26.2.07




O Príncipe Real, domingo à tarde.

Este deve ser uns dos miradouros mais desconhecidos de Lisboa, embora fique dentro do jardim da Estrela. Tem outra característica: não se vê de lá grande coisa. Há uns anos devia ter uma boa vista para oeste e para o rio, mas entretanto cresceram uns prédios na rua mesmo atrás que roubaram a vista. Quanto eu o conheci ainda havia uma nesga entre esses prédios de onde se via Santa Catarina, mas agora umas árvores cresceram nesse sítio e lá se foi. Agora só se vê o topo dos prédios mais altos, como os das Amoreiras. Dentro de pouco tempo só se vai ver o céu.

25.2.07




O café do S. Jorge, um sítio com um ar muito mais civilizado do que é costume em Lisboa. A vista mostra um bocadinho de Avenida de arquitecturas especialmente felizes.

23.2.07



E agora outra imagem que não tem nada a ver.


O magnífico terraço da ZDB durante a inauguração do João Tabarra, ontem. Devia era estar sempre aberto. E tirarem aqueles vasos dos bancos, que raio de ideia. Meus, aquelas cenas são para as pessoas se sentarem. Chamam-se namoradeiras, acho eu.

22.2.07



Do Torel, de novo, agora (quase) sem photoshop. Reparem nos dois aviões do lado direito da imagem. Sempre quis fazer isto mas não foi de propósito, só reparei quando vi a foto em casa.

20.2.07



Um órgão de poder executivo pode demitir-se, alegando que há uma lei superior que o impede de governar, mesmo tendo o apoio duma maioria absoluta no parlamento perante o qual responde? Caso a resposta seja sim, depreende-se que, sendo convocadas novas eleições, com resultado idêntico, o mesmo executivo pode ser de novo nomeado, e demitir-se no dia seguinte à nomeação, caso a dita lei não seja revogada; após o que seriam convocadas novas eleições, e caso eventualmente o mesmo partido ganhasse, poder-se-ia demitir no dia seguinte, mantendo-se a tal lei em vigor; e assim sucessivamente, caso o resultado fosse sempre o mesmo, o que provocaria uma situação de campanha e eleição permanente, sem que algum governo chegasse efectivamente a governar, dado que assumiria funções apenas para demitir-se logo a seguir.

19.2.07



Mombaça, hoje Mombasa, no Quénia

De como os zimbas entraram em Mombaça e a destruíram, e depois foram a Melinde, onde foram desbaratados

Quíloa destruída, tornou o Zimba a continuar seu caminho ao longo da costa, até chegar à terra firme que está defronte da ilha de Mombaça, na praia da qual assentou seu arraial, com determinação de entrar na ilha, como tinha feito na de Quíloa; mas não poude logo fazer o que desejava, porque n'essa conjunção tinham entrado quatro galés de turcos do Estreito de Meca (...) Os quais turcos lhe defenderam a entrada da ilha, pelejando com elles muitas vezes, e matando-lhe muita gente com sua artilheria, que jogava de duas galés, que tinham postas em um passo por onde o Zimba queria entrar. E n'esta briga foram continuando alguns dias, até que succedeu no mesmo tempo vir Thomé de Sousa, da India, com uma grossa armada contra estas mesmas galés; achando-as n'este rio, pelejou com ellas, e as tomou com tudo o que traziam, e captivou os turcos que n'ella estavam, e juntamente destruiu a ilha de Mombaça. O que tudo foi feito á vista dos Muzimbas, que estavam da outra banda, na terra firme, mui espantados de verem obrar tantas maravilhas, aos portuguezes. Pelo que disse o capitão muzimba, que os portugueses eram deuses do mar, e elle da terra. E logo mandou um embaixador a Thomé de Sousa, dizendo que elle era amigo dos portuguezes, e não queria guerra com elles; e pois já tinha acabado sua guerra tão honradamente, que também elle queria acabar a sua, em que estava havia já dias, que era entrar na ilha e matar, e comer toda a cousa viva que n'ella se achasse. O que logo poz em effeito por consentimento dos portugueses. E entrando na ilha, buscou em todos os palmares e matos, que n'ella havia, onde achou muitos mouros embrenhados, que tinham fugido da cidade, e matou e comeu todos os que poude tomar. Isto feito tornou-se Thomé de Sousa com sua armada para a India victorioso (...) e o Zimba para a terra firme, e foi continuando a sua marcha para Melinde.


