27.10.06



Lisboa, Julho 2006, da ponte 25 de Abril

O Chris, o inventor do nosso muito estimado Wolcen, fala no Buyo, o seu blog 'normal' produzido em Kanagawa, Japão, duma iniciativa da Wired: pediram a diversos escritores que escrevessem contos de seis palavras.

A inspiração, dizem eles, vem dum conto que Hemingway considerava o seu melhor trabalho:


For sale: baby shoes, never worn.


Dos contos que a Wired divulga online, o meu preferido é este, assinado Eileen Gunn:


Computer, did we bring batteries? Computer?


O Chris trambém fez o seu conto de seis palavras:

Magnum opus. Champagne magnum. Bullet (Magnum). Bloody mess.

e outra versão em seis URLs

25.10.06




Na rua da Vitória, em frente à igreja de S. Nicolau, está esta Barca dos Corvos, ou de São Vicente, o símbolo da cidade de Lisboa, acabadinha de estrear. Um trabalho primoroso como poucos, feito por mestres calceteiros da CML.

Reparem nas texturas que se conseguem partindo a pedra de diferentes modos, como neste senhor corvo com a sua cauda de penas paralelipipédicas.

Dois sítios na Baixa que se me tinham eclipsado da memória:

A Rádio Vitória, que pagou um dos mais célebres anúncios de sempre da rádio portuguesa, suponho que dos anos 1960. Não me lembro de ouvi-lo em primeira mão, mas era um jingle assim, cantado em ritmo acelerado:

Candeeiros bem bonitos
modernos, originais,
compre-os na Rádio Vitória,
não se preocupe mais.

Lá na Rua da Vitória
quarenta e seis quarenta e oito
satisfa-se plenamente
o cliente mais afoito

Porque na Rádio Vitória
Embaixada do bom gosto
Quem lá vai é bem servido
e sai sempre bem disposto





E esta Merendinha, na rua dos Condes de Monsanto, à Praça da Figueira, especializada em sandes de leitão, limonadas fresquinhas e sumos de laranja e ananás. Tudo bastante bom, a preços módicos e com serviço impecável.



Outra surpresa são os painéis de azulejos no interior alusivos à cultura do trigo e indústria de moagem, que incluem uma bela vista duma fábrica Aliança, em local não identificado (Beja? Santa Iria da Azóia?), assinados Jorge Colaço. Colaço é um pintor da geração de Columbano e Malhoa que se tornaria conhecido como prolífero autor de paínéis de azulejos, em estações ferroviárias (os espectaculares painéis da Estação de São Bento no Porto, por exemplo, e outros em estações mais pequenas), igrejas (exterior de Santo Ildefonso, também no Porto) e muitos outros locais, num estilo tardo-romântico-nacionalista que confirma que a estética do Estado Novo é de facto continuadora da estética republicana.

24.10.06



Outra vez outro blog a dizer que se calhar vai acabar. Quantas vezes tenho pensado escrever isso. Porque será que os blogs (pelo menos os portugueses) parecem ter um prazo de dois-dois anos e meio para funcionar com entusiasmo? Podia ser seis meses, um ano, três anos. Este vai a caminho do terceiro, e cof cof. Atribuía isso a outras causas, não fosse pensar que há uma possível regularidade, do tipo quanto tempo se aguenta em apneia.

23.10.06



É tramado chegar a um sítio e de repente ele já não existir. Mesmo quando isso era previsível, como neste caso.

Era o café ao lado dos ferries do Cais do Sodré. Não tinha nenhuma qualidade especial, excepto a de ter uma raríssimas esplanadas à beira-rio em Lisboa, sem carros à frente nem nada.


De resto funcionava muito mal, e era igualmente 'mal frequentado', maioritariamente por pessoas que lá iam por ser o único café naquela zona (ultimamente muitos imigrantes, africanos e da Europa de Leste, além dos perdidos da vida que por ali andaram sempre), e menos por outras que iam lá pela vista magnífica.


A razão, anunciada, do desaparecimento, é a construção dos edifícios para dois organismos da União Europeia, o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, que já está em Lisboa há uns anos, em Santa Apolónia, e a Agência Europeia de Segurança Marítima, que chegou há poucos meses e está instalada provisoriamente no Parque das Nações. O OEDT vai ficar num edifício que vai substituir este antigo armazém portuário, e a AESM num outro em L, em que um dos corpos vai ficar rente ao Tejo, paralelo a este.

Não tenho grande coisa contra o edifício do OEDT, isoladamente. Só que o outro vai interromper o percurso pedonal entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré. Além disso, a av. Ribeira das Naus será desviada para junto do rio. Para nós, miseráveis lisboetas que na cabeça das nossas amáveis elites odiamos a vida ao livre, é menos um bocado de Tejo que nos será subtraído, a juntar ao buraco que resultou da desastrada intervenção que é o terminal fluvial do Cais do Sodré (de que já falei há anos aqui e aqui, e particularmente irritante por o projecto vir do atelier dum famoso arquitecto que apregoa a sua 'consciência social', Nuno Teotónio Pereira).

