29.3.07
26.3.07
Petra with Mojo Hand - Nobody loves you..... on Vimeo
A magnífica Petra, registada no Catacumbas Jazz Bar, Bairro Alto, pelo Retorta)
Uma visualização da música que qualquer pessoa possa entender. O princípio é simples e certamente já muita gente pensou nisso: um gráfico que se vai desenrolando, em que o eixo vertical é a altura e o horizontal é a duração. Stephen Malinowski anda há 30 e tal anos a desenvolver a ideia na Music Animation Machine. Uma maravilha.
Dois exemplos:
A sonata K 455 de Domenico Scarlatti
E a toccata e fuga em ré menor de J. S. Bach
A história toda está aqui.
Atenção professores de música: Malinowski vende cassetes e DVDs com vários filmes destes a preços muito simpáticos com portes incluídos.
Dois exemplos:
A sonata K 455 de Domenico Scarlatti
E a toccata e fuga em ré menor de J. S. Bach
A história toda está aqui.
Atenção professores de música: Malinowski vende cassetes e DVDs com vários filmes destes a preços muito simpáticos com portes incluídos.
Aqui reproduzimos os dois últimos comunicados que nos chegaram da ACA-M (o penúltimo com algum atraso, mas mais vale tarde). Como quase sempre, concordamos plenamente e ainda demos umas gargalhadas.
COMUNICADO ACA-M
O DIABO DA VELOCIDADE
Face às notícias surgidas na imprensa de ontem sobre o comportamento rodoviário anti-social de um pároco de Santa Comba Dão, a direcção da ACA-M decidiu dirigir-se ao Papa Bento XVI, à Conferencia Episcopal portuguesa e ao Arcebispo de Viseu, pedindo à hierarquia eclesiástica que ajude aquele sacerdote a exorcizar o seu desmedido prazer pela velocidade que a potência do seu Ford Fiesta 200 ST lhe permite atingir.
A Sua Santidade o Papa Bento XVI
Sumo Pontífice da Igreja Católica
A Sua Eminência Reverendíssima Dom Jorge da Costa Ortiga, Arcebispo de Braga, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa
A Sua Eminência Reverendíssima Dom Alfio Rapisarda
Núncio Apostólico da Cúria Romana em Portugal
A Sua Excelência Reverendíssima Dom Ilídio Pinto Leandro
Bispo de Viseu
A Sua Reverência Padre António Rodrigues
Pároco do Couto do Mosteiro
Dirigimo-nos a V. Santidade para apresentar o seguinte pleito:
O comportamento rodoviário anti-social do sr. Padre António Rodrigues, pároco do Couto do Mosteiro, em Santa Comba Dão, foi noticiado ontem, dia 21/03/07, em alguns jornais diários portugueses (Público, p. 14, “Um padre movido a fé e adrenalina”, 24 Horas, p. 21, “O padre tem uma máquina... dos diabos”).
O sr. Padre António Rodrigues orgulha-se de ser proprietário de uma “autêntica bomba”, um Ford Fiesta 200 ST de 150 cavalos de potência, adquirido “no estrangeiro”, e de “andar no picanço na A25” (competir com outros utentes daquela que já foi conhecida internacionalmente como a “estrada da morte”, tantas foram as vítimas mortais naquele trajecto).
O sr. Padre António Rodrigues, que afirma gostar da “adrenalina provocada pela velocidade” e “de sentir a potência debaixo do pé”, vangloria-se ainda de o seu automóvel chegar facilmente aos 210km/h, acrescentando que “Graças a Deus” nunca foi multado, e que, antes de padre é um ser humano.
Finalmente, admite que utiliza o seu carro para levar os jovens [das aldeias] a “dar uma volta”, e para “chegar a tempo às 3 igrejas da paróquia” (que distam entre si não mais que 13 km).
Foi com horror que a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados tomou conhecimento destas notícias. E é com natural incómodo que nos dirigimos a V. Santidade para notar que:
1) Um padre é um cidadão. Nesse sentido, não pode colocar os seus deveres de padre (chegar a horas às diferentes igrejas onde oficia, transportar jovens entre aldeias) à frente dos de cidadão. Numa palavra, não se pode colocar acima da lei da república portuguesa.
