12.8.07



Isto agora fez-me lembrar uma coisa: tenho que mandar este CD ao seu Alfredo do Bip-Bip. E se alguém for ao Rio não perca este bar fabuloso em Copacabana (Rua Almirante Gonçalves, 50, perpendicular à Avenida Atlântica lá quase no final). É tão bom quanto minúsculo (a foto apanha metade do bar). Tem samba, bossa nova e choro aos domingos, segundas e terças, por volta das 8h da noite até às 10-11h30, com músicos que aparecem por lá, profissionais e amadores. Não tem serviço, é self-service de latinha nos frigoríficos do fundo, no final paga-se a conta ao Alfredo que está sempre sentado lá fora com a esposa e uma garrafa de vinho tinto (é o senhor ao centro da foto, ao fundo). Genial. Um abraço deste lado do mar.

Um belo disco dedicado à música de Pixinginha, o compositor, saxofonista e flautista que aos 70 anos, internado no hospital, todos os dias despia o pijama e ia visitar a mulher noutro andar do hospital, de fato e ramo de flores na mão, para que ela não tivesse o desgosto de saber que ele também estava doente. O CD foi criado em quartos de hotel no Brasil por dois excelentes músicos nos intervalos de digressões dos Madredeus. Numa das faixas a genial Manuela Azevedo canta o genial Carinhoso -- com sotaque do Norte de Portugal. Para ouvir várias vezes seguidas.




Dos três concertos que vi até agora nas Lux Jazz Sessions, o melhor foi o dos LUME -- Lisbon Underground Music Ensemble (os outros foram os de André Fernandes com Mário Laginha e Maria João com a nova banda dela), de que podem ver e ouvir um bocadinho aqui em cima. É surpreendente -- uma big band que toca música do jovem compositor, maestro, orquestrador e pianista Marco Barroso, bebendo da gloriosa tradição das big bands clássicas mas também do free, da música erudita contemporânea e do funk.



As composições e orquestrações são muito boas, minuciosamente elaboradas mas com bastante espaço para improvisação, a banda desliza sobre rolamentos, o clima é eufórico. Os músicos são fantásticos, quase todos jovens -- apenas quatro veteranos que reconheço: Jorge Reis, José Menezes, Yuri Daniel e João Moreira. A melhor coisa que apareceu em Portugal nos últimos 10 anos, pelo menos. Não percam a próxima oportunidade de ouvi-los (há músicas deles aqui).

As Lux Jazz Sessions vêm na sequência das Lisbon Jazz Sessions no Bicaense, agora num espaço muito maior e mais confortável, todas as quartas às 23h (começa a horas), entrada livre. Das coisas mais simpáticas que têm acontecido em Lisboa, com o melhor do jazz português, que é o melhor da música portuguesa.

11.8.07





A reposição na RTP2, na semana que agora acaba, de O Mundo de Cá, de Camilo de Azevedo e Paulo Varela Gomes, parece ter passado despercebida. É uma pena porque se trata de uma das melhores séries de televisão portuguesas de sempre. A re-visão agora, passados 12 anos da estreia, emocionou-me como da primeira vez. O Mundo de Cá fala do que os portugueses viram na Índia e no Ceilão no século XVI, e sobretudo dum aspecto silenciado: o espanto e o fascínio ocidentais por civilizações monumentais que igualavam ou ultrapassavam mesmo a antiga Roma. As imagens são lindas, o texto cativante. Por favor editem isto em DVD.

6.8.07



Todas as rochas que afloram à superfície estão expostas a agentes da dinâmica externa, acabando por experimentar meteorização. Formam-se materiais, de origem e dimensões variadas, que através de diferentes agentes são removidos e são transportados até locais onde se depositam. A acumulação dos sedimentos ou de materiais dissolvidos na água, que precipitam, formam camadas sucessivas, o que leva ao seu afundimento na crosta, originando-se por processos de diagénese rochas sedimentares coesas.
Quando o afundimento ultrapassa determinadas profundidades, o aumento da pressão e da temperatura leva a que rochas sedimentares experimentem processos de metaformismo, originando rochas metamórficas.


Toda a gente percebeu? Suponho que não. Mas suponho que todos percebem que fala aqui de geologia, e que imaginem que é um extracto dum manual escolar. Agora, para que nível de ensino? Eu diria que se trata dum manual introdutório para o primeiro ano dum curso universitário, ou para o ensino secundário. Nada disso: é um manual de Ciências Naturais para o 7.º ano de escolaridade (Planeta Vivo, Porto Editora, 2006, p. 171), destinado portanto, em princípio, a crianças à volta dos 13 anos.

Antes da parte dedicada à Geologia, o manual contém outra parte dedicada à origem da vida.

Como oferta ao aluno, há uma magnífica carta geológica de Portugal continental onde se pode identificar as bacias sedimentares mesocenozóicas, o soco proterozóico e paleozóico, e o magmatismo paleozóico, e ainda um outro mapa onde estão expostas as unidades geotéctonicas fundamentais.

Eu adorava saber este livro de cor e salteado. Aliás, adorava lembrar-me de tudo o que aprendi nos primeiros 12 anos de escolaridade.

4.8.07





Antigamente o estado não gastava dinheiro com os cidadãos, só cobrava. Por exemplo, quem quisesse ter água ali à mão, que pagasse.


Este post do Ivan fez-me lembrar esta situação. Estava sentado numa esplanada da Barra a olhar para a praia e a beber umas deliciosas latinhas.

Do outro lado, na marginal, via isto. À primeira vista, não é óbvio o que aquelas pessoas fazem ali. Estão numa paragem de autocarros, que não tem qualquer indicação, tal como em São Paulo. Os autocarros são de várias companhias privadas, tal como em São Paulo, e umas vezes páram outras não -- por exemplo, se está um autocarro na faixa de cá, o mais certo é o da faixa de lá seguir sempre, outras não páram sabe-se lá porquê, mas pôr-se a esbracejar à frente do autocarro por vezes dá resultado. A seguir apareceu um bando de crianças vindas da escola, com os seus uniformes. Os estudantes não pagam, e então muitos autocarros simplesmente não páram. Passaram uns poucos até elas finalmente conseguirem embarcar. Passado um bocado fui eu próprio para a paragem. Só lá estava uma mulher. Passavam autocarros da linha que eu queria apanhar, sem pararem. A mulher meteu conversa, disse que aquilo era normal, e chamou a atenção para os 'piratinhas' (autocarros que passavam sem licença para operar ali) e para as 'vans' (táxis piratas que colmatam as falhas dos transportes 'oficiais'). Às tantas parou um autocarro da linha que a mulher queria apanhar, mas ela não entrou. Porquê? "Não tem lugar sentado. Tenho de ir até à Central pegar o trem, passo o dia todo de pé a trabalhar aqui, prefiro esperar mas ir sentada". Da Barra à Central deve demorar uma hora e meia àquela hora, mais sabe-se lá quanto tempo de trem.

Como discutiram alguns comentadores do artigo do Timothy Garton Ash no Guardian que o Ivan cita, a desigualdade social, a violência ou o tempo perdido nos transportes não são exclusivos do Brasil, é uma questão de escala.

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