26.4.07
25.4.07
14.4.07
Tinha-me passado despercebida a fantástica réplica do Retorta ao meu post ali em baixo.
A não perder, mais o link para uma reportagem-experiência do Washington Post: pôr um famosíssimo violinista disfarçado de músico de rua a tocar Bach num Stradivarius numa estação de metro em Washington DC. O resultado? Vejam.
A não perder, mais o link para uma reportagem-experiência do Washington Post: pôr um famosíssimo violinista disfarçado de músico de rua a tocar Bach num Stradivarius numa estação de metro em Washington DC. O resultado? Vejam.
Olha uma boa ideia.
CAMARAO & DK
CAMARAO & DK
concerto
voltamos aos concertos e dj sets em 2007 refazendo o que tocámos em 2005/2006
com novos sons, novas músicas...
Jardim Tropical de Belém
domingo 15 de Abril 17h
entrada livre
13.4.07
Há 20 anos, José Sócrates esteve inscrito no curso de direito da Universidade Lusófona, não tendo feito qualquer cadeira, revelou a TVI. E pelos vistos não informou o país desta coisa importantíssima do seu passado académico, ou melhor, do seu não-passado, dos cursos que nunca fez. Segundo o Público, o gabinete do primeiro-ministro já confirmou esta informação à TVI, que aguarda agora autorização para ter acesso ao processo de aluno de José Sócrates na Universidade Lusíada. Enlouqueceram todos, está visto.
12.4.07
Gostava que quem rejubila com o facto de, supostamente, Sócrates não ter conseguido esclarecer tudo na entrevista à RTP, me explicasse isto: perante a acusação de que ele teria sido favorecido no ano que passou na UnI, favorecimento supostamente pago a seguir com um cargo de director-geral para um dos professores (no entanto demitido depois pelo mesmo ministro que o nomeou), como é que ele pode provar o contrário?
Como é que ele pode provar que não estava ao corrente do que se passava nos serviços académicos, que não sabia o dia em que os professores foram lá lançar as notas, que não estava lá naquele domingo em que lhe passaram o certificado de habilitações?
E porquê a suspeita exclusiva sobre a UnI, passados 12 anos de ele lá ter passado? Se se parte do princípio que foi a preguiça, incompetência, estupidez, pressa, seja o que for, que o levou a matricular-se na UnI, na mesma lógica seria de questionar o que aconteceu nas outras escolas por onde ele passou, nomeadamente o ISEL, o ISEC ou lá o que é, e o ISCTE -- aliás uma escola de onde (embora ninguém ainda tivesse reparado nisso nesta fantástica blogosfera) já vários professores passaram pelos governos socialistas, assim como, sei lá, do IST, do ISEG, da FEUP... se forem investigar verão que há coincidências suspeitas. E do lado do PSD é parecido.
Nem percebo bem este tipo de raciocínio. Se bem que nos julgamentos da Inquisição as coisas eram bastante piores, porque o acusado nem sabia ao certo o teor da acusação. Mas tal como aqui só havia duas atitudes possíveis: ou confessar tudo e mais alguma coisa e manifestar arrependimento, o que normalmente resultava na absolvição, ou não admitir nada, o que resultava normalmente na fogueira e outras coisas quem sabe ainda piores.
Como é que ele pode provar que não estava ao corrente do que se passava nos serviços académicos, que não sabia o dia em que os professores foram lá lançar as notas, que não estava lá naquele domingo em que lhe passaram o certificado de habilitações?
E porquê a suspeita exclusiva sobre a UnI, passados 12 anos de ele lá ter passado? Se se parte do princípio que foi a preguiça, incompetência, estupidez, pressa, seja o que for, que o levou a matricular-se na UnI, na mesma lógica seria de questionar o que aconteceu nas outras escolas por onde ele passou, nomeadamente o ISEL, o ISEC ou lá o que é, e o ISCTE -- aliás uma escola de onde (embora ninguém ainda tivesse reparado nisso nesta fantástica blogosfera) já vários professores passaram pelos governos socialistas, assim como, sei lá, do IST, do ISEG, da FEUP... se forem investigar verão que há coincidências suspeitas. E do lado do PSD é parecido.
Nem percebo bem este tipo de raciocínio. Se bem que nos julgamentos da Inquisição as coisas eram bastante piores, porque o acusado nem sabia ao certo o teor da acusação. Mas tal como aqui só havia duas atitudes possíveis: ou confessar tudo e mais alguma coisa e manifestar arrependimento, o que normalmente resultava na absolvição, ou não admitir nada, o que resultava normalmente na fogueira e outras coisas quem sabe ainda piores.
