30.6.06
Parece que há muita gente por aí a meditar no significado dos ataques de patriotismo que parecem afectar milhares de portugueses de cada vez que a selecção nacional joga num campeonato internacional, e em especial no uso imoderado na bandeira portuguesa. Aqui fica o meu modesto contributo: o futebol é o desporto mais popular em Portugal; ver futebol, ler sobre futebol e falar de futebol é uma das principais actividades lúdicas em Portugal; a selecção portuguesa suscita, naturalmente, a simpatia da esmagadora maioria dos portugueses que gostam de futebol, e não só (excepto a dos rezingões elitistas); a bandeira portuguesa e as suas cores são o emblema da selecção; logo, é natural que os ditos portugueses usem a bandeira portuguesa para manifestar o seu apoio à selecção; e é natural que se festejem as vitórias da selecção, usando as ditas bandeiras. Ver neste fenómeno uma manifestação de nacionalismo parece-me bastante exagerado. Posto isto, e mesmo não gostando por aí além de futebol, é claro que gostaria que a selecção portuguesa jogue o melhor possível e ganhe o mais possível, nem que seja porque isso parece contribuir para a felicidade de muita gente e é um pretexto para festejar. E a festa é sempre bem-vinda.
24.6.06
Há algo que não bate certo nos preceitos ético-legais e nas convicções vigentes em Portugal (não sei bem o que se passa noutros países) sobre a fotografia de pessoas sem o consentimento delas. Por um lado, considera-se que fotografar uma pessoa nónima qualquer, isoladamente, é um atentado ao direito da pessoa à sua imagem; por outro, considera-se legítimo fotografar qualquer pessoa que, por qualquer razão, possa ser considerada notória, mesmo que ela se oponha explicitamente a isso.
Hoje mesmo, ao ler o DN, deparo na capa com uma grande fotografia que faz a manchete: dois agentes da PJ, com as caras tornadas irreconhecíveis, conduzem um acusado de homicídio que tem a cara tapada. Presume-se que os agentes não querem ser reconhecidos, o que é compreensível porque isso poderia prejudicar-lhes o trabalho. O acusado, como tantas vezes acontece, é obrigado a tapar a cara. Trata-se obviamente, quanto a mim, dum caso em que os fotógrafos deviam respeitar a vontade da pessoa de não ser fotografada. Um direito que qualquer pessoa devia ter sempre em qualquer circunstâncias, mas que nestes casos é ainda mais evidente -- é uma pessoa que de repente se tornou notória por ser acusada dum crime grave, mas que até ser julgada é presumivelmente inocente.
Pior ainda é uma foto que vem no interior. Numa prática infelizmente frequente, são fotografados os familiares do hipotético criminoso. Parece-me um caso ainda mais óbvio de atentado à reputação.
Finalmente, tanto ou mais chocante que estas, para mim, é a fotografia do jornalista Martin Adler, estupidamente morto com um tiro à queima-roupa enquanto tirava fotografias num comício na Somália. Não sei qual seria a minha reacção se este nome me fosse desconhecido. Acontece que durante anos traduzi reportagens dele que foram publicadas na Grande Reportagem e no Independente e estabeleci uma espécie de intimidade com ele por essa via, mesmo sem nunca ter falado com ele, e admirava-o por ser um excelente repórter. Agora, sem nunca o ter visto mais gordo, vejo-o estendido na poeira, a marca da bala bem visível, rodeado de pessoas que o olham (presume-se) e ao fotógrafo que o fotografa. É um caso em que é impossível pedir autorização ao fotografado. Mas se para mim esta fotografia é chocante, imagino o que será para as pessoas que eram próximas dele.
23.6.06
DiCorcia ganhou o caso:
The suit was dismissed last month by a New York State Supreme Court judge who said that the photographer's right to artistic expression trumped the subject's privacy rights. But to many artists, the fact that the case went so far is significant. The practice of street photography has a long tradition in the United States, with documentary and artistic strains, in big cities and small towns. Photographers usually must obtain permission to photograph on private property -- including restaurants and hotel lobbies -- but the freedom to photograph in public has long been taken for granted. And it has had a profound impact on the history of the medium. Without it, Lee Friedlander would not have roamed the streets of New York photographing strangers, and Walker Evans would never have produced his series of subway portraits in the 1940's.
Remarkably, this was the first case to directly challenge that right. Had it succeeded, "Subway Passenger, New York City," 1941, along with a vast number of other famous images taken on the sly, might no longer be able to be published or sold.
(...)
