31.5.07





Estávamos no terraço do disco voador de betão que é o Museu de Arte Contemporânea de Niterói quando começaram a aparecer pequenos ovnis. Era um grupo de pessoas ali ao pé que se divertiam com estes pequenos planadores teleguiados, muito leves, feitos de esferovite ou coisa parecida. No filmezito não se vê, mas havia ao lado um vendedor de cerveja, deliciosa e fantasticamente gelada como sempre. Havia mais moleques de pé descalço como aquele, que iam buscar os planadorezinhos quando eles de despenhavam abaixo da estrada.


Também havia este outro senhor, que arranjou espaço para a geladeira onde não existia.



A zona do Catete e o centro do Rio são uma espécie de feira permanente, com pessoas a venderem tudo e mais alguma coisa, desde os clássicos sucos de laranja a quase lixo, como sapatos usados ou ratos de computador, passando por relógios (imensos), livros e discos, ervas medicinais, como aquele senhor que estava lá todos os dias. O outro senhor a seguir ia a apregoar 'caranguejo, oh caranguejo'. A foto de baixo é pena não ter cheiro, mas imaginem o que é passar por um camião carregado de abacaxi. Eu passei, voltei para trás, andei para a frente, para trás, depois segui, contrariado.





Ao chegar ao Rio, vindo de São Paulo (talvez a viagem de avião mais bonita da minha vida), começa a perceber-se porque é que o Rio não é uma cidade como as outras. Vai-se passando por sítios que só depois conseguimos identificar: a Barra da Tijuca ao fundo, com favelas em primeiro plano, uma montanha com umas pessoas lá em cima que vem a ser o Corcovado, a lagoa e Ipanema por trás, uma espectacular tangente a outra montanha que suspeitamos logo ser o Pão de Açúcar, a baía de Guanabara com Niterói lá ao fundo, e por fim o incrível aeroporto Santos Dumont, construído num aterro em pleno centro da cidade. A pista está apontada para o Pão de Açúcar ali mesmo, que os aviões contornam ao aterrar; à descolagem, se o vento soprar do sentido oposto, sobem rapidamente e dão uma curva para evitá-lo. São Paulo é uma admirável criação humana, uma cidade que não se percebe bem o que faz ali. O Rio não é bem uma cidade: é um sítio lindo onde plantaram prédios nos espaços que sobram entre montanhas escarpadas, impossíveis de urbanizar -- só algumas favelas se atrevem a subir por declives mesmo assim quase inverosímeis. Há pedaços de floresta tropical com animais selvagens em plena cidade. É impossível estragar esta beleza.
Mais um dia e começo a compreender tão bem a relutância de D. João VI e de D. Pedro I/IV em voltarem para Lisboa.

23.5.07




O centro de São Paulo, visto do 41.º andar (aproximadamente) do Edifício Itália. O prédio em cima à esquerda é o Copan, com desenho de Oscar Niemeyer. É uma zona que já foi próspera e que se tornou muito problemática, desvalorizada e deserta a partir do pôr do sol (que lá é muito cedo). Não muito longe daqui fica a "Cracolândia" (o nome diz tudo, e abrange a zona de Santa Ifigênia e da estação da Luz), que a prefeitura anunciou agora que vai expropriar e entregar a promotores privados para reconstruir.

São Paulo à descolagem do aeroporto de Congonhas (vê-se a pista na foto de baixo à esquerda), que serve para voos domésticos e fica quase no centro da cidade (a 8 km do centro mesmo).


Nestas fotos, como nas outras em baixo, vê-se um dos aspectos mais surpreendentes desta cidade: sim, é uma cidade de arranha-céus, mas é tipo 8 ou 80, com casas térreas ao lado de torres. Na verdade é mais complicado ainda: em muitas partes da cidade, as casas que têm fachadas para a rua são térreas ou com dois ou três pisos; as torres são quase sempre descontínuas e ficam atrás dessas casas baixas, que geralmente são estabelecimentos comerciais. Na maior parte dos casos não é fácil perceber como é que se acede aos prédios. Fiquei com a sensação de que as casas baixas, que têm um ar de princípios do século XX e parecem-se um pouco com casas algarvias, formavam quarteirões enormes, e que foi nos logradouros desses quarteirões que se construiram as torres. O resultado é que não se sente a opressão dos prédios, graças também à quantidade de árvores nas ruas. Isto nas partes mais recentes da cidade, que o centro é outra história

Mais de São Paulo (Vila Madalena, excepto a primeira que fica na zona de Higienôpolis):







Este caos pode ser muito agradável, em Vila Madalena por exemplo, onde há uma livraria fantástica aberta todos os dias até tarde, montes de bares, restaurantes, uma vida nocturna frenética, uma padaria (que é de facto, em português do Brasil, e conforme a hora, uma espécie de pastelaria-restaurante-cervejaria) aberta 24 horas por dia, montes de gente na rua e mais coisas agradáveis como uma feira ao sábado onde se vende toda a espécie de frutas, peixes, carnes, pastéis disto e daquilo, sumos, cerveja, cachaça, sempre ao som dos pregões dos vendedores. Tudo muito agradável e nada conflituoso, excepto os engarrafamentos constantes de dia e de noite nas ruas principais. Durante o dia é calmíssimo, com lojas de tudo e mais alguma coisa, uma simpatia. Mas descendo em direcção ao rio Pinheiros as coisas de repente deixam de ter piada e tornam-se um bocado assustadoras e apetece logo voltar para trás. Fiquei com a sensação de que a cidade é toda assim, alegria e tristeza alternadamente, ou se calhar riqueza e pobreza.

22.5.07





Roda de choro na feira da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, São Paulo, todos os sábados. No final na feira, mesmo ao lado, na rua Teodoro Sampaio, há uma série de lojas de instrumentos musicais onde donos e empregados tocam em palcos virados para a rua.

São Paulo, Higienôpolis

10.5.07



Não estava a brincar, repito. Adoro choro e vou ao Rio no próximo fim de semana. Alguém conhece um sítio fantástico para ouvir choro no Rio, de preferência numa zona não problemática?

Tenho pena de não estar em Lisboa para ver os LUME (Lisbon Underground Music Ensemble), sábado 12, às 19h no São Luiz. O primeiro concerto que vi deles, em Novembro na Trem Azul, foi uma muito agradável surpresa. É uma big band, com todas as referências ao universo big band e, hum, num registo contemporâneo com alusões à pop-rock, à música erudita e sei lá que mais. O melhor é ouvirem aqui algumas músicas deles, partindo do princípio que a banda é muito boa ao vivo. Eu estarei possivelmente a essa hora a ouvir choro no Rio (aceitam-se sujestões, já agora para a troca).

1.5.07





mais música concreta (#789789) cantada por uns bichos que ali estavam



série música concreta #2345

Peço perdão, a luz não estava grande coisa. Mas o som é lindo. E o QE2 é uma obra-prima. Tão bonito, bolas.



Um concerto como eu já não via há uns tempos na ZDB, para o bem e para o mal -- pouca gente, música muito boa. Mais coisas deles aqui.

Uns dias destes vão tocar com a Colleen, a autora da fabulosa música deste vídeo que pirateei há umas semanas.

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