O terminal fluvial parece um pretexto para dotar a administração da Transtejo duma bela vista sobre o Tejo. E agora, a Administração do Porto de Lisboa viola de forma ainda mais flagrante o interesse público (essa coisa hoje completamente fora de moda, é verdade). Com quilómetros de espaço disponível (na Matinha, Pedrouços e Algés, por exemplo), a APL escolhe logo o melhor sítio que tem, em pleno centro da cidade, para que os eurocratas possam passear os seus educadíssimos olhos pelo estuário sem nativos a estragar a paisagem. A troco, é claro, de uma pipa de massa paga pela UE. E não se vê reacção nenhuma por parte da CML, nem dos iluminados que propõem a 'salvação' da Baixa. Como se fizesse algum sentido pagar uma inverosímil pipa de massa para salvar uma coisa de salvação quase impossível, ao mesmo que se deita fora a oportunidade de ter um espaço público de fruição do nosso fantástico Tejo, que serviria também a suas excelências se não nos tivessem tanto horror.

Além disso (o que só por si talvez devesse ser o argumento fundamental) estes edifícios estarão no domínio público marítimo, onde julgo que, em princípio, só podem ser construídos equipamentos de apoio a actividades relacionadas com o uso da orla marítima (portuárias, piscatórias ou de recreio). Excepto, pelo que se vê, se o lucro para a instituição estatal que os gere for irresistível.

Resta-nos a nós, insensíveis brutos, andar no ferry, enquanto existe. Aproveitemos agora. Não lhe dou mais um ano.

16.10.06





Lula Pena, num raro concerto, sábado passado na ZDB. Um sucesso, jogando em casa (mas também, toda a gente em Lisboa joga em casa ali). Fiquei a pensar, parafraseando um título já antigo, 'O que há de português na música portuguesa?'. Certamente, neste caso, a língua, algumas referências ao fado, uma certa forma de cantar (que pareceu mais próxima da tradição ligada a Coimbra e ao jovem José Afonso do que da lisboeta). Mas ouvi também ecos da América Latina. Enfim, não interessa. É muito interessante e original. Gostava de ouvir seguidos numa noite a Lula, os Dead Combo, o JP Simões, os Oqu'estrada (que nome impossível de acertar, onde raio fica o apóstrofe, decidam-se), e quem sabe os München, apesar do trema. Sem debate sobre nada disto.

11.10.06





Dois aviões passaram num intervalo de cinco minutos sobre o Pinhal Interior Sul, enquanto eu repousava num banco da rua principal ao fim da tarde. É reconfortante sentir este frenesi lá em cima, pessoas viajando dum lado para outro, cristais de gelo das turbinas riscando o azul do céu.

10.10.06



Este é um tema que há anos me interessa e sobre o qual gostaria de trabalhar -- a 'consciência provincial'. Ou seja, saber quais as entidades territoriais com que as pessoas se identificam.
Descobri este mapa no 'Portugal Geográfico' (ed. João Sá da Costa, 1995), um belo livrinho da veterana geógrafa Suzanne Daveau cujo único e dificilmente desculpável defeito é o de não mencionar as referências bibliográficas. Bom, mas pelo menos fiquei a saber que, em 1958, foi publicado um trabalho por Paiva Boléo e Santos Silva sobre a consciência provincial dos portugueses em 1942, deduzo que baseado num inquérito. Os traços mais largos denotam menor 'consciência' e aparecem, como seria de esperar, na Beira Litoral e na Estremadura, as duas regiões mais fluídas (e 'fracas' como identidade, confundindo-se ao longo do tempo, embora muito 'fortes' em tudo o resto -- económica e demograficamente).
Outro dado interessante é a intensidade da 'consciência' de províncias cuja criação legal é contemporânea (1936) do inquérito: o Douro Litoral, tradicionalmente incluído no Entre-Douro-e-Minho e criado como materialização duma zona de influência do Porto, tal como aconteceu com Coimbra e a Beira Litoral; e o Ribatejo (! -- esta é que me tramou), cuja 'consciência' chegava até à Moita e Alcochete -- e aqui não há surpresa nenhuma, apesar de haver quem se admire (e proteste) com a designação de Moita do Ribatejo. (Algo) surpreendente também é a autodesignação de 'durienses' para os habitantes da margem esquerda (mas não da margem direita) do Alto Douro, na zona de São João da Pesqueira e Lamego -- um caso particularmente interessante.
Há quem ache que esta coisa das províncias não tem interesse nenhum. A mim faz-me confusão que (pelo menos aqui no Sul) reine a confusão total sobre as regiões portuguesas, fora os casos mais óbvios (e 'fortes') do Alentejo e Algarve. Também é verdade que as províncias tiveram uma expressão burocrático-legal efémera, logo substituídas por distritos e agora por não se sabe bem o quê. Mas bolas, a Bretanha ou o Languedoc também nunca tiveram existência legal e toda a gente (suponho) sabe onde ficam. E não dá jeito nenhum explicar a alguém que Lamego fica no Norte do distrito de Viseu, embora lá se produza vinho do Porto.

4.10.06



Tirar muitas fotografias dá nisto, entre outras coisas -- de vez em quando repara-se numa foto dum sítio que já não é assim, como este farol (o Farol, também conhecido como do cabo de Sta. Maria) que agora (este Verão) passou a ter um rival mais pequeno, uma coisa, uma torre, com um radar, que ficaria mais ou menos a meio da foto ( e é visível, em último plano, na foto da salina aqui em baixo).



Uma versão melhorada, em Quelfes, da principal atracção turística de Bruxelas.

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