Melinde (Malindi, hoje, no Quénia)

El-rei de Melinde estava mui atemorisado com as novas que tinha da vinda dos muzimbas, sabendo a destruição que tinham feito em Quiloa e Mombaça; mas comtudo tinha grande confiança no esforço de Matheus Mendes de Vasconcellos, capitão que então era desta costa, o qual n'aquelle tempo estava em Melinde com trinta portuguezes sómente, entre soldados e mercadores (...) E posto que os nossos soldados matassem muitos à espingarda, elles com tudo isso não deixavam de entrar por algumas partes do muro, e estavam já quasi senhores de um baluarte (...) N'este tempo chegaram de socorro a Melinde mais de três mil cafres amigos d'el rei chamados Mosseguejos. Os quaes sabendo o aperto em que el rei de Melinde seu amigo estava com a chegada dos Muzimbas, o vinham socorrer e ajudar.
(...)
Deram nas costas dos muzimbas com tanto animo e exforço, que em breve tempo os ajudaram a desbaratar e por em fugida. E como estes muzimbas eram estrangeiros, e e tinham feito tantos males e mortes pelos caminhos e terras por onde foram, o mesmo lhe fizeram a eles em sua fugida, matando a todos por onde quer que os achavam, e somente escaparam com vida o capitão d'elles e obra de cem homens, que tornaram a desandar todos unidos em só um corpo, sem se apartarem até chegarem outra vez a suas terras.

Frei João dos Santos, Ethiopia Oriental (1609), primeira parte, livro segundo, capítulo XXI



Os muzimbas, ou zimbas, eram, segundo João dos Santos, um povo guerreiro canibal que a certa altura teve um chefe com ambições expansionistas. Depois de dizimarem os portugueses nas fortalezas de Tete e Sena, fizeram o mesmo em Quíloa, uma ilha povoada por mouros, e de novo em Mombaça, desta vez com a ajuda dos portugueses, e tentaram ainda tomar Melinde (Malindi), mas sem sucesso, como está descrito acima. A "guerra dos zimbas", em 1589, é também classificada como uma das "pragas geraes" que "houve n'esta costa", em que os zimbas "atravessaram muita parte d'estas costas, matando e comendo quanto achavam, assim gente, como brutos animais, sem perdoarem a cousa viva; de maneira que se pode dizer, que estes barbaros foram um fôgo consumidor de meia Ethiopia" (cap. XII, livro terceiro).

Os violentíssimos episódios de Mombaça e Melinde são retomados por João dos Santos noutro capítulo (cap. VIII, livro quinto), numa versão um pouco diferente (o capítulo chama-se, significativamente, 'De como foi captivo Mirale Beque, com os mais turcos, por meio dos Zimbas'): os navios turcos eram de Mir Ali Bec, um corsário turco, e Tomé de Sousa vinha a persegui-lo; o comandante português permitiu a entrada dos muzimbas na ilha calculando que Mir Ali Bec acabaria por pedir-lhe auxílio; o que veio a acontecer, e assim Tomé de Sousa capturou o turco, ainda que à custa dum terrível massacre. Quanto ao episódio de Melinde, nesta segunda narrativa a vitória é atribuída aos (trinta) portugueses, omitindo o papel dos Mosseguejos. Esta narrativa do século XX, escrita por um oficial da marinha portuguesa, reflecte, ao que parece, a segunda versão.


O centro de Lisboa num dia de chuva (hoje), visto do jardim do Torel.

18.2.07




Acho que já disse uma coisa parecida, mas apetece-me repetir: a Radar contribui para a minha felicidade diária como não acontecia desde a XFM. É feita com aquele gozo de fazer rádio que contagia os ouvintes. É quase sempre muito boa, mas o destaque vai para as tardes de semana com o Pedro Ramos, uma revelação já com direito a um lugar na história da rádio portuguesa. Quem não vive na zona de Lisboa pode sempre ouvir a Radar na net aqui.

