6.11.07



Mais um bom disco de Vinicius Cantuária, bastante acima do anterior soporífero Horse and Fish mas abaixo dos fantásticos três álbuns anteriores a este (Sol na Cara, Tucumã e Vinicius). As melhores músicas são também as surpresas deste disco -- incursões na morna caboverdiana ou algo que faz lembrar bastante, e entram para a já considerável colecção de excelentes canções de Cantuária.


Igualmente bom é o último do Arto Lindsay, cuja carreira está completamente entrelaçada com a de Vinicius. É o disco mais 'brasileiro' desde Corpo Sutil, e ao mesmo tempo o mais rock, com a co-produção de Kassin (do trio Moreno, Domenico e Kassin) e a guitarra eléctrica de Pedro Sá, o mesmo que co-produziu Cê e tocou na respectiva banda. O que torna o disco por vezes estranhamente parecido ao último do Caetano, embora lhe seja anterior.

O que é interessante, embora triste, é que estes dois artistas, que fazem da melhor e mais interessante música brasileira da actualidade, não circulam no Brasil, ou circulam muito mal.

O Brasil nem sequer aparece nas digressões de Cantuária, e ele continua a ser referido na net brasileira como um algo obscuro músico que em tempos tocou bateria na banda de Caetano, há quase 20 anos, e depois gravou uns álbums a solo que não ficaram para a história (acertadamente). Toda a extraordinária carreira desenvolvida em Nova Iorque é praticamente ignorada. Até mesmo nos sites de downloads piratas escasseiam os discos dele.

Vinicius Cantuária entrou no mesmo circuito dos músicos de NY com quem passou a tocar -- só para citar alguns dos mais conhecidos, Bill Frisell, Joey Baron e Brad Mehldau. É altamente elogiado em jornais das elites 'ocidentais' como o New York Times ou o Guardian. E no Brasil é recordado como um cantor pimba.

Com Arto Lindsay a coisa é um pouco diferente -- parece que toca de vez em quando no Brasil, mas é sobretudo conhecido como o cara que produziu o Estrangeiro e Circuladô do Caetano, além de três discos da Marisa Monte. Dos discos dele, quase nada se sabe. Lindsay foi-se revelando, mais do que um simples neobossanovista como Cantuária, um herdeiro do espírito ecléctico e cosmopolita do Tropicalismo -- do primeiro Caetano, do Caetano eléctrico de Transa (de que Cê é em grande medida herdeiro directo), de Tom Zé e dos Mutantes.

Há portanto circuitos que atravessam o Atlântico Norte mas não vão para o Sul. Os músicos são de lá, tocam bossa nova e são elogiados (justamente) pela crítica 'ocidental' como a melhor coisa que apareceu nas últimas décadas vinda do Brasil, e lá são ignorados -- porque foram parar ao mundo da world music, do jazz, da música sofisticada para elites, sei lá. Enquanto os Sepultura são mundialmente conhecidos, e também no Brasil, muito provavelmente por serem metálicos, uma linguagem que se tornou universal. Estranho mundo.

Entretanto, cá em Portugal, Arto e Vinicius tornaram-se mais evidentemente brasileiros, o que faz com que certas e determinadas pessoas que os podiam trazer a pequenos espaços em Lisboa não o façam porque cantam em português e tocam samba e bossa nova, instrumentos acústicos e isso, também não são suficientemente exóticos para outros circuitos, e também não enchem coliseus nem passam na rádio, comercial ou alternativa, pelas mesmas razões.
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