31.1.07





Há uns tempos, num final de tarde em Lisboa, passei por esta porta e vinha música de lá de dentro. Era alguém a estudar piano, e fiquei durante uns minutos a ouvir, numa espécie de voyeurismo cego a tentar imaginar como seria aquela pessoa que tocava. Parecia-me Bach mas não conseguia identificar o quê. Provavelmente um prelúdio do Cravo Bem Temperado, não sei bem qual.

Uma obra de referência que eu esperava ansiosamente é o Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX.
É uma iniciativa da Ordem dos Arquitectos, inspirada, segundo o texto de apresentação, no célebre Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (1961), e pretende "criar mecanismos que permitam à sociedade portuguesa conhecer de modo informado e sustentado a nossa arquitectura novecentista com a finalidade de, por um lado, ajudar a traçar estratégias de salvaguarda dessa memória mais recente e, por outro, conduzir ao aprofundamento do significado da nossa cultura arquitectónica actual".

O resultado, em forma de livro, CD-ROM e site, foi lançado há uns meses. Custou 1.150.066 euros (financiados a 75% pela UE) e inclui 6112 fichas.

O livro é absolutamente decepcionante, sobretudo para quem conhece o magnífico Inquérito de 1961. As obras são apresentadas por ordem cronológica, uma opção muito discutível, e a forma como o índice remissivo por autor está organizado torna a pesquisa quase impossível. As fotografias são simplesmente pindéricas, para não dizer pior.

A versão online é bastante melhor, já que facilita a pesquisa geográfica e por autor.
Não há notas biográficas dos arquitectos representados. E subsiste o problema das fotos.
A concepção das fichas é algo obscura, no mínimo, com edifícios com fichas repetidas, sem que por vezes se perceba bem qual o papel que cada autor teve na obra (um exemplo é o Casino do Funchal, que no texto introdutório é atribuído a Niemeyer e em cuja ficha aparece também o nome de Viana de Lima -- um caso de autoria discutível, e discutida, e essa questão devia ser referida algures). Não sei se há muitas imprecisões e inexactidões, mas logo à terceira consulta detectei várias (nas fichas referentes a Niemeyer há nomes trocados e uma ficha repetida).

Vejamos o que acontece com um arquitecto pelo qual tenho especial curiosidade, Raul Chorão Ramalho. A parte boa é que consegui identificar muitas obras que não sabiam que eram dele, e só isso já valeu à visita ao site.

As fotos são sempre muito pequenas, como acontece no livro, e parecem ter como objectivo apenas permitir uma identificação do edifício no local. Ou seja, a pessoa sabe a localização e a foto ajuda a identificar o edifício.

Este é o Hotel Quinta do Sol, um edifício que me é muito familiar, e suponho que a qualquer pessoa que tenha estado uns tempos no Funchal. É dos tais de que desconhecia a autoria. Tudo bem -- qualquer pessoa pega num mapa e com a ajuda da foto descobre logo o hotel. Agora, se não puder ir lá, ter uma ideia do que é com uma foto deste tamanho é mais complicado.

Pior é o que acontece com um dos edifícios mais conhecidos deste arquitecto, a Assembleia Regional da Madeira:

Aqui é que só mesmo indo lá ver. Eu sei que não é fácil fotografá-lo, mas bolas.

Há pior ainda, como nesta imagem da Caixa Geral de Depósitos de Leiria:



Se calhar estou a ser mauzinho. As fotos permitem quase sempre uma identificação fácil dos edifícios. Se calhar eram inviáveis grandes luxos fotográficos num trabalho tão exaustivo, para mais com a presumível preocupação de não hierarquizar obras e arquitectos. Mas sabe a muito pouco para quem se declara inspirado no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, que é, entre outras coisas, um notável livro de fotografia. E imaginar as dificuldades por que passou quem o fez, por contraste com o simpático orçamento de 230 mil contos do seu sucessor, dá que pensar.

Na verdade, o Inquérito à Arquitectura do Século XX é um trabalho muito diferente, com uma que tem muito mais a ver com anteriores publicações da Associação dos Arquitectos, como o Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa, que tem uma organização semelhante, embora com muito mais informação, na forma de textos introdutórios a cada zona analisada.

