7.6.07
Respostas não científicas a algumas das principais perguntas que nos fazem quando vimos do Brasil, por ordem aproximada de ocorrência:
As cidades brasileiras são perigosíssimas?
Não. São normalíssimas. Se bem que o bom senso aconselhe a evitar zonas desertas à noite, tal como em qualquer cidade grande. Há zonas em São Paulo e no Rio com imensa animação nocturna, e menos melgas que em Lisboa.
Os brasileiros estão sempre aos pulos a dizer oba oba, e aos abraços e beijos uns aos outros e a nós?
Não. Oba só nos livros antigos do Tio Patinhas. Consomem imenso prozac quando têm dinheiro para isso. No entanto, são bastante cordiais e bem educados. Até as pessoas que tentam vender alguma coisa ou cravar. O serviço nos bares e restaurantes é fantástico de um modo geral, e nos outros casos apenas bom.
Há sempre um brasileiro em cada esquina a tocar samba ou outra coisa qualquer?
Não. É mais ou menos como na Europa. Mas para quem gosta dos clássicos brasileiros há um circuito de bares em São Paulo e no Rio com música ao vivo. Este site é um bom guia.
Bebe-se imensa caipirinha?
Não. A especialidade alcoólica do Brasil é a cerveja, mais leve que as europeias em geral, sempre servida gelada e envolta em recipientes isotérmicos. Depois desta experiência, qualquer cerveja, mesmo belga, revela-se uma decepção. O Brasil gasta grande parte dos seus recursos energéticos nesta brincadeira, mas que se lixe, é mesmo muito bom.
Comem feijoada o tempo todo?
A maior parte, talvez. De resto, enquanto o euro estiver a um câmbio favorável, os restaurantes são mais baratos que na Europa, incluindo Portugal, e muito melhores em todos os aspectos.
Há multibanco lá?
Por todo o lado. Paga-se com cartão até o pequeno-almoço, jornais e maços de tabaco.
O Brasil tem alguma coisa a ver com Portugal?
Não. É um país da América onde se fala a mesma língua que em Portugal, o que é muito confortável para nós portugueses, apesar de possíveis mal-entendidos, nada de especial. Dá muito menos trabalho a lidar com o exótico -- comparado com Inglaterra p. ex. aquilo é trigo limpo. Ninguém se lembra que Portugal existe, é assim uma vaga coisa que aprenderam na escola, na melhor das hipóteses, o que é óptimo. Na pior das hipóteses, 'nós' somos os culpados por tudo o que correu e corre mal no país -- deviam ter sido ingleses, holandeses, italianos ou mesmo espanhóis (mais ou menos por esta ordem) a exterminar os índios e escravizar negros, sempre era uma coisa mais fina. Até eu preferia, enfim toda a gente, só que aí não havia Brasil mas outra coisa qualquer e não falávamos a mesma língua, o que seria uma chatice (para nós, claro). Não tínhamos o privilégio de sermos os únicos não-brasileiros a perceber o João Gilberto, que de qualquer modo não existiria, etc (Calvino ajuda-me onde quer que estejas). Enfim, não há problema -- não temos 'português' escrito na testa e não identificam o sotaque, o que não admira, é mais provável ouvir ucraniano que esta coisa que nós falamos aqui. Ouvi por três vezes 'Cê é italiano?', o que nunca me tinha ocorrido.
É verdade que aquilo está cheio de gajas giras?
Tal como aqui.
As cidades brasileiras são perigosíssimas?
Não. São normalíssimas. Se bem que o bom senso aconselhe a evitar zonas desertas à noite, tal como em qualquer cidade grande. Há zonas em São Paulo e no Rio com imensa animação nocturna, e menos melgas que em Lisboa.
Os brasileiros estão sempre aos pulos a dizer oba oba, e aos abraços e beijos uns aos outros e a nós?
Não. Oba só nos livros antigos do Tio Patinhas. Consomem imenso prozac quando têm dinheiro para isso. No entanto, são bastante cordiais e bem educados. Até as pessoas que tentam vender alguma coisa ou cravar. O serviço nos bares e restaurantes é fantástico de um modo geral, e nos outros casos apenas bom.