2) Um padre católico é um homem, mas antes de ser homem é padre. Caso pusesse o ser “homem normal” antes do sacerdócio, não haveria motivo para cumprir o princípio do Celibato. Ora um padre tem de dar o exemplo, porque nele o Sentido Ético é o mais importante.
3) Um padre é um predicador – não por acaso é tantas vezes também professor de Religião e Moral. Um guia espiritual que molda o comportamento e valores de outrém.
4) Um padre é, sine qua non, um modelo de virtudes – não pode ser um repositório de pecados.
O arrepiante comportamento descrito nas notícias testemunha um deslumbramento ingénuo pela velocidade, pela ilegalidade, e pela irresponsabilidade social, que é seguramente condenável pela hierarquia da Igreja católica.
Mais ainda, o sr. Padre António Rodrigues parece crer, na sua cega vaidade, que a providência divina o favorece, permitindo-lhe fugir às sanções judiciárias humanas. Como ele diz: “Graças a Deus, não [sei] o que é uma multa”.
Acreditamos que o sr. Padre António Rodrigues não esteja agindo de má fé, e acreditamos ele conseguirá arrepiar caminho e compreender quão longe se encontra hoje dos valores implícitos no sacerdócio que assumiu. Vimos assim pedir a V. Santidade que ajude este infeliz pároco a ponderar a gravidade dos seus actos e a imodéstia das suas palavras, e a resistir às tentações conjugadas da velocidade e da vanglória.
Despedimo-nos respeitosamente.
Direcção da ACA-M
Lisboa, 21/03/07
COMUNICADO
A EMEL, A PSP E OS POLÍTICOS
A Associação Sindical dos Profissionais da PSP protestou ontem contra a decisão da CML de pôr os funcionários da EMEL a autuar os condutores que estacionam constantemente em segunda fila, sobre os passeios, sobre as passadeiras.
A ACA-M pergunta-se: porque razão chegámos a uma situação em que a fiscalização do estacionamento selvagem em Lisboa é feita por uma empresa municipal e não pela Divisão de Trânsito da PSP?
A resposta parece-nos óbvia:
É que durante anos, a DT-PSP, a autoridade policial que podia e devia combater os flagelos lisboetas do estacionamento indevido e do excesso de velocidade, demitiu-se quase completamente da sua função.
Claro que a ACA-M prefere que a DT-PSP faça o seu trabalho e que a CML não tenha esse encargo adicional. Claro que muitos condutores que abusam das falhas do sistema estarão agora irritados porque vão passar a pagar como os outros.
É a vida.
Mas, para a ACA-M, a verdadeira questão de fundo é saber de quem foi a responsabilidade política de a DT-PSP se ter demitido da sua obrigação – dado que não consta que os comandos da PSP tomem decisões políticas.
Fazemos assim um apelo à Assembleia da República para que investigue este estranho caso de polícia.
Direcção da ACA-M
23.3.07
Acho absolutamente lamentável e ridícula a "investigação" do Público sobre as qualificações académicas de José Sócrates. Manchete e quatro páginas de destaque para um trabalho que se resume ao seguinte: o Público soube que um bloguista andava a publicar textos em que punha em causa as ditas qualificações; contactou o primeiro-ministro; o primeiro-ministro autorizou os jornalistas a consultarem o seu processo académico; os jornalistas verificaram que havia algumas irregularidades no processo e falta de documentos originais.
Se algumas universidades públicas são a rebaldaria que se sabe, imagine-se as privadas (e aqui sei do que falo). E não me espantaria nada que se fizessem uma investigação semelhante à minha licenciatura numa universidade pública faltassem imensos documentos e houvesse imensas irregularidades (a começar por professores que praticamente não puseram os pés nas aulas).