11.4.07
Sobre Vasco Pulido Valente, um comentário a um post de Fernanda Câncio é ainda melhor que o post:
Ele há dois níveis possíveis de leitura da coisa, um histórico e outro filosófico. No primeiro explicita-se a nossa menoridade relativa e o facto de todos os nossos grandes feitos, se olhados mais ao perto, serem uma tremenda porcaria, darem ares de ópera-bufa, não valerem coisa nenhuma. No segundo percebe-se que isso não é um particularismo português mas uma doença da humanidade: mesmo os países que, ao contrário de Portugal, devem ser levados a sério (leia-se: a Inglaterra, a Inglaterra e a Inglaterra), se olhados mais ao perto, são também uma fraude e os seus grandes feitos uma encenação miserável: a batalha de Inglaterra foi um caos organizativo, Trafalgar foi uma sorte danada, a Invencível Armada foi o vento que a lixou e por aí fora. Chegamos portanto ao limiar da filosofia: a história está povoada de impostores e os grandes homens têm todos a estatura moral do Dustin Hoffman, pelo que nos devemos limitar a assistir, com o conforto possível, à passagem das horas, sem esperar nada de teorias vãs. A leitura histórica é a que alimenta o proletário da prosa, que tem de escrever três-crónicas-três por semana, sobre assuntos que interessem aos cafres que como ele gastam o seu tempo neste país mal frequentado, a leitura filosófica, do vencido da vida (desta e de todas as vidas possíveis) é a que ficará para a posteridade. O autor é um pouco como aquela Brasserie ali do Chiado: o entrecôte não é mau, mas não adianta pedir outros pratos que não há.
Ele há dois níveis possíveis de leitura da coisa, um histórico e outro filosófico. No primeiro explicita-se a nossa menoridade relativa e o facto de todos os nossos grandes feitos, se olhados mais ao perto, serem uma tremenda porcaria, darem ares de ópera-bufa, não valerem coisa nenhuma. No segundo percebe-se que isso não é um particularismo português mas uma doença da humanidade: mesmo os países que, ao contrário de Portugal, devem ser levados a sério (leia-se: a Inglaterra, a Inglaterra e a Inglaterra), se olhados mais ao perto, são também uma fraude e os seus grandes feitos uma encenação miserável: a batalha de Inglaterra foi um caos organizativo, Trafalgar foi uma sorte danada, a Invencível Armada foi o vento que a lixou e por aí fora. Chegamos portanto ao limiar da filosofia: a história está povoada de impostores e os grandes homens têm todos a estatura moral do Dustin Hoffman, pelo que nos devemos limitar a assistir, com o conforto possível, à passagem das horas, sem esperar nada de teorias vãs. A leitura histórica é a que alimenta o proletário da prosa, que tem de escrever três-crónicas-três por semana, sobre assuntos que interessem aos cafres que como ele gastam o seu tempo neste país mal frequentado, a leitura filosófica, do vencido da vida (desta e de todas as vidas possíveis) é a que ficará para a posteridade. O autor é um pouco como aquela Brasserie ali do Chiado: o entrecôte não é mau, mas não adianta pedir outros pratos que não há.
Que este governo tenha vindo a gerir muito bem aquilo que passa para a comunicação social é uma coisa, bastante notória até, mas não um defeito, pelo contrário. Que obstrua o acesso à informação é outra, e aí não me pronuncio por falta de dados. Agora, que venham dar a fantástica novidade de que os membros *deste* governo telefonam aos jornalistas, francamente. Que lata. Aliás, anseio pelo dia em que os jornalistas deixem de falar ao telefone com os políticos. Aí não teriam outro remédio senão falar mesmo de política a sério e todos ficávamos a ganhar.
Uma coisa curiosa: segundo o site do INDEG/ISCTE, o programa de MBA não inclui a realização de tese (ver aqui). Portanto não faz qualquer sentido a afirmação de que José Sócrates teria *apenas* concluído a parte escolar deste MBA, como se diz por aí. A não ser que o site esteja errado.
9.4.07
A guitarrista das Partyline enquanto afinava a guitarra aí pela décima vez, depois de ter atirado os sapatos para o público, durante o concerto de sábado na ZDB.
6.4.07
Jean-Sébastien Bach est-il un grand compositeur? é o título de um provocador pequeno ensaio do francês Claude Fernandez (versão inglesa 'Is Johann Sebastian Bach a Great Composer?'), em que ele tenta descortinar os motivos do insuperável prestígio de JS Bach, por comparação com o seu contemporâneo Antonio Vivaldi.
Eis a introdução:
Is the notoriety of the greats composers due to the real musical interest of their masterpieces for the people or to the result of a complex alchemy in which ideology mainly intervenes? The name of Bach seems particularly to illustrate the influence of extra-musicals factors in the recognition of genius, real or supposed. The comparison with his contemporary Vivaldi allow to show the importance of such factors.