In an affidavit submitted to the court on Mr. diCorcia's behalf, Peter Galassi, chief curator of photography at the Museum of Modern Art, said Mr. diCorcia's "Heads" fit into a tradition of street photography well defined by artists ranging from Alfred Stieglitz and Henri Cartier-Bresson to Robert Frank and Garry Winogrand. "If the law were to forbid artists to exhibit and sell photographs made in public places without the consent of all who might appear in those photographs," Mr. Galassi wrote, "then artistic expression in the field of photography would suffer drastically. If such a ban were projected retroactively, it would rob the public of one of the most valuable traditions of our cultural inheritance."
(...)
State Supreme Court Justice Judith J. Gische rejected Mr. Nussenzweig's claim that his privacy had been violated, ruling on First Amendment grounds that the possibility of such a photograph is simply the price every person must be prepared to pay for a society in which information and opinion freely flow. And she wrote in her decision that the photograph was indeed a work of art. "Defendant diCorcia has demonstrated his general reputation as a photographic artist in the international artistic community," she wrote.
But she indirectly suggested that other cases might be more challenging. "Even while recognizing art as exempted from the reach of New York's privacy laws, the problem of sorting out what may or may not legally be art remains a difficult one," she wrote.
(...)
Mr. diCorcia, whose book of photographs "Storybook Life" was published in 2004, said that in setting up his camera in Times Square in 1999: "I never really questioned the legality of what I was doing. I had been told by numerous editors I had worked for that it was legal. There is no way the images could have been made with the knowledge and cooperation of the subjects. The mutual exclusivity that conflict or tension, is part of what gives the work whatever quality it has."
Mr. Nussenzweig is appealing. Last month his lawyer Jay Goldberg told The New York Law Journal that his client "has lost control over his own image."
(sublinhados meus)
Na verdade, toda a gente ficou a saber que este senhor se chama Erno Nussenzweig e é um judeu ortodoxo e comerciante de diamantes reformado de Union City, New Jersey -- a divulgação da acção judicial veio interferir muito mais na privacidade dele do que a fotografia. A notícia completa do New York Times sobre o caso está aqui (acesso gratuito mediante inscrição).
The suit was dismissed last month by a New York State Supreme Court judge who said that the photographer's right to artistic expression trumped the subject's privacy rights. But to many artists, the fact that the case went so far is significant. The practice of street photography has a long tradition in the United States, with documentary and artistic strains, in big cities and small towns. Photographers usually must obtain permission to photograph on private property -- including restaurants and hotel lobbies -- but the freedom to photograph in public has long been taken for granted. And it has had a profound impact on the history of the medium. Without it, Lee Friedlander would not have roamed the streets of New York photographing strangers, and Walker Evans would never have produced his series of subway portraits in the 1940's.
Remarkably, this was the first case to directly challenge that right. Had it succeeded, "Subway Passenger, New York City," 1941, along with a vast number of other famous images taken on the sly, might no longer be able to be published or sold.
(...)
In an affidavit submitted to the court on Mr. diCorcia's behalf, Peter Galassi, chief curator of photography at the Museum of Modern Art, said Mr. diCorcia's "Heads" fit into a tradition of street photography well defined by artists ranging from Alfred Stieglitz and Henri Cartier-Bresson to Robert Frank and Garry Winogrand. "If the law were to forbid artists to exhibit and sell photographs made in public places without the consent of all who might appear in those photographs," Mr. Galassi wrote, "then artistic expression in the field of photography would suffer drastically. If such a ban were projected retroactively, it would rob the public of one of the most valuable traditions of our cultural inheritance."
(...)
State Supreme Court Justice Judith J. Gische rejected Mr. Nussenzweig's claim that his privacy had been violated, ruling on First Amendment grounds that the possibility of such a photograph is simply the price every person must be prepared to pay for a society in which information and opinion freely flow. And she wrote in her decision that the photograph was indeed a work of art. "Defendant diCorcia has demonstrated his general reputation as a photographic artist in the international artistic community," she wrote.
But she indirectly suggested that other cases might be more challenging. "Even while recognizing art as exempted from the reach of New York's privacy laws, the problem of sorting out what may or may not legally be art remains a difficult one," she wrote.
(...)
Mr. diCorcia, whose book of photographs "Storybook Life" was published in 2004, said that in setting up his camera in Times Square in 1999: "I never really questioned the legality of what I was doing. I had been told by numerous editors I had worked for that it was legal. There is no way the images could have been made with the knowledge and cooperation of the subjects. The mutual exclusivity that conflict or tension, is part of what gives the work whatever quality it has."
Mr. Nussenzweig is appealing. Last month his lawyer Jay Goldberg told The New York Law Journal that his client "has lost control over his own image."