O Público destaca também o facto de, na sequência da "investigação", o currículo de Sócrates na página do Governo ter sido alterada, passando o primeiro-ministro de 'engenheiro civil' para 'licenciado em engenharia civil', porque, como a Ordem não reconhece o curso da Universidade Independente, Sócrates teria de fazer exames para poder usar o título de engenheiro. Grande coisa. Francamente. Esta coisa dos "títulos" é ridícula, um sucedâneo dos antigos títulos de nobreza. É muito discutível que um curso superior tenha de ser avalizado por esses sobreviventes das antigas corporações medievais que são as ordens profissionais, já que o seu reconhecimento pelo estado é mais que suficiente. E é, creio, de legalidade duvidosa. Sei de um caso de um médico não inscrito na respectiva ordem e a quem esta tentou impedir de exercer a profissão, que pôs o caso em tribunal, ganhou e continuou a exercer.
Nunca pensei que o Público descesse tão baixo. A competição com o 24 Horas não fica bem a um "jornal de referência", como resume laconicamente Vital Moreira.
Se algumas universidades públicas são a rebaldaria que se sabe, imagine-se as privadas (e aqui sei do que falo). E não me espantaria nada que se fizessem uma investigação semelhante à minha licenciatura numa universidade pública faltassem imensos documentos e houvesse imensas irregularidades (a começar por professores que praticamente não puseram os pés nas aulas).
O Público destaca também o facto de, na sequência da "investigação", o currículo de Sócrates na página do Governo ter sido alterada, passando o primeiro-ministro de 'engenheiro civil' para 'licenciado em engenharia civil', porque, como a Ordem não reconhece o curso da Universidade Independente, Sócrates teria de fazer exames para poder usar o título de engenheiro. Grande coisa. Francamente. Esta coisa dos "títulos" é ridícula, um sucedâneo dos antigos títulos de nobreza. É muito discutível que um curso superior tenha de ser avalizado por esses sobreviventes das antigas corporações medievais que são as ordens profissionais, já que o seu reconhecimento pelo estado é mais que suficiente. E é, creio, de legalidade duvidosa. Sei de um caso de um médico não inscrito na respectiva ordem e a quem esta tentou impedir de exercer a profissão, que pôs o caso em tribunal, ganhou e continuou a exercer.
Nunca pensei que o Público descesse tão baixo. A competição com o 24 Horas não fica bem a um "jornal de referência", como resume laconicamente Vital Moreira.
17.3.07
Um triste exemplo de como se fazem títulos: no Público de anteontem, chamada de capa: Entrevista/ Pinamonti e a saída do S. Carlos: Isto parece uma ópera buffa
No interior, o título da entrevista é o mesmo.
Mas, se formos ver a citação no contexto, lemos o seguinte:
P: Quando tomou posse, o então ministro Sasportes definiu o São Carlos como "uma casa complicada com uma história atribulada". Os últimos 20 anos são uma sucessão de dramas. O que se passa com o S. Carlos?
R: Isto é um pouco o mundo operático, o mundo do melodrama. Parece uma ópera buffa, com Dom Bartolo que reage assim intempestivamente, com Dom Basilio, que calunia; há muitas personagens de ópera buffa. O mundo da ópera é assim: em Parma, é mais importante para a cidade a escolha do tenor que cantará Manrico ou Otelo do que a crise da Parmalat! É também a vitalidade da ópera. Se nos outros espectáculos fala-se sempre de crise, no cinema, no teatro de prosa [sic], na televisão, este é também um lugar de conflitos, a ópera está viva. Prefiro encarar isto desta maneira.
Eu leio isto e interpreto assim: os jornalistas perguntaram a Pinamonti a sua opinião sobre a "sucessão de dramas" no São Carlos nos últimos 20 anos; Pinamonti responde que isso é normal no mundo da ópera, e que em Itália também é assim.
Quem fez o título deve ter passado os olhos pela peça, viu a frase e achou que dava um bom título. Se refere especificamente a crise do São Carlos, não interessa.
(Folgo em confirmar, mais uma vez, que há coisas que acontecem em Portugal que também acontecem noutros sítios, uma evidência que a comunicação social faz o possível por ocultar.)
