25.10.07
23.10.07
Este paquete (o Costa Magica) esteve atracado em Alcântara,
que se vê ali ao fundo onde estão aqueles pórticos que ao crepúsculo, reparei agora, parecem ter luz própria. Lembrei-me dos debates (enfim, mais protestos que outra coisa) sobre o terminal de cruzeiros de Alcântara. Simplificando muito e passando por cima de outras questões, para mim a questão nem é tanto a localização do terminal. A questão é: deixem-me ver o rio, deixem-me ver os guindastes, deixem-me ver os navios. Adoro o rio e as máquinas que lá andam.
Já não digo entrar lá dentro ou mesmo tocar-lhes, mas vê-los de perto. Os contentores, tudo bem, e até são mais bonitos ao longe. Agora navios de passageiros? Não percebo qual é o problema, não percebo a lógica de vedar tudo só porque o público não é preciso para nada.
Por exemplo, este encontro com o Queen Elizabeth 2 no Funchal, faz agora dois anos, foi uma experiência emocionante com um dos mais belos objectos do mundo. As medidas de segurança que havia limitavam-se a afastar as pessoas dos cabos. E bem: não há cargas transportadas em guindastes, não há mercadorias a circular, é impossível dar pontapés ao barco ou danificá-lo, nem sequer tocá-lo (infelizmente, quem me dera encostar-me àquele aço negro). Mas pode-se ficar ali extasiado. Os outros navios não são como este, mas são todos bonitos, e a água é como o céu. Não temos de pagar tudo.
20.10.07
Por falar em Art Tatum, suponho que pouca gente, fora do círculo dos aficionados do jazz, conhece a música deste pianista quase cego (1909-1956), admirado pelos colegas músicos mas durante décadas algo menosprezado por muitos críticos pela sua abordagem do piano jazz -- um estilo virtuosístico, ultra-ornamentado e pirotécnico. Dizia-se também que ninguém conseguia tocar com ele, e vice-versa, -- o que não é bem verdade, já que ele deixou gravações magníficas com outros músicos do 'período clássico' do jazz, caso dum disco com o trompetista Roy Eldridge que é um dos meus preferidos de sempre. Se ouvirem a música aqui em cima perceberão por que faz sentido esta ligação Argerich-Tatum: o mesmo virtuosismo, gosto pela velocidade e a aparente naturalidade com que dominan totalmente o instrumento. Mas Tatum foi muito mais do que isto. Aqui está uma boa página sobre aquele que é considerado por muitos o rei dos pianistas de jazz.
Num comentário ao post sobre a Martha Argerich, o Tiago refere que ela, antes dos concertos, tocava três vezes seguidas a toccata de Schumman "para perder a energia em excesso". Ei-la aqui em cima tocada pelo jovem Martin Stadfeld.
Segundo um artigo do Le Monde de la Musique (aqui, em versão inglesa), ela toca sempre essa toccata "para domar a fera" antes de começar a praticar, sempre durante a noite.
No mesmo artigo, o pianista brasileiro Nélson Freire, um dos melhores amigos da Argerich, conta como ela lhe expandiu os horizontes musicais dando-lhe a ouvir, entre outras coisas, Ella Fitzgerald, Errol Garner e Art Tatum (este tem mesmo piada, por ser o maior virtuoso da história do piano jazz).
17.10.07
16.10.07
A Lígia Pereira, antiquíssima amiga, tem uma exposição de desenhos no belíssimo espaço da junta de freguesia de Santa Catarina, ao fundo da Calçada do Combro, no largo Dr. António Macedo, 7D. São desenhos, fragmentos da vida no jardim de Santa Catarina, miraculosamente despido de friques, substituídos por estas pessoas algo melancólicas. Gosto especialmente dos sapatos, e também das chaminés a deitar fumo na outra banda, os tempos da indústria na memória dos que os viveram. Tem um horário civilizado, de terça a domingo, 13-22h.
