresentação dum livro do Eça prefaciado por ela. Entre outras, a MFM disse duas coisas bastante interessantes. A primeira é óbvia e consensual: Eça é um escritor importante ao ponto de se poder considerar o fundador da escrita portuguesa moderna. O português corrente na imprensa portuguesa de hoje, por exemplo, quase não difere do de Eça, fora, eventualmente, algum vocabulário. E, acrescentaria eu, na quase ausência ou má qualidade de manuais de estilo, um romance qualquer do Eça pode perfeitamente servir de referência para a forma como se pode ou deve escrever.
A segunda é que a visão que temos hoje do Portugal da segunda metade do século XIX é tão fortemente influenciada pela visão do Eça que "os historiadores do século XIX têm de lutar constantemente contra essa visão" (cito de memória). Para a MFM, o Eça teria uma visão deturpada do Portugal seu contemporâneo, já que saiu de cá bastante novo, viveu sempre no estrangeiro, escrevendo sobre Portugal com base nas memórias da juventude.
Mas este não é apenas um problema que diga respeito à historiografia do século XIX. O prestígio de Eça, e de outros intelectuais da sua geração como Oliveira Martins, levou-nos a ter uma visão bastante negativa da polítican na segunda metade do século XIX -- fontismo' e o 'rotativismo' são epítetos pejorativos. Só que, na verdade, o período da 'regeneração' (cujo início quase coincide com o nascimento de Eça) representa uma época de relativa prosperidade na história portuguesa do século XIX. Os políticos 'medíocres' retratados pelos intelectuais da geração de 1870 deixaram-nos, apesar de tudo, muita coisa: a Regeneração acabou com meio século de guerras civis, dotou Portugal de estradas e caminhos de ferro, acabou com instituições arcaicas como os morgadios, liberalizou a economia, criou uma administração pública moderna, o Código Civil e um regime democrático. Não foi capaz de resolver o problema da dívida pública e o país não se desenvolveu tanto como seria desejável -- mas é inaceitável pretender que o relativo 'atraso' de Portugal se deva apenas aos seus políticos, e muito menos a eventuais características 'intrínsecas' dos portugueses.
O pior é que, graças ao seu prestígio inabalável, o estilo 'bota-abaixo' de Eça e dos outros fez escola. Quando há umas semanas reproduzi aqui, provocatoriamente, um célebre excerto d'As Farpas com uns comentários exageradamente pejorativos, as reacções foram absolutamente previsíveis: "Intemporal", diz uma, "a mediocridade é de quem (e são tantos), após tantos anos, não nos conseguiu tirar do atoleiro onde estamos atascados", acrescenta outro. Na verdade, As Farpas são intemporais, e talvez mesmo universais: com pequenas alterações, é possível adaptar aqueles textos a qualquer país nos dias que correm, dado que há sempre coisas que correm mal, pessoas na miséria e políticos corruptos. E, em última análise, recursos escassos para necessidades ilimitadas.
Voltando à questão das comemorações do 25 de Abril: uma coisa é debater alternativas políticas; outra é recusar comemorar o 25 de Abril como restauração da democracia, sob o pretexto de que Portugal podia estar muito melhor. Eventualmente até podia, mas de facto está melhor. E passarmos a vida a acusarmo-nos uns aos outros por isto não ser a Coreia do Norte nem a Alemanha não resolve nada, antes pelo contrário.
A segunda é que a visão que temos hoje do Portugal da segunda metade do século XIX é tão fortemente influenciada pela visão do Eça que "os historiadores do século XIX têm de lutar constantemente contra essa visão" (cito de memória). Para a MFM, o Eça teria uma visão deturpada do Portugal seu contemporâneo, já que saiu de cá bastante novo, viveu sempre no estrangeiro, escrevendo sobre Portugal com base nas memórias da juventude.
Mas este não é apenas um problema que diga respeito à historiografia do século XIX. O prestígio de Eça, e de outros intelectuais da sua geração como Oliveira Martins, levou-nos a ter uma visão bastante negativa da polítican na segunda metade do século XIX -- fontismo' e o 'rotativismo' são epítetos pejorativos. Só que, na verdade, o período da 'regeneração' (cujo início quase coincide com o nascimento de Eça) representa uma época de relativa prosperidade na história portuguesa do século XIX. Os políticos 'medíocres' retratados pelos intelectuais da geração de 1870 deixaram-nos, apesar de tudo, muita coisa: a Regeneração acabou com meio século de guerras civis, dotou Portugal de estradas e caminhos de ferro, acabou com instituições arcaicas como os morgadios, liberalizou a economia, criou uma administração pública moderna, o Código Civil e um regime democrático. Não foi capaz de resolver o problema da dívida pública e o país não se desenvolveu tanto como seria desejável -- mas é inaceitável pretender que o relativo 'atraso' de Portugal se deva apenas aos seus políticos, e muito menos a eventuais características 'intrínsecas' dos portugueses.