Já agora, aproveito para esclarecer que os dois posts anteriores sobre o São Carlos não representam nenhuma tomada de posição sobre a crise do São Carlos ou sobre a justeza das posições do director e do secretário de estado. Achei simplesmente que o assunto não está a ser debatido como devia, e é transmitido como uma história da carochinha, do director ultracompetente e bonzinho vítima do pérfido estalinista guiado por desígnios inconfessáveis -- que se calhar são apenas instruções do ministro das finanças.
No interior, o título da entrevista é o mesmo.
Mas, se formos ver a citação no contexto, lemos o seguinte:
P: Quando tomou posse, o então ministro Sasportes definiu o São Carlos como "uma casa complicada com uma história atribulada". Os últimos 20 anos são uma sucessão de dramas. O que se passa com o S. Carlos?
R: Isto é um pouco o mundo operático, o mundo do melodrama. Parece uma ópera buffa, com Dom Bartolo que reage assim intempestivamente, com Dom Basilio, que calunia; há muitas personagens de ópera buffa. O mundo da ópera é assim: em Parma, é mais importante para a cidade a escolha do tenor que cantará Manrico ou Otelo do que a crise da Parmalat! É também a vitalidade da ópera. Se nos outros espectáculos fala-se sempre de crise, no cinema, no teatro de prosa [sic], na televisão, este é também um lugar de conflitos, a ópera está viva. Prefiro encarar isto desta maneira.
Eu leio isto e interpreto assim: os jornalistas perguntaram a Pinamonti a sua opinião sobre a "sucessão de dramas" no São Carlos nos últimos 20 anos; Pinamonti responde que isso é normal no mundo da ópera, e que em Itália também é assim.
Quem fez o título deve ter passado os olhos pela peça, viu a frase e achou que dava um bom título. Se refere especificamente a crise do São Carlos, não interessa.
(Folgo em confirmar, mais uma vez, que há coisas que acontecem em Portugal que também acontecem noutros sítios, uma evidência que a comunicação social faz o possível por ocultar.)
Já agora, aproveito para esclarecer que os dois posts anteriores sobre o São Carlos não representam nenhuma tomada de posição sobre a crise do São Carlos ou sobre a justeza das posições do director e do secretário de estado. Achei simplesmente que o assunto não está a ser debatido como devia, e é transmitido como uma história da carochinha, do director ultracompetente e bonzinho vítima do pérfido estalinista guiado por desígnios inconfessáveis -- que se calhar são apenas instruções do ministro das finanças.
15.3.07
Ainda sobre o São Carlos, vale a pena ler que diz o Eduardo Pitta. Plenamente de acordo. Eu cheguei a assistir à que penso ter sido uma das últimas récitas populares no Coliseu, completamente por acaso.
A ópera, que era La Bohéme de Puccini, não me entusiasmou nada. Agora, o que se passava fora do palco era extraordinário. O Coliseu a abarrotar de gente, pessoas com o ar mais normal deste mundo, de taxistas e empregados de comércio, a aplaudirem freneticamente cada ária. E eu, muito ingénuo, perguntei "mas porque é que estão a bater palmas a meio da música?", e o meu amigo responde, "ora, porque a ária acabou". "Isso quer dizer que as pessoas já conhecem bem a ópera." "Claro."
Nos intervalos entre cada cena, as bancadas eram atravessadas por vendedores com cestos a apregoarem cerveja Sagres, Sumol, Olá fresquinho e sei lá que mais. Uma festa. As minhas ideias sobre a ópera (e as artes 'eruditas' em geral) como fenómeno fatalmente hiper-elitista foram completamente abaladas.
Passado uns anos fui ao São Carlos pela primeira vez (e penúltima, que eu me lembre), ver o Don Giovanni, e lá estavam as tias de vison, coisa a que também achei imensa piada porque também nunca tinha visto ao vivo.
As récitas populares sempre mitigavam a situação escandalosa de uma elite que punha o estado a pagar-lhes um caríssimo divertimento.