E o último parágrafo:
Is Bach a great composer? The answer to this question depends on a judgment of value, which is subjective. It depends also on the authenticity of certain works, a fact about which we have no certitude. The whole facts established above (ideological pressure in emergence and support of Bach notoriety, very numerous borrowings, desattributilons of famous works, absence of innovation, use of ancient style incompatible with expression, low success in lifetime, success make in 19th and 20th century by partisan saturation medias coverage by Intellectuals…) represent, we think, an overwhelming acknowledgment permitting to contest the historic importance it was given at this composer and inciting to the bigger reservation on the interest of a great number of his works.
A argumentação de Fernandez é de teor histórico-sociológico, e insiste no ponto de que Bach é mais prestigiado (principalmente por influência dos musicólogos, nomeadamente alemães, a partir do século XIX, e dos media depois disso) do que realmente amado pelo público, por comparação com Vivaldi, que ficou esquecido na gaveta até meados do século XX e é popular mas relativamente desprezado pelos intelectuais. Parece-me um ponto de vista muito pertinente e interessante.
(Se bem que de há uns 10 ou 15 anos para cá o 'monopólio' de Bach tenha sido cada vez mais atenuado pela redescoberta e/ou revalorização dos seus contemporâneos, entre os quais o próprio Vivaldi.)
É também muito possível que a lenda romântica do autor 'maldito' e incompreendido sua época, por comparação com os então famosíssimos Vivaldi e Telemann, por exemplo, tenha contribuído para a aura de génio de Bach (na verdade há várias razões extra-musicais para esse relativo desconhecimento, e Bach esteve muito longe de ser o paradigma do génio romântico angustiado e tuberculoso -- viveu bastante confortavelmente, casou duas vezes, teve uma carrada de filhos e gostava muito de comer e beber).
Já o problema dos 'empréstimos' ou 'cópias' (de Vivaldi nomeadamente) parece-me irrelevante -- aliás, acho que ninguém se preocupava com direitos de autor naquele tempo; pelo contrário, se se copiava isso era considerado uma homenagem, como acontece hoje com o hip-hop; e nada impede que o 'plágio' seja tão bom ou melhor que o original.
Em relação às obras de autoria incerta, ou que se sabe hoje serem de outros autores e foram parar ao catálogo BWV por engano, Fernandez levanta uma questão interessante, embora nada original: será que uma obra deixaria de ser reconhecida como genial se se descobrisse que afinal não foi escrita por um genial artista, neste caso JS Bach? Aqui o caso talvez mais conhecido é o da belíssima Sonata em Trio BWV 1037, hoje atribuída a Johann Gottlieb Goldberg, o mesmo que, reza a lenda, teria sido o primeiro a tocar as Variações que ficaram conhecidas pelo seu nome -- o que, por sua vez, muita gente põe hoje em causa. Ironias do destino.
Bom, na sequência deste artigo, John Reese, um dos comentadores do bach-cantatas.org (que referi no post abaixo) escreveu outro longo e indignadíssimo artigo chamado In Defense of Bach, no qual tenta demontrar, usando uma argumentação musicológica e vários exemplos concretos, que JS Bach é sem dúvida um compositor superior a Vivaldi, rebatendo o ultraje que Fernandez teria feito ao divino Kantor ao compará-lo ao popularucho Vivaldi. O que me deixa ainda mais estupefacto.
Será possível demonstrar que um compositor é 'melhor' que outro? O sucesso é talvez mensurável -- por exemplo através do número de discos vendidos, de concertos, de livros escritos sobre, e mais recentemente, de toques de telemóvel, atendedores de chamadas e música ambiente (e aqui parece-me que neste momento Bach ganha claramente a Vivaldi, para desespero dos melómanos).
Agora, a 'qualidade' de uma obra de arte, quanto mim, não é de todo mensurável. Em qualquer arte, da música e da pintura até à culinária e à vinicultura. Por exemplo, Turner é melhor que Rothko? (sei que isto é batota, e neste momento estou quase a chorar a rir)
Se bem que olho para as minhas duas prateleiras da música barroca e lá está o JS Bach em clara maioria, seguido de muito longe por Vivaldi, Telemann, Handel e Zelenka. Os quais, já agora, se sabe terem sido os compositores seus contemporâneos que Bach mais admirou. Será que fui influenciado pelos media nesta escolha? Certamente, mas não em relação ao Vivaldi, cuja praga das estações me perseguiu durante anos até voltar a reconhecê-lo com uns dos favoritos.
Mas o que interessa, depois destas influência mediáticas nos terem levado a comprar os CDs (aqui não há mp3 que valha), é o que é que dá mais moca. E aqui fico mesmo assim indeciso, são mocas um bocado diferentes. Às vezes o Bach bate mais, outras vezes o Vivaldi dá mais moca. Outras vezes os Stereolab, e por aí fora.
