26.2.08
Um russo, de que, aparentemente, só se sabe o nome, descobriu uma maneira de manipular o firmware de alguns modelos de câmaras digitais Canon, fazendo com que modelos de gama baixa se comportem como topos de gama (apenas no que implica a programação, claro). Depois foi-se juntando uma comunidade de outros hackers, que se encontram num wiki (aqui) onde vão divulgando novas versões de firmware que fazem mais habilidades e/ou funcionam noutros modelos de máquinas.
(Para quem não faz ideia, o firmware é um software que vem pré-instalado nas câmaras digitais e telemóveis, e suponho que o conceito se deve aplicar a quase toda a espécie de máquinas que têm um processador lá dentro, desde televisões a carros, passando por máquinas de lavar e milhões de outros objectos do nosso quotidiano.)
O firmware, é claro, está feito para não ser acessível e modificável pelos utilizadores. Um caso corriqueiro de manipulação de firmware é o desbloqueamento de telemóveis, em que o artista sabe como apagar do telefone as instruções que fazem com que ele só funcione numa determinada rede, ou mesmo pô-lo a fazer chamadas de borla.
O "truque" aqui em questão chama-se CHDK (iniciais que ninguém sabe o que significam) e consiste num programa minúsculo, ao que parece escrito em BASIC (!). Está disponível no wiki CHDK, e uma vez descarregado, instala-se no cartão de memória da câmara. A partir daí o modelo mais baratinho passa a oferecer possibilidades que só aparecem nas reflex digitais.
(parte que vai dar azo a especulações sobre este blog ter arrajado um financiamento japonês)
Segundo a explicação bastante básica que li aqui e me parece plausível, isto acontece porque todas as máquinas da Canon, desde a de 100 euros à de 5000, usam o mesmo processador, por uma questão de economia de escala (provavelmente o mesmo acontece com os outros fabricantes), e muitas vezes o mesmo sensor. Conforme o segmento (o preço) da máquina, o fabricante bloqueia ou liberta certas funções.
E porque é que o CHDK apareceu para as Canon? Provavelmente por causa da política comercial deste fabricante, de fabricar máquinas em plástico de má qualidade que são versões baratas de modelos mais caros que se diferenciam especialmente pelo plástico de melhor qualidade, ou até pelo metal nos topos de gama. Mais concretamente, as Canon baratas distinguem-se por ter muito mais comandos manuais do que é normal. O que permite uma fidelização dos clientes -- podem começar por comprar a mais baratinha e depois comprar modelos sucessivamente mais caros sem lhes estranhar a sofisticação. A par do preço baixo, a má qualidade do material faz com que se estraguem facilmente, predispondo assim o consumidor a sentir-se tentado a comprar um modelo mais resistente -- o que só é possível porque a qualidade da imagem é boa, mesmo nos modelos baratos. Por outro lado, isto significa que, se o fabricante quisesse, podia vender máquinas de gama baixa ao mesmo preço mas com os mesmos comandos das de gama alta, mas isso faria provavelmente com que fizesse menos sentido para o consumidor comprar as de gama alta.
O que a Canon faz é tomar partido duma característica algo paradoxal das tecnologias electrónicas: são muito sofisticadas mas saem muito baratas quando produzidas em grande quantidade, enquanto coisas aparentemente banais como as embalagens não descem de preço. Um fenómeno bem visível, por exemplo mas não só, nos computadores, em que uma máquina pode ser cinco vezes mais cara que outra com as mesmas características só por ser de feita de plástico de maior qualidade, para não falar dos metais.
As outras grandes marcas apostam sobretudo, ou numa especialização num segmento de mercado --- só fazem máquinas ultracompactas, por exemplo -- ou numa maior segmentação dos produtos, com duas linhas totalmente distintas, uma para amadores-amadores e outra para amadores sérios.
(parte agora mesmo só para fanáticos ou pros)
As características mais importantes do CHDK são a possibilidade de tirar fotos em formato RAW, de ter um histograma e indicação de zonas da foto sub- ou sobre-expostas no modo de disparo, e de tirar sequências em 'bracketing'. A primeira é útil sobretudo para profissionais e implica conhecimentos mais ou menos aprofundados de pós-processamento digital; as outras duas interessam a qualquer pessoa interessada em tirar fotos correctamente expostas, pois permitem corrigir facilmente a exposição, no segundo caso, ou tirar sequências de fotos em que a exposição varia automaticamente para baixo e para cima, e depois escolher a que saiu melhor, no terceiro caso. O CHDK dá ainda a acesso, de um modo completamente personalizado, a muitas outras funções como a indicação de profundidade de campo e luminosidade, exposições até 60 segundos, e ainda uma série de disparates como mudar a cor das letrinhas, jogos, calendários, relógios e o diabo a quatro. Penso que não dá para pôr lá telemóveis e leitores de MP3, mas quem souber programar em BASIC pode entreter-se, por exemplo, a inventar mais jogos, despertadores, horóscopos, e quem sabe mesmo processadores de texto e folhas de cálculo.

O visor duma Canon de 100 euros assim 'pirateada' pode ficar, por exemplo, com o aspecto que se vê na imagem, neste caso com histograma dos três canais RGB, indicadores de profundidade de campo e de carga da bateria (em cima), modo RAW, relógio e mais umas coisas que não sei bem o que são mas só se encontram em câmaras a partir dos 700 euros. Uma espécie de tuning.
É claro que nada disto influi na qualidade da máquina em si, dado que não muda o hardware (a objectiva, o sensor e o processador, essencialmente) mas apenas o controle que se tem sobre ele.
O CHDK é, aparentemente e pelo que se diz até agora, inócuo, uma vez que o programa fica sempre residente no cartão de memória, de onde arranca de cada vez que se liga a máquina. Se se puser um cartão vazio, ou se se formatar o que lá está, ela regressa à anterior personalidade.
Qual é a reacção da Canon a isto? Não se sabe. As primeira versões do CHDK só funcionavam em modelos antigos, depois noutros mais modernos, até que apareceu uma nova versão do firmware aparentemente impirateável. Isso fez aumentar a procura dos modelos antigos, mas há coisa de um mês o novo firmware foi desvendado. Irão contratar o tal russo e vender o firmware à parte?
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