Se é verdade o que diz o Eduardo Pitta, que só vão ao São Carlos "um punhado de melómanos, o corpo diplomático, parte do governo, políticos com ambição, altos funcionários do Estado, gestores associados ao mecenato, a nomenklatura da autarquia, estudantes de música, e meia dúzia de curiosos que por milagre conseguem arranjar bilhete", e que ainda por cima metade entram com convite, então o que se deve pôr em causa não é este ou aquele director mas sim a própria existência do São Carlos nestes moldes.
A ópera, que era La Bohéme de Puccini, não me entusiasmou nada. Agora, o que se passava fora do palco era extraordinário. O Coliseu a abarrotar de gente, pessoas com o ar mais normal deste mundo, de taxistas e empregados de comércio, a aplaudirem freneticamente cada ária. E eu, muito ingénuo, perguntei "mas porque é que estão a bater palmas a meio da música?", e o meu amigo responde, "ora, porque a ária acabou". "Isso quer dizer que as pessoas já conhecem bem a ópera." "Claro."
Nos intervalos entre cada cena, as bancadas eram atravessadas por vendedores com cestos a apregoarem cerveja Sagres, Sumol, Olá fresquinho e sei lá que mais. Uma festa. As minhas ideias sobre a ópera (e as artes 'eruditas' em geral) como fenómeno fatalmente hiper-elitista foram completamente abaladas.
Passado uns anos fui ao São Carlos pela primeira vez (e penúltima, que eu me lembre), ver o Don Giovanni, e lá estavam as tias de vison, coisa a que também achei imensa piada porque também nunca tinha visto ao vivo.
As récitas populares sempre mitigavam a situação escandalosa de uma elite que punha o estado a pagar-lhes um caríssimo divertimento.
Se é verdade o que diz o Eduardo Pitta, que só vão ao São Carlos "um punhado de melómanos, o corpo diplomático, parte do governo, políticos com ambição, altos funcionários do Estado, gestores associados ao mecenato, a nomenklatura da autarquia, estudantes de música, e meia dúzia de curiosos que por milagre conseguem arranjar bilhete", e que ainda por cima metade entram com convite, então o que se deve pôr em causa não é este ou aquele director mas sim a própria existência do São Carlos nestes moldes.
A meio de toda a polémica sobre a demissão de Pinamonti, director do S. Carlos, ainda não vi os números daquilo que, no fundo, está mesmo em causa -- dinheiro. A não ser da supostamente fabulosa contribuição do BCP de um milhão de euros anuais, que representa na verdade apenas 1/16 avos do orçamento do São Carlos, como veremos (e, já agora, também não vi ninguém falar da inadmissível tentativa de ingerência do BCP nesta história).Ora bem, então quanto é que o S. Carlos custa? Está aqui, no site do Ministério da Cultura (números de 2006): um pouco mais de 16 milhões de euros, em moeda antiga 3,2 milhões de contos. Uma pipa de massa.
Vale a pena comparar com outras rubricas do orçamento do MC: por exemplo, o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, que, entre outras coisas, gere o programa da Rede de Bibliotecas Públicas, comparticipando até metade do valor de construção de uma biblioteca (e que foi das melhores iniciativas culturais do estado nas últimas décadas), tem um pouco menos que o S. Carlos (11 milhões); o Instituto Português de Arqueologia (que supervisiona toda a actividade arqueológica em Portugal) tem menos de um terço (5,3 milhões).
Uma comparação no mesmo terreno: o Serviço de Música da Fundação Gulbenkian. Só no Grande Auditório, a Orquestra Gulbenkian deu 50 concertos em 2005. A isto acrescem os concertos de outros artistas, mais bolsas de estudo e outras actividades (aqui ainda incluindo as despesas com o Ballet, extinto a meio desse ano). Isto tudo custou cerca de 13,7 milhões (dados aqui), um pouco menos que os 13,9 milhões do S. Carlos no mesmo ano.
Não consigo fazer a comparação da actividade por falta de dados do S. Carlos, mas é certamente muito inferior.