Eis a introdução:
Is the notoriety of the greats composers due to the real musical interest of their masterpieces for the people or to the result of a complex alchemy in which ideology mainly intervenes? The name of Bach seems particularly to illustrate the influence of extra-musicals factors in the recognition of genius, real or supposed. The comparison with his contemporary Vivaldi allow to show the importance of such factors.
E o último parágrafo:
Is Bach a great composer? The answer to this question depends on a judgment of value, which is subjective. It depends also on the authenticity of certain works, a fact about which we have no certitude. The whole facts established above (ideological pressure in emergence and support of Bach notoriety, very numerous borrowings, desattributilons of famous works, absence of innovation, use of ancient style incompatible with expression, low success in lifetime, success make in 19th and 20th century by partisan saturation medias coverage by Intellectuals…) represent, we think, an overwhelming acknowledgment permitting to contest the historic importance it was given at this composer and inciting to the bigger reservation on the interest of a great number of his works.
A argumentação de Fernandez é de teor histórico-sociológico, e insiste no ponto de que Bach é mais prestigiado (principalmente por influência dos musicólogos, nomeadamente alemães, a partir do século XIX, e dos media depois disso) do que realmente amado pelo público, por comparação com Vivaldi, que ficou esquecido na gaveta até meados do século XX e é popular mas relativamente desprezado pelos intelectuais. Parece-me um ponto de vista muito pertinente e interessante.
(Se bem que de há uns 10 ou 15 anos para cá o 'monopólio' de Bach tenha sido cada vez mais atenuado pela redescoberta e/ou revalorização dos seus contemporâneos, entre os quais o próprio Vivaldi.)
É também muito possível que a lenda romântica do autor 'maldito' e incompreendido sua época, por comparação com os então famosíssimos Vivaldi e Telemann, por exemplo, tenha contribuído para a aura de génio de Bach (na verdade há várias razões extra-musicais para esse relativo desconhecimento, e Bach esteve muito longe de ser o paradigma do génio romântico angustiado e tuberculoso -- viveu bastante confortavelmente, casou duas vezes, teve uma carrada de filhos e gostava muito de comer e beber).
Já o problema dos 'empréstimos' ou 'cópias' (de Vivaldi nomeadamente) parece-me irrelevante -- aliás, acho que ninguém se preocupava com direitos de autor naquele tempo; pelo contrário, se se copiava isso era considerado uma homenagem, como acontece hoje com o hip-hop; e nada impede que o 'plágio' seja tão bom ou melhor que o original.
Em relação às obras de autoria incerta, ou que se sabe hoje serem de outros autores e foram parar ao catálogo BWV por engano, Fernandez levanta uma questão interessante, embora nada original: será que uma obra deixaria de ser reconhecida como genial se se descobrisse que afinal não foi escrita por um genial artista, neste caso JS Bach? Aqui o caso talvez mais conhecido é o da belíssima Sonata em Trio BWV 1037, hoje atribuída a Johann Gottlieb Goldberg, o mesmo que, reza a lenda, teria sido o primeiro a tocar as Variações que ficaram conhecidas pelo seu nome -- o que, por sua vez, muita gente põe hoje em causa. Ironias do destino.
Bom, na sequência deste artigo, John Reese, um dos comentadores do bach-cantatas.org (que referi no post abaixo) escreveu outro longo e indignadíssimo artigo chamado In Defense of Bach, no qual tenta demontrar, usando uma argumentação musicológica e vários exemplos concretos, que JS Bach é sem dúvida um compositor superior a Vivaldi, rebatendo o ultraje que Fernandez teria feito ao divino Kantor ao compará-lo ao popularucho Vivaldi. O que me deixa ainda mais estupefacto.
Será possível demonstrar que um compositor é 'melhor' que outro? O sucesso é talvez mensurável -- por exemplo através do número de discos vendidos, de concertos, de livros escritos sobre, e mais recentemente, de toques de telemóvel, atendedores de chamadas e música ambiente (e aqui parece-me que neste momento Bach ganha claramente a Vivaldi, para desespero dos melómanos).
Agora, a 'qualidade' de uma obra de arte, quanto mim, não é de todo mensurável. Em qualquer arte, da música e da pintura até à culinária e à vinicultura. Por exemplo, Turner é melhor que Rothko? (sei que isto é batota, e neste momento estou quase a chorar a rir)
Se bem que olho para as minhas duas prateleiras da música barroca e lá está o JS Bach em clara maioria, seguido de muito longe por Vivaldi, Telemann, Handel e Zelenka. Os quais, já agora, se sabe terem sido os compositores seus contemporâneos que Bach mais admirou. Será que fui influenciado pelos media nesta escolha? Certamente, mas não em relação ao Vivaldi, cuja praga das estações me perseguiu durante anos até voltar a reconhecê-lo com uns dos favoritos.