17.2.07



Ora bem.

16.2.07



Oh my dog, depois do que andei para aqui a dizer nem quero acreditar que aconteceu isto, logo a seguir à remodelação do Público, agora que eu estava finalmente a considerar mudar-me para o DN: direcção do DN demitida em bloco; fala-se de João Marcelino, actual director do Correio da Manhã, como provável novo director do DN. Nova reviravolta, para quê? Roubar leitores onde? Ao CM? Ao JN? Ao Público? Dava vontade de rir se não fosse trágico. Tudo junto, parece-me uma manobra colectiva de autodestruição dos diários portugueses. Quem deve estar contente é o Balsemão, que ao fim destes anos todos parece continuar a ser o único patrão da imprensa em Portugal que percebe do assunto.

15.2.07



(Sofala, em 1572)

Mais aventuras dos portugueses na costa oriental de África, segundo Frei João dos Santos, que conta coisas muito diferentes do que nos ensinavam na escola. Por exemplo, alguns portugueses tinham o privilégio de ser classificados como mulheres do rei lá do sítio:

No rio de Sofala, obra de quatro leguas pelo rio acima, começa uma ilha chamada Maroupe (...). Um portuguez chamado Rodrigo Lobo, era senhor da maior parte d'esta ilha, da qual lhe fez mercê o Quiteve [de Zimbaoé] por ser mui seu amigo e juntamente lhe deu o título de sua mulher, nome que o rei chama ao capitão de Moçambique e ao de Sofala e aos mais portugueses que muito estima, significando com o tal nome, que os ama e quer que todos lhe façam cortezia, como a sua mulher, e realmente assim é, que todos os cafres veneram muito os portugueses que teem título de mulheres d'el rei.

(...)

Um anno sucedeu que o dono d'esta ilha, Rodrigo Lobo, fez uma caçada, com muitos cafres seus escravos e vassalos, moradores na mesma ilha, e entre muito gado que mataram foi morto um leão, (cousa mui defesa em todo o reino do Quiteve, senhor e rei d'estas terras, como atraz fica dito) vendo-se pois o senhor da ilha com o leão morto e que o rei o havia logo de saber (porque os cafres nenhum segredo tem e são muito inclinados a dar ruim nova) mandou meter o leão em uma almadia [um barco] e cobri-lo de rama, e poz-lhe em cima vinte pannos e mandou tudo ao Quiteve, dizendo que ele Rodrigo Lobo, sendo mulher d'el rei e andando a fazer seara para seu marido, o viera acometer aquelle leão, alevantado e descortez para a mulher do seu rei, pela qual razão lhe deu com o cabo da enxada na cabeça, por honra de seu marido, e que alli lh'o mandava morto, para que acabasse de tomar vingança d'elle e do aggravo que fizera a sua mulher. O Quiteve recebeu o presente e mandou-lhe dizer que fizera muito bem de matar o leão, pois fôra descortez a sua mulher. E desta maneira se acabou esta empofia, que Rodrigo Lobo temia pagar com pelo menos perder a ilha, e se fôra cafre com perder a vida e todos os seus bens para a corôa, conforme a lei do Quiteve. Mas como Rodrigo Lobo era grande amigo seu e sabia fallar ao modo dos cafres, por metaforas, buscou esta invenção para contentar ao Quiteve, como de feito contentou, e declarou que a lei que tinha posta não se entendesse em Rodrigo Lobo, sua mulher muito amada.

Frei João dos Santos, Ethiopia Oriental, primeira parte (1609), Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa, 1891, pp 114-117 (reimpressão Asian Educational Servives, New Delhi, 1995)

14.2.07



A melhor coisa do novo Público é o tipo de letra, bonita e com uma legibilidade muito boa.