Há sempre um brasileiro em cada esquina a tocar samba ou outra coisa qualquer?
Não. É mais ou menos como na Europa. Mas para quem gosta dos clássicos brasileiros há um circuito de bares em São Paulo e no Rio com música ao vivo. Este site é um bom guia.
Bebe-se imensa caipirinha?
Não. A especialidade alcoólica do Brasil é a cerveja, mais leve que as europeias em geral, sempre servida gelada e envolta em recipientes isotérmicos. Depois desta experiência, qualquer cerveja, mesmo belga, revela-se uma decepção. O Brasil gasta grande parte dos seus recursos energéticos nesta brincadeira, mas que se lixe, é mesmo muito bom.
Comem feijoada o tempo todo?
A maior parte, talvez. De resto, enquanto o euro estiver a um câmbio favorável, os restaurantes são mais baratos que na Europa, incluindo Portugal, e muito melhores em todos os aspectos.
Há multibanco lá?
Por todo o lado. Paga-se com cartão até o pequeno-almoço, jornais e maços de tabaco.
O Brasil tem alguma coisa a ver com Portugal?
Não. É um país da América onde se fala a mesma língua que em Portugal, o que é muito confortável para nós portugueses, apesar de possíveis mal-entendidos, nada de especial. Dá muito menos trabalho a lidar com o exótico -- comparado com Inglaterra p. ex. aquilo é trigo limpo. Ninguém se lembra que Portugal existe, é assim uma vaga coisa que aprenderam na escola, na melhor das hipóteses, o que é óptimo. Na pior das hipóteses, 'nós' somos os culpados por tudo o que correu e corre mal no país -- deviam ter sido ingleses, holandeses, italianos ou mesmo espanhóis (mais ou menos por esta ordem) a exterminar os índios e escravizar negros, sempre era uma coisa mais fina. Até eu preferia, enfim toda a gente, só que aí não havia Brasil mas outra coisa qualquer e não falávamos a mesma língua, o que seria uma chatice (para nós, claro). Não tínhamos o privilégio de sermos os únicos não-brasileiros a perceber o João Gilberto, que de qualquer modo não existiria, etc (Calvino ajuda-me onde quer que estejas). Enfim, não há problema -- não temos 'português' escrito na testa e não identificam o sotaque, o que não admira, é mais provável ouvir ucraniano que esta coisa que nós falamos aqui. Ouvi por três vezes 'Cê é italiano?', o que nunca me tinha ocorrido.
É verdade que aquilo está cheio de gajas giras?
Tal como aqui.
Comments:
Adorei sua descrição do Brasil que você conheceu.
Pena que eu não escreva tão bem para contar da Lisboa que me encantou.
Pena que eu não escreva tão bem para contar da Lisboa que me encantou.
Fui ao Brasil em 2004 e passei là umas cinco semanas. Concordo plenamente com as descrições feitas : cerveja gelada, às vezes um certo rancor para com o passado colonial (esses portugueses que saquearam as riquezas brasileiras ...) e também imperial (por causa da escravatura vigente até 1888, introduzido pelos portugueses, mas tal como as demais potências coloniais no continente americano durante a época moderna), mas compensado por um "Cê é português? A minha avô era de Coimbra!" ou "A minha familia veio de Portugal em tal data" etc, o sotaque (no Goias : "Você é carioca, né?") ...
E os brasileiros não ouvem diariamente samba e ainda menos bossa nova (considerada là por muitos como musica jà antiga e para a burguesia carioca ...), mas sim musica ligeira, variedades inspiradas nas melodias estado-unidenses, um "pimba" tropical ...
E os brasileiros não ouvem diariamente samba e ainda menos bossa nova (considerada là por muitos como musica jà antiga e para a burguesia carioca ...), mas sim musica ligeira, variedades inspiradas nas melodias estado-unidenses, um "pimba" tropical ...
Grandes férias Pedro! Sinto imensa inveja...
Pois, os estereotipos são lixados! isto é mais ou menos como o retrato do Português sempre a ouvir fado. Ele com um grande bigode farfalhudo, ela vestida de preto com um carrapito, bebem vinho e vão à igreja todos os domingos. São baixos, morenos de pele escura e gordos....