Mas o que interessa, depois destas influência mediáticas nos terem levado a comprar os CDs (aqui não há mp3 que valha), é o que é que dá mais moca. E aqui fico mesmo assim indeciso, são mocas um bocado diferentes. Às vezes o Bach bate mais, outras vezes o Vivaldi dá mais moca. Outras vezes os Stereolab, e por aí fora.
5.4.07

Por falar em fanáticos de Bach, descobri há dias este site. Sentia-me um bocado anormal por ter quatro versões das Goldberg (como podem ver em cima) e outras quatro dos Brandeburgueses, e por gostar de ter pelo menos mais duas de cada, para não falar do resto da obra instrumental que ainda me falta. Fiquei um pouco mais aliviado ao conhecer isto. Por exemplo, no que toca às Variações Goldberg há um senhor que se propôs fazer em 2001 a recensão de nada menos do que 42 versões, faixa a faixa. Ou seja, 42 recensões de 32 faixas; para cada uma delas, as 42 gravações são classificadas numa escala de 1 a 3. Ora isto dá... não percebo nada de matemática. Em todo o caso não passou da Variação 23, até agora.
No ano anterior o mesmo senhor tinha feito uma coisa parecida, com apenas 12 versões. Ganharam, mais ou menos empatadas, a do Glenn Gould de 1981 e a da Rosalyn Tureck de 1998, seguidas por outras duas versões mais antigas dos mesmos pianistas e pelas versões da Angela Hewitt e do Konstantin Lifschitz. Entretanto surgiu a nova gravação do András Schiff para a ECM (2001), que o mesmo crítico acha que está quase quase ao nível da Tureck e do Gould. E cada uma destas versões tem prós e contras, pontos fortes e pontos fracos. Como vêem, não é simples escolher uma e, depois de tê-la, resistir à atentação de ouvir como são as outras. Eu por exemplo tenho as duas do Gould, a primeira do Schiff, também conheço bem a da Nikolayeva, e tenho ainda a da Maggie Cole no cravo. Encontro-lhes pequenos defeitos em todas e adorava ter a nova do Schiff, a da Hewitt, a da Tureck e mais as do Keith Jarrett e do Pierre Hantaï no cravo.
Suponho que isto não acontece com mais nenhum compositor. O prazer de ouvi-lo é imenso e inesgotável. Só quem lá mergulha é que sabe.
Depois de o Tiago ter identificado o fragmento de música que ouvi há uns dois anos ao passar numa rua de Campo de Ourique, lá encontrei uma gravação a um preço simpático. O pianista é o Ivo Pogorelich, numa série económica da DG, e tem as Suites Inglesas nos. 2 e 3, gravação original de 1986 mais umas sonatas do Scarlatti gravadas seis anos depois. Não tendo termo de comparação, parece-me bastante bem. Aqui está a opinião duns bach-fanáticos. O vídeo acima é da Gavotte da Suite nº 3, pelo dito rapaz.
4.4.07
Há um mistério que me persegue há uns anos: porque é o meu centro de saúde funciona tão bem? Apesar de bastar telefonar para lá, por vezes não chego a marcar consulta, apareço e quase sempre arranjo. A minha médica é simpática, competente e tem imensa paciência, está com as pessoas na consulta o tempo que for preciso e não as despacha. O centro está aberto 12 horas por dia, sempre com consultas, e ainda tem uma série de outros serviços -- urgências, apoio materno-infantil, psicologia e enfermagem.
Hoje fiquei banzado. Estava a pensar aparecer 'de pára-quedas' na consulta mas não sabia bem o horário de hoje. Resolvi telefonar para lá.
- Boa tarde, Centro de Saúde.
- Boa tarde. Sabe-me dizer qual é o horário da consulta da dra. G hoje?
- Um momento. Das 14 às 18.
- E sabe se há vagas?
- Um momento, vou passar à minha colega que pode esclarecer isso.
- Centro de Saúde, boa tarde.
- Boa tarde. Sabe dizer-me se há vagas para a consulta da dra. G?
- Deixe-me ver... Já não há, mas também hoje era só infantil. Mas se quiser posso passar-lhe a dra.
- Está bem, pode ser.
- Estou sim.
- Estou, dra. G. Sou o Pedro, aquele assim e assado, não sei se se lembra de mim.
- Ah sim, estou a ver, como está.
- Queria ir aí à consulta...
- Mas já tentou marcar?
- Não...
- Pois, mas eu estou de saída, e de qualquer modo hoje era só infantil. Mas o que é que tem?
- Sinto isto e aquilo.