De resto, não gosto muito de mudanças só porque sim, e não me parece que o design do Público estive a pedi-las. Era um jornal muito bonito, mesmo em termos internacionais. O problema não era esse, mas sim o do conteúdo editorial. Há vários casos recentes na imprensa portuguesa de jornais em crise que julgaram ultrapassá-la recorrendo a remodelações gráficas. Em nenhum deles deu resultado, foi simplesmente dinheiro jogado fora. Pelo contrário, lá fora, jornais como o El País ou o Le Monde permanecem 'caretas' sem problema nenhum, enquanto o modernaço Libération entrou na crise que se sabe.

A ideia do P2, decalcada do Guardian e do seu G2, não é má. A questão é de saber se há pedalada, isto é, meios, para evitar que aquilo descambe totalmente numa secção de fofoquice internacional importada de agências. Uma coisa é fazê-lo em Londres, onde diariamente acontecem milhões de coisas, outra é aqui.

Lamento a subalternização do Local, que para mim era a melhor parte do jornal, com jornalistas visivelmente empenhados. Não sei o que dizem os feiticeiros dos estudos de mercado (de quem sempre desconfiei, com motivos para isso), mas parece-me que a informação local é um dos campos em que os jornais continuam a não ter concorrência por parte da TV. E portanto parecia-me mais lógico reforçá-la, e não o contrário.

Vejo por todo lado elogios à fotografia do novo Público, e não percebo a euforia. A fotografia do Público antigo era um dos seus pontos fortes. É provável que as coisas melhorem, mas nestes primeiros números a fotografia decaiu imenso, e a impressão é péssima, com as cores todas desalinhadas e uma saturação exageradíssima que dá um ar de jornal rasca. E há mais fotografias de agência. Será que conseguem ter, com este papel, uma impressão a cores de qualidade razoável? Quanto tempo levará a secção de fotografia a adaptar-se? E, sobretudo, valeria a pena pôr toda a fotografia a cores? Ganha-se alguma coisa com isso, ou só se gasta mais dinheiro inutilmente?

Enfim, esta história faz-me lembrar o que o Vasco Pulido Valente dizia há dias na TV, em entrevista ao Rui Ramos, sobre as 'receitas' importadas doutros países sem que se tenha em conta que cada país é diferente. Curiosamente, o próprio VPV, quando estava na direcção do Independente, alinhou numa história parecida. Os responsáveis achavam que o jornal sofria de falta de credibilidade (o que era verdade) e acharam (ou os tais consultores por eles) que adoptando um formato broadsheet a credibilidade seria reforçada, só porque no Reino Unido existia essa tradição. Não ocorreu a ninguém que ela nunca existiu em Portugal. E o mais irónico é que passado pouco tempo os jornais ingleses 'sérios' encolheram todos.

Agora é uma coisa parecida -- faz-se um projecto inspirado no da remodelação do Guardian há uns anos, numa das maiores cidades da Europa e num dos países em que ainda se lê mais jornais. Só que entretanto a crise da imprensa generalizou-se. É muito plausível que num futuro próximo o segmento dos jornais 'leves' seja totalmente tomado pelos jornais gratuitos, e isso já está a acontecer em Portugal. E que, pelo contrário, a solução para os jornais 'sérios' seja ficarem ainda mais sérios, cada vez mais dirigidos a uma elite que quer informação mais exaustiva do que a que tem acesso pela TV. E assim, por cá o Público corre o risco de ser ultrapassado pelo Diário de Notícias, se este conseguir melhorar um pouco a qualidade da informação. Resta saber se em Portugal há mercado publicitário para sustentar um jornal diário de elites. Parece que não, e o grande drama é esse.

13.2.07



Uma das diferenças entre mim e um neoliberal é que eu acho que os serviços que nos são necessários podem ser prestados pelo estado ou por privavados -- é-me indiferente. A única coisa que me interessa é qual é a modalidade mais eficaz e económica. Um neoliberal acha, por princípio, que todos os serviços devem ser prestados por privados.

Um exemplo. Os Estados Unidos, como se sabe, são um dos países do mundo em que o estado tem uma menor intervenção na saúde, proporcionando, mesmo assim, serviços médicos gratuitos aos cidadãos mais pobres e/ou idosos. O sistema assenta nos seguros de saúde privados, mas há uma parte importante da população (15,3%, segundo dados oficiais, aqui) que não tem seguro (essencialmente por não conseguirem um emprego estável em que o patrão pague o seguro, que é bastante caro) e não é suficientemente pobre nem idosa para ter direito aos programas estatais.