O Inquérito à Arquitectura do Século XX é também uma boa base para futuros trabalhos de divulgação do património arquitéctonico contemporâneo. Se em relação a Lisboa e Porto já estava recolhida muita informação, julgo que para as outras cidades portuguesas é o primeiro trabalho do género. Pôr o trabalho online foi uma óptima ideia. E qualquer pessoa pode sugerir alterações.

29.1.07



Desde há uns anos que tenho vindo a gravar pequenos vídeos sobre meios de transporte ibéricos. O objectivo é um dia encher uma sala com ecrãs a passá-los todos ao mesmo tempo, ganhar um subsídio para fazer mais e fugir com o dinheiro para o Brasil. Aqui vai o primeiro:



Para quem não conhece Lisboa, isto é um eléctrico da famosa linha 28 que percorre as colinas da cidade, num local entre Alfama e a Graça em que só há uma linha com dois sentidos. Antigamente havia aqui dois sinaleiros que passavam o dia a dar passagem aos eléctricos, substituídos hoje por um semáforo. Outra nota contemporânea é que muitos dos guarda-freios são agora meninas que tornaram os eléctricos ainda mais simpáticos e elegantes.

28.1.07



Já vi que não há tudo no You Tube, mas mesmo assim há coisas extraordinárias que não me passava pela cabeça encontrar, saídas sabe-se lá de onde, como o Bill Evans a tocar o Waltz for Debby em 1964 (não é o mítico trio de 1961 com Scott LaFaro, isso seria mesmo muito improvável):



Há também um programa de televisão dos anos 1960 com uma entrevista com ele, que aparentemente alguém gravou da TV japonesa, e onde Evans defende uma tese ainda hoje controversa: que o jazz não é um estilo mas sim um processo de composição em tempo real.


Esta é ainda mais inesperada -- do Glenn Gould esperava encontrar excertos do documentário Off The Record (1959). Não há, mas há as Variações Goldberg, última versão, muito bem filmado. Não sabia que isto existia. Incrível. Aqui estão as Variações 1-7:



Aparentemente, não há nada dos Concertos para Jovens do Leonard Bernstein, de que há uma selecção em DVD e que adorava rever (em especial neste momento para saber se é mesmo verdade que o Brian Wilson esteve mesmo lá a tocar o Surf's Up).

O You Tube parece uma caixinha de surpresas em que não aparece o que esperávamos e aparece o inesperado. Thelonious Monk, por exemplo, nos primórdios, uma raridade ainda há uns anos praticamente invisível.

27.1.07



Editor do blog retido em casa por causa da ameaça de nevão lá fora não sabe o que há-de fazer e vai-se entretendo a postar vídeos, algo nostálgico.



(Serra de São Luís, Palmela, Fevereiro 2005)

Não vou lá regularmente, mas parece que já há uns anos que o Abrupto se transformou num caso singular de blog editado pelo autor a partir de contribuições dos leitores e do JPP. Com resultados bastante interessantes.

(foto Gil Coelho)

(foto Marco Ventura)


E depois da secção Fiona Apple, temos o prazer de anunciar uma nova rubrica d'o Céu: Música Ibérica Concreta em Vias de Extinção.

Para começar, Música para Badalos (excerto). Composição e interpretação do Grupo de Vacas de Guijo de Santa Bárbara, na Serra de Gredos, Espanha, ao vivo no Corral de Concejo.



E agora vamos ver e escutar Música Para Foguetes, ao vivo em Cacilhas no dia 1 de Novembro de 2006, durante as festas em honra de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que foi quem alegadamente impediu a destruição do lugar durante o terramoto de 1 de Novembro de 1755. Autor e intérprete não identificado.


Isto era para ser uns vídeos dos Rammstein, mas o nosso crítico pop anda apaixonado por esta menina e lá nos convenceu.

A belíssima versão de Across The Universe, do John Lennon (ler aqui a atribuladíssima história desta canção):



Uma versão ao vivo de Fast As You Can:



E outra versão ao vivo, de O' Sailor, do último álbum Extraordinary Machine:



E pronto, nunca pensámos interessar-nos por uma pessoa que ganhou um Grammy aos 20 anos.

26.1.07



Esta rebaldaria que é o encanto e o desencanto de Lisboa.