(faz-me uma série de perguntas e eu vou respondendo, ao mesmo tempo que a minha paranóia se vai dissolvendo porque percebo pelas perguntas que não é provável que morra disto depois de amanhã)
- Olhe, hoje não posso mesmo atendê-lo porque estou de saída e eu própria tenho uma consulta daqui a pouco. Mas posso marcar-lhe uma consulta. Tem alguma preferência de dia?
- Não.
- E prefere de manhã ou de tarde?
- Hum, pode ser de tarde.
- Pronto, quinta-feira às 16h. Já está marcado, é só aparecer.
- Ah, e também precisava duma receita dum medicamento que acabou, o xpto.
- Só precisa disso? É que senão depois tem que pagar outra consulta.
- Não, é só isso.
- Então vou passar-lhe a receita.
- E deixa-me aí? Até que horas isso está aberto?
(fala com uma auxiliar)
- Até que horas é que estão aqui?
- 20h30.
- Olhe, então passe-me uma senha de consulta para este senhor e está aqui esta receita que ele vem cá buscar.
(para mim)
- Pode vir cá buscar a receita até às 20h30, mas tem de pagar a consulta.
- Obrigadíssimo, dra., e bom fim de semana.
- De nada. Se isso piorar de repente vá ao S. José, é o melhor sítio, tem uma série de especialidades. Prazer em ouvi-lo.
Juro que isto é a transcrição fiel do que aconteceu. Não faço ideia de quantos centros de saúde funcionam tão bem. Sei que os media só falam do que corre mal, é a lógica deles ("bad news is good news"). Já perguntei isto várias vezes à minha médica, e ela acha que a maioria ou quase todos são assim. Este ano no Verão conheci um no Algarve que parecia funcionar igualmente bem. Se calhar é mais difícil saber quais são as coisas que funcionam bem, porque quando funcionam bem as pessoas passam a achar isso normal, não se manifestam e muitas vezes esquecem-se como era quando funcionavam mal ou nem sequer existiam. No fundo, o meu centro de saúde não tem nada de especial. As instalações não são extraordinárias, o normal nos bairros históricos de Lisboa. De resto, funciona, e é tudo.
Hoje fiquei banzado. Estava a pensar aparecer 'de pára-quedas' na consulta mas não sabia bem o horário de hoje. Resolvi telefonar para lá.
- Boa tarde, Centro de Saúde.
- Boa tarde. Sabe-me dizer qual é o horário da consulta da dra. G hoje?
- Um momento. Das 14 às 18.
- E sabe se há vagas?
- Um momento, vou passar à minha colega que pode esclarecer isso.
- Centro de Saúde, boa tarde.
- Boa tarde. Sabe dizer-me se há vagas para a consulta da dra. G?
- Deixe-me ver... Já não há, mas também hoje era só infantil. Mas se quiser posso passar-lhe a dra.
- Está bem, pode ser.
- Estou sim.
- Estou, dra. G. Sou o Pedro, aquele assim e assado, não sei se se lembra de mim.
- Ah sim, estou a ver, como está.
- Queria ir aí à consulta...
- Mas já tentou marcar?
- Não...
- Pois, mas eu estou de saída, e de qualquer modo hoje era só infantil. Mas o que é que tem?
- Sinto isto e aquilo.
(faz-me uma série de perguntas e eu vou respondendo, ao mesmo tempo que a minha paranóia se vai dissolvendo porque percebo pelas perguntas que não é provável que morra disto depois de amanhã)
- Olhe, hoje não posso mesmo atendê-lo porque estou de saída e eu própria tenho uma consulta daqui a pouco. Mas posso marcar-lhe uma consulta. Tem alguma preferência de dia?
- Não.
- E prefere de manhã ou de tarde?
- Hum, pode ser de tarde.
- Pronto, quinta-feira às 16h. Já está marcado, é só aparecer.
- Ah, e também precisava duma receita dum medicamento que acabou, o xpto.
- Só precisa disso? É que senão depois tem que pagar outra consulta.
- Não, é só isso.
- Então vou passar-lhe a receita.
- E deixa-me aí? Até que horas isso está aberto?
(fala com uma auxiliar)
- Até que horas é que estão aqui?
- 20h30.
- Olhe, então passe-me uma senha de consulta para este senhor e está aqui esta receita que ele vem cá buscar.
(para mim)
- Pode vir cá buscar a receita até às 20h30, mas tem de pagar a consulta.
- Obrigadíssimo, dra., e bom fim de semana.
- De nada. Se isso piorar de repente vá ao S. José, é o melhor sítio, tem uma série de especialidades. Prazer em ouvi-lo.