Ou seja, se tiverem de ir ao médico têm de pagar uma fortuna (porque os honorários dos médicos estão inflacionados por serem as seguradoras a pagar) e pagar outra fortuna pelos medicamentos (porque não há controlo de preços e muito menos comparticipações). Se estiverem em situação de urgência podem ir a qualquer hospital (que é obrigado a tratar qualquer em urgência); o hospital manda a conta para casa, e esta raramente é paga. Os hospitais repercutem este prejuízo nos clientes das seguradoras, ou seja, calculam os preços tendo em conta uma determinada perda anual.

Este sistema é eficiente? Vejamos os indicadores sanitários mais comuns: a esperança de vida é de 75,0/80,0 anos (homens/mulheres); a mortalidade infantil é de 8-7/1000 (m-f). E agora os custos: gastos com saúde, per capita, 5711 US $; em percentagem do PIB, 15,2%.

Os mesmos dados para Portugal: esperança de vida, 74,0/81,0 anos; mortalidade infantil, 6-5/1000 (m-f); gastos com saúde, per capita, 1791 US $; em percentagem do PIB, 9,6%.

Ou seja, Portugal consegue, com cobertura total e gratuita da população, indicadores um pouco melhores que os EUA, gastando um terço, per capita, e cerca de dois terços em percentagem do PIB.

A Dinamarca é um país em que a intervenção do estado é ainda maior. A saúde é financiada pelos impostos e por um seguro estatal e assenta no sistema de médico de família que dá acesso a especialistas, todos pagos segundo uma tabela fixada pelo estado.

Os indicadores são estes: esperança de vida, 75,0/80,0 anos; mortalidade infantil, 5-5/1000 (m-f); gastos com saúde, per capita, 2762 US $; em percentagem do PIB, 9,0%.

Convém talvez acrescentar que os EUA são o país do mundo que mais gasta em saúde, proporcionalmente ao PIB.

A conclusão é óbvia.

(os dados acima são da OMS e estão disponíveis aqui)

Em Lisboa, a moda de cobrir integralmente os veículos de transportes públicos com publicidade, incluindo as janelas, começou pelos eléctricos da Carris, depois passou aos autocarros e aos comboios suburbanos. É verdade que se pode sempre optar por ir de táxi ou de carro, ou mesmo a pé. E também é verdade que o objectivo dos tansportes públicos é transportar pessoas, e não pô-las a ver a paisagem.

As janelas serão até, talvez, um luxo desnecessário. E, como se sabe, os transportes públicos são altamente deficitários e financiados pelo estado. Assim, privar-se de ver a rua durante alguns minutos, viajando em veículos sem janelas, poderá ser uma maneira de os esbanjadores de dinheiro público que os utilizam darem mais uma pequena contribuição, libertando o maior espaço possível para publicidade, tanto dentro como fora do veículo.

Podia também pensar-se em criar carreiras alternativas, com janelas e sem qualquer publicidade, nas quais os passageiros pagariam o custo real dos bilhetes. Estas carreiras poderiam servir zonas em que fosse impossível estacionar.

Na verdade, seria possível cobrir todo o espaço público com publicidade, incluindo vias de rodagem e passeios, as fachadas dos prédios pertença do estado, e também as fachadas dos prédios cujos proprietários quisessem alugar esse espaço (alguns cidadãos poderiam mesmo prescindir das janelas). As diversas áreas da cidade seriam concessionadas por concurso e o dinheiro resultante da venda de espaço publicitário serviria para pagar a manutenção da via pública e a iluminação.

Este sistema deveria começar, para já, pelos bairros de habitação social, como é evidente, e depois alargar-se a toda a cidade, exceptuando zonas livre de publicidade ('pub-free') em que as associações de condóminos pagariam a manutenção das vias e iluminação. Quem não fosse morador teria, evidentemente, de pagar uma portagem para entrar nas zonas pub-free.

12.2.07



Outra vantagem destas actividades democráticas é poder entrar em sítios invulgares.