O pior é que, graças ao seu prestígio inabalável, o estilo 'bota-abaixo' de Eça e dos outros fez escola. Quando há umas semanas reproduzi aqui, provocatoriamente, um célebre excerto d'As Farpas com uns comentários exageradamente pejorativos, as reacções foram absolutamente previsíveis: "Intemporal", diz uma, "a mediocridade é de quem (e são tantos), após tantos anos, não nos conseguiu tirar do atoleiro onde estamos atascados", acrescenta outro. Na verdade, As Farpas são intemporais, e talvez mesmo universais: com pequenas alterações, é possível adaptar aqueles textos a qualquer país nos dias que correm, dado que há sempre coisas que correm mal, pessoas na miséria e políticos corruptos. E, em última análise, recursos escassos para necessidades ilimitadas.
Voltando à questão das comemorações do 25 de Abril: uma coisa é debater alternativas políticas; outra é recusar comemorar o 25 de Abril como restauração da democracia, sob o pretexto de que Portugal podia estar muito melhor. Eventualmente até podia, mas de facto está melhor. E passarmos a vida a acusarmo-nos uns aos outros por isto não ser a Coreia do Norte nem a Alemanha não resolve nada, antes pelo contrário.
3.5.06
(post muito atrasado) Nas últimas semanas a imprensa foi ainda mais catastrofista do que é costume. Não me apetece agora chamar nomes a ninguém, mas destacaram-se pela negativa, no Público, os artigos de José Miguel Júdice, que acha que "temos" todos de ganhar menos e trabalhar mais, e a entrevista de Daniel Blaufuks, que me irritou tanto que é melhor não comentar. E ainda uma crónica de Vasco Pulido Valente, que diz que "O '25 de Abril' devia ser um dia de festa para o patriotismo português. Mas não pode ser. Primeiro, por causa das divisões do PREC e, depois, porque de facto não existe um verdadeiro patriotismo português".
Quanto ao primeiro aspecto, é de facto bizarro que, 31 anos depois, as comemorações do 25 de Abril de 1974 pareçam mais uma cerimónia fúnebre em que toda a esquerda comunista lamenta (sem grande convicção como é óbvio) a oportunidade perdida de Portugal se ter juntado o seu destino a Cuba e à Coreia do Norte, a esquerda não comunista quase não se manifesta e os restantes ignoram ostensivamente a data. Quanto a mim, comemoro a data de instauração do regime democrático, coisa de que ninguém parece lembrar-se, apesar de ser esse o objectivo explícito do MFA. Se havia quem achasse que Portugal devia passar a ser uma delegação nesta ponta da Europa do 'socialismo real', eu não tenho nada a ver com isso. Ao contrário dos comunistas, o MFA não prometeu o paraíso a ninguém, mas simplesmente os '3 D': democracia, descolonização e desenvolvimento. Os três objectivos foram cumpridos. O Verão Quente foi um episódio passageiro, e o ideólogo do 25 de Novembro foi o mesmo do 25 de Abril, Melo Antunes. E o argumento de que Portugal continua a ser um país pobre em relação a muitos países europeus também não vale: Portugal sempre foi, é e continuará a ser mais pobre. O que interessa é que está muito melhor agora do que há 32 anos. E é possível comemorá-lo, sim.
Quando ao segundo, o raciocínio de VPV parece-me espantoso, sobretudo para um historiador: só nos países em que se pode celebrar 'o esplendor do Império', como a Inglaterra, é que pode haver patriotismo. E presume-se que esse 'esplendor' tem de ser recente, já que para VPV ele existiu no século XVI em Portugal como 'motivo de orgulho' para os portugueses -- mas aqui a recente efeméride dos 500 anos do massacre dos judeus lisboetas, em pleno reinado de D. Manuel, torna evidente que um país em cuja capital foi possível aquele horror não podia estar bem.
A definição de 'patriotismo' é muito problemática. Para mim tem a ver com um sentimento de pertença a uma comunidade para a qual se deseja obviamente o melhor. Neste sentido, será que os egípcios patriotas têm de evocar o Egipto dos faraós, os gregos a Grécia de Péricles, os italianos o império romano, os iraquianos a Babilónia, os mongóis a época de Gengis Khan, realidades com as quais os actuais cidadãos desses países não têm nada a ver? Os austríacos e os húngaros celebrarão ambos o império austro-húngaro? E todos os países que não tiveram impérios, como o Brasil, por exemplo, ou o Vietname, enfim, a maior parte dos países do mundo, celebram o quê? Não podem celebrar o simples facto de existirem, como, sei lá, eu celebro o simples facto de existir apesar de não ser tão famoso nem ter uma conta bancária tão recheada como o VPV?