Juro que isto é a transcrição fiel do que aconteceu. Não faço ideia de quantos centros de saúde funcionam tão bem. Sei que os media só falam do que corre mal, é a lógica deles ("bad news is good news"). Já perguntei isto várias vezes à minha médica, e ela acha que a maioria ou quase todos são assim. Este ano no Verão conheci um no Algarve que parecia funcionar igualmente bem. Se calhar é mais difícil saber quais são as coisas que funcionam bem, porque quando funcionam bem as pessoas passam a achar isso normal, não se manifestam e muitas vezes esquecem-se como era quando funcionavam mal ou nem sequer existiam. No fundo, o meu centro de saúde não tem nada de especial. As instalações não são extraordinárias, o normal nos bairros históricos de Lisboa. De resto, funciona, e é tudo.
Dei por mim espantado comigo próprio ao descer o parque Eduardo VII pelo meio do relvado da alameda central. Conheço isto tão bem há décadas, desde que nasci, e nunca o tinha feito, que me lembre. Não gosto deste parque, a começar pelo nome ridículo dum rei inglês que ninguém se lembra quem foi. E se há um verdadeiro exemplo de arquitectura fascista em Portugal é esta coisa, uma avenida fantasmagórica eternamente adiada, disfuncional e inimiga das pessoas. Talvez por isso mesmo tem piada descer por onde não se deve, pelo menos ao cair do dia. Ou então de guarda-chuva a meio da tarde.
Escreve Pedro Magalhães:
[...] a primeira coisa que impressiona no que se disse e escreveu [sobre o concurso Grandes Portugueses] é a quase completa impermeabilidade do “senso comum” veiculado por muita da intelectualidade nacional aos mais elementares rudimentos da cultura científica. Vários artigos escritos sobre o tema ainda começavam com um breve intróito sobre a “falta de representatividade da amostra” que produziu os resultados do concurso. Mas logo de seguida, em imediata auto-negação, passavam ao diagnóstico daquilo que os resultados queriam “realmente” dizer, desde a preferência autóctone por líderes “fortes” e “autoritários” ao desconhecimento generalizado da História de Portugal, passando pela persistência do “mito” salazarista ou pelo “voto de protesto” contra o “estado das coisas”. Um pouco como começar por dizer que não se deve acreditar na astrologia para de seguida se abordar, com toda a seriedade, algumas das consequências relevantes do ascendente em Escorpião.
[...]
Uma cultura de análise política ideológica e anti-empírica, onde se supõe que a qualidade e erudição da escrita dispensam o aborrecimento de prestar uma vaga atenção à realidade. Onde a reticência daqueles que estão na academia em saírem uma vez por outra dos seus gabinetes permite que os discursos sobre a sociedade e a política sejam dominados pela especulação pura e simples.
Contudo, o mais interessante de tudo é a visão da sociedade portuguesa que transparece dos comentários feitos na última semana. É uma visão céptica e inquieta sobre a consolidação da democracia portuguesa, em particular sobre as “qualificações democráticas” dos cidadãos. De nada serve que quase vinte anos de investigação sobre as atitudes políticas dos portugueses revele que, pelo menos desde finais dos anos 80, não existe em Portugal qualquer clivagem cultural em torno do regime.
[...]
Não deixa de ser curioso que uma parcela substancial das nossas elites intelectuais esteja disposta a tomar como bom ponto de partida para a reflexão tudo aquilo que confirme a ideia de que os portugueses são desinformados, medrosos, intolerantes, incultos, infantis ou autoritários.
[...]
Semelhante paternalismo, mesmo que iliberal no que toca ao direito de exprimir opiniões (por imbecis ou abjectas que sejam), até pode ser bem intencionado. Mas já agora, se me permitem a pergunta: quando as elites intelectuais de um país acham que o povo desse país é, no fundo, um bocado estúpido, até que ponto podem elas próprias ser, digamos, sinceramente democráticas?
Também assinava por baixo (artigo completo aqui).
E diria mesmo mais: "a quase completa impermeabilidade do “senso comum” veiculado por muita da intelectualidade nacional aos mais elementares rudimentos da cultura científica" vê-se diariamente na comunicação social portuguesa. Assim como o insuportável paternalismo.
[...] a primeira coisa que impressiona no que se disse e escreveu [sobre o concurso Grandes Portugueses] é a quase completa impermeabilidade do “senso comum” veiculado por muita da intelectualidade nacional aos mais elementares rudimentos da cultura científica. Vários artigos escritos sobre o tema ainda começavam com um breve intróito sobre a “falta de representatividade da amostra” que produziu os resultados do concurso. Mas logo de seguida, em imediata auto-negação, passavam ao diagnóstico daquilo que os resultados queriam “realmente” dizer, desde a preferência autóctone por líderes “fortes” e “autoritários” ao desconhecimento generalizado da História de Portugal, passando pela persistência do “mito” salazarista ou pelo “voto de protesto” contra o “estado das coisas”. Um pouco como começar por dizer que não se deve acreditar na astrologia para de seguida se abordar, com toda a seriedade, algumas das consequências relevantes do ascendente em Escorpião.
[...]