(sublinhados meus)
Na verdade, toda a gente ficou a saber que este senhor se chama Erno Nussenzweig e é um judeu ortodoxo e comerciante de diamantes reformado de Union City, New Jersey -- a divulgação da acção judicial veio interferir muito mais na privacidade dele do que a fotografia. A notícia completa do New York Times sobre o caso está aqui (acesso gratuito mediante inscrição).
O autor deste blog inadvertidamente fotografado ao entrar num estúdio após ter sido atigido por uma rabanada de vento do quadrante leste (foto Paulo Muge).
As fotos que pus ali em baixo deram origem a uma das mais interessantes (e civilizadas) polémicas que houve neste blog. Entretanto, descobri que meti água ao dizer que as fotografias do Philip-Lorca diCorcia (estava a pensar na série 'Heads') eram encenadas, com figurantes. Pelos vistos não é verdade: as fotos são tiradas com uma teleobjectiva a pessoas anónimas que passam do outro lado da rua, e o diCorcia teve pelo menos um problema com isso, segundo uma notícia do site BoingBoing que é muito esclarecedora de tudo aquilo que se discutiu aqui:
Friday, July 1, 2005
Photographer sued by subject over long-distance street shot
Photog and Boing Boing reader Siege says, "Philip-Lorca diCorcia is being sued by an Orthodox Jewish man that he photographed in 2001, as part of his Heads series." News story snip:
"DiCorcia rigged strobe lights to scaffolding and trained his lens on an "X" he taped to the sidewalk. From 20 feet away, he took shots of Nussenzweig and thousands of other unsuspecting subjects. Later that year, diCorcia exhibited this image under the title "#13" at a Pace Wildenstein gallery show called "Heads" in Chelsea. The photographer said multiple prints of Nussenzweig's picture sold for about $20,000 each. The picture also was published in "Heads," a book that sold several thousand copies, diCorcia said.
Friday, July 1, 2005 Photographer sued by subject over long-distance street shot
Photog and Boing Boing reader Siege says, "Philip-Lorca diCorcia is being sued by an Orthodox Jewish man that he photographed in 2001, as part of his Heads series." News story snip:
"DiCorcia rigged strobe lights to scaffolding and trained his lens on an "X" he taped to the sidewalk. From 20 feet away, he took shots of Nussenzweig and thousands of other unsuspecting subjects. Later that year, diCorcia exhibited this image under the title "#13" at a Pace Wildenstein gallery show called "Heads" in Chelsea. The photographer said multiple prints of Nussenzweig's picture sold for about $20,000 each. The picture also was published in "Heads," a book that sold several thousand copies, diCorcia said.
17.6.06

Isto é o que resta da caseta, como era conhecido o posto da Guarda Fiscal em Salvaterra do Extremo. Chega-se lá por esta quelha, um caminho empedrado ladeado por muros de pedra solta, a meio das azinheiras.

Vê-se daqui o caminho, que continua a descer até ao Vale da Idanha, o local do rio Erges onde durante séculos, desde a fundação das duas povoações, os habitantes de Zarza la Mayor e de Salvaterra atravessaram a fronteira. O foral de Zarza, do século XIV, já refere as relações intensas com Salvaterra e isenta-as de impostos. Passados seis séculos, uma mulher de Zarza recorda assim as suas idas a Salvaterra:El camino del contrabando es algo especial, frecuentado de siempre en ambas direcciones, andando, en burro, a caballo y en cualquier época del año, con más o menos gente para comprar, café, quesos, toallas, telas para sábanas y vestidos, en cantidades habituales para el uso familiar. Durante la guerra, mi madre y otra gente además, compraban azúcar, aceite y arroz para venderlo en los pueblos de alrededor. Todo el recorrido lo hacían andando. Algunas veces, cuando los meriños y carabineros les salían al paso, les quitaban la carga sabiendo que lo necesitaban para comer. Los contrabandistas profesionales, utilizaban caballerías en las que pasaban grandes cantidades de todo lo que podían. El recorrido lo hacían cada vez por un sitio diferente y sabían de cuevas donde se escondían con caballerías y todo lo que llevaban de los meriños y carabineros.
El camino, sale de Zarza la Mayor por el paraje conocido como el "reducto".
(...)
Si la cantidad de agua que lleva te permite pasar por el vado, la subida a Salvaterra do Extremo es empinada, por un camino marcado en zig, zag. Como a mitad del recorrido se encuentra una fuente en la que la parada se hace obligada para beber el agua fresca que sale por sus caños y coger fuerza para seguir.