VPV evoca o inevitável Eça, como não podia deixar de ser, e recorda que "a classe média da monarquia liberal não trouxe consigo uma nova civilização", que "a república jacobina de Afonso Costa foi ainda pior", que "Salazar criou um Portugal de hipocrisia, pobreza e respeitinho, que é melhor esquecer" e que "o PREC transformou a libertação final numa querela rancorosa e a democracia que dali saiu andou até agora, indecentemente, aos trambolhões". Enfim, o faduncho do costume: aqui é o pior dos mundos, 'lá fora' é o paraíso onde a democracia funciona às mil maravilhas, todos vivem confortavelmente e têm 'desígnios nacionais'. E será que também têm de aturar intelectuais fadistas como os do Público?
Quanto ao primeiro aspecto, é de facto bizarro que, 31 anos depois, as comemorações do 25 de Abril de 1974 pareçam mais uma cerimónia fúnebre em que toda a esquerda comunista lamenta (sem grande convicção como é óbvio) a oportunidade perdida de Portugal se ter juntado o seu destino a Cuba e à Coreia do Norte, a esquerda não comunista quase não se manifesta e os restantes ignoram ostensivamente a data. Quanto a mim, comemoro a data de instauração do regime democrático, coisa de que ninguém parece lembrar-se, apesar de ser esse o objectivo explícito do MFA. Se havia quem achasse que Portugal devia passar a ser uma delegação nesta ponta da Europa do 'socialismo real', eu não tenho nada a ver com isso. Ao contrário dos comunistas, o MFA não prometeu o paraíso a ninguém, mas simplesmente os '3 D': democracia, descolonização e desenvolvimento. Os três objectivos foram cumpridos. O Verão Quente foi um episódio passageiro, e o ideólogo do 25 de Novembro foi o mesmo do 25 de Abril, Melo Antunes. E o argumento de que Portugal continua a ser um país pobre em relação a muitos países europeus também não vale: Portugal sempre foi, é e continuará a ser mais pobre. O que interessa é que está muito melhor agora do que há 32 anos. E é possível comemorá-lo, sim.
Quando ao segundo, o raciocínio de VPV parece-me espantoso, sobretudo para um historiador: só nos países em que se pode celebrar 'o esplendor do Império', como a Inglaterra, é que pode haver patriotismo. E presume-se que esse 'esplendor' tem de ser recente, já que para VPV ele existiu no século XVI em Portugal como 'motivo de orgulho' para os portugueses -- mas aqui a recente efeméride dos 500 anos do massacre dos judeus lisboetas, em pleno reinado de D. Manuel, torna evidente que um país em cuja capital foi possível aquele horror não podia estar bem.
A definição de 'patriotismo' é muito problemática. Para mim tem a ver com um sentimento de pertença a uma comunidade para a qual se deseja obviamente o melhor. Neste sentido, será que os egípcios patriotas têm de evocar o Egipto dos faraós, os gregos a Grécia de Péricles, os italianos o império romano, os iraquianos a Babilónia, os mongóis a época de Gengis Khan, realidades com as quais os actuais cidadãos desses países não têm nada a ver? Os austríacos e os húngaros celebrarão ambos o império austro-húngaro? E todos os países que não tiveram impérios, como o Brasil, por exemplo, ou o Vietname, enfim, a maior parte dos países do mundo, celebram o quê? Não podem celebrar o simples facto de existirem, como, sei lá, eu celebro o simples facto de existir apesar de não ser tão famoso nem ter uma conta bancária tão recheada como o VPV?
VPV evoca o inevitável Eça, como não podia deixar de ser, e recorda que "a classe média da monarquia liberal não trouxe consigo uma nova civilização", que "a república jacobina de Afonso Costa foi ainda pior", que "Salazar criou um Portugal de hipocrisia, pobreza e respeitinho, que é melhor esquecer" e que "o PREC transformou a libertação final numa querela rancorosa e a democracia que dali saiu andou até agora, indecentemente, aos trambolhões". Enfim, o faduncho do costume: aqui é o pior dos mundos, 'lá fora' é o paraíso onde a democracia funciona às mil maravilhas, todos vivem confortavelmente e têm 'desígnios nacionais'. E será que também têm de aturar intelectuais fadistas como os do Público?
2.5.06