Pois, os estereotipos são lixados! isto é mais ou menos como o retrato do Português sempre a ouvir fado. Ele com um grande bigode farfalhudo, ela vestida de preto com um carrapito, bebem vinho e vão à igreja todos os domingos. São baixos, morenos de pele escura e gordos....
Os estereótipos são lixados e de que maneira. O pior é quando usados em discursos pseudo-científicos, está sempre a acontecer.
Mas realmente a reacção em geral é exactamente aquela -- 'meu avô era português'. Toda a gente parece ter um avô português, e não há problema.
A história do complexo colonial é mais sofisticada, e também tem o seu reverso aqui mas não tão elaborado. Lá fiquei com a sensação de que é a história que ensinam às criancinhas, tal como aqui se ensinava (ou ensina, não sei) que os espanhóis eram uns senhores muito maus sempre a cobiçar este riquíssimo país.
Quanto à música, o achei interessante é que o Brasil já tem músicas 'clássicas' -- pelo menos o choro, o samba e a bossa nova. O choro é uma coisa muito minonitária, aliás tenho a impressão de que pouca gente faz ideia do que é. Mas o samba está bem vivo em certos contextos, e a bossa nova ressurge. Muitas das coisas 'novas' que têm aparecido lá não são mais que reinterpretações da bossa, mas se calhar para um público mais sofiticado. Depois há o pimba, o funk, uma quantidade de coisas que é o que as pessoas de facto ouvem e eu não conheço, comfesso.
Quaanto
Mas realmente a reacção em geral é exactamente aquela -- 'meu avô era português'. Toda a gente parece ter um avô português, e não há problema.
A história do complexo colonial é mais sofisticada, e também tem o seu reverso aqui mas não tão elaborado. Lá fiquei com a sensação de que é a história que ensinam às criancinhas, tal como aqui se ensinava (ou ensina, não sei) que os espanhóis eram uns senhores muito maus sempre a cobiçar este riquíssimo país.
Quanto à música, o achei interessante é que o Brasil já tem músicas 'clássicas' -- pelo menos o choro, o samba e a bossa nova. O choro é uma coisa muito minonitária, aliás tenho a impressão de que pouca gente faz ideia do que é. Mas o samba está bem vivo em certos contextos, e a bossa nova ressurge. Muitas das coisas 'novas' que têm aparecido lá não são mais que reinterpretações da bossa, mas se calhar para um público mais sofiticado. Depois há o pimba, o funk, uma quantidade de coisas que é o que as pessoas de facto ouvem e eu não conheço, comfesso.
Quaanto
Se me permite, esta história do choro ser minoritário está ligeiramente enganada. Assim como o samba ( samba de raiz, como dizemos), um samba de melodia e harmonia mais bonita e mais sofisticada, vem retomando o seu lugar de importância, conquistando músicos, compositores, nas gerações mais jovens,o mesmo acontece com o choro, como não podia deixar de ser já que o choro é um dos precursores do samba.
O samba está, no Rio, muito mais vivo em geral do que apenas em certos contextos. Basta ir à Lapa, às dezenas de bares da Lapa. Não, basta andar pelos subúrbios, ou ir por exemplo à Praia Vermelha, na Urca, onde todas as segundas, quartas e sextas feiras, lá, como em Laranjeiras, há choro e samba de graça para quem quiser ouvir. Músicos profissionais que se reúnem por prazer. Fora isso as pessoas em geral cantam, conhecem as letras, afora, claro as que tocam instrumentos. Assim em muitíssimas pequenas festas familiares de aniversário, por exemplo, há sempre um violão, quando não há também um pandeiro,e sempre acaba-se por cantar . A bossa nova (que eu amo) é um caso à parte. Porque de fato é um genero musical fantástico que já há muito não produz , relê. Por outro lado há outras vertentes da boa MPB, de qualidade irretocável, que aí estão. Produzindo.
Seu texto está ótimo, como amostra de um visitante português recém chegado (e observador). Muito bom.
O único senão, para mim, era a questão da música.