(O Grande Oriente Lusitano com as bandeiras a meia haste por causa da morte de Oliveira Marques.) Fazem falta mais sínteses como a que ele fez da História de Portugal, por encomenda da Columbia University Press, há quase 40 anos. É difícil imaginar como teria sido se não tivesse existido esta encomenda. Neste aspecto as coisas quase não mudaram em Portugal. Aliás, no campo da história, é notável que a História de Portugal de Oliveira Marques (quer na versão normal quer na versão compacta) continue a ser praticamente a única do seu género escrita por um autor português, se exceptuarmos a História Concisa de Portugal de José Hermano Saraiva; e que as duas outras obras do género hoje disponíveis em português tenham sido originalmente editadas por editoras universitárias estrangeiras: a Cambridge University Press (por David Birmingham) e a Presses Universitaires de France (Jean-François Labourdette). E há outras áreas em que a situação é semelhante.
É fundamental haver obras de síntese para que os portugueses possam compreender o seu país. Há pessoas nas universidades capazes de escrever essas obras. Há uma editora estatal, a Imprensa Nacional, que podia encomendá-las. O investimento seria muito pequeno, para mais tendo em conta a sua utilidade, e seria facilmente recuperável. Seria também preciso compensar de algum modo os docentes universitários que as escrevessem, para que não se repitam situações absurdas como a que se passou com algumas obras fundamentais de Orlando Ribeiro, que esperaram décadas para serem traduzidas. Ou a que passa hoje, por exemplo, com uma obra fundamental, 'Lisboa Romântica', de Raquel Henriques da Silva, que existe há 10 anos como tese de doutoramento sem que a autora a publique. Interrogo-me se esta situação será legítima: haver investigação paga pelo Estado que depois não é posta à disposição do público. POr outro lado, parece-me absurdo que tenha de ser o Círculo de Leitores a encomendar obras como a História de Portugal de Mattoso, ou agora a Geografia de Portugal dirigida por Carlos Alberto Medeiros (que, já agora, parece ser outra obra equivocada em relação ao grande público a que se destina, tal como a de Mattoso).

Outra panorâmica do mesmo sítio, com as colinas de Sant'Ana e da Penha de França (em segundo plano à direita).

Uma panorâmica de Lisboa, para variar: as colinas da Graça (com a Senhora do Monte e o convento, à esquerda) e do Castelo vistas do topo do elevador de Santa Justa (clicar para ver).

24.1.07



Descobri hoje por acaso no fundo das gavetas do computador esta foto de uma fotografia da Suzanne Themlitz. Faz parte duma série que está no Museu de Arte Contemporânea do Funchal, realizada a partir de postais antigos da ilha, e não faço ideia quando e como foram lá parar. Gosto muito.

Este livro é um belo antídoto contra os disparates com que somos bombardeados todos os dias sobre o Portugal contemporâneo. Acessível e bem escrito, é na verdade um dos melhores trabalhos sobre a história recente de Portugal, escrito por alguém que sabe muito bem do que fala e ainda por cima viveu muitos dos acontecimentos por dentro, do lado do poder -- José da Silva Lopes foi, entre outras coisas, alto funcionário do Ministério da Economia desde 1956, consultor da EFTA, do FMI e do Banco Mundial, administrador do BERD e da CGD, governador do Banco de Portugal, várias vezes ministro, deputado e ainda professor universitário. Este livro tem um defeito, que é só ir até 1994. Espero que o autor ainda escreva sobre os 10 anos seguintes, pelo menos. E que ainda tenha tempo para escrever as memórias -- por algumas amostras que já vi seriam do mais interessante que se possa pensar.

23.1.07



Paul da Serra, Madeira, 30-1-06, 20h22


Idanha-a-Nova, Dezembro 2006


Descarga da azeitona no lagar da Relva, Monsanto, Dezembro 2006

21.1.07



Os mapas interactivos do WWP para os temas energia e fronteiras.

20.1.07



O World Wide Panorama usa uma rede mundial de fotógrafos que fotografam em 'realidade virtual panorâmica' nos solstícios e equinócios de cada ano, de acordo com um tema estabelecido. As fotos são depois publicadas no site, patrocinado pelo departamento de Geografia da Universidade da Caliórnia em Berkeley. Por exemplo, em Setembro de 2006 o tema foi Transportes, em Março de 2006 Fronteiras e em Setembro de 2005 Energia.