Por exemplo, este ano dava para tomar duche na casa de banho da minha assembleia de voto.



Também fiquei a conhecer um liceu onde os meus irmãos andaram.


E pronto, de volta a casa.

11.2.07



Para mim, dia de votação é dia de festa, mais do qualquer outra data especial do calendário. E ainda por cima não tem dia fixo. Viva nós!


Uma belíssima exposição de Edgar Martins, na Graça Brandão. Fotografias de aeroportos, a não perder. Há imagens deste fotógrafo de nacionalidade incerta aqui.

10.2.07



Fiona Apple, de quem linquei uns vídeos aqui há dias, é protagonista dum caso muito interessante na história da indústria muical. O primeiro álbum dela, 'Tidal' (1996), foi um sucesso estrondoso para primeiro álbum duma artista com apenas 19 anos: tripla platina nos EUA, quase três milhões de discos vendidos. O disco seguinte, 'When The Pawn..." (1999) teve 'apenas' uma platina e quase um milhão de exemplares vendidos nos EUA.

E agora começa a parte mais interessante. Depois da extraordinária versão do 'Around The Universe' (parece-me ainda melhor que a dos Beatles), Fiona grava o terceiro álbum, 'Extraordinary Machine'. A gravação é entregue à editora, a Epic/Sony, em 2003, que no entanto não publica o disco, segundo consta por não o achar suficiente vendável.

No ano seguinte começam a aparecer faixas da gravação nos circuitos P2P, e em 2005 o álbum inteiro está na net. Forma-se um movimento chamado Free Fiona, que pressiona a Sony com manifestações e abaixos-assinados (na foto, manifestação à porta da sede da Sony em Nova Iorque, Janeiro 2005) para que o disco seja editado. Ou seja: há milhares de pessoas que já têm o disco em downloads ilegais mas querem tê-lo em CD.

A Slate comentou: 'The young, husky-voiced, piano-playing beauty Norah Jones was riding high on five Grammy Award wins and more than 5 million album sales. And, at the same time, Epic's own young, husky-voiced, piano-playing beauty was remaking herself in the image of a midcareer Tom Waits. The decision to shelve the album must have seemed obvious.'

Em 2005 o CD é entregue a outro produtor, regravado e finalmente editado, no final do ano. Os fãs tinham razão: Fiona amadureceu, canta e compõe cada vez melhor, e Extraordinary Machine é mesmo um disco extraordinário. A Sony também: vendeu apenas meio milhão de CDs.

(aqui estão os artigos da Slate e da Wired News sobre o caso)

9.2.07



Finalmente, uma alternativa ao Ciberdúvidas, proporcionada pela Priberam, uma empresa (a única em Portugal?) que trabalha na área da linguística computacional -- foram eles que fizeram, por exemplo, o módulo de correcção ortográfica e sintáctica que vem hoje incluído no Word em Portugal.

O produto parece-me bem. Ao contrário do que acontecia normalmente com o Ciberdúvidas (que entretanto está outra vez em remodelação), os consultores da Priberam não mandam crucificar ninguém, não alimentam controvérsias e não mandam bitaites -- limitam-se*, muito sensatamente, a examinar a questão e remeter para a bibliografia que existe.

*Desculpem, a expressão mais adequada é 'têm uma trabalheira do caraças', como se pode ver pelo exemplo acima. Comparar com as respostas do Ciberdúvidas à mesma questão.

O Teatro Nacional D. Maria II está coberto de publicidade da Junta de Turismo de Extremadura, que patrocina uma mostra de teatro e música da região. Para mim, antes a Extremadura que o BCP ou o PQP -- eu sou daqueles que se vestem de preto no 1.º de Dezembro. Mas não me conformo com esta invasão da publicidade por tudo o que é espaço público, embora já saiba que os meus amigos neoliberais vão dizer que 'lá fora' é assim. Estou mesmo a ver o Teatro de la Zarzuela coberto de publicidade da Região de Turismo da Beira. Eheh. Desculpem a piada foleira. Se calhar está cheio de publicidade do Santander. Bom, o melhor é ir lá ver.

