25.9.06
23.9.06
[...]
Portanto não é lícito duvidar de que seja legitimamente empreendida a guerra que se faz por ordem de Deus.
De resto, o nosso rei Afonso [...] ordenou-nos que aqui estivéssemos à vossa espera e vos falássemos em seu nome. É possível que Deus tenha já inspirado os vossos corações, quererdes com a vossa armada ir até junto dele e com ele ficardes, até que, com o favor divino e a vossa cooperação, seja tomada a cidade de Lisboa. Se isso vos aprouver, faremos depois aos vossos a promessa de dinheiro, conforme o permitir a riqueza do tesouro real.
Sermão pregado em 17 de Junho de 1147 por Pedro, bispo do Porto, nesta cidade, ao exército de cruzados que ali parou na viagem entre a Inglaterra e Jerusalém, segundo o relato 'De Expugnatione Lysbonensi'. Tradução de José Augusto de Oliveira, publicada em 'Conquista de Lisboa aos Mouros. Carta de um cruzado Inglês', apresentação e notas de José da Felicidade Alves, Livros Horizonte.
17.9.06
Outra vez os pássaros. Não sei se já falei nisto, mas as gaivotas parecem ter um comportamento algo estranho quando estão nas salinas. Em cima do branco imóveis, com aquela parte branca do peito virada para o sol como se estivessem a carregar pilhas fotovoltaicas. Quando chega uma pessoa viram lentamente o bico para ela e levantam voo aos poucos até que não resta nenhuma. Na verdade não tenho a certeza se elas estão nesta pose quando ninguém está a olhar, mas é o que parece. Mas quem sabe se chegam momentos antes do observador e montam este espectáculo só para baralhá-lo durante cinco minutos. Ou se serão mesmo movidas a baterias recarregáveis com energia solar.
Esta rua em Olhão com um muro que dá para a linha de comboio é um dos poucos sítios onde se consegue vislumbrar a mítica 'cidade cubista'.
Estas são as fachadas correspondentes.
Afinal os gatos também gostam de andar sobre os carris do comboio, ou talvez só alguns gatos, ou os gatos algarvios, ou apenas os da Fuseta; ou então só este é que gosta, mas quem sabe se terá sido a primeira vez, e se terá gostado. Digo 'também' porque eu adorava andar nos carris da linha de Sintra, e fazíamos concursos a ver quem aguentava mais tempo. Às vezes era uma de duas opções, quando as linhas não tinham berma. A outra opção, muito mais chata, era andar sobre as travessas, que são como aquelas escadas com degraus inconvenientes, muito curtos ou muito compridos, que parecem querer-nos obrigar a dar meio passo ou um passo e meio. A distância entre as travessas era demasiado curta para um passo normal, e a distância duas a duas demasiado longa.
Quem sabe se este gato terá o mesmo problema, ou melhor, um problema equivalente num ser de quatro patas daquele tamanho. Talvez a alternância de cascalho e madeira não seja muito confortável para as patas. Para não falar do óleo. Além disso há o fascínio dos carris brilhantes. Foi uma das primeiras leis da natureza que aprendi -- um carril mantém-se brilhante se passar mais ou menos um comboio por dia. E é muito melhor andar em cima de carris brilhantes.
5.9.06
Metade dos estudantes chegam à universidade sem saberem verdadeiramente ler nem escrever. Um quarto não percebe nada do que lhes dizem nem do que lhes podemos dar a ler, incluindo os manuais. Quase metade daqueles que, em rigor, compreendem, são incapazes de resumir claramente aquilo que lhes dissemos.Isto não é um desabafo duma Maria de Fátima qualquer, mas sim dum professor da região parisiense, citado num artigo da última L'Histoire chamado 'Les étudiants lisent'ils encore?'.
O artigo baseia-se nos grandes inquéritos anuais do Observatoire de la vie etudiante (OVE), parcialmente disponíveis aqui.

Estes são os géneros de livros mais lidos pelos estudantes franceses. Os dados apontam para um declínio da leitura de livros técnicos e científicos e de ciências sociais e humanas.
Para os Estados Unidos, há dados disponíveis para a população em geral aqui, no site do National Endowment for the Arts, que embora dificilmente comparáveis com os franceses revelam uma tendência semelhante. Segundo este estudo, 56,6% dos americanos leram pelo menos um livro em 2002, contra 60,9% em 1992. Para as pessoas com um grau universitário, as proporções são de 66,7% e 82,1%, para os mesmos anos.
Conclusão? Ninguém sabe bem. Há quem fale duma nova idade das trevas, e quem contraponha que "as teses académicas são incomparavelmente melhores que no passado" (o que me parece bater certo com o que se passa em Portugal).
Uma hipótese: folheia-se menos livros, mas lê-se mais e melhor.
4.9.06
Andava o nosso Provedor em investigação pelas prateleiras da Fnac, em busca de material de apoio à sua nova nobre função, quando deparou com um livro chamado "Como Evitar o Atamancado do 'Jornalês'", de Mário Pinto, professor de Ciências da Comunicação na Universidade Fernando Pessoa.
Eis dois excertos, retirados da badana do livro:
Foi justamente no sentido de dar um modesto e despretencioso contributo a obstar que reparos como o transcrito -- cuja pertinência ninguém ousará questionar -- continuem a existir que decidimos coligir todo um cortejo de anomalias -- que, não sendo as únicas, e para as quais convém estar precavido -- com que diariamente nos confrontamos aquando da leitura do jornal.
Dislates que, no entanto, não encontramos nas peças dos excelentes profissionais, autores de textos que -- seja pelo rigor factual seja pela acutilância da opinião e, concomitante mas também mormente, pela correcção da escrita -- tanto nos reconfortam, pelos quais nutrimos a mais profunda admiração e a quem é da mais elementar justiça prestar a merecida honenagem (na situação vertente, por omissão, pois não os incluir aqui já é reconhecer o seu mérito).
Perceberam? O Provedor teve de ler três vezes cada um dos parágrafos e mesmo assim. É certo que as frases estão retiradas do contexto, mas o Provedor leu o livro todo e ficou a achar que o professor Mário Pinto não escreve lá muito bem. O Provedor acha que é sempre a mesma história -- de cada vez que alguém tenta escrever sobre técnicas de escrita é pior a emenda que o soneto. O Provedor pensa que um livro como este devia estar escrito duma forma clara. O Provedor reconhece o esforço do professor Mário Pinto ao passar cinco anos a catar gralhas e erros na imprensa portuguesa mas sugere-lhe que medite sobre esta questão e tente escrever menos atamancadamente. O Provedor sugere ainda que o editor deste livro passe a ter mais cuidado com a selecção de textos para as badanas.