Más arriba se encuentra la caseta de los meriños. Dependiendo de quién estuviera haciendo la vigilancia, se paraban a saludarlo y sabían que a la vuelta iban a tener, la vista ciega y el oído sordo. Desde la fuente todo el camino está empedrado hasta el pueblo, que está situado en la cima de un cerro. Sus calles están bien alineadas y sus casas, las portuguesas las tienen pintadas de blanco con zócalos, ventanas y puertas en azul fuerte. El silencio que reina, siempre es interrumpido por el alboroto, las risas y la voces de las gentes que llegamos, porque siempre se va en grupo.
Las madres te dejaban ir con ellas cuando podías aguantar el camino andando. Hacían las compras en las pocas tiendas que había, las telas, toallas, café todo se lo escondían y nos lo escondían debajo de la ropa enrollándolo al cuerpo y atándolo con unas cuerdas. Así si al paso, te salían los meriños y carabineros, como nada se te veía, la carga no te la podían quitar, pero casi siempre cuando nos íbamos acercando en silencio para pasar desapercibidas por la caseta de los meriños, a alguien se le rompía o desataba la cuerda, cayéndosele todo al suelo, esto provocaba tales carcajadas que se nos oía en cien metros a la redonda.
Podíamos pensar que a presença da Guarda Fiscal ou de outra autoridade qualquer nunca conseguiu impedir os contactos; que aquelas duas povoações estão muito mais próximas entre si do que qualquer outra do mesmo lado da respectiva fronteira; e mesmo que o ameaçador castelo de Peñafiel, frente a Salvaterra, do outro lado da garganta do Erges, é capaz de nunca ter tido real importância militar, para além de ser muito possível que tenha sido fundado pelos mesmos Templários que dominavam do lado português da fronteira.
E no entanto Salvaterra parece tão Portugal como qualquer outra aldeia da sua região, e Zarza tão espanhola como as suas vizinhas ? desde os pormenores nas casas como as grades nas janelas dos rés-do-chão ou as persianas de enrolar no exterior até às tascas escuras e sonolentas, passando pelo hábito do passeio ao fim do dia. A única originalidade de Zarza parecem ser que todos identificam imediatamente o sotaque português, percebem a nossa língua e falam connosco uma espécie de espanholês.
Uma sensação parecida à que tive em Barrancos, ainda mais isolado e muito mais distante de qualquer povoação portuguesa do que de Encinasola, ali mesmo ao lado e com os quais os barranquenhos mantêm relações ancestrais. Num sábado que lá estive, ouvia-se nas ruas de Barrancos o som de pequenas festas de adolescentes. Os adultos que vi passavam com a maior facilidade do português para o barranquenho e para o espanhol. Encinasola, à mesma hora, parecia adormecida atrás das persianas. Ali muito perto uma procissão com cavalos, camiões e tractores parava de vez em quando para uma salva de fogo de artifício, e gritava-se ?Viva la Virgen! Viva el pueblo de Encinasola!? Alguns barranquenhos assistiam àquilo com um ar de quem não tem obviamente nada a ver com aquilo.
16.6.06


O Fado no Eléctrico é das iniciativas mais divertidas que tenho visto em Lisboa. Há um senhor que apresenta os músicos com mimos deste género: "Prestem atenção à guitarra, à viola, e às cordas vocais desta menina". Depois às tantas há uma voz que sai do fundo do eléctrico e as pessoas descobrem que é este tipo de óculos escuros agarrado ao varão.
Umas senhoras sentadas na parte de trás avisam toda a gente à volta da entrada em cena dos carteiristas, ainda eles estão na paragem. Eu: "onde, onde?" Passado um minuto uma delas dá-me uma cotovelada, arregala os olhos para um dos que entraram e aponta-o com o queixo. São dois homens e uma rapariga, em volta deles forma-se um espaço vazio no eléctrico sobrelotado, toda a gente agarrada às malas e carteiras, e os potenciais carteristas saem na paragem seguinte, aparentemente divertidos com a situação. "Isto é muito melhor que estar a trabalhar", diz uns minutos mais tarde a mesma senhora já a pensar no dia seguinte.
10.6.06
No rio Erges, perto de Segura, toma-se um belo banho, sem ninguém por perto mesmo num fim de semana como este. Um banho apátrida ainda por cima, na terra de ninguém definida pela fronteira que é este rio -- aqui à esquerda Beira Baixa, à direita Extremadura. Às vezes vê-se montes de abutres -- aqui chamam-lhes águias -- a pairar lá em cima.
9.6.06