Ainda não o levaram para conhecer o Rio musical? Pois escreva-me, terei prazer em mostrá-lo a você.
Um abraço,
Silvia
O samba está, no Rio, muito mais vivo em geral do que apenas em certos contextos. Basta ir à Lapa, às dezenas de bares da Lapa. Não, basta andar pelos subúrbios, ou ir por exemplo à Praia Vermelha, na Urca, onde todas as segundas, quartas e sextas feiras, lá, como em Laranjeiras, há choro e samba de graça para quem quiser ouvir. Músicos profissionais que se reúnem por prazer. Fora isso as pessoas em geral cantam, conhecem as letras, afora, claro as que tocam instrumentos. Assim em muitíssimas pequenas festas familiares de aniversário, por exemplo, há sempre um violão, quando não há também um pandeiro,e sempre acaba-se por cantar . A bossa nova (que eu amo) é um caso à parte. Porque de fato é um genero musical fantástico que já há muito não produz , relê. Por outro lado há outras vertentes da boa MPB, de qualidade irretocável, que aí estão. Produzindo.
Seu texto está ótimo, como amostra de um visitante português recém chegado (e observador). Muito bom.
O único senão, para mim, era a questão da música.
Ainda não o levaram para conhecer o Rio musical? Pois escreva-me, terei prazer em mostrá-lo a você.
Um abraço,
Silvia
Sílvia, eu não disse que não havia esses géneros musicais no Rio. Até aqui em Lisboa conheço um sítio onde há. Basta dar uma olhada no samba-choro.com para ter uma ideia do que se passa. Isso era uma piada com uma das ideias estereotipadas do Brasil em Portugal, a de que os brasileiros estão sempre a cantar. Não me pareceu que houvesse mais música no Rio ou em São Paulo do que em Lisboa ou outra capital europeia, mesmo nem tendo em conta o tamanho das cidades. Se bem que provavelmente o único país da Europa que rivaliza em produtividade musical com o Brasil deve ser a Inglaterra.
Quanto ao choro, eu ouvi tanto no Rio como em São Paulo, e sei que não é difícil, estive nas Laranjeiras, na feira, embora com azar porque a música já tinha acabado mas fiquei sabendo que ia abrir ali perto um novo bar de choro, conheci esse bar da Praia Vermelha, o Bip Bip em Copacabana e outro que não me lembro agora perto do centro. Mas acho que devia ser um estilo muito mais divulgado. A Fnac onde fui nem tinha secção de choro. Não tinha nenhum disco do Abel Ferreira. O para mim mítico Choro na Praça, que registou velhas glórias do choro 1977 (os já falecidos Abel Ferreira,e Waldir Azevedo, com Zé da Velha, este ainda bem activo), continua sem edição em CD, o que me parece um escândalo. Façam já um movimento aí para obrigarem seja quem for a editar isso!
Samba de raiz não ouvi mas sei que há muita gente fazendo.
Enfim, mas tudo isso não é mainstream, acho eu.
O problema mesmo foi que precisava estar mais um mês no Rio. Se for aí de novo digo.
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Quanto ao choro, eu ouvi tanto no Rio como em São Paulo, e sei que não é difícil, estive nas Laranjeiras, na feira, embora com azar porque a música já tinha acabado mas fiquei sabendo que ia abrir ali perto um novo bar de choro, conheci esse bar da Praia Vermelha, o Bip Bip em Copacabana e outro que não me lembro agora perto do centro. Mas acho que devia ser um estilo muito mais divulgado. A Fnac onde fui nem tinha secção de choro. Não tinha nenhum disco do Abel Ferreira. O para mim mítico Choro na Praça, que registou velhas glórias do choro 1977 (os já falecidos Abel Ferreira,e Waldir Azevedo, com Zé da Velha, este ainda bem activo), continua sem edição em CD, o que me parece um escândalo. Façam já um movimento aí para obrigarem seja quem for a editar isso!
Samba de raiz não ouvi mas sei que há muita gente fazendo.
Enfim, mas tudo isso não é mainstream, acho eu.
O problema mesmo foi que precisava estar mais um mês no Rio. Se for aí de novo digo.
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