As fotos em VR panorâmica são 'esféricas' e reproduzem um local a 360º, ou então são 'cilíndricas' e funcionam a 180º. Só por si, a ideia de ter um instantâneo do mesmo dia em vários pontos do planeta é linda, e esta tecnologia é espectacular. Uma das coisas mais interessantes que já vi na net. Ide lá.

19.1.07



Uma série de fotografias completamente despropositadas:

Fuseta

Hangares, ilha da Culatra

Antigo posto da Guarda Fiscal nos Hangares, Culatra

Culatra

Quinta de Marim, Olhão

17.1.07



Acabo de reparar que há anos que não compro nenhum disco da Carla Bley. Isto porque estou a ouvir este, que já é de 1988. Promoção: Carla Bley's band keeps shrinking. In 1971, she recorded Escalator Over The Hill with a cast of dozens; a decade later, she was leading a 10-piece group; after that, it was a sextet. Now, it's just a piano-bass duo with the masterful Steve Swallow. The textures may be thinner, but the ideas are as big and outrageous as ever, and the playing is so accurate it's almost scary.

Acrescentaria que esta é possivelmente a primeira gravação em que a Carla aparece claramente como pianista, superando o lugar-comum do compositor-muito-bom-mas-nem-por-isso-bom-instrumentista. Um disco lindo, muito cool, que confirma a fantástica empatia musical entre estes dois.

Este Fleur Carnivore é do ano seguinte, 1989. Talvez o mais consensual disco dela, e uma das melhores obras para big band que conheço.









Já agora mais outros discos fantásticos da Carla aqui na prateleira (lista não exaustiva):

Este nem sequer merece o título de mais controverso: acho que sou só eu que gosto muito dele. Muita gente acha-o um dos piores, o que é um disparate. Quando a Carla esteve cá no Coliseu a tocá-lo deu direito a apupos. Música de sofá muito antes do tempo (1985), escrita de propósito para o Steve Swallow. A estranheza que provova no ouvinte tem a ver, para além dos arranjos de gosto duvidoso, com o facto de ser o baixo eléctrico que está em destaque, sempre no registo mais agudo.




Este foi o primeiro a ser editado em nome próprio, em 1971, quando a Carla era só uma compositora muito requisitada. Suponho que não há nada parecido com isto -- qualquer coisa como uma ópera jazz-pop. A lista de participantes é enorme, de Don Cherry a Jack Bruce, de Gato Barbieri a Linda Ronstadt, de Roswell Rudd a Jack McLaughlin, passando por Viva Superstar (as herself), em três anos de gravações. Tem de se ouvir pelo menos uma vez na vida.





Depois da Jazz Composers Association, que teve a sua própria editora, a JCOA, a Carla fundou com o Michael Mantler a Watt Records, um caso pelo menos raro de independência artística. De início gravavam apenas os discos dos dois, e depois os dos novos membros da família -- Steve Swallow, novo companheiro da Carla, e a filha Karen Mantler. Hoje a Watt edita apenas os discos da Carla, e uma subsidiária, a XtraWatt, os do Steve Swallow.

A Carla Bley é também o único músico/compositor/arranjador que gravou vários discos undercover, sob o nome de músicos famosos, mas com composições e arranjos inteiramente dela. O primeiro foi A Genuine Tong Funeral, disfarçada de Gary Burton, em 1967; seguiu-se Liberation Music Orchestra, sob o nome de Charlie Haden, em 1969; e em 1981 o Nick Mason's Ficticious Sports, um disco pop em que o baterista dos Pink Floyd se limita a tocar bateria e a Carla e os seus amigos fazem tudo o resto.

12.1.07



A iluminação das exposições (de fotografia mas não só, tudo o que tenha vidros) é um problema no de resto belíssimo Centro das Artes Casa das Mudas, como acontece quase sempre perante a indiferença quase geral, incluindo arquitectos, artistas e outros responsáveis. Como se ver as peças não fosse o objectivo primordial. Se calhar não é, basta dizer que se esteve lá. E depois, na melhor das hipóteses, vê-se as coisas nos livros. Neste caso, chego a interrogar-me se o edifício não ficaria melhor vazio.

11.1.07



E de dia.




Mais uns postalinhos da Madeira à noite




3.1.07



As mesmas montanhas agora vistas do lado oposto e à hora simétrica.

2.1.07




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