8.2.07




O que pensava um europeu em África há 400 anos sobre os demónios dos outros:

(...) fica o rei [Quiteve do Zimbabué] só com com o endemoinhado, fallando amigavelmente como quem falla com seu pae, que é defunto, e ali lhe pergunta se ha de ter guerras, e se vencerá n'ellas seus inimigos, se haverá fomes, e o mais que d'elle quer saber, e o diabo lhe responde a todas estas perguntas, e lhe aconselha o que ha de fazer mintindo-lhe ordinariamente, no mais do que lhe diz, como falso, e inimigo que é do genero humano, e nem isso basta para estes cegos deixarem de lhe dar credito, vindo cada anno a consultal-o


[...]

D'este modo que o diabo tem de falar a estes barbaros, usa com a maior parte dos gentios, como eu soube de algumas partes onde se fazia o mesmo n'esta costa [oriental de África], e ainda na India. O P. Mendonça no seu livro que fez da China, refere, que navegando uns frades descalços da China para as Philippinas em um navio de chinas gentios, tiveram tão grande tormenta, que os chinas com medo da morte começaram a chamar o diabo, que lhe succorresse, e os religiosos por outra parte se pozeram a enconjurar, e amaldiçoar os demonios, de modo que não acudiram aos brados dos gentios como costumam em taes apertos, antes se ouviu claramente a voz de um demonio, que dizia: Não acudimos nem respondemos a vossas petições, por que no-lo estorvam esse frades que levaes convosco. Mas indo a tormenta por diante, tornaram os chinas a consultar os demonios por escripto, do qual modo nunca deixa de lhe responder, como logo fez (não obstante quantos esconjuros os padres faziam) e respondeu aos chinas, que não temessem, porque antes de três dias chegariam a porto seguro, no que lhes mentiu como faz ordinariamente, porque não chegaram a terra senão depois de muitos dias.


Frei João dos Santos, Ethiopia Oriental e varia historia de covsas notaueis do Oriente (Lisboa, 1609). Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa 1891. Edição facsimilada de Asian Educational Services, New Delhi, 1995.

7.2.07




Um cartoon com 220 anos. Legenda: "Meus caros administrados, reuni-vos para saber com que molho desejam ser comidos". A tabuleta em cima diz 'Buffet da corte/cozinheiro Calonne". O episódio refere-se à Assembleia de Notáveis de Fevereiro de 1787, em que Calonne, o ministro das finanças de Luís XVI, tenta convencer a aristocracia e o clero a pagarem um imposto.

Em 1786 a França está com um enorme défice orçamental, em parte por causa do empréstimo público que tinha sido feito anos antes pelo anterior ministro Jacques Necker para apoiar os revolucionários americanos contra a Inglaterra. Mais de metade do orçamento do estado vai para o serviço da dívida. Demitido Necker, Charles Alexandre de Calonne é nomeado ministro e propõe uma série de reformas, entre as quais uma reforma fiscal: passaria a haver um imposto único e universal sobre todos os rendimentos de propriedades. Pela primeira vez, a nobreza e o clero também pagariam. Calonne convence o rei a reunir a Assembleia dos Notáveis, que representa a aristocracia e o clero, para tentar convencê-los a aceitar o novo imposto. Os Notáveis recusam-no terminantemente: segundo a lógica do Antigo Regime, ao povo compete pagar impostos, a aristocracia contribui com as armas e o clero com orações.
Estamos em Fevereiro de 1887. O episódio dá origem a uma campanha contra Calonne e o rei, à qual se aliam, inesperadamente, a alta burguesia e o povo. Calonne é demitido em Abril. Seguem-se dois anos de conflitos durante os quais o rei tenta em vão impor reformas. Para desbloquear a situação, o rei acaba por aceitar a convocação dos Estados Gerais, uma velha instituição medieval em que está representado o Terceiro Estado, além da aristocracia e do clero. Em Maio de 1789 os Estados Gerais reúnem, e começam as disputas sobre se os votos deveriam ser por cabeça ou por ordem. Em Junho, os representantes do Terceiro Estado autoproclamam-se como Assembleia Nacional, um golpe de estado que é o início da Revolução Francesa.