Parece que o prazo de duração médio dos blogues é de dois anos. Quase todos os blogues de que eu gostava desapareceram ao fim desse tempo, ou menos ainda. A este ia acontecendo o mesmo. O terceiro ano já foi penoso, e ao quarto entrou na rarefacção que se vê. Não sei bem porque é que isto acontece. Parece-me que em parte é cansaço do brinquedo novo, em parte por tornar-se cada vez mais difícil ter coisas novas para dizer, como se pudéssemos contar tudo em dois anos, depois, sei lá, uma espécie de tédio blogosférico que sucede à euforia inicial -- e que é contaminado pelas desistências dos blogs de quem entretanto nos tornámos cúmplices e/ou amigos. E talvez por circunstâncias pessoais e estados de espírito irregulares (é o meu caso). Cada vez mais blogs amigos sugerem o Google Reader, que é uma maneira simples e simpática de só lermos os blogs (e não só) que queremos e só à medida que vão sendo actualizados. De modo que sugiro o mesmo a quem está desapontado com a irregularidade deste blog. É muito simples, a única condição é ter uma conta no Gmail, o que dá sempre jeito.
Já tinha falado aqui do Literaturismo, um blog exclusivamente dedicado às palavras escritas nas paredes, em Lisboa e noutras cidades portuguesas e não só. Gosto bastante, até gostava de ter um blog igual, apesar de cada vez mais odiar grafitis. Ficam muito melhor nas fotos. O Literaturismo tem ainda ligações para outros blogs interessantes sobre Lisboa, como este.
15.10.07
O dodecafonismo explicado ao piano num pequeno vídeo do New York Times, aqui. Uma viagem de sete minutos de Bach a Schumann, Wagner e Schönberg. Gostei muito da passagem em que o crítico/músico cita uma entrevista de Schönberg:
-- Mr. Schönberg, could you explain your system of twelve-tone music?
-- That's none of your business!
-- Mr. Schönberg, could you explain your system of twelve-tone music?
-- That's none of your business!

Uma surpresa inédita na esplanada de Santa Catarina, cujo maior defeito é a banda sonora: às 9 da noite chegam quatro tipos, com um trompete, um sax, um contrabaixo e uma mini-bateria, tocam durante uns quinze minutos e vão-se embora.
11.10.07
Diz-se de Domenico Scarlatti que a sua música reflecte a influência dos instrumentos e da música ibérica (o que não admira, passou grande parte da vida em Madrid e em Lisboa). Não devo ter sido o primeiro a pensar que esta sonata K141 parece escrita para guitarra, e as dúvidas foram logo dissipadas por esta versão dos irmãos Sérgio e Eduardo Abreu.
Curioso é que a versão da mesma sonata que aqui tenho dum cravista especialista em Scarlatti, Pierre Hantaï, soa uma trapalhada, incapaz de restituir a complexidade duma peça escrita para o seu instrumento. Pena não ter um vídeo para pôr aqui.
E agora reparo que o edifício que se vê atrás do elevador aqui em baixo foi desenhado, para sua própria residência, por outro estrangeiro (alemão) contemporâneo de Domingos Escarlate, que também veio para a corte de D. João V e ficou conhecido em Portugal como João Frederico Ludovice, autor entre coisas do palácio-convento de Mafra.
O elevador da Glória, quase um mês após a libertação da jaula e ainda não vandalizado com esse lixo visual a que chamam não sei quê e que é regularmente elogiado na imprensa.
8.10.07

Martha Argerich em 1972 em França, muito nouvelle vague, fumando cigarros uns atrás dos outros. Que espanto. Tão bonita, tão segura de si, tão luminosa e simpática, uma vraie étoile pop du piano.
E aqui já mais crescida (1983?), sempre linda e a tocar maravilhosamente. Esta sonata em ré menor K141 é a única do 'nosso' Scarlatti que Argerich gravou, o que é pena. Aqui percebe-se perfeitamente porque é que ela dizia numa entrevista que sofria de problemas de excesso de velocidade e que tinha de refrear-se para não tocar demasiado rápido. Talvez este seja um caso desses, mas a música do Domingos Escarlate (como era conhecido na corte portuguesa) presta-se a isso. De qualquer modo isto parece claramente no limite possível da velocidade, tanto para um ser humano como para um piano.
4.10.07