Em suma, tudo isto me parece uma história mal contada. Que se fizesse a produção do Anel do Wagner, óptimo, eu adorei, e é uma oportunidade raríssima de ver e ouvir um monumento da cultura europeia. Mas gostava de saber quanto é que custou (mesmo a preço de saldo segundo dizem); e o que é que o São Carlos, e nós todos, ganhámos com uma produção em que os intervenientes são todos estrangeiros, fora duas cantoras portuguesas em papéis secundaríssimos? Até os carpinteiros vieram de Inglaterra. Prestígio 'lá fora', talvez, mas isso traduz-se em quê no futuro do São Carlos? E no futuro da música erudita em Portugal?
Mesmo com a simpatiquíssima ideia de transmitir a ópera para o exterior (e que eu saiba só tem sido feita com este ciclo do Anel), será que se justifica a quantidade de dinheiro gasta com espectáculos a que só uma muito muito ínfima parte dos portugueses assistem? As receitas de bilheteira são certamente irrelevantes no orçamento, e mesmo assim os bilhetes são caros, logo inacessíveis a muita gente que gostaria de ver. Gravaram ao menos para a televisão e vão passá-la (e vendê-la para o estrangeiro, já que é tão extraordinária)?
Posto isto, espanta-me que um tão acérrimo inimigo dos subsídios estatais como o José Manuel Fernandes se dê ao luxo de gastar um editorial histérico sobre o assunto (onde fala da Valquíria, não se percebendo se viu mesmo ou se não percebeu), sem sequer se interrogar sobre quanto custa isto aos contribuintes. Uma questão de defender a todo preço a alta cultura, como se dizia antigamente? Mas nesse caso porque não investir mais também noutras áreas da música erudita? Ou mesmo fazer apenas umas obras no Conservatório Nacional, que está a cair aos bocados, e que se calhar seriam pagas com o orçamento de uma única ópera?
12.3.07
A cena final da Valquíria, com encenação de Patrice Chéreau e direcção musical de Pierre Boulez, apresentada em Bayreuth. Suponho que é esta a famosa encenação 'escandalosa' dos anos 1970, aqui numa versão em vídeo recentemente editada em DVD.
11.3.07
Uma curiosidade: como conseguir bilhetes para o festival de Bayreuth?
Segundo este documento, o tempo de espera é neste momento de oito anos.
Para os mais ansiosos, há várias agências online que garantem bilhetes a preços para o festival deste ano, a preços entre os 2000 e os 5000 euros por espectáculo.
Segundo este documento, o tempo de espera é neste momento de oito anos.
Para os mais ansiosos, há várias agências online que garantem bilhetes a preços para o festival deste ano, a preços entre os 2000 e os 5000 euros por espectáculo.

A espantosa cena final desta produção de A Valquíria, com Brunnhilde adormecida rodeada do fogo mágico do deus Loge, cujo nome passa em volta num daqueles mostradores como há no metro. O outro achado espantoso é a cena de amor entre os gémeos incestuosos, em que de repente se multiplicam casais enamorados de pé nos camarotes. Lindo.
Fricka (Judit Németh), Hundig (Maxim Mikhailkov), Sieglinde (Anna-Katharina Behnke), o maestro Marko Letonja, Wotan (Mikhail Kilt), Siegmund (Ronald Samm), o encenador Graham Vick (?) e Brunnhilde (Susan Bullock).Aqui encontra-se uma excelente página sobre A Valquíria, com uma sinopse acompanhada de exemplos musicais dos diversos motivos e melodias. A mesma coisa aqui para O Ouro do Reno.
10.3.07
No final do episódio anterior, O Ouro do Reno, o deus Wotan, após ter semeado uma confusão descomunal (com variadas espécies de seres sempre angustiadas pela opção entre sexo e dinheiro, ou entre amor e ouro, conforme a terminologia) por causa do empréstimo que contraiu para construir o castelo dos seus sonhos, acaba por lembrar-se que possui poderes mágicos e lá desencanta uma pila gigante prateada com que se transporta e aos seus colegas deuses para o tal castelo que lhe custara muito mais do que parecia a princípio, na esperança (vã, como se veria no capítulo seguinte) de livrar-se dos credores e descansar algum tempo (um bocado de eternidade, pronto).
