14.6.07



Rosmaninhal, 27-5-07, 10h23

7.6.07



Respostas não científicas a algumas das principais perguntas que nos fazem quando vimos do Brasil, por ordem aproximada de ocorrência:

As cidades brasileiras são perigosíssimas?

Não. São normalíssimas. Se bem que o bom senso aconselhe a evitar zonas desertas à noite, tal como em qualquer cidade grande. Há zonas em São Paulo e no Rio com imensa animação nocturna, e menos melgas que em Lisboa.

Os brasileiros estão sempre aos pulos a dizer oba oba, e aos abraços e beijos uns aos outros e a nós?

Não. Oba só nos livros antigos do Tio Patinhas. Consomem imenso prozac quando têm dinheiro para isso. No entanto, são bastante cordiais e bem educados. Até as pessoas que tentam vender alguma coisa ou cravar. O serviço nos bares e restaurantes é fantástico de um modo geral, e nos outros casos apenas bom.

Há sempre um brasileiro em cada esquina a tocar samba ou outra coisa qualquer?

Não. É mais ou menos como na Europa. Mas para quem gosta dos clássicos brasileiros há um circuito de bares em São Paulo e no Rio com música ao vivo. Este site é um bom guia.

Bebe-se imensa caipirinha?

Não. A especialidade alcoólica do Brasil é a cerveja, mais leve que as europeias em geral, sempre servida gelada e envolta em recipientes isotérmicos. Depois desta experiência, qualquer cerveja, mesmo belga, revela-se uma decepção. O Brasil gasta grande parte dos seus recursos energéticos nesta brincadeira, mas que se lixe, é mesmo muito bom.

Comem feijoada o tempo todo?

A maior parte, talvez. De resto, enquanto o euro estiver a um câmbio favorável, os restaurantes são mais baratos que na Europa, incluindo Portugal, e muito melhores em todos os aspectos.

Há multibanco lá?

Por todo o lado. Paga-se com cartão até o pequeno-almoço, jornais e maços de tabaco.

O Brasil tem alguma coisa a ver com Portugal?

Não. É um país da América onde se fala a mesma língua que em Portugal, o que é muito confortável para nós portugueses, apesar de possíveis mal-entendidos, nada de especial. Dá muito menos trabalho a lidar com o exótico -- comparado com Inglaterra p. ex. aquilo é trigo limpo. Ninguém se lembra que Portugal existe, é assim uma vaga coisa que aprenderam na escola, na melhor das hipóteses, o que é óptimo. Na pior das hipóteses, 'nós' somos os culpados por tudo o que correu e corre mal no país -- deviam ter sido ingleses, holandeses, italianos ou mesmo espanhóis (mais ou menos por esta ordem) a exterminar os índios e escravizar negros, sempre era uma coisa mais fina. Até eu preferia, enfim toda a gente, só que aí não havia Brasil mas outra coisa qualquer e não falávamos a mesma língua, o que seria uma chatice (para nós, claro). Não tínhamos o privilégio de sermos os únicos não-brasileiros a perceber o João Gilberto, que de qualquer modo não existiria, etc (Calvino ajuda-me onde quer que estejas). Enfim, não há problema -- não temos 'português' escrito na testa e não identificam o sotaque, o que não admira, é mais provável ouvir ucraniano que esta coisa que nós falamos aqui. Ouvi por três vezes 'Cê é italiano?', o que nunca me tinha ocorrido.

É verdade que aquilo está cheio de gajas giras?

Tal como aqui.

O que me leva agora a ouvir o Tropicália 2 de Gil e Caetano e recordar duas canções geniais que aparecem neste disco -- Haiti, e As Coisas, com letra de Arnaldo Antunes:

As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz.