Mais um bocado de Lisboa que sobreviveu ao racionalismo, para o bem e para o mal.

4.2.07



(algures entre La Mancha e a Andaluzia, a bordo do AVE)

Mário Mesquita acaba de demitir-se de colunista do Público. Segundo ele conta na edição de hoje, demitiu-se porque ficou incomodado pela insinuação do director de que as suas funções como administrador da Fundação Luso-Americana seriam incompatíveis com a sua presença no jornal. Nem vale a pena referir o ridículo da insinuação -- Mesquita diz que disse ao JMF "mas olhe que você é mais pró-americano do que eu".
É mais um passo na progressão do Público como jornal neoliberal/conservador, depois do despedimento de outra figura de referência do jornal, Augusto M. Seabra, também situado na esquerda não comunista.

É claro que não ponho em causa a orientação ideológica que a administração e a direcção do jornal entendam ter. Mas interrogo-me se fará sentido um jornal que nasceu como projecto de esquerda passar a projecto de direita. Mesmo em termos comerciais.

Mas a verdade é que este momento não há diários inequivocamente de esquerda ou de direita em Portugal, ao contrário do que sucede, por exemplo, em Espanha, França ou Inglaterra. Quem compra o El País ou o Guardian sabe ao que vai, assim como quem compra o Daily Telegraph ou o El Mundo, ou o ABC, ou o Figaro, ou o Le Monde.

Em Portugal, não me parece que a ambiguidade política que tem dominado tanto o Público como o Diário de Notícias traga benefícios a quem quer que seja -- aos leitores como aos jornais. Se o Público, ao que tudo indica, se quer posicionar definitivamente como jornal de direita, desejo-lhe as maiores felicidades. Quanto a mim deixarei de comprar.

Pena é que o DN continua a ser pior que o Público, apesar de vários jornalistas séniores do Público terem para lá passado recentemente. Resta-me o El País, que tem no entanto o inconveniente de ter poucas notícias sobre Portugal. Mas pode ser que resolvam fazer uma edição portuguesa.

1.2.07



Um dos lugares-comuns mais repetidos sobre a educação em Portugal é que o ensino se tornou 'facilitista'.

Ora, segundo dados do Ministério da Educação divulgados ontem, a taxa de retenção/desistência (relação entre o número de alunos retidos no mesmo ano ou que desistiram e o número de alunos matriculados) no ensino secundário em 2004-2005 foi de 31,9% e atingiu os 49,1% no 12.º ano (dados aqui). Isto num contexto em que pouco mais de metade dos jovens em idade própria frequenta o secundário: 58% em 2003-2004, diz o ME, salientando que essa proporção mais que triplicou em 20 anos (era de 17,8% em 1985 -- sempre é alguma consolação verificar que apesar de tudo isto está sempre a melhorar).

Talvez o masoquismo explique a opinião generalizada sobre o 'facilitismo', já que o 'dificultismo' seria uma explicação mais simples para o insucesso escolar. Não tenho conhecimento directo de outras realidades, mas já li e ouvi diversas opiniões que dizem que no paraíso americano o ensino secundário é bastante menos exigente do que em Portugal. E há tempos ouvi numa conferência um conhecido catedrático português de Medicina dizer que tinha ficado espantado com o grau de dificuldade de um exame de Biologia do 12.º, e que seria incapaz de fazê-lo.

A minha experiência passada diz-me que há uns anos os programas do 3.º ciclo eram megalómanos e completamente desajustados do nível etário dos alunos. E algumas espreitadelas recentes a manuais de Português, a propósito da TLEBS, confirmam que as coisas permanecem na mesma: pretende-se ensinar matérias de nível universitário a crianças. (Isto agora é outra história, mas compreendo perfeitamente os receios de muita gente em relação à TLEBS. O que deveria ser uma simples uniformização de terminologia transforma-se nos manuais num delírio megalómano.)

Se os professores (e sindicatos) têm alguma culpa da situação é pela passividade com que têm aceitado programas impossíveis de concretizar, gastando todos os esforços em reivindicações salariais e de horários.

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