9.3.07
Ia a passar ali no Chiado e estavam a dar a ópera que tem aquela música do Apocalypse Now na cena dos helicópteros.
Lá fui ficando, apesar de não gostar do Wagner. Fartei-me até de chorar na cena em que o deus pai cruel despromove a pobre valquiriazita desobediente a reles mortal e ainda por cima a enfia num saco-cama, cedendo no entanto à súplica dela de a rodear de armadilhas quase intransponíveis, de modo a que ela, no seu sono pesadíssimo, não corresse o perigo de ser desprevenidamente desvirginada por um marmelo qualquer mas sim por um herói devidamente dotado (se bem que por mim cortava uns bocados nesta cena, demasiado longa, os lenços acabam-se, além de me pôr a pensar no que o tio Freud teria dito daquilo tudo). Gostei do deus de camisa aos quadrados, tipo militante comunista no tempo do PREC, com as filhas valquírias elegantíssimas nos seus vestidos pretos anos 80.Agora a sério, devo confessar que adorei, e só não aplaudi de pé porque tive vergonha de fazê-lo frente a um ecrã. A encenação e cenografia são de Graham Vick e Timothy O'Brien, a mesma dupla que, no ano passado, fez o Ouro do Reno no S. Carlos A cenografia é desta vez menos exuberante, quem sabe se por razões orçamentais, mas tem pelo menos um achado fantástico, que é a cena final com a valquíria adormecida.
A ideia de nos deixarem ver ópera à borla é genial, bem como os 60 minutos de intervalo, que dão tempo para jantar como deve ser e voltar, o que para mim é condição imprescindível para aguentar uma ópera destas inteira. De resto, suponho que, mesmo para viu a ópera lá dentro, vale também a pena ver do lado de fora -- perde-se no som, mas ganha-se nos pormenores visuais.
A transmissão em directo para o largo repete este sábado às 18h30. Hoje, às 20hoo, passam o vídeo de O Ouro do Reno. Entretanto, passam também o documentário da RTP sobre a produção desta ópera. O programa completo está aqui.
8.3.07
Incrível, esta versão para coro infantil duma das mais belas canções de todos os tempos, God Only Knows, de Brian Wilson/Beach Boys. Consegue-se ouvir aqui, por enquanto, com mais três, entre elas a Space Oddity do Bowie.
As vozes infantis são desconcertantes. Por exemplo, o Stabat Mater do Pergolesi com André Jacobs, contratenor, e Sebastian Hennig, então soprano infantil (hoje é barítono). É um clássico CD Harmonia Mundi, económico e relativamente fácil de encontrar.
As vozes infantis são desconcertantes. Por exemplo, o Stabat Mater do Pergolesi com André Jacobs, contratenor, e Sebastian Hennig, então soprano infantil (hoje é barítono). É um clássico CD Harmonia Mundi, económico e relativamente fácil de encontrar.
7.3.07
(foto daqui)São fascinantes estas vidas. Andando de linque em linque, vou bater ao site do Vicky, por causa da participação dele no novo grupo do José Peixoto, Sal, com o Fernando Júdice e a Ana Sofia Varela. Lembro-me da primeira vez que vi o Vicky tocar, no Hot Clube, há uns anos. Na altura pensava que conhecia todos os músicos de jazz português que valia a pena ouvir. Mas não fazia ideia quem era aquele baterista incrível, tão diferente do neoclassicismo dominante no Hot, lá perguntei e disseram-me que era um desses músicos profissionais que vão a todas para sobreviver - e há tantos excelentes músicos assim. Tipos dos bastidores. O calendário é elucidativo: desde sessões em casinos a músicos de que nunca ouvi falar, passando por outros que não sabia que estavam activos ou que não me lembrava (como os Tintim por Timtum).
4.3.07


O eclipse da Lua, ontem, em São Pedro do Estoril. Do culto da natureza sem irracionalismo fica só o espanto sempre renovado.