Um disco mítico de que só tinha ouvido falar e encontrei em saldo na Fnac da Paulista. Conhecia o Tropicália 2, uma comemoração dos 25 anos do primeiro que é uma obra-prima. O tal primeiro é simplesmente uma delícia. Gilberto Gil, Caetano e os Mutantes, mais as vozes de Nara Leão e Gal Costa, em 1968, todos muito novos em pleno delírio beatliano, com orquestrações lindas com montes de violinos e flautas, uma maravilha de ironia pop a romper com a melancolia da bossa nova (há por exemplo um artigo interessante sobre o disco e o contexto aqui). E pronto, agora tenho que ir descobrir onde é que há discos de Os Mutantes.

5.6.07




Dois postalitos do Rio, visto do morro da Urca cerca das 6 da tarde (o sol põe-se estupidamente cedo no Brasil, têm de mudar isso), 14 de Maio de 2007. Na foto de cima não consigo identificar nada (será talvez para os lados de Botafogo); a de baixo apanha o Flamengo, o Catete, o Centro, etc., e o aeroporto Santos Dumont à direita.

2.6.07




Pescadores na Lagoa, no limite entre Ipanema e o Leblon, dois dos bairros mais ricos do Rio, numa altura em que abriram o canal que liga a Lagoa ao mar. Foi a segunda vez que vi estas redes em acção -- a primeira foi há muitos anos no Guadiana, perto de Mourão, num sítio hoje submerso pela barragem. Não faço ideia o que se pesca aqui -- serão os caranguejos que vi à venda no Catete?

1.6.07



O bonde passando à frente do Bar do Mineiro em Santa Teresa, às 17h43, dia 17-5-07.


Este bonde é o último em funcionamento no Rio, e vai do centro até Santa Teresa. Existe há mais de 100 anos e aparenta não ter sido remodelado desde então. É lindo, totalmente aberto, e abana por todos os lados -- tem de se ir bem agarrado para não se cair para a rua. Tirar fotos lá dentro é quase impossível. Segundo a Wikipedia, o bonde começou por ser verde e mudou para amarelo por causa dos protestos dos moradores que diziam que se confundia com a vegetação.



Santa Teresa é um bairro bastante improvável, uma espécie de Sintra ali metida a meio do Rio, com casas que fazem também lembrar as 'casas de brasileiros' do Porto dos emigrantes da viragem do século XIX para o XX. Parece que está na moda agora de novo. Há uma série de restaurantes conhecidos, como o tal Bar do Mineiro onde se come bem e barato.

Tem este bar/centro cultural um bocado irritante de tão bonito.


E também várias favelas que partilham com as casas burguesas a mesma vista fantástica sobre a cidade.

Geralmente vêem-se um bocado ao longe, mas estão ali mesmo, subindo pela encosta até chegar à estrada.



Como é que se vive numa cidade tida como muito violenta? Isso era uma das minhas maiores curiosidades. Há sempre esta coisa estranha: por exemplo, uma pessoa está aqui na Barra da Tijuca a olhar o mar e a beber a tal cerveja estupidamente gelada, está tudo calmíssimo, há meia dúzia de pessoas na praia. A famosa Cidade de Deus fica ali perto. A seguir vê-se o telejornal, ou lê-se o jornal no dia seguinte, e diz lá que a guerra entre a PM e os traficantes do complexo de favelas do Alemão já vai no 15.º dia e que já há não sei quantas pessoas vítimas de balas perdidas; que os helicópteros de turismo vão alterar as rotas porque são alvejados ao sobrevoarem favelas; a PM vai gastar não sei quantos milhões num novo helicóptero blindado, já baptizado de Caveirão do Ar, de modo a conseguir aterrar nas favelas sem ficar feito num passador; toneladas de lixo acumuladas porque as entradas tão barricadas e os camiões da recolha não podem passar; não há distribuição de correio pela mesma razão; as escolas fechadas desde o início dos confrontos; as pessoas fartas daquilo tudo, nem em casa estão descansadas porque as balas de armamento pesado furam paredes de tijolo, estão a jantar ou ver tv e passa-lhes uma a raspar o nariz, na melhor das hipóteses. Mas na Barra da Tijuca ou em Ipanema não passa nada, o mar continua lindo e a Brahma estupidamente gelada.

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