Uma cultura de análise política ideológica e anti-empírica, onde se supõe que a qualidade e erudição da escrita dispensam o aborrecimento de prestar uma vaga atenção à realidade. Onde a reticência daqueles que estão na academia em saírem uma vez por outra dos seus gabinetes permite que os discursos sobre a sociedade e a política sejam dominados pela especulação pura e simples.
Contudo, o mais interessante de tudo é a visão da sociedade portuguesa que transparece dos comentários feitos na última semana. É uma visão céptica e inquieta sobre a consolidação da democracia portuguesa, em particular sobre as “qualificações democráticas” dos cidadãos. De nada serve que quase vinte anos de investigação sobre as atitudes políticas dos portugueses revele que, pelo menos desde finais dos anos 80, não existe em Portugal qualquer clivagem cultural em torno do regime.
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Não deixa de ser curioso que uma parcela substancial das nossas elites intelectuais esteja disposta a tomar como bom ponto de partida para a reflexão tudo aquilo que confirme a ideia de que os portugueses são desinformados, medrosos, intolerantes, incultos, infantis ou autoritários.
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Semelhante paternalismo, mesmo que iliberal no que toca ao direito de exprimir opiniões (por imbecis ou abjectas que sejam), até pode ser bem intencionado. Mas já agora, se me permitem a pergunta: quando as elites intelectuais de um país acham que o povo desse país é, no fundo, um bocado estúpido, até que ponto podem elas próprias ser, digamos, sinceramente democráticas?
Também assinava por baixo (artigo completo aqui).
E diria mesmo mais: "a quase completa impermeabilidade do “senso comum” veiculado por muita da intelectualidade nacional aos mais elementares rudimentos da cultura científica" vê-se diariamente na comunicação social portuguesa. Assim como o insuportável paternalismo.
3.4.07
Mais um comunicado da ACA-M sobre a incompatibilidade entre a evangelização e o gosto pelas altas velocidades motorizadas (quando praticadas em simultâneo), agora em inglês para os leitores estrangeiros e/ou anglófilos:
PRESS RELEASE
DO THE MEANS JUSTIFY THE ENDS?
TUNING AND EUCHARISTY IN SANTA COMBA DÃO, PORTUGAL
The case of the “Portuguese Speeding Priest” has caught the attention of the world press – informing that the priest of the village of Santa Comba Dão, in Portugal, is an adept of car tuning and that he uses his transformed car to attract his young parishioners to the Church.
Such practice raises serious doctrinal doubts about the legitimacy of having a priest promoting tuning and street racing among the youth. The Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados decided to appeal, once again, to Pope Benedict XVI, to the Conference of Portuguese Bishops, and to the Bishop of Viseu, asking for a clear statement of the Catholic Church hierarchy regarding the use of certain means to achieve evangelizing goals.
No site da ACA-M podem ver a reacção da imprensa estrangeira, desde o Brasil a Taiwan, via Reuters e CNN.
PRESS RELEASE
DO THE MEANS JUSTIFY THE ENDS?
TUNING AND EUCHARISTY IN SANTA COMBA DÃO, PORTUGAL
The case of the “Portuguese Speeding Priest” has caught the attention of the world press – informing that the priest of the village of Santa Comba Dão, in Portugal, is an adept of car tuning and that he uses his transformed car to attract his young parishioners to the Church.
Such practice raises serious doctrinal doubts about the legitimacy of having a priest promoting tuning and street racing among the youth. The Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados decided to appeal, once again, to Pope Benedict XVI, to the Conference of Portuguese Bishops, and to the Bishop of Viseu, asking for a clear statement of the Catholic Church hierarchy regarding the use of certain means to achieve evangelizing goals.
No site da ACA-M podem ver a reacção da imprensa estrangeira, desde o Brasil a Taiwan, via Reuters e CNN.
1.4.07
So What, a música mais conhecida do que dizem ser o disco de jazz mais vendido de todos os tempos, o Kind of Blue, quanto a mim também possivelmente um dos melhores discos de sempre. Às vezes a maioria tem razão. Neste registo, ao que parece gravado quase ao mesmo tempo que o LP, a banda é um pouco diferente: falta Julian Cannonball Aderley no sax alto, e está Wynton Kelly (que só toca numa faixa do disco, e não é esta) no piano em vez de Bill Evans; e há os quatro trombones (da orquestra de Gil Evans) a acompanharem o segundo solo do Miles.
O So What tem a particularidade de ser um tema tocado em duas partes, uma sequência rápida de notas no contrabaixo seguida de duas notas dos metais. Tenho uma teoria sobre isto: a parte do contrabaixo é uma coisa que alguém diz (tipo blablablablablablablablabla), e os metais respondem "so what?" ("e depois?").
Música ideal para as segundas-feiras de manhã.








